"Os Passos", de Paul Valéry.




Paulo Valério. Francês, nasceu em 1871 e deve ter sido daqueles moleques que liam tudo e corrigiam o professor. Estudou Direito e aos 19 entrou no círculo literário de Mallarmé. Mas eis que um belo dia ele viu um balde. Indagou sobre a essência-mesma do balde e, não obtendo respostas, chutou-o. O ano: 1892. Depois disso, foram 20 anos sem escrever nada que fosse literário. Apenas uns cadernos que, de madrugada, ele preenchia: os famosos Cahiers, célebres, célebres... Após a Primeira Guerra, voltou a publicar e, olha, o bigodudo (há uma foto dele com barba ao lado se Stefan Zweig, aqui) mandou bem. Casou, teve filhos, essas coisas. E ah sim: morreu em 1945.

Muito legal a vida dele, né? Ô.

Biografias à parte, Valéry foi um dos mais importantes poetas franceses modernos. Podemos considerá-lo como uma ponte compacta entre a herança simbolista, que na França já é modernidade pura, e a poesia propriamente moderna de autores como Apollinaire, Éluard ou Ponge. Assim, embora sua poesia possua uma feição clássica admirável, ela consegue operar numa fenda poemática que é uma das bases da poesia moderna. Algo na esteira da ideia da dissonância que, segundo Hugo Friedrich em seu livro clássico a respeito da lírica moderna, faz com que o espaço do poema consiga incutir uma espécie de abismo semântico.

Ou seja: tomando como base a definição de Valéry (acho que a mais precisa que já devo ter lido) de poesia como a máxima hesitação entre som e sentido, é como se o poeta realçasse essa hesitação a um nível em que a linguagem passa a adejar e quem sabe mesmo operar às raias do indizível. É uma maneira de explicar os paradoxos e contrastes que a poesia moderna ostenta com uma intensidade maior e muito mais aberta que a da poesia, no geral, até então. O poeta, com base num instrumento por natureza limitado (a linguagem), tenta fazer com que ela chegue a dizer o que não pode ser dito, valendo-se, para tal, em casos extremos, da própria dissolução e questionamento da linguagem, como no caso do lance de dados de Mallarmé.

Se a poesia, portanto, para Valéry é uma hesitação máxima, isso faz com que, a partir do momento em que nos metamos a traduzir o poema, nós devamos ter isso em mente. Para ser um pouco mais explícito, lembremos que Valéry também foi ele próprio tradutor, possuindo inclusive uma versão famosíssima das Bucólicas de Virgílio. Num texto intitulado Variations sur las Bucolicques, de 1944, ele explica que o trabalho da tradução é como uma espécie de seguir as pegadas do autor rumo àquele momento originário de sua formação, a fase em que os instrumentos de uma orquestra começam a tecer a harmonia conjunta de seus sons. Na verdade, a ideia de Valéry vai até um pouco além, pois podemos deduzir do que ele nos diz que pra Valéry a tradução é uma maneira correspondente à de se criar uma poesia pura. Isto é: a poesia pura seria a poesia que pudesse até versar sobre nada, ou seja, o poeta estaria diante da pureza de seus instrumentos, o que, se você for parar pra pensar bem, é algo muito próximo do que acontece com o tradutor de poesia, que não precisa criar um poema, preocupando-se, antes, com o que o texto já disse e manejando apenas seus instrumentos.

Em solo nacional nós podemos equacionar as ideias de Valéry no conceito da transcriação de Haroldo de Campos, o que não constitui de modo algum um problema pois, de resto, o próprio Haroldo tomou como base as ideias de Valéry, dentre outras, é claro, para formar sua teoria. Veja-se, a esse respeito, o texto Paul Valéry e a poética da tradução, que Haroldo publicou no Folhetim da Folha de São Paulo em 27/01/85 (aqui). Ou seja: o ato da tradução é um ato particularmente criador, em que nós criamos um texto que seja análogo e que transcenda a criação do original. Isso parece besteira, exagero, modernice, mas, se considerarmos casos de traduções extremas (e a tradução de poesia é um desses casos), em que temos que considerar muitos fatores atuantes ao mesmo tempo, alguns deles tão ou mais importantes que o tal do conteúdo (geralmente se chega a essa ideia do conteúdo valendo-se de uma secção e de uma ostracização semântica excessiva), então a ideia de se transcriar, recriar um texto que se comunique e corresponda da melhor forma possível ao original na cultura de chegada; essa ideia se torna perfeitamente plausível, e, importantíssimo, não se torna capricho teórico, como alguns parecem insinuar.

