Byron: a fellow of infinite jest.

 


Creio que você pode dispensar isso daqui que vou dizer na introdução se saltitar, logo de cara, rumo ao que Deborah Raymann e Vinícius José Henrique escreveram em artigo a respeito do poema (aqui). Você pode estar particularmente curioso em saber se a taça de crânio realmente existiu, e parece que sim, ela existiu. Não era exatamente de ninguém dos Byron's; era, ao que tudo indica, de um dos monges que já haviam morado por ali. Foi encontrada por um criado de Byron, meio que ao acaso, e Byron, vendo que ela tinha o formato de uma taça, resolveu brincar com a situação, chegando até mesmo a criar uma tal de Order of the Skull, com mais ou menos uma dúzia de membros, onde todos usavam gorros negros e recitavam versos e eventualmente o inscreviam lá na taça.

Durante a cremação de Shelley, o que pode ser lido num manuscrito de Trelawny (aqui), Byron chegou a manifestar interesse pelo crânio de Shelley, mas a esposa de Shelley, Mary, deu um chega-pra-lá. Não que Byron pretendesse caçoar do crânio do amigo, enchendo-a até a borda de Dolly Guaraná; é que, como o corpo de Shelley ficou dez dias debaixo d'água, seu rosto e suas mãos estavam irreconhecíveis, o que talvez tenha contribuído para aumentar o interesse em poder guardar o crânio e o coração do amigo consigo.

Mas tá bom. Falar disso é meio macabro. Acho que podemos mudar de assunto, pois, se tá difícil pra você, que tá lendo, imagina o cagaço que eu, que escrevo, não tô. O poema ali, está vendo? Oi, poema. Byron é reconhecidamente o poeta maldito, e o lance da taça de crânio só ajuda a intensificar a maneira com que podemos olhar para uma figura dessas. Quer dizer: o cara tinha uma FODENDA taça de crânio. Quando Edna O'Bryen chama Byron de o primeiro rockstar do mundo, isso não parece algo tão absurdo assim. É como se Byron fosse o correspondente do século XIX a arrancar a cabeça de um morcego no meio de um show.

E no entanto, com Byron a atualização do tema do memento mori é irônica até as tripas. Byron é um artista extremamente irônico, a tal ponto que, se considerarmos que sua ironia opera ao rés do chão, que Byron não sai muito da esfera terrestre pra navegar as águas da imaginação, então o comentário de Harold Bloom de que Byron é o menos romântico dentre os românticos ingleses se torna no mínimo intrigante. A situação descrita no poema é a de uma taça feita de crânio humano, o que por si só parece sinalizar para uma espécie de falta de respeito. Se eu pego um crânio e transformou numa taça, eu certamente estou me cagando praquilo ali. Não estou numa postura certo modo reverente como a de Hamlet ao empunhar o crânio de Yorick na primeira cena do quinto ato da peça de Shakespeare. Na peça, Hamlet contempla um camarada que foi, em vida, um verdadeiro palhaço (literalmente), mas que, agora, estava mudo, reduzido a pó. As implicações disso no contexto da peça são grandes, tanto que, a partir de certo ponto na história, as encenações de Hamlet passaram a pegar esse lance do empunhar um crânio humano e refletir sobre a vanidade da vida, e o retroprojetar lá no terceiro ato, que é quando Hamlet monologa: "To be or not to be". É assim que o senso comum acha que está na peça, quando na verdade não é bem por aí. E tanto que encenações contemporâneas como as de Derek Jacobi ou Kenneth Branagh brincam com isso ao introduzirem a cena de Hamlet monologar e vestir uma máscara de caveira.

O fato é que existe uma reverência. O ser humano diante da morte. Aquilo ali é o que acontecerá com todos. É preciso viver, é preciso fazer o que tem pra ser feito agora mesmo. Os mortos continuam vivos de algum modo, seja na forma de Fantasmas, seja na presença incômoda de uma caveira enviando uma espécie de mensagem tantos anos depois para aquele jovem que agora empunha sua caveira. Não há espaço para zombaria numa cena assim.

