Soneto 48.


(Montale, tradutor de Shxpr.)


Minha escolha de que soneto de Shxpr traduzir não costuma ser muito racional. Digo: é de bom tom, se você não vai traduzir a sequência toda, que traduza um conjuntinho que de algum modo possa um motivo de ser, privilegiando-o por alguma razão, bem argumentada, claro, que você queira passar. Os argumentos podem ser muitos, indo desde, sei lá, demonstrações do virtuosismo poético shakespeariano, até uma coletânea de best hits (como, de resto, Leonardo Antunes, o mais recente tradutor do Bardo, o fez; aqui).

Comigo o que acontece é uma mescla de só traduzir o que dou conta e de traduzir aquilo que por um motivo ou outro tenha dado na veneta. Veja-se o caso do soneto 48. Não é o mais célebre do autor, e, na verdade, até longe disso. Está incluso numa parte do livro em que, ao que tudo indica, o fair youth havia viajado, o que dá ensejo a mais um capítulo da novela "Os Sonetos".

Aquele clima, você sabe muito bem, de exílio pois a pessoa amada está longe de você pra te dar carinho e os dois comerem um prato feito juntos. O problema é que se você para pra pensar bem, a pessoa amada estar longe é um negócio meio perigoso, e certamente quem já tentou namorar virtualmente deve alguma vez ter sentido isso. Pelo menos é o que eu imagino, afinal de contas, fala sério: a pessoa tá ou foi pra algum lugar distante; oras, você não sabe o que ela está fazendo... E se a pessoa estiver nesse exato instante sensualizando no pole dance para um fulaninho ou fulaninha qualquer? E aí?

Agora imagine isso numa época em que não podíamos contar com os risquinhos azuis do zápzáp. Era terrível, pra dizer o mínimo. Daí que, do soneto 48 até... hum... o 51, mais ou menos, nós tenhamos esse clima de exílio que lacera a carne dos sonetos. No próprio soneto 48 as metáforas envolvem tesouros e ladrões. Está mais do que claro o que Shxpr quer insinuar aqui.

Todavia, apesar disso, o soneto 48 continua não sendo dos melhores. Eu pelo menos não consegui ver nada de especial nele. Se você der uma pausa no último quarteto e fechar os olhos, é bem provável que consiga adivinhar o que o dístico tem a oferecer sem nem precisar realmente lê-lo. Mas isso até que, navegando no fabuloso reino da internet, eu descubro que o poeta italiano Eugenio Montale traduziu-o (ao todo três: além do 48, o 22 e o 33).

A simples ideia de que qualquer pessoa da Itália traduza um soneto de quem quer que seja; essa simples ideia me parece algo fabuloso, pois, como sabemos, pensar soneto é pensar Itália, ainda que esse soneto possua toda a carapaça característica do soneto inglês. E de fato, conforme nota Anna Focchi, a tradução de Montale realmente vai de encontro a um arcabouço poético próprio de Dante e Petrarca (aqui). Assim, trata-se de uma tradução que, embora eu com muito custo tenha analisado graças a meus quase inexistentes conhecimentos em italiano, se revelou como sendo digna de nota (o que não é espanto algum pois as traduções de Montale são clássicas e exemplares em italiano), com momentos eu julgo um tanto quanto espetaculares como, por exemplo, na segunda estrofe: "tu mio primo / conforto e ora mio cruccio", em que esse cavalgamento é tão pungente que mais parece a gota d'água. Cavalgamentos que, aliás, serão usados por Montale de forma também muito hábil no dístico de suas traduções para o soneto 22 e 33, aliás.

E assim, partindo à sombra de Montale, mas nem tanto, eu resolvi traduzir o soneto só porque Montale o traduziu. Não que eu tenha olhado pra tradução de Montale, pois, a bem da verdade, enquanto eu traduzi eu fingi que ela nem existia. O que eu fiz foi isso mesmo que eu disse: traduzi porque ele traduziu. E aí está.


trad. eu.
Quão cuidadoso eu fui tomando a estrada,
Cada minúcia pondo em firme grade
Para que em boas mãos fosse guardada
Longe de toda farsa que a degrade!
Mas você, pra quem meu tesouro é pó,
Maior conforto e minha maior dor,
Você, por quem preocupo-me tão só,
Faz-se presa a qualquer ladrão que for.
Você eu não possuo posto em arca,
Bem que te sinta, embora não esteja,
Em minh'alma gentil que o aperta e abarca
A entrar e sair como bem deseja.
    E mesmo lá temo que alguém te rapta,
    Se a roubar prêmios a verdade é apta.

§

trad. Eugenio Montale.
Con che animo, partendo, li ho rinchiusi,
i miei ninnoli, e con che serrature,
per trovarli, inusati, al mio solo uso,
da mani d’altri, cupide, al sicuro.
Ma tu che rendi men che nulla questi
gioielli se ti mostri, tu mio primo
conforto e ora mio cruccio, preda resti
d’ogni furfante che ti s’avvicina.
Non t’ho messo in alcuno scrigno, fuori
di quello in cui non sei, ben ch’io ti senta
qui pure: nell’asilo del mio cuore
dove tu giungi e parti a tuo talento.
    Per essermi rubato, poi: se avviene
    ch’è ladra anche virtù con un tal bene.



How careful was I when I took my way,
Each trifle under truest bars to thrust,
That to my use it might unused stay
From hands of falsehood, in sure wards of trust!
But thou, to whom my jewels trifles are,
Most worthy comfort, now my greatest grief,
Thou best of dearest, and mine only care,
Art left the prey of every vulgar thief.
Thee have I not locked up in any chest,
Save where thou art not, though I feel thou art,
Within the gentle closure of my breast,
From whence at pleasure thou mayst come and part;
     And even thence thou wilt be stol'n I fear,
     For truth proves thievish for a prize so dear.

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