O poema que trago pra vocês, Les Pas, só pelo time de tradutores que ostenta já consegue demonstrar muito bem como essa concepção do trabalho da tradução está viva. Guilherme de Almeida, o primeiro tradutor do poema, não se contentava em chamar suas versões de traduções — o tradutor, pra Guilherme, tem a tarefa de re-produzir o original; Nelson Ascher, em prefácio para seu Poesia Alheia, também atesta que a única forma de se traduzir um poema é recriando-o; e Augusto de Campos... Bem. Sem comentários. Ivan Justen Santana e Cláudio Veiga eu não sei se possuem reflexões próprias sobre a tradução (o espectro das traduções do Ivan, por exemplo, é muito vasto, indo da paródia e da paráfrase à tradução mais "séria", digamos assim), mas, considerando que eu também possuo afinidades teóricas com a ideia de que traduzir um poema é, pelo menos trocando em miúdos, recriá-lo na cultura de chegada, então a maioria dos tradutores existentes de Les Pas apresentam uma afinidade teórica.

De todo modo, Les Pas foi publicado em Charmes, coletânea de poemas de 1922 que é a central na obra de Valéry. É aí que você vai encontrar todos os poemas mais casca-grossa do autor, como o Cemitério Marinho, A Jovem Parca e Fragmentos de Narciso. Da lírica breve que compõe o livro, Les pas é, ao lado de Les grenades e Le sylphe, dos mais célebres.

Há um clima de acalanto muito forte no poema e uma sensualidade entretecida por uma alma à flor da pele. O eu lírico está tão sensível que os simples passos de sua amada não só o colocam à beira do colapso, como também fazem com que ele exista na simples aproximação daqueles passos. Esse clima de atenção máxima é propiciado pelos movimentos que o eu lírico faz entre a frieza e placidez dos passos, sua carnalidade gélida, com o ardor da espera do eu lírico, bem como num jogo de presença e ausência e realidade e sonho que preparam o terreno pro embate propriamente sonoro do poema. Alguns enxergam no poema uma metáfora pra composição poética, o que é uma interpretação interessante pois, assim, a cena retratada no poema falaria do processo de transformação da inspiração lírica em material propriamente poético, e a aproximação abstrata dos passos que se achegam a alguém em vigília (ou seja, esse alguém devia estar dormindo mas está acordado — mas acordado de um jeito meio sonolento, extasiado, enfeitiçado) que vai se concretizando (em especial na terceira estrofe) até abarcar o coração do eu lírico, é uma situação que parece mimetizar a do poeta que, atento e meio imerso na aproximação da matéria lírica, a concretiza num poema e trancafia, por assim dizer, e funde o eu de agora no eu lírico do poema.

Veja-se este trecho, do ensaio de Valéry a respeito de sua tradução das Bucólicas, em que Valéry fala a respeito do como o trabalho do poeta é basicamente um trabalho de tradutor e do como o poeta se vê diante do nada, de uma hesitação que lhe é própria (conforme traduzido por Haroldo de Campos no texto já citado):

Uma pessoa que faz versos, suspensa entre seu belo ideal e seu nada, está nesse estado de expectação ativa e interrogativa que a torna única e exclusivamente sensível às formas e às palavras que a idéia de seu desejo, retomada como se representada de modo indefinido, requer, demandando perante uma incógnita, aos recursos latentes de sua organização de falante, — enquanto não sei que força cantante exige dele aquilo que o pensamento totalmente nu não pode obter senão por uma chusma de combinações sucessivamente ensaiadas. O poeta escolhe entre estas, não certamente aquela que exprimiria mais fielmente o seu "pensamento" (é a tarefa da prosa) e que lhe repetiria então o que ele já sabe; mas antes aquela que um pensamento por si só não pode produzir e que lhe parece ao mesmo tempo estranha e estrangeira, preciosa, e solução única de um problema que não se pode enunciar senão quando já resolvido.