Com a simples ideia de uma taça de crânio, como eu dizia, é mais ou menos pelo contrário. Uma taça de crânio é pura chacota. Mas aqui é preciso transcender um pouquinho isso. Existem versos inscritos nessa taça de crânio. Nós podemos ler, a princípio, como se a taça estivesse nos comunicando algo, e a mensagem da taça não é nem um pouco legal. Se antes estávamos por cima da carne seca, agora ela passa uma rasteira na gente e diz que já foi igualzinho nós (início da segunda estrofe), e que não tardará o momento em que iremos para a tumba. Seremos daquele jeitinho. Por isso, carpe diem. Se não em vida, que pelo menos em morte. É uma maneira, essa, de inclusive transcender a própria morte, pois se, morto, eu sou um objeto que insufla vida nas outras pessoas, eu por conseguinte me torno vivo.

Mas quem escreveu esses versos na taça de crânio evidentemente foi uma outra pessoa. Temos aqui, portanto, uma dupla mensagem. Alguém pegou o crânio e já o fez de taça e depois inscreveu os versos. Não dá pra dizer que essa pessoa só inscreveu, sem tornar o crânio numa taça, pois, se assim fosse, então alguns desses versos deixariam de ter sentido (como por exemplo os que dizem explicitamente a respeito do vinho). É uma opção de análise. Ela pode ser contraposta à de que o eu lírico escreveu aqueles versos já numa taça de crânio, o que nos leva, todavia, a uma outra senda. Aqui nós não temos uma figura intermediária como que perdida no tempo nos dando aquela interpretação a respeito da taça. Essa segunda opção de análise, que toma o eu lírico como autor dos versos, me parece até mesmo a mais firme dentro do contexto do poema (a ideia de uma outra pessoa, que não o eu lírico ou o próprio crânio, é basicamente uma informação que adicionamos ao poema), mas, de todo modo, independente de qual das duas leituras você tome, em ambas o que nós temos é que o autor dos versos escreve a partir da perspectiva daquele crânio.

O crânio não fala. Quem fala é quem escreveu os versos, fazendo de conta que o crânio está falando contigo. Oras: é um exercício imaginativo que é basicamente imposto. Vamos supor que eu só possa ler o poema dentro da circunstância de que ele é o crânio de um monge. Um monge dificilmente nos dirá que é melhor mesmo gozar a vida e, depois de morte, servir de taça pra alguém do que ser repasto de vermes. A mensagem que um monge, se lhe fosse dado realmente inscrever algo em seu crânio, seria outra. O que o ato de alguém inscrever nessa taça, assim sendo, implica é que se está impondo algo, independente dessa ter sido ou não a vontade em vida do indivíduo. Ele insufla vida em algo que, fisicamente, é o fim e ponto. Mas ele remodela esse "fim e ponto" de tal maneira que ele passa a ser útil, vivo.

E aqui é como se tivéssemos um jogo de poder. Seja lá quem inscreveu os versos na taça de crânio, impôs àquela taça uma vida que não necessariamente foi a que o dono do crânio teve em vida. O problema é que os versos inscritos servem fundamentalmente pra levar o leitor pra mesma vala. Ou seja: leitor, você está comigo nessa. Eu embarquei nesse lance todo quando em vida, e assim estou agora morto, então, se resigne e venha comigo. Mas quem lançou a taça propriamente dita nessa vala não foi a própria taça, e sim um outro alguém que, dentro da lógica do que ele próprio escreveu na taça, e no uso que ele fez daquela taça, parece jogar a todo mundo no mesmo buraco numa tacada só.

Na verdade, nós podemos até dizer que a taça se distingue dos vivos, pois, conforme dito na primeira estrofe, nela, "unlike a living head, / Whatever flows is never dull." O louvor à morte, tendo como base a morbidez de um crânio, é realçado de maneira a implicar num saldo basicamente positivo. Aquele crânio, daquele jeito, tornado em taça, é mais vivo do que muita gente. E, dentro do que os versos inscritos nos dizem, ele escarnece disso, o que é visto em especial no final do poema. É como se a caveira de Yorick tivesse se virado pra Hamlet e dissesse: "Pois é, Hamlet meu véio, eu tô assim, eu fui assado... mas olha só pra você, todo de preto, todo chorão. O mundo dá voltas, kridinho."

De fato, dá voltas.

§

Compilo aqui todas as traduções do poema em português que encontrei, continuando o trabalho iniciado por Adriano Scandolara em postagem para o escamandro. Incluo também, como de praxe, uma versão minha, só pra bater ponto.

