Uma vilanela de Joyce.




Stephen Dedalus, o protagonista do romance Um retrato do artista quando jovem, havia acabado de terminar uma discussão sobre o que seria a beleza com alguns amigos seus, onde ele expõe um conceito grandemente embasado em São Tomás de Aquino. Não quero me enveredar, contudo, nesse tipo de discussão, mesmo porque estamos num texto introdutório e você pode muito bem ir lá e ler a opinião de Stephen, que está, até, um tanto quanto clara. Veja-se por exemplo o que ele diz sobre arte (todas as traduções que forneço nesta nota introdutória são minhas ― e o faço não porque não acho que possuamos boas traduções disponíveis, mas, sim, porque tão somente quero ensaiar também versões minhas para algumas passagens):

Dizer dessas coisas e tentar entender sua natureza e, tendo entendido, humilde e constante e lentamente tentar expressar, e de novo pressionar, da terra bruta ou do que ela traz, do som e forma e cor que são o cárcere do espírito, uma imagem de beleza que haveremos de entender ― isto é arte.

Ou, de modo mais resumido:

Arte, disse Stephen, é a disposição humana para matérias sensíveis ou inteligíveis com um fim estético.

Como se pode observar, a definição de Stephen de arte parte basicamente do íntimo da pessoa. Ao discutir a respeito do que entende por beleza, Stephen vai além do que fora exposto por São Tomás de Aquino, de que a beleza é aquilo cuja apreensão agrada (pois, segundo ele constata, culturas distintas podem divergir, por exemplo, a respeito de que mulheres seriam consideradas bonitas), e, numa passagem também fulcral de sua teoria estética, diz:

Esta hipótese é uma outra saída: que, embora o mesmo objeto possa não ser belo para todos, todos que admiram um objeto belo encontram nele certas relações que satisfazem e coincidem com os estágios propriamente ditos de toda apreensão estética. Estas relações do sensível, visíveis a você de uma certa forma e a mim de outra, devem ser portanto as qualidades necessárias da beleza.

Esses estágios propriamente ditos de toda apreensão estética seriam a completude, a harmonia e a radiância (de novo ele está bem próximo de Tomás de Aquino). Completude, isto é, quando eu olho para uma cesta, eu como que excluo o restante do universo e focalizo apenas naquela cesta como um todo, como algo completo. No caso da harmonia, eu observo suas múltiplas partes em relação consigo. Já no caso da radiância nós estamos próximos ao conceito de quidditas de Tomás de Aquino, isto é, a coisidade de uma coisa, aquilo que a faz ser exatamente aquilo e não outra. Veja:

Quando você apreende uma cesta como uma só coisa e a analisou de acordo com sua forma e a apreendeu como uma coisa, você faz então a única síntese que é lógica e esteticamente permitida. Você vê que ela é uma coisa que é e não outra coisa qualquer.

Toda essa discussão é importante pois demonstra, eu repito, a atenção que a teoria estética de Stephen dá para o indivíduo e nem tanto para o objeto. Claro que a atenção dada ao objeto é importante dentro do que Stephen está expondo, mas a apreensão propriamente feita pelo sujeito, no caso de objetos tidos como belo, é o verdadeiro pulo do gato na coisa toda.

Stephen, eu dizia, havia acabado de ter essa interessantíssima discussão com alguns de seus colegas. Sabe quando a noite foi legal e no outro dia você até acorda meio empolgado? Foi o que aconteceu. Estamos no capítulo V do livro, o último, em que Stephen está na reta final de sua consolidação como artista. Cumpre lembrar que o livro começa num estilo que imita o estilo abobalhado com que falamos com bebês ("Era uma vez, e que beleza de vez, uma vacamumu descia a estrada e essa vacamumu que descia a estrada topou com um meninão lindão chamado neném téfém..."), como se o indivíduo retratado não tivesse autonomia de ser senhor de sua história, e, progressivamente (com uma certa ruptura no capítulo III e o longo sermão do padre, que é uma espécie de guinada religiosa na história que pode ser vista também como, ironicamente, uma guinada necessária para que Stephen encontre uma espiritualidade que depois será convertida em espiritualidade artística); e progressivamente vai se tornando senhor de sua narrativa, até o ponto em que fecha o livro com um diário, forma individual por excelência. Stephen Dedalus: nome marcado por um signo cristão e um outro pagão; por uma espiritualidade e por uma intrincada tessitura artística: Stephen vem de São Estêvão, aquele que é considerado o protomártir, isto é, o primeiro santo a morrer pela fé; e Dedalus se refere a Dédalo, o mítico construtor de labirintos grego que havia aprisionado o Minotauro.