Les Pas é um dos poemas que melhor incorpora o título da coletânea, Charmes, que, em latim (carmina), se refere tanto a poemas quanto a canções encantatórias. Algo à maneira da oitava bucólica de Virgílio, um dos melhores correspondentes ao poema de Valéry tal como, em campo lusófono, o Eros e Psiquê de Pessoa, se considerarmos a dinâmica do amor e do sonho que engendram o objeto de desejo que, alfim, deglute o criador, uma vez que o objeto de desejo acaba sendo... ele próprio. Não se trata de uma comparação qualquer pois o manuscrito do poema ostentava inicialmente o título PSYKÉ (os manuscritos também apresentam Approche de Psyché), e o poema era, de fato, a respeito de Psiquê indo ao leito de Eros. (O manuscrito está disponível no artigo de Florence de Lussy, Manuscripts steps: 'Les Pas', p. 200-216, em Reading Paul Valéry, org. Paul Gifford, Cambridge UP, 1998.)

Afinal de contas, Valéry, como eu disse, é um poeta que eleva a tensão entre som e sentido, própria, segundo ele, da poesia, a um dado fundamental da composição poética. Ele é, nesse sentido, descendente das ideias de Edgar Allan Poe, introduzido em terreno francês por Baudelaire. Para Poe, num ensaio como The Philosophy of Composition, o fulcro da criação poética é engendrar um efeito, e isso a tal ponto que quando Poe foi escrever O Corvo, ele primeiro definiu a forma do poema pra só depois definir o conteúdo (e essa inversão da composição do poema, isto é, forma → conteúdo quando o normal, digamos, seria conteúdo → forma, é uma característica da lírica moderna, segundo Friedrich). Com Valéry é parecido, e em alguns casos foi justamente isso. Ele também preza o efeito que o poema é capaz de produzir, e tanto que, em outros textos a respeito da tradução, ele diz que traduzir é reconstituir da maneira mais fiel possível um efeito decorrente de certa causa.

Se a tradução, portanto, seria um processo criador, traduzir um poema como Les Pas, que causa um efeito fugidio e leve, sensual, no leitor, especialmente graças à forte aliteração em S no poema todo, é chegar ao mesmo efeito com os instrumentos que convierem. Ou seja: não basta apenas que se chegue a um resultado que consiga bater direitinho com o que uma tradução literal forneça. É preciso ter em mente também a forma do texto enquanto aspecto constitutivo tão importante quanto o conteúdo do poema propriamente dito. A bem da verdade, há quem diga (por exemplo Greimas), seguindo as ideias da forma do conteúdo e conteúdo da forma, do linguista Louis Hjelmslev, que tudo é conteúdo. E se tudo é conteúdo, até mesmo a própria forma, buscar o conteúdo e desprezar a forma é, ainda assim, não buscar o conteúdo!

Como eu disse lá atrás, essa atenção ingênua no assim denominado conteúdo advém de uma secção e ostracização semântica: você pega aspectos do texto que são uma fonte semântica tão importante quanto o significado dicionarizado das palavras, e os coloca em segundo plano. Talvez no caso de uma mensagem corriqueira, prosaica, a forma do discurso não intervenha de modo decisivo nem se revele uma fonte semântica digna de atenção (quem sabe num âmbito maior, na esfera do gênero, venha a ser). Mas se no poema, pra me valer da fórmula de Roman Jakobson, os elementos textuais são elevados à categoria de elementos constitutivos da mensagem, não se pode, logo, passar por cima de qualquer elemento que seja sob a desculpa de estar buscando acima de tudo o conteúdo.

Oras: se essa estratégia é válida, a estratégia de eventualmente fugir da letra do original, como dizem, em prol de formalidades que sejam, pode ser tão válida quanto, pois nós ainda estaríamos falando do semantismo do texto, de sua aparelhagem geradora de significados. Claro que o bom tradutor quer sempre o saldo máximo, e, justamente por buscá-lo, é que, mesmo que sob o jargão da transcriação ou sob o jargão do "manter a poesia etc etc", ele buscará sempre chegar a um resultado que corresponda da forma mais razoável e literária possível ao original na cultura de chegada — do mesmo modo que a chamada fuga à letra deve ser sempre sopesada na leitura de uma tradução de maneira mais ampla e lúcida possível, de modo que quem foge da letra em excesso mudando o significado de palavras também incorre em erros tão graves quanto os de quem, também em excesso, ignora a composição poética e versificatória do original. É impossível, eu digo em suma, pensar a tradução sem que atrelemos à discussão a ideia da razoabilidade.

