Lorine Niedecker (1903 - 1970).



A simpática senhora aí na foto é Lorine Niedecker. Mas eu gostaria que você não olhasse só pra ela. O fundo. As águas. Na foto, brancas, como se nem existissem. Ledo engano. O simples recorte da foto nos mostra: são vastas. Jamais se esqueça disso.

§

Lorine Niedecker nasceu numa ilha, Blackhawk Island, e de lá praticamente não saiu. Era filha de Theresa Kunz, também chamada de Daisy, e Henry Niedecker. O casamento entre ambos não andava muito bem das pernas, e a coisa só foi piorando à medida que a mãe da poeta foi ficando surda e entrevada. O pai passou a manter um relacionamento com uma vizinha e, em certo estágio da vida familiar, pai e mãe passaram a morar em casas separadas, o que impactou muito a vida da filha.

Graduada em 1922, Lorine Niedecker era um nome ativo nos debates universitários no Beloit College, mas em 1924 ela teve de voltar para Blackhawk pois a mãe havia piorado e a grana estava curta. Lá ela se casou com Frank Hartwig, num casamento que, com a vinda da crise de 29, foi abalado. Os dois se separaram em 1930, mas o divórcio só saiu em 1942.

Em 1931 a poeta travou contato com o número de fevereiro da revista Poetry (você pode lê-lo aqui), editado, na ocasião, pelo poeta Louis Zukofsky, um dos expoentes do chamado objetivismo. O objetivismo, que havia nascido formalmente naquele número mesmo da Poetry, é praticamente a mesma coisa que o imagismo poundiano, isto é, uma atenção ao objeto e nem tanto à emoção, valendo-se, para tal, de versos musicais (o que diferenciaria o objetivismo do imagismo seria um embasamento filosófico maior por parte daquele). Lorine travou uma correspondência farta com Zukofsky, tanto que os dois se relacionaram por determinado tempo e, dizem, Lorine chegou até a engravidar de Zukofsky, mas Zukofsky a convenceu a abortar.

Aos 43 a poeta lança seu primeiro livro, New Goose. Embora publicada por pequenas revistas até com uma certa constância, durante toda a vida ela foi meio que ignorada pela crítica. Só no final é que ela seria reconhecida por alguns poetas mais jovens. Após a década de 40, ela possuiria muitos empregos, incluindo o de faxineira da unidade de alimentação do Atkinson Hospital. Isso muda quando, em 1963, ela se casa com Al Millen, um pintor industrial. Publicaria mais três outros livros em vida, deixando, póstumos, outros dois.

Os dois paralelos centrais e especialmente frutíferos que podemos traçar ao ler a obra de Lorine Niedecker foram apontados, já, por Ricardo Domeneck em sua postagem dedicada à autora na Modo de Usar (aqui): Emily Dickinson e Orides Fontela. A concisão da poesia de Lorine é sem dúvidas admirável, aliada à maneira com que ela aborda a natureza e a traz com uma exuberância certo modo triste e terrível para seus poemas. Tudo isso veiculado numa poesia que possui uma voltagem lírica do mais alto grau.

É como se os seres humanos dos poemas de Lorine Niedecker não fossem simplesmente afetados de maneira visceral por seu contato com o ambiente natural; a simples descrição desse ambiente natural parece ser humanizada ou, no mínimo, feita de tal modo que observando aquele ambiente nós somos capazes de também entender as pessoas que criam suas vidas por ali. É como se o ser humano fosse moldado pela própria natureza e, de algum modo, nesse processo de moldagem, ser humano e meio trocassem fluidos e matérias até o ponto em que se tornassem de algum modo indissociáveis no plano do poema, nem tanto porque nós só podemos falar de um falando do outro, mas também no sentido de que falar de um é, numa perspectiva propriamente composicional, falar do outro.

Veja-se a primeira estrofe do longo Paean to Place (Peã para o Lugar), uma de suas obras-primas:

      Carpa
            carne
                   cheia
            Água lírio lama
       Minha vida

[ Fish / fowl / flood / Water lily mud / My life ]

O recorte sonoro é preciso. A aliteração inicial não é desconhecida para o leitor de língua inglesa. Está inclusa no quinto verso da primeira estrofe de Sailing to Byzantium, de Yeats. É quando Yeats traz uma espécie de comunhão universal de todas as coisas cantando Whatever is begotten, born and dies. No caso do poema de Lorine, a coisa é um pouco diferente; Rachel Blau DuPlessis argumenta que é como se tivéssemos uma espécie de anti-Bizâncio, onde tudo ruma para a enchente, para a lama.