Na passagem que estamos, mais ou menos na metade do capítulo V, Stephen acaba de acordar e compõe um poema. É muito bela a forma como Joyce descreve o poema de Stephen surgindo aos poucos, ou seja, a forma como ele imerge na mente do artista e faz com que o ato da criação de um poema seja tão epifânico e revelador para a personagem como para nós. Afinal de contas, nós leitores já sabíamos o poder de uma epifania tão intensa quando, no final do capítulo IV, Stephen vê uma garota na praia, o que é tido por muitos leitores de Joyce como o instante em que ele se consolida como artista (o encontro visceral de Stephen com a Vida). Daí pra frente, é só uma estrada que ele, a partir de então, conscientemente trilha. O poder da epifania é tão intenso que até a linguagem se torna altamente lírica, com instantes tais como:

Ele fechou os olhos num torpor de sono. Suas pálpebras tremiam como sentissem o vasto movimento cíclico da terra e de todo alguém que a contemplasse, tremiam como sentissem a insólita luz de um mundo novo. Sua alma desfalecia em algum mundo novo, fantástico, fosco, incerto como o fundo do mar, crivado de formas e seres nebulosos. Um mundo, um fulgor ou uma flor? Fulgurando e tremendo, tremendo e desdobrando, uma flor se abrindo que se estende em infinda sucessão de si própria, rompendo em pleno escarlate e murchando na mais pálida rosa, pétala a pétala e raio a raio de luz, inundando os céus com seu fluxo brando, cada fluxo mais profundo que o de antes.

Daqui pra frente, ao longo do livro, seremos presenteados com momentos magníficos assim. Veja-se, da passagem que estamos discutindo:

O instante de inspiração parecia agora refletir-se de todos os lados de uma só vez numa plêiade de circunstâncias nebulosas do que houvera ocorrido e do que poderia ocorrer. O instante cintilou como ponta de luz e, agora, entre nuvem e nuvem de vagas circunstâncias uma forma confusa suavemente velava seu crepúsculo. Ó! No ventre virgem da imaginação a palavra fez-se carne. Gabriel, o serafim, viera ao leito da virgem. Um crepúsculo ingressando em seu espírito, onde a branca chama passara, ressurgindo em ardente e rósea luz. Esta ardente e rósea luz era seu coração insólito e voluntarioso, tão insólito que homem algum conhecia ou conheceria, voluntarioso desde antes do início do mundo: e a isca deste ardente e róseo fulgor fez despencarem os coros de serafins dos céus.

E logo então cita a primeira estrofe. Um pouco depois:

Saía fumaça da terra inteira, dos oceanos vaporosos, fumegante de louvor. O mundo era hesitante turíbulo titubeante, uma esfera de incenso, uma esfera elipsoidal. O ritmo morreu de repente,  o clamor em seu peito se interrompeu. Seus lábios começaram a murmurar os primeiros versos de novo e de novo; então foram tropeçando nas cesuras, balbuciando perplexos; então pararam. O clamor do peito se interrompeu.

A situação é muito distinta de quando Stephen, no capítulo 3 do Ulysses, está perambulando na praia e em certo instante, após um casal que ele observava a um tempinho passar por ele e dar uma manjada no seu chapéu, ele compõe um poeminha de cabeça (duas horas depois, na hora do almoço, às 13, Leopold Bloom, alimentando pombos, está fazendo o mesmo). Lá a máquina do monólogo interior, que funciona de maneira proteica (isto é, adquire muitas formas com o decorrer do texto), está em pleno vapor, e o instante lírico conduzido por um narrador que consegue filtrar a experiência cede lugar à confusão e desordem mental do pensamento de todos nós, se captado ao vivo e a cores, digamos assim.

