Um, digamos, poema natalino de Wordsworth.

 


Conduzi com mãos péssimas meu bloguinho esse ano. Eu poderia ter feito muito mais, e, no entanto, estamos chegando no final de dezembro e com perigo de que nem mesmo uma mísera postagem eu fizesse. Seria a treva! Mas vamos tentar nos reerguer. Não culpo o tempo, pois acho que quem fica na esparrela de que não faz aquilo que toca até a corda íntima de seu ser por uma mera questão de tempo... Essa pessoa está com desculpas. Assim, posso prometer que tentarei manter um ritmo mais ou menos constante e, se o ânimo realmente for da forma como pretendo que seja, até intenso, quem sabe.

Meus votos de Natal continuam de pé. A época mais linda do ano não poderia deixar de comparecer aqui na minha humilde morada virtual. O poema que traduzo abaixo é de um poeta já apresentado a vocês, o compadre Wordsworth. Tendo em vista que um dos objetivos de parte da lírica wordsworthiana foi o de se aproximar da singeleza da linguagem comum das pessoas, postando-se ao rés do chão com toda uma humildade que no Brasil nós podemos dizer, anacronicamente, bandeiriana, acho que a cena retratada por Wordsworth tem sempre um lugar nos nossos corações. É um poeminha bem singelo que traz à tona a ocasião, não sei até que ponto comum aí onde você mora, de cantadores que vão às casas tocar um pouco canções natalinas. Eles devem cantar pra todos os presentes, o que explica os últimos versos do poema, e ganham uns trocados com isso.

Não há muito o que ser dito. A situação é essa, direta, clara. O clima campestre que Wordsworth constrói é muito bem realizado, em especial na primeira estrofe, com a lua como que laureando com seu brilho natural aqueles menestréis que, conforme depreendemos da segunda estrofe, não eram lá essas coisas. Eles eram esforçados. Eram humildes. É possível que a apresentação deles tenha sido bem ruinzinha, mas ainda assim o clima natalino vai fazer com que as pessoa se emocionem nem que um pouco. Afinal de contas, a coisa aqui sai um pouco da esfera artística individual e parece até mesmo imergir num inconsciente coletivo, num arcabouço musical próprio de uma comunidade. Veja-se o que o poeta diz, algumas estrofes depois, a respeito de um sentimento que nos acomete de repente:

          Mútuo aceno ― os graves extremos
          De um espírito radiante;
          E o pranto, que vem num instante
          Ouvindo um nome que esquecemos ―
          Pranto que tremeluz porque
          Ouviu ninarem um bebê.

[The mutual nod,--the grave disguise / Of hearts with gladness brimming o'er; / And some unbidden tears that rise / For names once heard, and heard no more; / Tears brightened by the serenade /  For infant in the cradle laid.]

Mas aqui, claro, você manda parar. Como assim "algumas estrofes depois"? Tem mais? Sim, tem. Esse poema que eu traduzo, eu traduzo apenas as três primeiras estrofes. Não sei se você já chegou a recebê-lo numa daquelas mensagens bregas que toda tia manda no fim de ano, mas, se você já recebeu, pode ser que você receba com espanto a informação de que o poema tem mais estrofes. Sim, ele tem, embora essas três primeiras funcionem que é uma beleza como um poema em separado (alguns até dão título: Minstrels muito original). A versão completa do poema encabeça uma sequência de sonetos que Wordsworth escreveu para o rio Duddon, e é dedicada ao Rev. Dr. [Christopher] Wordsworth, irmão do poeta. A sequência foi escrita entre 1804 e 1820, e no início tinha 33 sonetos; depois, mesclado ao livro Poetical Works, de 1827, passou a ter 34. Um deles, a meu ver o melhor, diz na primeira estrofe:

          Eu penso em Ti, ó meu parceiro e guia,
          Como passado. ― Ó tolo encantamento!
          Se olho pra trás, Duddon, num só momento
          Vejo o que esteve, está e estará um dia.

[I thought of Thee, my partner and my guide, / As being past away.—Vain sympathies! / For, backward, Duddon! as I cast my eyes, / I see what was, and is, and will abide;]

Você pode ler o poema completo aqui. O comentário que fiz, eu repito, refere-se somente às estrofes que traduzi, quais sejam, as três primeiras. O restante do poema traz uma lembrança que Wordsworth faz de seu irmão, e traz toda aquela patacoada da infância. O prelúdio natalino serve tanto como um início lírico quanto uma forma de contraponto a expressões mais pagãs ao longo do poema. Raphael Soares, que ano passado também se insuflou do espírito natalino, traduziu o mesmo trechinho que eu em seu blog, aqui.


Canções de Natal os menestréis
Tocaram hoje em meu chalé,
Enquanto a lua acerta até
As densas folhas nos lauréis
Dando de volta um brilho farto
Que enriqueceu seu verde-mato.

Colina e vale além, a brisa
Despenca e descansa do voo.
O ar agudo não congelou o
Som tocado, ou o paralisa,
Tanto a banda à canção se aplica
Tocando-a com devoção rica.

Quem não ouviu? até que dessem
Honras a todos os presentes,
Deram músicas de presentes
Aos de casa que ali estivessem,
Com vigor votando, ao final,
A todos um Feliz Natal!


The minstrels played their Christmas tune
To-night beneath my cottage-eaves;
While, smitten by a lofty moon,
The encircling laurels, thick with leaves,
Gave back a rich and dazzling sheen,
That overpowered their natural green.

Through hill and valley every breeze
Had sunk to rest with folded wings:
Keen was the air, but could not freeze,
Nor check, the music of the strings;
So stout and hardy were the band
That scraped the chords with strenuous hand.

And who but listened?
till was paid
Respect to every inmate's claim,
The greeting given, the music played
In honour of each household name,
Duly pronounced with lusty call,
And "Merry Christmas" wished to all.

Comentários