E de fato, quem lê a poesia de Lorine fica um pouco encasquetado com o número alto de vezes com que ela se refere a enchentes. A razão é simples: ela morou boa parte da vida numa área de Blackhawk Island constantemente assolada por enchentes. Isso explica a eminência metafórica tanto da enchente quanto da lama em sua poesia. O que isso quer dizer? Uma pá de coisas. A enchente pode ser lida como uma espécie de invasão, um momento quando a perfeição da completude parece se revelar terrível e começa a desdobrar seu lastro de destruição e incômodo. Mas é também preciso observar que a enchente pode fazer parte de um ciclo de vida, uma vez que a própria imagética da água se liga à ideia da vida. É que com a enchente nós temos possibilidades de fertilização longínquas, e, com a enchente, nós temos a terra tornada em barro, o que parece incutir um reinício ao intrincado componente humano-natural que a poeta sempre trata em seus textos.

São também dignos de nota aqueles poemas em que a autora traz figuras históricas e aborda sua vida numa perspectiva mais íntima do que contextual, por assim dizer. Veja-se a parte IV do poema Darwin:

      Anos... sopesando
            probabilidades
                   Estou doente, disse
         e escrever demora

      Estudou pombos
            cracas, minhocas
                  Extraiu sementes
         do cocô de aves

      Trouxe pra casa Drosera
            viu insetos presos pelos
                  próprios tentáculos o fato
         de que plantas secretam

      um ácido agudamente análogo
            ao fluido digestivo
                  de animais! Anos
         até publicar

      Escreveu pra Lyell: Lembre
            de mandar a carcaça
                  de seu gato africano mestiço
         caso morra

[ Years… balancing / probabilities / I am ill, he said / and books are slow work // Studied pigeons / barnacles, earthworms / Extracted seeds / from bird dung // Brought home Drosera— / saw insects trapped / by its tentacles—the fact / that a plant should secrete // an acid acutely akin / to the digestive fluid / of an animal! Years / till he published // He wrote Lyell: Don’t forget / to send me the carcass / of your half-bred African cat / should it die ]

A forma em avalanche com que a exuberância da natureza é reduzida a material de estudo parece corroborar com a maneira triste e exausta com que a palavra Years, no primeiro verso, se faz seguir de reticências. books are slow work: naturalmente que o são. Afinal de contas, não se trata apenas de mencionarmos no trabalho científico darwiniano uma questão de coleta fria, mas, também, de uma certa vivência que se mescla a anos de pesquisa. Darwin, mais do que o cientista que estudou com profundidade a natureza, foi também aquele que imiscuiu sua vida à própria natureza. Escrever um poema sobre a vida de Darwin é uma maneira engenhosa de trabalhar dois dos temas mais caros à sua poesia. Lembra quando eu disse que a poesia de Lorine não ia simplesmente no sentido de que, uma vez entranhados homem e natureza, o simples falar de um é falar do outro? — Isto é, você se lembra que eu disse que esse um-remete-ao-outro se dá mais no sentido de que o que compõe um é o que compõe o outro, pois ambos parecem ter trocado fluidos e materiais? Creio que isso se torna particularmente claro no trecho citado. Mas note a carcaça do half-bred African cat. should it die. Crianças, aprendam: é assim que se termina um poema. Você passa o poema inteiro levando o leitor para um enfado e uma exuberância fria de descobertas científicas até irromper nesse pequeno lembrete de ternura.

Um enfoque pessoal a figuras históricas é algo que vai de encontro ao tratamento que alguns poetas confessionais (por exemplo Robert Lowell) dariam a figuras como T. S. Eliot ou Robert Frost, ou, ainda, o tratamento que Susan Howe dá ao pai da semiótica, Peirce, em seu Peirce Arrow. É uma maneira peculiar de ler a história, intimista mas não alienada. Reveladora, podemos dizer simplesmente.

A postagem de Ricardo Domeneck que citei anteriormente contém também traduções dele para dois poemas de Lorine. Você encontra outras no Rim&via, sob pena de Adrian'dos Delimas, aqui, e no site do Elson Froés, sob pena de Vilma Teixeira, aqui.

A contribuição que faço é pequena e, de certo modo, ainda não vai ao xis da questão, se considerarmos que, dentro da maneira com que leio a obra de Lorine, seria muito mais lógico que eu me metesse a traduzir o Paean to Place ou Darwin. Não julgo ser o momento certo, todavia. (Em tradução você só traduz o que dá conta.) O que também não quer dizer que a pequena seleção que faço não possa ter lá seus atrativos.

