Soneto 145.



Você encontra de tudo nos sonetos shakespearianos. Sonetos em embalagem diferente, claro, são o mínimo que alguém poderia encontrar. Você vai desde sonetos que ostentam uma simples e discreta repetição rímica (29, entre as rimas B e F, e o 87, entre as rimas A, C e E) até sonetos que possuem 12 versos, todos eles rimados de forma emparelhada (126), sonetos estrambóticos (99) e sonetos escritos em tetrâmetros e não em pentâmtros (voilà).

Isso não precisa te fazer ficar lá muito espantado. Pare e pense. É meio lógico que esse tipo de incursão tenha ocorrido. Afinal de contas, o soneto originariamente não era uma forma fixa. Pequeno som. Quem passeia pela lírica dantesca encontrará poemas com 20 e tantos e versos, e polimétricos, sendo chamados de sonetos. Quem sistematizou isso, de certo modo, foi Petrarca, e olhe lá. Com os influxos italianos na lírica renascentista de um modo geral, foi só aí que o soneto realmente passou a ser essa criatura de 14 perninhas que conhecemos.

É como se ele tivesse vindo, inicialmente, numa embalagem hermeticamente fechada antes de germinar em outros campos e chegar ao estágio atual, onde, conforme defendo em outro texto aqui do bloguinho, qualquer poema com 14 versos pelo menos estabelece uma conexão semântica com a fôrma. O caso da lírica ibérica, em específico a lusófona, é interessante. O soneto não só tinha 14 versos como era sempre veiculado em versos decassílabos e com um esquema de rimas meio que padrão (os quartetos na esmagadora maioria ABBA/ABBA e, no caso dos tercetos, uma preferência por CDE/CDE, CDC/DCD etc, e jamais algo como, sei lá, CDC/DDC). Foram necessárias décadas, séculos para que o soneto começasse a fruir um pouco das delícias do verso branco e de versos de outras medidas. De certo modo, isso só se deu mesmo na segunda metade do século XIX!

Com a lírica de língua inglesa foi um pouco diferente. O soneto inglês é uma modificação profunda e um tanto quanto idiossincrática da forma italiana. Não vou entrar aqui na discussão das raízes da forma inglesa, mas o fato é que ela é diferentona e, mais importante, é única. Ou seja: soneto inglês é ABABCDCDEFEFGG. Ponto. Qualquer mudança, por menor que seja, o descaracteriza. É como se o soneto inglês tivesse parado no tempo. Até o verso usado costuma ser seguido à risca: qual seja, o pentâmetro iâmbico. Ou, se eu quisesse dar uma outra explicação, seria a de que, como o soneto italiano se metamorfoseou de forma tão ampla que não só passou a abarcar um número amplo de possibilidades dentro de sua estrutura (de modo que, hoje, soneto italiano é todo aquele que seja rimado e que divida de forma pelo menos rimicamente clara os quartetos e os tercetos), como também deu origem a outros, de modo que o soneto inglês se viu encurralado, e qualquer forma que ele possuísse de se transformar em outra coisa parece que o impelia a deixar de ser o que era, como se seus outros irmãos tivessem usurpado as possíveis casas que ele, soneto inglês, eventualmente ocuparia.

Todavia, a ruptura originária deixou um sabor nos lábios dos sonetistas ingleses. Quem lê a poesia metafísica, por exemplo (um Henry King, caso queiramos especificar), imediatamente posterior à elisabetana (e foi durante a época elisabetana que os primeiros sonetistas ingleses surgiram, bem como os primeiros ciclos de sonetos, dentre os quais o de Shxpr é merecidamente o mais célebre ― e a glória dos ciclos de sonetos em língua inglesa só teria um correspondente, certo modo esmorecido, no período vitoriano), vai encontrar não raros poemas intitulados "Sonnet" que ostentam versos à maneira italiana arcaica, isto é, com mais de 14 versos e polimétricos. É como se o poeta inglês de então se sentisse um pouco mais livre pra batizar de soneto sua criação que destoasse da fôrma.

É uma explicação. Pode ser que mesmo então se considerasse esquisito que um poema de 12 versos e com rimas emparelhadas pudesse ser chamado de soneto. Talvez não fosse, afinal de contas, e o poema só foi colocado ali por um motivo qualquer, mesmo porque a inclusão de um ou outro não-soneto num conjunto majoritariamente de sonetos não faz mal.

Enfim. Discussões, pelo menos eu acho, interessantes. Mas, de todo modo, o soneto 145 não é lá muito apreciado. Shxpr manejou com habilidade lendária o verso curto também, o que qualquer incursão nas canções esmerilhadas ao longo de suas peças o atesta (muitas dessas canções momentos líricos tão ou mais intensos que muitos de seus próprios sonetos). Mas aqui no soneto 145 parece que ele foi convencional demais, seguindo um lugar comum poético à época. Tem gente, pra se ter uma ideia, que chega a cogitar que o soneto 145 foi escrito na juventude de Shxpr, em 1582, época em que ele estava se casando com Anne Hathaway (que parece ser referida de maneira velada ― muito velada, eu diria ― no verso 13: from hate away she threw). É o caso de Andrew Gurr, num artigo que ostenta o interessante título de "O primeiro poema de Shakespeare".

