Charles d'Orléans (1394 - 1465).



Dois são os movimentos básicos na vida de Charles d'Orléans. O primeiro, quando o poeta tinha treze anos, é o do assassinato de seu pai (no que se seguiu a morte de sua mãe, provavelmente por tristeza, e de sua esposa, ainda criança), e o segundo foi quando, na Batalha de Agincourt, em 1415, ele foi encontrado em meio a cadáveres franceses, incapacitado pelo preso da própria armadura. Os ingleses o encarceraram depois disso, e Charles d'Orléans passou 24 anos como prisioneiro de guerra. Tudo bem que "prisioneiro de guerra" não é um bom termo pois Charles d'Orléans era, apesar de um cativo, uma personalidade ilustre, e tinha um tratamento meio que condigno a tal. O importante era que ele não saísse da Inglaterra, uma vez que, politicamente, era uma personalidade perigosa.

Produziu a maior parte de seus poemas durante esse período de cárcere, escritos tanto em francês quanto em inglês, embora a faceta inglesa de sua produção poética seja posta em segundo plano. É difícil dizer o porquê desse desprezo. Ela de fato não me parece possuir toda a musicalidade e realização estética da faceta francesa, mas ainda assim pode ser digna de algum interesse. Está inclusa num livro intitulado Fortunes Stabilnes, do qual você pode ler a edição crítica aqui. É um livro composto de, ao todo, 6.531 versos, dispostos em formatos diversos, os principais sendo baladas e rondéis. Longas sequências compostas de poemas em forma fixa não eram muito bem vistas na Inglaterra. A poesia épica eles até era digerida, mas sequências líricas tão grandes assim... nem tanto. De todo modo, incluo abaixo um poema em medida curta, entre os versos 4.505 e 4.520, que pode demonstrar um alcance lírico pelo menos diferenciado do escopo geral da obra, que se vale, de modo geral, de pentâmetros e tetrâmetros.

Os poemas de Charles d'Orléans são de uma leveza e de uma delicadeza que impressionam. Uma das maiores contribuições de Charles d'Orléans para a poesia foi seu uso intenso e inteligente do rondel. Aí você se pergunta: o que é um rondel? Segundo Geir Campos, rondel: um pequeno rondó. Aí você se pergunta: e um rondó? Já não é tão simples, seguindo também Geir Campos. O rondó possui várias ramificações: o rondó simples, o rondó duplo e o rondó redobrado (que é tipo um rondó quádruplo), sem contar, claro, o rondel, que Geir Campos diz ser o correspondente ao nosso triolé.

Isso é meio confuso, então, pra ser mais simples, rondel é o que você vai ver logo abaixo na postagem, no poema Le temps a laissié son manteau. É um poema que consiste em 13 versos em 3 estrofes. A primeira tem 4 versos, a segunda também 4 e a última tem 5. Os dois primeiros versos da primeira estrofe são repetidos no final da segunda estrofe, e o primeiro verso da primeira estrofe é repetido no final do poema. Há quem também repita o segundo verso da primeira estrofe no final do poema, no que teríamos, assim sendo, um rondel com 14 versos. E há também quem não repita os dois primeiros versos do poema no final da segunda estrofe, no que teríamos um rondel com 12 (por exemplo a tradução de Décio Pignatari para o rondel Le temps a laissié son manteau provavelmente se baseou numa edição que o dispunha desse jeito, com 12 versos). Geir Campos parece fazer uma confusão aqui, pois esse rondel primitivo é precisamente o que ele chama de rondó simples.

O que ele chama de rondó duplo é feito de três estrofes: a primeira com 5 versos mais o refrão, a terceira com 3 mais o refrão e a última com 5 mais o refrão. O esquema de rimas é aabba/aabq/aabbaq, onde "q" é o refrão, que não precisa ser um verso completo e sim um pedaço de verso. Caso você queira ver um exemplo de como funciona, é só ler o Volta de Manuel Bandeira.

Já o rondó redobrado é como que um rondó duplo vezes dois. Rondó quádruplo, como eu disse. O esquema rímico é aabba/aabq/aabbaq/aabq/aabbaq/aabq/aabbaq. E o triolé, por fim, é feito de uma estrofe com oito versos e esquema rímico abaaabab, onde você repete o primeiro verso do poema no quarto e os dois primeiros nos dois últimos. O triolé também pode ser usado como estrofe para composições maiores, à maneira do Flor da mocidade de Machado de Assis.

É isso. Graças ao recurso da repetição, muitos desses rondéis de Charles d'Orléans ganham uma musicalidade que fica no seu ouvido e de lá não sai. Alguns chegaram a se tornar clássicos da língua francesa.