Os dois primeiros poema são lúgubres e demonstram uma mulher meio que acuada em relação ao mundo. Escondida. Conformada. Em In moonlight lies, você tem que prestar pelo menos atenção nos versos 3 e 4. Observe como o rio não está quieto e não está rindo. Não se trata simplesmente daquele tipo de descrição lírica à luz do luar que nós já observamos às pencas literatura afora. Nós estamos diante, em outras palavras, de um dos temas-mor na poesia da autora, como já mencionado: a enchente. O rio é terrível por culpa disso, e não por ser uma espécie de metaforização da tristeza simplesmente. Eu diria que é um pouco além: o rio existe externamente e, a pessoa queira ou não, ele se entranhará em tudo. Ele inundará tudo.

Se pudermos aceitar uma leitura assim, ela se inscreve na ordem do poderá-ser. É diferente da segunda estrofe, que traz as coisas pro lado do agora. O eu lírico não é nem jovem e nem livre. Está presa. Não dá pra saber exatamente o porquê dela estar presa; se damos uma olhada pra biografia de Lorine, nem assim fica tão claro pois ela parecia estar de algum modo intimamente ligada à terra em que vivia, presa de algum modo por ali. Tá: "de algum modo": de que modo? Seria o caso de dizer que não está livre graças ao rio, que de algum modo a prende ali? Esse é o tipo de resposta que não dá pra ter. Mais sensato parece lermos que ela não é livre pois, como já não é jovem, a vida adulta a encheu de ocupações. Todavia, apesar de uma vida tão infeliz como a que aparentemente leva, ela possui uma casa própria sob um salgueiro. É uma imagem deslumbrante e que traz consigo segurança ao mesmo tempo que singeleza. Dois simples movimentos ao longo do poema, marcados por quatro passos de dois versos cada: no começo, a placidez do rio correndo sob o luar; depois, esse rio sendo descrito como não sendo quieto e não tendo riso algum; depois, a forma com que o eu lírico constata sua decadência, por assim dizer, e, alfim, a pequena alegria, o pequeno suspiro de ter um pedacinho de chão ao qual se possa dizer seu. Não estou muito certo que esse final positivo tenha sido o suficiente pra que o movimento combinado de pelo menos duas partes anteriores do poema seja aplacado, ou seja, que possamos soltar um "ter uma casinha dessas compensa o restante". Provavelmente pelo fato de que o poema não possui manifestações explícitas de alegria (nós apenas deduzimos que ter essa tal dessa casinha é uma coisa legal), operando, antes, até mesmo um recorte lúgubre (isto é, ele pega a imagem do rio sob o luar, de uma beleza intrínseca, e recorta o riso que aí possa haver), é que o poema nos deixe com essa sensação.

Já o segundo recebeu uma leitura interessante de Patrick Pritchett, no artigo How to Do Things with Nothing: Lorine Niedecker Sings the Blues. O autor nota, por exemplo, a efeméride de que a data de nascimento do blues é também 1903. Mas não para por aí, e, observando o poema, pede pra que prestemos atenção na maneira como, na primeira estrofe, Nothing não rima com nada, ao passo que, na segunda, internamente, Nothing rima com Something e, já na terceira, rima com puffing e stuffing. É uma espécie de domínio paulatino. Todavia, é algo que foi perdido na tradução, em parte porque não me pareceu ser realmente um estrato de sentido sobressalente: acho que o que pega realmente no texto é isso de isolar o refrão rimicamente, e esse pequeno avanço a que Prithcett se refere me parece tênue demais. Talvez até fosse possível mantê-lo na tradução, se eu incluísse algo como "de mãos dadas" no segundo verso da segunda estrofe e desse um jeito de arrochar um "cada" ou coisa do tipo na terceira estrofe. Mas seriam adições perigosas, em especial no caso desse "de mãos dadas" (a relação do Nada com a esposa do Algo não é necessariamente uma relação amorosa)...

