Um natal com Robert Louis Stevenson.


Talvez você não saiba que o romancista autor daqueles livros tão amados tenha sido também poeta. Muitas vezes, amigo leitor, é melhor nem saber. Mas é Natal. Portanto, sejamos natalinos. Mesmo porque, nós estamos diante de um caso eu julgo tocante. Tudo bem que, de novo, como é Natal, qualquer droga que seja fica tocante. Enfim. O que quero dizer é: você vai se emocionar com mais essa aventura, pode crer. Christmas at sea foi publicado em 1888 e reflete a vida de viagens que Stevenson levou, apesar de sua saúde frágil. Nesse ano mesmo, aliás, o autor se encontrava praticamente só em alto mar junto da esposa e do enteado, num veleiro que saía quicando em tudo quanto é arquipélago do Pacífico-Sul.

Escrito em versos de 7 pés com uma cesura muito bem demarcada (trocando em miúdos, você lê o verso e parece que consegue reparti-lo em dois pedaços de tamanho mais ou menos igual), o poema parece imitar o ir e vir das ondas, e, de fato, é um poema notável haja vista que, ao lado de seus termos náuticos espalhados (sheets, a-lee, top gallant sails, windward etc), faz com que nós também nos sintamos como marujos daquela tripulação. Eu diria que é até um pouquinho além, pois mesmo quando a câmera narrativa nos faz ficar em terra firme, nós ainda assim estamos em alto mar, como que demonstrando que, afinal de contas, nós não estamos de fato em terra firme mas ouvindo, junto com o narrador, sua história e reviravoltas (haja vista que o narrador fala diretamente a nós: "For it's just that I should tell you how"), mas também demonstrando que ainda que saiamos do mar, esse mar ainda ficará em nós com o balanço de suas ondas.

A história começa com uma iminente destruição tão intensa que o próprio navio fere os marujos. Estão no meio de uma pesada tempestade, o que é um início in media res à maneira das epopeias. Assim que enxergam uma réstia de luz ao longe, se animam e içam velas rumo àquela direção. Mais alguns dias de perrengues e eis que avistam o lar do salva-vidas, que, ao que tudo indica, estava um tanto quanto pacato, tanto que o salva-vidas usava óculos (lembre-se que estamos no século XIX e que usar óculos era só quando fosse realmente necessário, de preferência no aconchego do lar bebericando um pouco de chá).

É aqui que surge o plot twist no poema, pois aquele lugar tão agradável não era simplesmente um lugar qualquer. Era a casa de infância do eu lírico. E o interessante é que o próprio eu lírico chega até a sugerir que a tripulação descesse e buscasse por víveres: "And I vow we sniffed the victuals as the vessel went about." A gente sabe que isso é meio que uma desculpa, pois víveres mesmo ele não queria que fossem buscar: ele queria era rever seus parentes. Mas, afinal de contas, rever seus parentes é uma forma de buscar por víveres. É uma necessidade interna, da alma. O problema, porém, ó mundo cruel, é que não foi o que aconteceu, conforme deduziremos da penúltima estrofe.

De todo modo, a câmera narrativa como que sai agora das intempéries do alto mar e passa para o íntimo de um dos marujos: no caso, o narrador. Nós acompanhamos com ele aquela casa distante, a sua casa, e imaginamos como sua família estava passando aquele Natal sem o filho. Eles bem que poderiam estar, sei lá, farreando, servindo arroz com uva passa ou qualquer coisa do tipo, mas, como acompanhamos a cena pela ótica do narrador que está tão perto e tão distante de sua família, qualquer coisa que estivesse acontecendo dentro de casa não mudaria o fato de que a lembrança chegou de maneira intensa.

É como se a esse marujo fosse aplicada a pergunta com que Machado fecha seu célebre Soneto de Natal: mudaria o Natal ou mudei eu? Não dá pra saber. O navio, que até então parecia velho e destruído pela intempérie, de novo iça velas e vai pra longe dali (de se notar que "but the sails were new and good"). A câmera narrativa sai do íntimo do marujo e alcança um we. O desânimo se reapossa no navio. É como se aqueles marujos estivessem presos no navio, presos ao mar, distantes até mesmo das bênçãos de Natal. Eles envelhecem. Apenas isso: envelhecem. Se o Natal é tempo de renovação, praqueles pobres diabos... Ah, pra eles não tem nada disso não. Terrível, não é verdade?