§

P.S. (01/02/16): Conforme consta em comentário, a tradução de Emmanuel Santiago saiu no facebook na mesma data que minha postagem. Sua tradução, de grande competência e muita criatividade, buscou verter a cadência do original de Byron em eneassílabos martelados. É uma forma de análise e percepção do original que se aproxima bastante da leitura feita por Adriano Scandolara, com a diferença de que, enquanto Adriano se vale daquilo que Paulo Henriques Britto chama de correspondência formal, com Emmanuel nós temos a chamada correspondência funcional.

P.S. (26/11/16): Adicionada a versão de Kleiton Muniz, inclusa em sua página de facebook, Multipalavra, aqui.

P.S. (25/01/17): Adicionada a divertidíssima versão de Wagner Schadeck, inclusa em seu perfil pessoal de facebook. Gostei muito desse "oprime".


A UMA TAÇA FEITA DE UM CRÂNIO HUMANO.
trad. Castro Alves.
em: Espumas flutuantes, 1870.

Não recues! De mim não foi-se o espírito…
Em mim verás ― pobre caveira fria ―
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!… que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
― Taça ― levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
…Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p’ra alguma coisa!…

§

VERSOS GRAVADOS NUMA TAÇA FEITA DE CRÂNIO HUMANO.
trad. Luiz Delfino.
em: O Cristo e a adúltera, póstumo, 1941.

Encerro em mim o filtro da alegria:
      Não fui da morte a presa:
Não te amedrontes: outro não diria
      O mesmo com certeza.

Beber e amar foi toda a minha vida.
      Furtaram-me ao jazigo;
Bebe em meu crânio: mais devora o verme
      Do que teu lábio amigo.

Taça, onde fervem vinhos espumosos
      No festim que fulgura,
Melhor aí reino, que entre esses convivas,
      Que enchem a sepultura.

Esgotem dela o espírito festivo,
      Que já foi meu outrora,
Quem ao demo o mandou, bebendo nela
      Bota as tristezas fora...

Anda: bebe depressa, a pleno copo...
      Quando tu fores morto,
Outros hão de em teu crânio achar um dia
      Forças, prazer, conforto.

E por que não, ó fútil criatura?
      Que seja a tua sorte,
Crânio, que em vida bens não sabes dar-nos,
      Dá-los depois da morte.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE UM CRÂNIO.
trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
em: Poemas, editora Hedra.

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie a terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus.

Antes do que nutrir a geração dos vermes,
Melhor conter a uva espumejante;
Melhor é como taça distribuir o néctar
Dos deuses, que a ração da larva rastejante.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora eu;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as frontes geram tal tristeza
Através da existência –curto dia–,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

§

LINHAS INSCRITAS NUMA TAÇA FEITA DE CRÂNIO HUMANA.
trad. livre de Leonardo de Magalhaens.
em: Leitura e Escrita e Traduções, 18/09/10, aqui.

1.

De início não me julgue sem gênio:
Não veja em mim apenas o crânio,
Do qual, não sendo cabeça viva,
Deixa fluir sem perder o ânimo.

2.

Vivi, amei, bebi, do mesmo modo:
Morri: deixe à terra os meus ossos;
Encha a taça – a mim não é ofensa;
O verme tem lábios mais toscos.

3.

Melhor conter a uva radiosa,
Que abrigar as larvas na lama;
Conter num formato de taça
A bebida divina, longe da cova.

4.

Onde outrora brilhou o gênio,
Deixe agora brilhar para outros;
Ah!, quando se perde os miolos,
Há melhor recheio que o vinho?

5.

Beba enquanto pode! Outros virão
Depois de nós, a ficarem iguais;
Livre-se do abraço da terra
Recite e festeje com um morto.

6.

Por que não? No dia-a-dia da vida
Nas cabeças abrigamos tristezas;
Salvo dos vermes e do barro,
Ao menos ter alguma utilidade.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE UM CRÂNIO.
trad. Adriano Scandolara.
em: Escamandro, 22/10/12, aqui.

Não temas: a alma não partira
Só em mim dos crânios que já viste
Vês que, não como um que suspira,
Nada que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi qual tu;
Morri: a terra não desejo:
Despeja! ― em meu osso cru
Mais vil é ter da larva o beijo.

Pior servir do verme a raça
Do que à parreira com seus lumes,
Guardando néctar, como taça,
Não o dos répteis, mas dos numes.

Onde brilhara a minha mente,
P’ra as outras, deixa-me brilhar;
Que é mais nobre, se é o miolo ausente,
Que o vinho, então, em seu lugar?

