Soneto 33.


(Ungaretti, tradutor de Shxpr.)


Esse daqui, na verdade, fazia parte de uma antiga postagem do bloguinho em que eu meio que chunchava as traduções que eu ia fazendo do Bardo. Ano novo, planos novos. O objetivo agora é colocar cada macaco no seu galho. De certo modo, é como se nesse começo de ano eu estivesse propondo a vocês que o começássemos lendo Shxpr, o que, pelo menos pra mim, é uma forma muito saudável. Mas, como não dá pra ficar traduzindo Shxpr a torto e a direito, você dá aquela disfarçada que, ué, como ninguém tá vendo mesmo!...

O soneto 33, ao contrário do 48, já é um soneto mais famoso. Logo, você pode tirar uma foto lendo ele que o pessoal vai curtir. Tem uma construção mais apurada, podemos dizer. Ou melhor: grandiosa, tendo em vista que em praticamente todos os versos o poeta infla a cena descrita e a matéria tratada. Logo no começo, por exemplo, um prelúdio de grande pompa, as manhãs são caracterizadas como gloriosas e como roçando o pico das montanhas com sovereign eye. Há, até, uma pitada de magia se considerarmos os versos que se seguem, falando de se transmutar em ouro as pale streams.

Oras: o poeta pinta tudo com as cores do dia. No começo temos as manhãs gloriosas que, se chegam a roçar os picos, por conseguinte roçam tudo o que está em baixo, mesmo porque possuem um sovereign eye que governaria a tudo. De fato é o que o poema nos diz logo depois, haja vista que essa manhã beija o meadow green com face de ouro, o que dá uma sensualizada na coisa toda. Só aqui tudo já está com uma cor dourada, o que se completa ainda mais quando esses pale streams, graças a uma heavenly alchemy, se transmutam, também, em ouro, e a preciosidade do dia se completa, tornando-o, de fato, em algo de grandiosidade ímpar, uma vez que absolutamente tudo no raio que o parta daquele dia ficou dourado.

Porém, eis que vem a chuva nos desertos sem guarda-chuva. A manhã de comercial de margarina eis que permite que um aguaceiro caia, e, com isso, seu rosto celestial recebe um ugly rack, isto é, qualquer porção de nuvem que manche aquele céu que até então, nós podemos presumir, estava limpo. O mundo, que agora é caracterizado como forlorn, provavelmente pois a chuva havia tapado a luz, não pode mais ver o rosto do céu. O que lhe resta é, com tamanha desgraça, mover-se a Oeste, o que completa, com um toque igualmente grandioso, a destruição daquele dia radiante.

Qual a relação disso com o amor sentido? Simples: é a mesmíssima coisa. O amor vem triunfante mas, eia!, dura só um pouquinho e depois adeus, adeus. Vanidade do amor toda a sua celeridade, o ir e vir tão ágil das águas da paixão. Que pena que meu estro não me permite pôr em verso a paixão que sinto escrevendo esta introdução...

O dístico se encerra com o trocadilho manjado entre suns e sons. Você e a torcida do Flamengo já o conhecem do início de Ricardo III. Toda vez é o mesmo ranger de dentes, os mesmos tufos de cabelo arrancados. Dá pra traduzir? Que eu saiba, não. O que não quer dizer que vou simplesmente colocar as mãos no bolso. Posso simplesmente sinalizar ao leitor que ali tem coisa, e tentar compensar essa perda com um outro tipo de relevo linguístico. Em minha tradução, o que fiz foi um jogo entre "sói" (do verbo "soer") e "sol", tanto no plural quanto no singular, valendo-me, no final, de um "Sol" em maiúscula pra corresponder ao heaven's sun do original. Acabei tendo também que incorrer numa elipse, haja vista que o verso na verdade diz: "Sói aos sóis se sujar, se o Sol também [se suja]".