Oras: de que modo pode ser terrível acordar à noite e no meio do escuro ver a luz? Se a realidade na qual você está imerso é ruim, então qualquer maneira de fazer com que você tome consciência dela pode ser uma coisa terrível. Creio que nesse sentido conseguimos chegar a uma boa leitura. Do mesmo modo, ao dizer que o tempo é branco, a poeta não está apenas dando uma espécie de pureza, nobreza ou, quem sabe, de liberdade plena ao tempo (o tempo como uma folha em branco); se o tempo é branco e estamos no meio da escuridão, nós não conseguimos enxergar nada desse próprio tempo (na verdade, qualquer que fosse a cor não enxergaríamos; a brancura parece ser realmente algo ligado à pureza, embora, conforme eu disse, neutralizada pelo escuro). Mas é preciso ressaltar: se enxergássemos a luz na escuridão, então essa luz repercutiria na brancura do tempo e, por menor que fosse o feixe, nossa vida seria de algum modo iluminada. E de novo voltamos à ideia de que, se estamos realmente na pior, isso de enxergar nossa vida com nitidez talvez não seja uma boa. Nossa vida vai sendo corroída. Os mosquitos nos mordem. A constatação é apenas essa. Se nós revidamos ou tentamos impedir, isso parece não importar muito, pois eles mordem. Estamos à mercê.

Na segunda estrofe não é só a mosca que morde. Um pensamento também aferroa. Não temos como saber que pensamento, mas, qualquer pensamento que seja, alegre ou propriamente triste, ele contrista. A maneira certo modo falsa com que, no restante dos versos, o eu lírico cumprimenta o Nada é digna de nota, pois transforma essa relação com o Nada numa espécie de relação burguesa, conforme lembra Pritchett, de se lembrar, também, que o blues foi justamente dos gêneros musicais a dar uma nova proeminência à voz feminina. Quem seria essa Something's wife? Não acho que seria exagerado se lêssemos como sendo o próprio eu lírico, embora reconheça que possamos ler como sendo qualquer outra coisa. O importante é que o estrato de sentido de uma futilidade inerente à ideia de sitting around com a esposa do Algo seja feita, uma vez que esse Algo pode ser qualquer coisa. E, igualmente importante: que o Nada perambule com essa esposa, fazendo com que mesmo essa espécie de cena feliz-burguesa contenha em seu íntimo um germe depressivo.

A terceira estrofe traz à tona a vida propriamente doméstica de Lorine, acumulada em verbos nos dois primeiros versos e em substantivos nos dois próximos. Se até então tínhamos uma espécie de inércia, com a ideia de um acuamento na primeira estrofe e a ideia da futilidade absoluta na segunda, aqui nós até possuímos uma gama de ações considerável, que não necessariamente precisam resultar inúteis. Pode ser que resultem úteis para certas coisas, mas que, no frigir dos ovos, para o que realmente aplacaria o vazio no eu lírico, reste inútil. I've spent my life in nothing. Observe a mudança. Na primeira estrofe nós temos um espaço vazio, seja pelo fato de que é escuro e de que a luz é caracterizada como um horror, seja pelo fato de que o tempo é branco. Na segunda nós temos um clima mais familiar, eu diria até povoado, se prestarmos atenção ao verbo Buzz. Mas na terceira nós temos um clima familiar. Como no primeiro poema traduzido, nós estamos no seio de uma vida familiar, aconchegante como todo seio mas, no entanto, de um desalento peculiar. Pritchett se refere, em certo ponto de seu ensaio, a um poema de Lord Rochester em que o cavalier poet aborda o Nada de uma maneira um pré-flaubertiana, isto é, um poema que fale a respeito de(o) nada. Com Lorine não sei se é realmente produtivo que leiamos a coisa dessa maneira, uma vez que seu poema trata muito mais da corrosão e do vazio que o Nada produz, apesar de toda investida que venhamos a fazer, ou de toda investida que um dia fizemos, e não apenas do poder artístico como sendo capaz de gerar algo a partir do nada. A cadência do poema de Lorine é triste. Os dois versos longos são seguidos de outros dois, curtos, que adicionam uma espécie de pausa a qualquer fluxo que houvera sido esboçado, e a repetição do refrão nos situa onde devemos nos situar: no desalento propriamente dito.

O terceiro poema que trago é um dos mais famosos de Lorine. Embora singelo, ele guarda uma relação que é superada por um terceiro fator inegavelmente maior: o sol. Ou seja: o eu lírico serra a árvore. Podemos presumir que por necessidades quaisquer; mas, de todo modo, a árvore, caracterizada como amiga, é tombada. O dever explicitado ao longo do poema é que o sol seja atendido, seja reverenciado. De que modo, porém, podemos ligar o você serrar uma árvore com o atender o sol? Isso não faz sentido. Seria pra criar uma espécie de proteção? Ou pra catar algum tipo de material que contribuiria com a reverência? Ou, se considerarmos que a árvore dá sombra, o que nos protege do sol, a poeta estaria sendo irônica: ou seja, no sentido de que, serrando a árvore, estamos ajudando um velho amigo, o sol, abrindo mais e mais espaços para que esse mesmo sol caia livre e solto?