Eu disse um pouquinho atrás que em língua inglesa a recepção da obra produzida em inglês pelo autor não foi das melhores, e realmente não foi, mas ela encontra, quanto à faceta francesa, pelo menos duas vias de acesso privilegiadas. Ou três, se quisermos ser ainda mais precisos e considerarmos a vasta utilização que Swinburne fez da forma rondel (A century of roundels: "A roundel is wrought as a ring or a starbright sphere" etc etc; de se lembrar que o rondel, em inglês, é tão antigo quanto Chaucer: Merciless Beaute: A Triple Roundel).

Me refiro a Is she not passing fair?, tradução de N'est elle de tous biens garnie?. Feita por Louisa Stuart Costello e inclusa num livro chamado Specimens of early poetry in France, que conta com traduções de Bertrand de Born e Raimbaudt d'Arenga a Louise Labbé e Clement Marot (você pode ler o livro, mesclado a um outro com traduções de John Oxenford, aqui), a tradução foi musicada posteriormente por Edward Elgar e teve um sucesso considerável. Mire e veja:

    Is she not passing fair,
        She whom I love so well ?
    On earth, in sea, or air,
        Where may her equal dwell ?
    Oh! tell me, ye who dare
        To brave her beauty's spell,
    Is she not passing fair,
        She whom I love so well ?

    Whether she speak or sing,
        Be jocund or serene,
    Alike in ev'rything,
        Is she not beauty's queen ?
    Then let the world declare,
        Let all who see her tell,
    That she is passing fair,
        She whom I love so well !

A música (vou colocar a versão interpretada por esse moleque pois ele é porreta):


Uma tradução:

     Não é bela a passar,
          Ela a quem amo tanto,
     Em terra, ao léu e ao mar
          Que ela tem por recanto?
     Diz tu, que hás de encarar
          O encanto de seu encanto,
     Não é bela a passar,
          Ela a quem amo tanto?

     Cante ou fale em leveza
          Pacífica e feliz,
     Sempre a mesma à beleza
          Não é como imperatriz?
     Deixe o mundo alegar
          E que aleguem, portanto,
     Que é tão bela a passar,
          Ela a quem amo tanto!

A gente acha esse tipo de poema meio bobinho, mas às vezes é preciso despir o manto de erudição e complexidades e saborear o simples. É algo que precisa pelo menos poder ser feito. Se você acha que não, é hora de reavaliar algumas coisas. O refinamento do gosto, se esse é realmente o sinônimo usado pra tratar da erudição e do apreço pela complexidade, não pode ser um tipo de aparato ao qual nós não possamos eventualmente dispensar.

Um segundo momento se encontra em Ezra Pound. Pound possui uma tradução do poema Dieu! qu'il la fait, poema esse que, diga-se de passagem, é unha e carne com o anterior, N'est elle de tous biens garnie?. Mire e veja:

    God! that mad'st her well regard her,
    How she is so fair and bonny;
    For the great charms that are upon her
    Ready are all folks to reward her.
    Who could part him from her borders
    When spells are alway renewed on her?
    God! that mad'st her well regard her,
    How she is so fair and bonny.
    From here to there to the sea's border,
    Dame nor damsel there's not any
    Hath of perfect charms so many.
    Thoughts of her are of dream's order:
    God! that mad'st her well regard her. 

Charles d'Orléans é também uma das personae de Pound. Está num poema intitulado Image from D'Orleans. Mire e veja:

    Young men riding in the street   
    In the bright new season   
    Spur without reason,   
    Causing their steeds to leap.   

    And at the pace they keep
    Their horses’ armored feet   
    Strike sparks from the cobbled street   
    In the bright new season.

É uma tradução dos oito primeiros versos do rondel Jennes amoreux nouveaulx. Num artigo chamado Imagisme and England, Pound diz que o Imagismo existe desde o Seafarer anglo-saxão, o Collis o Heliconii de Catulo e a poesia de Charles d'Orléans. Dirceu Villa o traduziu assim (aqui):

    Jovens nas ruas a cavalgar
    No brilho da nova estação
    Esporeiam sem razão,
    Fazendo as montarias saltar.

    E no passo em que vão
    As patas ferradas a trotar
    Riscam faíscas nas pedras do chão
    No brilho da nova estação.

Charles d'Orléans também aparece de relance na peça Henry V de Shakespeare. Na cena 8 do ato 4, Henrique V pergunta ao Duque de Exeter quais haviam sido os prisioneiros e o Duque responde:

    Charles Duke of Orleans, nephew to the king;
    John Duke of Bourbon, and Lord Bouciqualt:
    Of other lords and barons, knights and squires,
    Full fifteen hundred, besides common men.

A delicadeza de muitas passagens líricas de Charles d'Orléans talvez seja possível de ser vista em muitos momentos líricos de Shakespeare, em especial suas canções.