Christmas at sea não é o único texto de Stevenson a respeito da data. Dele você também encontra uma oração natalina (aqui), se bem que não estou muito certo da autoria, e um pequenino livro chamado A christmas sermon (aqui), escrito no leito de morte praticamente, que possui passagens de sabedoria acentuada e um tanto quanto lúgubre como:

A vida não é designada para que ministre à vaidade de um homem. Ele percorre sua longa estrada a maior parte do tempo com a cabeça pendida, e o tempo todo como uma criança cega. (parte IV)

Não sei dizer direito o que pode motivar que no Natal eu faça essa postagem. Não dá pra simplesmente querer converter o poema traduzido numa mensagem positiva que você coloque no bolso e mostre, de vez em quando, pras outras pessoas no ônibus. Ele parece surgido da experiência de vida do próprio autor (e isso é mais do que plausível, pois bastava pra Stevenson pôr a cabeça pra fora que material pra compor o poema ele já tinha), ou no mínimo de uma experiência que ele, que também viajou muito, bem sabia imaginar, qual seja, a de que a vida ao mar possui suas vicissitudes e que uma delas é a distância para com as pessoas amadas. Ou seja: o mar não simplesmente separa as pessoas. Se você está no meio do mar, você está separado de tudo. É muito intensa a pungência, de modo que, se formos parar pra pensar bem, é até melhor que o poema não se cristalize numa espécie de pérola sapiencial. Do jeito como está, ele pede que nos compadeçamos daqueles marinheiros, que tentemos lançar-lhes, pelo menos, um olhar daqui de onde estamos, em terra firme. Isso seria pelo menos uma maneira de consolo.

O poema possui um ritmo, como eu disse, muito bem marcado. Temos um verso de 7 pés de ritmo marcadamente iâmbico. Conforme diz Carol Runners, analisando o poema para o The Guardian em 24/12/12 (aqui), "O metro é regular, no geral; mas o implacável subir e descer evoca um movimento ascendente e uma falta simultânea de progresso: a cesura frequentemente leve adiciona uma hesitação momentânea, como se o verso possuísse uma crista e estivesse prestes a tombar." Não me esforcei em manter um ritmo propriamente iâmbico no poema, no sentido de vai-ficar-assim-também, o que, se fosse realmente o caso, deveria acoplar concepções contemporâneas de acentuação silábica na métrica de língua portuguesa desenvolvidas por nomes como Cavalcanti Proença e Glauco Mattoso (para além da prática propriamente dita de um Carlos Alberto Nunes). Tentei pensar um ritmo, um tanto quanto instintivamente, que fosse apenas marcado e que fluísse em torno de uma estruturação binária ou terciária. Assim, embora existam versos realmente iâmbicos no poema, como o terceiro, este não foi meu escopo.







NATAL EM ALTO MAR.

Os cordames, gelados, cortavam a nossa mão;
O deck, espada, mal deixava o nauta erguer-se ao chão;
O vento, a Norte e Oeste, vinha cheio de tormento;
E maremotos e ondas enormes, só, a sotavento.

Nós ouvimos rugirem vagas mesmo antes da aurora;
Só a débil luz mostrava o mal que nos pungia agora.
De pronto então rumamos todos para o deck, dispostos ―
De pronto içando a vela grande e de pronto ficando a postos.

O dia todo em meio a Norte e Sul nós navegamos;
O dia todo, sem proveito, os cordames puxamos;
O dia todo em dor e cisma, frio como o diabo,
Nós navegamos natureza afora cabo a rabo.

Ancoramos no Sul pois é lá que a onda estrondeia;
Mas a cada manobra é só ao Norte que se abeira:
E então vimos colinas, casas, vagas contra escolhos
E o salva-vidas no jardim, com óculos nos olhos.