Essa última opção de leitura é a que mais me agrada.

O penúltimo poema traduzido é um poema ao qual você deve ler com os ouvidos. flower e devour são uma rima escancarada, a tal ponto que devour parece devorar flower. Não chego a dizer que a congruência precise se dar exatamente entre essas duas palavras, o que me deu uma margem de manobra até considerável na hora da tradução, mas, de todo modo, esse ponto central aquático, aparentado com uma flor, vai tragar tanto água e flor. Ele não só destruirá tudo; ele também destruirá a si próprio. Muitas imagens que trazem esse poema consigo, feitas na internet, trazem como ilustração um redemoinho aquático, e acho que é uma boa maneira de ler o que poema se refere. A questão que julgo que deva ser apontada, todavia, é, como dito, a de que esse algo íntimo às águas trará a destruição total de tudo, o que, sonoramente, é reforçado seja pela proximidade sonora de algumas palavras ao longo do texto e pela divisão estrófica, isto é, a maneira habilidosa com que a poetisa recorta seu poema, espaçando water e flower e dando a entender que paulatinamente se consomem.

O último poema da pequena seleção que fiz não precisa lá muito ser explicado se você puder apenas imaginar a cena. A concha me parece ser um símbolo do enrodilhamento interior por excelência. O que existe dentro dessa concha é coral, lama e molusco. É um poema que, graças a sua carga metafórica, parece servir de pedra-de-toque para o restante da poesia da autora. Tudo aquilo que falei sobre a relação entre ser humano e mundo natural está aqui, in nuce. Até mesmo o afastamento retratado nos dois primeiros versos e o uso cuidado do verbo inspect são exemplares. Se fosse o caso de reduzir a seleção para apenas um poema, seria esse. Eu sinceramente não conheço porta de entrada melhor. Duas outras, nesse caso mais propriamente técnicas, seriam se você prestasse atenção na sexta parte de Paean to Place, quando a poeta se refere a um tal de "sublime / slime- / song", "sublime / rima- / limo", bem como ao poema Poet's work.

Mas chega de papo. Divirtam-se.





§

À luz da lua
               o rio passa ―
nem está quieto
               e nem tem graça.

Não beiro a mocidade,
               liberdade não beiro ―
mas tenho uma casinha
               sob um salgueiro.

§

Que horror é levantar à noite e então
conseguir ver a luz na escuridão.
       Branco é o instante
       mosca irritante
Gastei a vida com nada.

A ideia que aferroa. Salve!, Nada,
perambulando com a esposa do Algo.
       Chama e sibilo
       é o que assimilo
Gastei a vida com nada.

Espanei, poli, pus, dispus, limpei
serviços de casa arrumei ―
       tapete, prato
       peixe, sapato
Gastei a vida em nada.

§

Árvore amada
eu te serrei
mas é lei
que eu aplauda
o sol

§

Algo n'água
igual flor
tragará

água

flor

§

Remoto
     na areia
          Alguém

curva pra examinar
     uma concha
          Si próprio

parte coral
     e lama
          molusco


In moonlight lies
          the river passing —
it's not quiet
          and it's not laughing.

I'm not young
          and I'm not free
but I've a house of my own
          by a willow tree.


§

What horror to awake at night
and in the dimness see the light.
          Time is white
          mosquitoes bite
I've spent my life on nothing.

The thought that stings. How are you, Nothing,
sitting around with Something's wife.
          Buzz and burn
          is all I learn
I've spent my life on nothing.

I've pillowed and padded, pale and puffing
lifting household stuffing —
          carpets, dishes
          benches, fishes
I've spent my life in nothing.


§

My friend tree
I sawed you down
but I must attend
an older friend
the sun


§


Something in the water
like a flower
will devour

water

flower

§

Far reach
   of sand
         A man

bends to inspect
   a shell
         Himself

part coral
   and mud
         clam

Comentários

  1. Onde lê-se "sob pena de Adriano Delimas" leia-se "sob pena de Adrian'dos Delima". Adrian'dos Delima, autor de Rim&via.

    ResponderExcluir

Postar um comentário