Trago, além do poema composto em inglês, um rondel francês do autor (você pode lê-lo, junto da produção francesa completa do autor, aqui) em tradução minha e de outros dois poetas. A situação retratada é simples: depois da chuva o sol raia e a natureza volta a se alegrar. A metáfora da natureza e do tempo vestindo roupas é particularmente interessante pois dá toda uma sensualidade à cena retratada (na verdade, tendo em vista que laisser significa também abandonar, deixar, largar, depor e uma pá de outras coisas, é meio complicado estabelecer essa relação com a sensualidade, embora, de todo modo, seja um despojamento que um verbo como "despir" continua implicando), ao mesmo tempo em que a nudez de despir, depor o manto é contraposta à finura com que as roupas do tempo são tecidas. Afinal de contas, a beleza da cena está no fato de que o tempo depôs, despiu uma roupa e vestiu outra. Entre um momento e outro, a nudez de um instante epifânico. Gosto em particular dos bichos que cantam em seu jargão. Combinado com a repetição do verso que nos diz que o tempo depôs, despiu seu manto, é como se a cada relance de olhar que déssemos, o poeta sussurrasse que aquilo ali era a nudez da natureza pura e simples.

A compilação que trago, todavia, não é uma compilação que se possa dizer completa. Muito embora eu tenha conseguido trazer a versão de Décio Pignatari, que considero de certa maneira escondida pois está inclusa no volume de sua poesia completa e não em seus volumes de poesia traduzida (como por exemplo o 31 poetas, 214 poemas), a compilação que fiz possui o agravante de não ter trazido a tradução de Ivone Bendetti.

Ivone Bendetti, uma das maiores tradutoras do francês, teve Charles d'Orléans como objeto de sua tese de doutorado (Charles d'Orléans: tradução de uma poética, USP, 2004). Como não tive acesso a ela, não pude inclui-la no corpo do texto. Caso o leitor queira ler duas traduções de Ivone para poemas de Charles d'Orléans, pode ler o excelente artigo publicado no Cadernos de literatura em tradução nº 6, 2005, aqui. A tese de doutorado da autora é do tipo de coisa que já deveria ter sido publicada em livro. É uma pena que nosso meio editorial tenda a ser tão inerte e tacanho nesse sentido...


trad. eu.

Ao ires embora
Tudo piora.
Cara agressora
(Ó dor mesquinha),
Por mais que agora
Matar-me fora
Malquisto ― ó dor!
Por que, rainha,
A dor sozinha
Impera? Minha
Alma definha
E quieta chora?
Quisera-me asinha
Morto, senhora?
Hoje é assim,
E morro agora!

§

When that ye goo
Then am y woo,
But ye, sweet foo,
(For ought y playne)
Ye sett not, no,
To sle me so,
― Allas and lo!
But whi, souerayne,
Doon ye thus payne
Vpon me rayne?
Shall y be slayne
Out wordis mo?
Wolde ye ben fayne
To se me dayne?
Now then, certayne,
Yet do me slo!


trad. eu.

O tempo despiu seu manto
De vendaval, chuva e frio,
E um bordado ele vestiu
De sol de límpido encanto.

Em jargão, o grito e canto
De fera e ave se ouviu.
O tempo despiu seu manto
De vendaval, chuva e frio.

A bela libré, que é tanto
Da fonte quanto do rio,
É prata em gotas, sutil.
Todos se vestem, conquanto:
O tempo despiu seu manto.

§

trad. Décio Pignatari.
em: Poesia, Pois É, Poesia, Ateliê, 2004, p.292.

O tempo despiu o seu manto
De chuva e de vento gelado:
Vestiu-se de ouro em brocado,
Fiado do sol claro e santo.

E diz todo bicho, em seu canto
E jargão, sem asas e alado:
O tempo despiu o seu manto.

O córrego, o regato e a fonte
Em sua libré aristocrata,
De gotas de jóias de prata,
Festejam as roupas do encanto:
O tempo despiu o seu manto.

§

trad. Paulo Chaves.
em: Os Ritos da Perversão e Outros Poemas, Edição Virtual, 2012, p. 52-53, aqui.

O tempo abandonou seu manto
de vento, frio e chuva entrelaçado.
Um outro ele vestiu com encanto,
de sol belo e claro e formado.

Não há besta ou ave que nalgum canto
em seu idioma não tenha falado:
O tempo abandonou seu manto
de vento, frio e chuva entrelaçado.

O rio e a fonte portanto,
vestem com extremo cuidado
traje de ouro e prata bordado.
Riqueza tal é um espanto.
O tempo abandonou seu manto.

§

Le temps a laissié son manteau
De vent, de froidure et de pluye,
Et s’est vestu de brouderie,
De soleil luyant, cler et beau.

Il n’y a beste ne oyseau,
Qu’en son jargon ne chante ou crie ;
Le temps a laissié son manteau

De vent, de froidure et de pluye.
 
Rivière, fontaine et ruisseau
Portent, en livree jolie,
Gouttes d’argent d’orfaverie,
Chascun s’abille de nouveau :
Le temps a laissié son manteau.

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