Há tempo, bebe: ao morrer
Os teus e tu, que uma outra prole
Co’os mortos vá rimar, beber,
E a paz da terra assim viole.

E por que não ― se a mente abala
A vida com seu breve dia?
Na redenção do verme e vala,
É a chance de ter serventia.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA COM CRÂNIO HUMANO.
versão de Ivan Justen Santana.
em: Blog Um sim em si, 29/10/12, aqui.

Não te assustes! Aqui estou, em copo e alma;
      O único crânio (sem remédio)
Do qual, diverso da mente humana,
      Flui tudo menos tédio.

Vivi, amei, bebi, tal como tu:
      Morri: que a terra não me tenha;
Enche-me!― já estou mais que nu;
      Antes teus lábios que os da tênia.

Antes ser taça a um bom espumante
      Que berço a um verme enroladinho;
Correr de boca em boca, sempre avante,
      Esquivo aos répteis, levando vinho.

Aqui talvez brilhou meu cérebro:
      Agora aos outros brindarei
E após ― ó vida! ― voar meu gênio
      Trago comigo vinhos de rei.

Bebe tu enquanto podes: outra raça,
      Quando restarem só os teus ossos,
Talvez também os tome e faça
      De ti uma taça e versos insossos.

Então por que não? Se a vida é breve
      E os nossos crânios já estão cheios disso,
Longe de argilas e beijos de vermes,
      Cumpram também tal sacro ofício.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE CRÂNIO.
trad. Wagner Schadeck.
em: Poesia politicamente incorreta, Rascunho, out./2015, aqui.

Não hesites! Não fora esquivo
Meu espírito. O crânio nédio
Que vês, ao contrário de um vivo,
Nenhuma vez fluíra o tédio.

Vivi, amei, bebi e um dia
Morri. Ossos, a terra sabe-os.
Serve-te! Isto não me injuria.
O verme tem mais torpes lábios…

Prefiro a uva rubicunda
A nutrir larvas. E estar farto
Do mel dos deuses que circunda,
Não de comida de lagarto.

Onde me tem brilhado a verve
Que brilhe aos outros um caminho.
Caso o cérebro não conserve,
O que há mais nobre do que o vinho?

Se podes, bebe. E gente estranha,
Como contigo me comporto,
Salvar-te-á da terrena entranha,
A cantar e farrear com o morto.

Por que não? No dia da vida,
Produz-nos a cabeça o fútil.
De lodo e vermes redimida,
Eis a sua chance pra ser útil.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE CRÂNIO HUMANO.
trad. Pedro Mohallem.
em: Blog Esta pouca cinza fria, 07/15, aqui

Não temas ― de alma não me privo:
Meu crânio é o único que existe
Onde, contrário a um rosto vivo,
O quanto flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi qual tu;
Morri: que a terra não me queira:
Bebe! Não causas dano algu';
Do verme a boca é mais traiçoeira.

Antes conter da vinha o lume
Do que nutrir do verme a raça,
E não do réptil, mas do nume
Servir o néctar como taça.

Onde talvez brilhou-me o siso,
Por bem dos outros vá brilhar;
E, estando o cérebro diviso,
Entorne o vinho em seu lugar!

Bebe; aproveita enquanto podes,
Pois quando, assim como eu, morreres,
Serás violado, e orgias e odes
Hás de fazer com outros seres.

E por que não ― se é curta a vida
E na cabeça o mal repousa?
Estar dos vermes redimida
Pode servir de alguma cousa.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE CRÂNIO.
trad. Emmanuel Santiago.

Não, eu não exauri minha mente:
Em mim tens a primeira cabeça
Que, ao contrário de quando vivente,
Pensamento não traz que aborreça.

Eu já amei, na bebida fui firme,
E estou morto: que a terra me cuspa;
Serve o vinho, não podes ferir-me
Mais que os lábios de um verme sem culpa.

É melhor ter do vinho a graça
Que dos vermes a prole aviltante,
E do néctar dos deuses ser taça
Que do pasto de um ser rastejante.

Permita-me brilhar outra vez,
Onde, outrora, o intelecto fez ninho;
Pois se o cérebro já se desfez,
Pr’a se pôr no lugar, bom é o vinho.

Bebe! E quando não haja um amigo
Vivo mais, e nem tu, que um estranho
Venha te profanar o jazigo
E rimar e fartar-se em teu crânio.