O gelo nos telhados tal como a espuma marinha;
A rubra chama cujo ardor por toda a praia vinha;
As chaminés saúdam e as janelas relampejam;
Voto buscarmos víveres que aí, certo, sobejam.

Os sinos das igrejas todos badalavam co' altivez;
E (entre todos os dias do ano), digo-te de vez
Que na santa manhã de Natal se deu nosso azar,
E o lar do salva-vidas, na verdade é o meu lar.

Ah!, vi a amável sala e a gente amável que ali vai,
O branco rosto de mamãe, os brancos fios de papai;
E enxerguei bem o ardor, parelho ao drapejar de fadas,
Junto às louças chinesas dançar, no armário colocadas.

E eu soube da conversa que tiveram, sobre mim,
Filho lançado ao mar, e o quanto tudo ficou ruim;
Quão tolo eu parecia, e que assim qualquer um me chame,
Ali estando, em pleno Natal, puxando cordames.

A luz-marítima desligam, e a treva se apossa.
"Todos içando as gáveas", grita o capitão, voz grossa.
Jackson, primeiro marinheiro, diz: "Mas não aguenta!"
... E o capitão responde: "Jackson! É bom que dê. Tenta!"

Ela até que vacila, mas, as velas todas novas,
Vai-se o navio a barlavento contra toda prova.
E findo aquele dia de inverno, às portas da noite,
Passado o cabo, longe da luz o navio foi-se.

Com exceção de mim, cada um ali se lamentava,
Notando a proa que belíssima ao mar navegava,
Pois que reflito, absorto em frias trevas que esmorecem,
Que me afasto de casa e meus amigos envelhecem.


CHRISTMAS AT SEA.

The sheets were frozen hard, and they cut the naked hand;
The decks were like a slide, where a seaman scarce could stand;
The wind was a nor'wester, blowing squally off the sea;
And cliffs and spouting breakers were the only things a-lee.

They heard the surf a-roaring before the break of day;
But 'twas only with the peep of light we saw how ill we lay.
We tumbled every hand on deck instanter, with a shout,
And we gave her the maintops'l, and stood by to go about.

All day we tacked and tacked between the South Head and the North;
All day we hauled the frozen sheets, and got no further forth;
All day as cold as charity, in bitter pain and dread,
For very life and nature we tacked from head to head.

We gave the South a wider berth, for there the tide race roared;
But every tack we made we brought the North Head close aboard:
So's we saw the cliffs and houses, and the breakers running high,
And the coastguard in his garden, with his glass against his eye.

The frost was on the village roofs as white as ocean foam;
The good red fires were burning bright in every 'long-shore home;
The windows sparkled clear, and the chimneys volleyed out;
And I vow we sniffed the victuals as the vessel went about.

The bells upon the church were rung with a mighty jovial cheer;
For it's just that I should tell you how (of all days in the year)
This day of our adversity was blessèd Christmas morn,
And the house above the coastguard's was the house where I was born.

O well I saw the pleasant room, the pleasant faces there,
My mother's silver spectacles, my father's silver hair;
And well I saw the firelight, like a flight of homely elves,
Go dancing round the china plates that stand upon the shelves.

And well I knew the talk they had, the talk that was of me,
Of the shadow on the household and the son that went to sea;
And O the wicked fool I seemed, in every kind of way,
To be here and hauling frozen ropes on blessèd Christmas Day.

They lit the high sea-light, and the dark began to fall.
'All hands to loose top gallant sails,' I heard the captain call.
'By the Lord, she'll never stand it,' our first mate, Jackson, cried.
… 'It's the one way or the other, Mr. Jackson,' he replied.

She staggered to her bearings, but the sails were new and good,
And the ship smelt up to windward just as though she understood.
As the winter's day was ending, in the entry of the night,
We cleared the weary headland, and passed below the light.

And they heaved a mighty breath, every soul on board but me,
As they saw her nose again pointing handsome out to sea;
But all that I could think of, in the darkness and the cold,
Was just that I was leaving home and my folks were growing old.

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