As traduções que compilo são uma continuação e uma ampliação do trabalho originário do passista Ivan Justen Santana em seu blog Um sim em si, todas no seguinte link aqui. O que fiz foi: 1) adicionar as referências bibliográficas para as traduções até onde me foi possível; 2) adicionar a primeira versão da tradução de Ascher, publicada em 11/02/89 na Folha de São Paulo, e a de Cláudio Veiga; e 3) adicionar a tradução de Augusto de Campos, que saiu em maio d'ano passado na Musa Rara (lembro direitinho do êxtase de logar no facebook e, entre o tiroteio político — Valéry! Augusto!). Há uma boa discussão a respeito desse poema e das traduções existentes até então no livro Poética do traduzir (edUSP, 2003), de Mário Laranjeira. É dele, por exemplo, que tirei a primeira versão da tradução de Cláudio Veiga. O autor nota, por exemplo (p. 64), que o poema abre com Tes pas e fecha com vos pas, característica que ele julga como essencial (fala sério: nada como um bom tradutor de poesia pra notar essas coisas, né?). Também em A comédia intelectual de Paul Valéry (Iluminuras, 2007), de João Alexandre Barbosa, um clássico da recepção do autor em solo nacional, podemos encontrar boas observações, como, por exemplo, a tensão jamais desfeita ao longo do poema entre silence no verso 1 e vigilance no 3.

Há uma tradução recente de Álvaro Faleiros, conforme consta na programação da II Semana de Estudos Franceses na UNIFESP, em 19/11/15 (aqui). Infelizmente não tive acesso a ela. Cláudio Nunes de Morais, que traduziu Valéry em junho de 2006 para o Suplemento de Minas Gerais (aqui), eu não sei se chegou a traduzir o poema de lá pra cá. Uma coletânea de traduções inglesas pode ser lida aqui (aqui). A tradução de Rilke, aqui (aqui). As anotações de Maureen Jameson (aqui) me foram particularmente úteis.

Minha versão foi basicamente uma maneira de bater ponto e expandir um pouquinho a postagem. Uma humilde contribuição tendo em vista o rol de estrelas que já seguiram as pegadas de Valéry...



OS PASSOS.
trad. Guilherme de Almeida.
em: Poetas de França, Cia. Editora Nacional, 4ª ed., 1965, p. 277-279.

Filhos do meu silêncio amante,
Teus passos santos e pausados,
Para o meu leito vigilante
Caminham mudos e gelados.

Que bons que são, vulto divino,
Puro ser, teus passos contidos!
Deuses! os bens do meu destino
Me vêm sobre esses pés despidos.

Se trazes, nos lábios risonhos,
Para saciar o seu desejo,
Ao habitante dos meus sonhos
O alimento feliz de um beijo,

Retarda essa atitude terna,
Ser ou não ser, dom com que faço
Da vida a tua espera eterna,
E do coração o teu passo.

§

OS PASSOS.
trad. Cláudio Veiga (1ª versão).
em: Mini-antologia Bilíngue de Poesia Francesa, Livraria Universitária, 1972, p. 103.

De meu cismar sem voz, brotando
Teus passos, santa, lentamente,
Meu leito insone vêm buscando
Num frio caminhar silente.

Que bom teu andar comedido,
Pessoa pura e dom sem luz!
Deus! Toda graça que eu convido,
Teu pé descalço a mim conduz!

Se, com teus lábios esboçados,
Para amainar o seu desejo
Ao dono vens de meus cuidados
Ceder o pábulo de um beijo,

Urgir não queiras a ternura,
Dulçor de ter, não ter lugar,
Vos esperar me foi ventura,
Bate em meu peito vosso andar.

§

OS PASSOS.
trad. Cláudio Veiga (2ª versão).
em: Blog Um sim em si, 21/03/07, aqui.

Filhos que são do meu cismar,
Teus passos, santa e lentamente,
Meu leito insone vêm buscar,
Em procissão fria e silente.

Que bom teu andar comedido,
Pessoa pura e dom sem luz!
Deus! Toda graça que eu convido,
Teu pé descalço a mim conduz!