A vilanela que Stephen compõe é, evidentemente, uma forma lírica. A forma lírica, disse Stephen ainda na noite anterior, é quando o artista apresenta sua imagem em relação imediata consigo mesmo. É bem o que a vilanela apresenta, isto é, ela funciona como uma espécie de síntese poética do retrato do artista quando jovem. O funcionamento formal da vilanela, com dois refrões que vão se intercalando ao longo do poema num esquema de repetições, cria uma musicalidade que seria posteriormente explorada pelos poetas de língua inglesa de muitas maneiras interessantes, como, por exemplo, Dylan Thomas exortando o pai a ir contra o morrer da luz (ou seja, as repetições servem como forma de intensificar a força e a não-conformidade que o poema quer incutir) ou Elizabeth Bishop repetindo a si mesma que a arte de perder não é nenhum desastre, quando, justamente graças às repetições da vilanela, nós sabemos justamente que não é bem por aí, que parece haver uma espécie de fixação por parte do eu lírico para com aquele lance todo da perda.

Com Joyce, numa vilanela que alguns batizam de Villanelle of the temptress (tomando como base a primeira frase do último parágrafo dessa sub-parte do capítulo, "Um fulgor de desejo acendeu seu espírito e incendeu e ocupou seu corpo. Sabedora de seu desejo ela acordava de seu sono balsâmico, a sedutora de sua vilanela."), nós temos um eu lírico que quer se afastar dos ardent ways. Isto é: caminhos chamuscantes, ardentes ou, pra botar de maneira bem franca, caminhos picantes. Bem o que Stephen demonstra em específico na segunda parte do livro, que fecha com ele beijando uma prostituta. Na terceira estrofe parece haver uma guinada de fé, o que é acompanhado pelas estrofes quatro e cinco, mas, já na sexta, nós temos de novo um louvor ao corpo da amada, sedutora, que parece trazer o eu lírico para o caminho da perdição. As repetições da vilanela, sendo assim, funcionam como uma espécie de fantasma, como um resquício, vivo, dos efeitos sedutores originais.

Quando ele se pergunta "Are you not weary of ardent ways?", ele está perguntando a si mesmo. E nós sabemos qual é a resposta, nem tanto porque já lemos o livro e sabemos com que Stephen, naquele instante, nós estamos lidando; nós sabemos pois, mais uma vez é bom repetir, a escolha habilidosa da forma vilanela é uma maneira de, graças ao instrumento da repetição constante e certo modo obsessiva, flagrar as intenções que presidem a voz lírica.

Um dos melhores textos que você vai ler, na internet, sobre a vilanela de Stephen é este, de Chris Verschuyl March, de 1996. A compilação que faço aqui não é completa. A tradução da professora Bernardina Pinheiro, por exemplo, publicada inicialmente pela editora Siciliano em 1992 e depois pela Objetiva em 2006, eu não tive acesso. Tomando como base a útil compilação de Denise Bottman (aqui), todavia, esta é a única tradução integral brasileira do romance a que não pude ler. Pode ser também que uma ou outra tradução virtual eu não tenha lido. De todo modo, não tive acesso, também, a nenhuma edição portuguesa da obra (como por exemplo a de Paulo Faria para a Relógio D'Água).


trad. eu.

Não te enfadas da senda ardente,
Isca de serafim perdido?
Não cante o encanto novamente.

Teu olhar incendeia a mente
E tem feito o que tem querido.
Não te enfadas da senda ardente?

A fé transcende a chama quente
E além do oceano tem ido.
Não cante o encanto novamente.

Uma eucaristia somente
É a do nosso clamor rompido.
Não te enfadas da senda ardente?

Enquanto a mão ritualmente
Encha o cálice a nós servido,
Não cante o encanto novamente.

Lindo corpo, olhar indolente
Que ainda nos têm atraído!
Não te enfadas da senda ardente?
Não cante o encanto novamente.

§

trad. José Geraldo Vieira.
em: Retrato do artista quando jovem, Abril, 1971, p. 209-210

Tu, ó Fascinação do serafim expulso,
Não te cansaste já dos ardentes caminhos?
Ah! Não me falem mais dos dias encantados.