Por que não? Se esta vida é fugaz
E a cabeça remói e angustia?
Redimida por vermes mortais,
Tenha agora, oxalá, serventia.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE CRÂNIO.
trad. eu.

Não tema ― nem me julgue inane:
    Contempla em mim somente o crânio
Que, distinto dos vivos, bane
    Tudo o que se mostre tacanho.

Também vivi e bebi muito:
    Morto, que a terra não me admita.
Encha tudo ― que eu não me insulto:
    Boca de verme é mais maldita.

Antes à vide em esplendor
    Do que aos vermes tornar-me adepto, e
Pôr na taça o excelso licor
    E não o repasto do réptil.

Onde antes o engenho luzira,
    Talvez, pra outros deixe que luza.
Quando o cérebro se retira,
    É ao vinho que se busca e usa.

Bebe enquanto pode ― defuntos
    Eu e você, novas etnias
Te arrancam da terra pra, juntos,
    Foliar e compor poesias.

E por quê não?, se o dia deixa
    Em nós uma angústia inconteste?
Remido o verme, essa é a brecha
    Pra enfim fazer algo que preste.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE UM CRÂNIO.
trad. Kleiton Muniz.

Não temas — inda há alma aqui:
Ao contrário de um crânio vivo,
Este jamais fluirá de si
Algo que seja cansativo.

Vivi, amei, bebi, qual tu:
Morri: tiraram-me da terra;
Entorna-me — teu lábio nu
Não ferra mais que um verme ferra.

Melhor o vinho receber
Que a larva podre umedecida;
No cálice, um néctar suster
Do que dos répteis a comida.

Onde brilhou a minha mente,
Por outras, deixe-me brilhar;
Se foi-se o cérebro, há suplente
Melhor que o vinho em seu lugar?

Beba, inda há tempo — uma outra raça,
Quando, com os teus, fordes aos fossos,
Vos livrará da terra, à caça
De vos gozar também os ossos.

E por que não? Se cria, em vida,
Toda cabeça, tanto mal,
É bom, dos vermes redimida,
Poder ser útil afinal.

§

VERSOS INSCRITOS NUMA TAÇA FEITA DE CRÂNIO.
Wagner Schadeck, 2ª versão.

Parado aí! Sem preconceito!
Veja que espírito ainda exponho:
Diverso de um vivo sujeito,
O meu crânio não é enfadonho.

Gozei a vida sem regime;
Morto, me come a terra intruja.
Então prove! Isso não me oprime:
O verme é bem mais boca-suja...

Melhor com uvas fulgurando
Que embalar bolos de lombriga;
E com a ambrosia circulando,
Não na reptiliana barriga.

Que a minha verve exulte um pouco
O povo à luz da plenitude!
Quando o cocuruto está oco,
O vinho não lhe dá virtude?

Se quiser, beba! Um bando alheio,
Tal como contigo eu me ajunto,
Remindo-te do térreo enleio,
Vai compor versos com defunto.

Por que, não? Se no alvor da vida,
Nossa cabeça é depressiva.
De lodo e vermes redimida,
Então pra alguma coisa sirva.


LINES INSCRIBED UPON A CUP FORMED FROM A SKULL.

Start not—nor deem my spirit fled:
   In me behold the only skull
From which, unlike a living head,
   Whatever flows is never dull.

I lived, I loved, I quaff’d, like thee:
   I died: let earth my bones resign;
Fill up—thou canst not injure me;
   The worm hath fouler lips than thine.

Better to hold the sparkling grape,
   Than nurse the earth-worm’s slimy brood;
And circle in the goblet’s shape
   The drink of Gods, than reptiles’ food.

Where once my wit, perchance, hath shone,
   In aid of others’ let me shine;
And when, alas! our brains are gone,
   What nobler substitute than wine?

Quaff while thou canst—another race,
   When thou and thine like me are sped,
May rescue thee from earth’s embrace,
   And rhyme and revel with the dead.

Why not? since through life’s little day
   Our heads such sad effects produce;
Redeem’d from worms and wasting clay,
   This chance is theirs, to be of use.

Comentários

  1. Bizarro! Dia 26 também publiquei minha tradução desse poema lá no Facebook...

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    1. Depois você pode me passá-la, pra que eu a inclua na postagem, Emmanuel?

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  2. Chanspeak em análise literária é sempre divertido.

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