Se, com teus lábios esboçados,
Para amainar o seu desejo,
Ao dono vens de meus cuidados
Ceder o pábulo de um beijo,

Urgir não queiras a ternura,
Dulçor de ter, não ter lugar,
Vos esperar me foi ventura,
Bate em meu peito o vosso andar.

§

O PASSO.
trad. Nelson Ascher (1ª versão).
em: Folha de São Paulo, Folhetim, 11/02/89. Aqui.

Teu passo, inato ao meu silêncio,
sagrada e lentamente urgido,
até o meu leito insone e tenso
procede frio e sem ruído.

Sombra divina, forma pura:
Deus!... tudo que de bom supus
– passo contido, que doçura! –
vem para mim sobre pés nus.

Se nos teus lábios salientes
preparas paz para o desejo
que ocupa toda a minha mente
com o alimento de teu beijo,

Retém o enlevo ainda à parte,
No doce impasse existo e passo,
pois eu vivi só de esperar-te:
meu coração pôs-se em teu passo.

§

O PASSO.
trad. Nelson Ascher (2ª versão).
em: Poesia Alheia, Topbooks, 1998, p. 208-209.

Teu passo, inato ao meu silêncio,
Beira sagradamente, a fio,
Meu leito insone e, com imenso
Vagar, vem vindo mudo e frio.

Sombra divina, forma pura:
Deus!... tudo que de bom supus
– Passo contido, que doçura! –
Já se aproxima com pés nus.

Se, lábios entreabertos, frente
A mim, reservas ao desejo
Faminto que me ocupa a mente
Este alimento que é teu beijo,

Mantém o enlevo ainda à parte
(No doce impasse existo e passo),
Pois, ao viver só de esperar-te,
Meu coração pôs-se em teu passo.

§

TEUS PASSOS.
trad. Ivan Justen Santana.
em: Blog Um sim em si, 23/03/07, aqui.

Teus passos, crianças de meu silêncio,
Santamente, lentamente dados,
Ao leito da minha vigilância
Seguem calados e enregelados.

Feito ninguém, qual sombra divina,
Como são doces teus passos-luz!
Céus!... Todos os dons que a alma adivinha
Vêm vindo a mim sobre esses pés nus!

Se com teus lábios, tão saliente,
Preparas tu, para apaziguar,
Ao habitante da minha mente
A nutrição que contém beijar,

Refreia os passos de ação tão terna,
Dulçor de ser e não ser mais (passos),
Pois sigo vivo só à vossa espera,
Meu coração sendo os vossos passos.

§

TEUS PASSOS.
trad. Augusto de Campos.
em: Musa Rara, 14/05/15. Aqui.

Em meu silêncio esses teus passos
Soam-me santos, compassados,
E em meu sentir, sem deixar traços,
Prosseguem calmos e calados.

Puro ser, sombra de sons mudos,
Como é suave o teu compasso!
Com que divino dom eu passo
A existir nesses pés desnudos!

Se te ocorrer ao meu escasso
Vazio aplacar o desejo
De ocupar o meu oco espaço
Com o alimento do teu beijo,

Não antecipes a ventura
De ser e não ser teu ex-passo,
Porque eu vivi essa doçura
De exercer meu ser no teu passo.

§

O PASSO.
trad. eu.

Passo, casta de meu silêncio
Que, casto, passa compassado
Quando em minha vigília vens e o
Passo emudece, enregelado.

Ó ser somente, ó sombra esplêndida,
Quão doce o teu passo se fez!
Deus!... quanta graça o ser aprende da
Vinda de teus pés em nudez!

Se com teu lábio, que se avança,
Tu fazes que conceda a calma,
Num só beijo enseja a sustança
Ao habitante de minh'alma

E não apressa o aceno brando,
Doce ser e não ser!, pois passo
A vida inteira te esperando
Como se eu fosse em vosso passo.


LES PAS.

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés. 


Personne pure, ombre divine,
Qu'ils sont doux, tes pas retenus !
Dieux !... tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus !

Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l'apaiser,
A l'habitant de mes pensées
La nourriture d'un baiser,

Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d'être et de n'être pas,
Car j'ai vécu de vous attendre,
Et mon coeur n'était que vos pas.

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