Teu olhar incendiou meu coração humano.
Meu coração te deu até mesmo a vontade.
Não te cansaste já dos ardentes caminhos?

Subindo duma ponta a outra dos oceranos
Vão demandando a altura os fumos dos louvores.
Ah! Não me falem mais dos dias encantados.

Meu sôfrego clamor e meus lúgubres cânticos
Erguem-se dum altar de eucarísticas chamas.
Não te cansaste já dos ardentes caminhos?

Durante o sacrifício as minhas mãos levanta
O cálice dourado a transbordar repleto.
Ah! Não me falem mais dos dias encantados.

A pródiga expressão do teu corpo indolente
Todavia retém meu langoroso olhar!
Não te cansaste já dos ardentes caminhos?
Ah! Não me falem mais dos dias encantados.

§

trad. Leonardo de Magalhaens.
em: Blog Leitura e Escrita e Traduções, 13/03/09, aqui.

Não te cansaste do ardor trilhado,
Fulgor do decaído serafim?
Não lembre os dias encantados!

Teu olhar tem meu coração queimado
E tens até sua vontade enfim.
Não te cansaste do ardor trilhado?

Acima das chamas louvores elevados
Ao longo dos oceanos assim.
Não lembre os dias encantados!

Nosso rompido pranto angustiado
Sobe tal um hino – sem fim.
Não te cansaste do ardor trilhado?

Quando em sacrifícios mãos elevadas
O cálice transborda sobre mim.
Não lembre os dias encantados.

E ainda fixamente tens olhado
Com gestos lânguidos para mim!
Não te cansaste do ardor trilhado?
Não lembre os dias encantados.

§

trad. Elton Mesquita.
em: Um retrato do artista quando jovem, Hedra, 2013, p. 213

Não cansas dos modos de viver esbraseantes,
Isca e perdição de decaído serafim?
Histórias de dias encantados já não cantes.

Peito de homem arde em tua mirada calcinante,
Teu querer o vence para todo uso e fim.
Não cansas dos modos de viver esbraseantes?

Acima da chama a fumaça exultante
Sobe do oceano até o último confim.
Histórias de dias encantados já não cantes.

Nossos cantos de lamento e gritos lancinantes
Viram hino eucarístico e sobem ao céu assim.
Não cansas dos modos de viver esbraseantes?

Cálice erguido pelas mãos sacrificantes
Cheio até a borda e sorvido num festim.
Histórias de dias encantados já não cantes.

E inda sustentas nosso olhar tão anelante
Com lânguida mirada e membros de marfim!
Não cansas dos modos de viver esbraseantes?
Histórias de dias encantados já não cantes.

§

trad. Guilherme da Silva Braga.
em: Retrato do artista quando jovem, L&PM, 2014, p. 274-275

Não te cansas de provocar,
Zelo do negro serafim?
Em sonhos não hás de falar.

Peitos abrasados co' esse olhar
E tua vontade é feita assim.
Não te cansas de provocar?

A fumaça se ergue no altar
E vai do mundo até o confim.
Em sonhos não hás de falar.

Nosso choro e nosso pesar
São para ti loa sem fim.
Não te cansas de provocar?

No sacrifício é erguida ao ar
A taça que transborda enfim.
Em sonhos não hás de falar.

E fixo manténs o olhar
Na impassível tez de marfim!
Não te cansas de provocar?
Em sonhos não hás de falar.


Are you not weary of ardent ways,
Lure of the fallen seraphim?
Tell no more of enchanted days.

Your eyes have set man’s heart ablaze
And you have had your will of him.
Are you not weary of ardent ways?

Above the flame the smoke of praise
Goes up from ocean rim to rim.
Tell no more of enchanted days.

Our broken cries and mournful lays
Rise in one eucharistic hymn.
Are you not weary of ardent ways?

While sacrificing hands upraise
The chalice flowing to the brim,
Tell no more of enchanted days.

And still you hold our longing gaze
With languorous look and lavish limb!
Are you not weary of ardent ways?
Tell no more of enchanted days.

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