A hipótese foi contradita por Hilda Hulme, que afirmava que um trocadilho entre hate away e Hathaway não é possível nem sonoramente (enquanto um conta com um T bem definido, o outro depende de um TH), nem no contexto da época. Mais provável, diz Hulme, é que Shakespeare estivesse fazendo um trocadilho com Deil hae't, isto é, Devil have it, isto é, May the devil take it (e aqui basta se lembrar do que a estrofe anterior disse a respeito do anjo caído). Outra contra-resposta digna de nota é a disponível no site Shakespeare's sonnets (aqui): a de que Shxpr não teria como ter escrito um poema que, apesar de não ser lá essas coisas, ainda assim pressuporia um convívio por parte do jovem poeta com uma tradição sonetística qualquer que fosse.

Tudo isso certamente explica o tratamento que se é dado ao soneto, a tal ponto que ele é escorraçado da maior parte das antologias. Eu confesso que não fico muito distante disso, mas, de todo modo, ainda assim, num momento em que folheava os sonetos do Bardo, resolvi traduzi-lo, coisa que, de resto, não me foi muito penosa. Compilo também outras quatro traduções, que, afora o simples fato de terem também se proposto a traduzir o mesmo soneto que eu, se mostraram de particular interesse por detalhes outros (por exemplo o verso "Sentenças sempre docemente dava" em Oscar Mendes e "Para mim que enlanguesço por seus zelos" em Ivo Barroso). Além das traduções que apresento, sei também de uma de Maria do Céu Saraiva Jorge, uma de Samuel MacDowell Filho e uma de Vasco Graça Moura, mas não pude ter acesso a elas.


trad. eu.
Lábios, cunhados pelo Amor,
Emitem som que diz "Odeio"
A mim, que morro a seu dispor.
E ao ver que me ferem em cheio,
Surge a mercê no íntimo dela
E ela censura a língua meiga
Que agora roga essa mazela,
E a só louvar de novo a emprega.
À palavra "Odeio" pontua
Igual da noite surge o dia
E igual o céu que destitua
Um satanás à treva fria.
    O "Odeio" do ódio ela separa,
    "Mas não você" ― me diz e ampara.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
em: Sonetos, Ediouro, p. 130-131.
Seus lábios feitos pela mão do Amor
O som lançaram que dizia "Odeio";
Mas quando ela notou minha dor,
― Ela, toda a razão do meu anseio ―
A piedade tomou-lhe o coração,
E repreendendo a língua que jamais
Proferira cruel condenação,
Ensinou-a a alegrar-me uma vez mais:
"Odeio" ela alterou com um final
Que o seguiu como à noite o dia terno,
Quando a sombra, imitando o Anjo do Mal,
Do céu se precipita para o inferno:
    ― Salvando a minha vida, logo a ouvi
    Acrescentar: "um outro, não a ti".

§

trad. Oscar Mendes.
em: Obra completa, vol. III, José Aguilar, 1969, p. 873.
Lábios que a mão do próprio Amor moldou
Um som lançaram que dizia "odeio",
A mim que por ela estava a languir;
Mas quando ela viu meu ar lastimável,
Logo em seu peito sentiu compaixão,
E a bôca censurando que suaves
Sentenças sempre docemente dava,
De saudar nôvo modo lhe ensinou:
"Odeio", mas um fim lhe acrescentou
Que o seguiu, como vem um belo dia
Após a noite que, como um demônio,
Do céu às trevas infernais revoa.
    "Odeio", mas do ódio se livrando,
    "Não a ti", ela disse e em salvou.

§

trad. Ivo Barroso.
em: Os melhores sonetos, Saraiva de Bolso, 2013, p. 115.
Esses lábios que a mão do Amor fez belos
Expiaram o som que disse "Odeio"
Para mim que enlanguesço por seus zelos:
Mas quando viu meu pesaroso anseio
Logo seu coração teve piedade
Ralhando a língua de habitual tão doce
Ora usada em gentil calamidade;
Instando a que de novo meiga fosse
O "Odeio", ela alterou com um fim supremo
Que se seguiu qual dia bem-amado
Se segue à noite, como fosse um demo
Que do céu ao inferno é projetado.
    "Odeio", e uma outra vez seu ódio ouvi,
    Mas, salvando-me a vida: "Não a ti".

§

trad. Jorge Wanderley.
em: Sonetos, Civilização Brasileira, 1994, p. 321.
Lábios que a mão do amor avia
A mim me disseram: ― "Odeio"
Enquanto por eu ela morria.
Mas a seu peito logo veio
Piedade ao ver-me em tal pesar;
Calou-se a língua sempre doce
Até se fala em condenar
E nova palavra ensinou-se,
Numa mais nova conclusão
Que segue o "Odeio" como a aurora
Sucede a noite ― anjo malsão
Que cai do céu, jogado fora.
    O "Odeio", do ódio exila ― e ouvi
    A salvação: "... mas não a ti".


Those lips that Love's own hand did make
Breathed forth the sound that said 'I hate,'
To me that languish'd for her sake:
But when she saw my woeful state,
Straight in her heart did mercy come,
Chiding that tongue that ever sweet
Was used in giving gentle doom,
And taught it thus anew to greet:
'I hate' she alter'd with an end,
That follow'd it as gentle day
Doth follow night, who like a fiend
From heaven to hell is flown away;
   'I hate' from hate away she threw,
   And saved my life, saying ― 'not you.'

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