Este soneto, tal como o 48, também recebeu uma tradução de Montale. Na verdade, não só de Montale, como também de Ungaretti, que chegou a traduzir 40 sonetos de Shxpr. A diferença entre as versões de Montale e Ungaretti rende uma discussão realmente muito boa, ainda mais se considerarmos que ambas propõem aproximações poéticas ricas ao texto shakespeariano. Comentei rapidamente as traduções de Montale na postagem passada, quando trouxe o soneto 48 e pude apontar, com o excelente artigo de Anna Focchi (aqui), que as versões de Montale lançam um arcabouço literário propriamente italiano (Dante, Petrarca) ao original de Shakespeare. No caso de Ungaretti, ao contrário do que uma leitura rápida e desdenhosa poderia dizer, suas traduções não são livres ou literais, pois, como o próprio Ungaretti acentuou, elas possuem uma estrutura métrica intrínseca bastante livre, embora, nem por isso (na verdade, justamente por isso), um tanto quanto hábil eu devo dizer. De certo modo, ainda seguindo as reflexões de Focchi, é como se Montale trouxesse o poema em italiano para próximo da cultura italiana enquanto Ungaretti se esforçasse em trazer a cultura italiana mais próxima da força originária dos sonetos de Shxpr. Uma e outra são lições importantes.

De todo modo, só a presença de dois poetas tão ilustres já seria o bastante pra que alguém se animasse de verdade a traduzir o soneto 30, mas, de todo modo, como eu disse nós estamos diante de um dos mais famosos do ciclo. Fiquemos com ele.


trad. eu.
Tantas manhãs esplêndidas eu vi
Roçarem cimos com um régio olhar,
Beijando o prado, com um rosto de ouro, e
Em ouro o branco feixe transmutar;
Que permitem que a nuvem qualquer se alce
E hórrida paire em seu rosto celeste,
E escondendo do mundo a própria face,
Míseras assim movam-se a Oeste:
E entanto, cedo raia minha aurora
Com todo um esplendor sobre o meu rosto;
Mas, posto que ela dura uma só hora,
O céu se enubla e então meu sol é posto.
      Mas ela não me trata com desdém:
      Sói aos sóis se sujar, se o sol também.

§

trad. Eugenio Montale.
Spesso, a lusingar vette, vidi splendere
sovranamente l’occhio del mattino,
e baciar d’oro verdi prati, accendere
pallidi rivi d’alchimìe divine.
Poi vili fumi alzarsi, intorbidata
d’un tratto quella celestiale fronte,
e fuggendo a occidente il desolato
mondo, l’astro celare il viso e l’onta.
Anch’io sul far del giorno ebbi il mio sole
e il suo trionfo mi brillò sul ciglio:
ma, ahimè, poté restarvi un’ora sola,
rapito dalle nubi in cui s’impiglia.
      Pur non ne ho sdegno: bene può un terrestre
      sole abbuiarsi, se è così il celeste.

§

trad. Giuseppe Ungaretti.
Ho veduto più dʼun mattino in gloria
Con lo sguardo sovrano le vette lusingare,
Baciare dʼaureo viso i verdi prati,
Con alchimia di paradiso tingere i rivi pallidi,
E poi a vili nuvole permettere
Di fluttuargli sul celestiale volto
Con osceni fumi sottraendolo allʼuniverso orbato
Mentre verso ponente non visto scompariva, con la sua disgrazia.
Uguale lʼastro mio brillò di primo giorno
Trionfando splendido sulla mia fronte;
E dell’umano clima nubi già l’hanno a me mascherato.
      Non lʼha in disdegno tuttavia il mio amore:
      Astri terreni possono macchiarsi se il sole del cielo si macchia.


Full many a glorious morning have I seen
Flatter the mountain-tops with sovereign eye,
Kissing with golden face the meadows green,
Gilding pale streams with heavenly alchemy;
Anon permit the basest clouds to ride
With ugly rack on his celestial face,
And from the forlorn world his visage hide,
Stealing unseen to west with this disgrace:
Even so my sun one early morn did shine
With all triumphant splendor on my brow;
But out! alack! he was but one hour mine,
The region cloud hath mask'd him from me now.
      Yet him for this my love no whit disdaineth;
      Suns of the world may stain when heaven's sun staineth.

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