"O que o tordo dissera", de Keats.

 


Não pretendo me demorar muito a respeito deste poema. Nós o encontramos pela primeira vez numa carta de 19 de fevereiro de 1818 que Keats escreveu para John Hamilton Reynolds. Ele só receberia o título What the thrush said, "O que o tordo dissera", depois. Como eu também traduzo a carta, não vou ficar elucubrando muito a respeito dos significados do poema, pois acho que basta que você leia. Entender eu sei que são outros quinhentos, ainda mais numa carta tão wtf como essa de Keats. Sabe aquele amigo que quando fica bêbado te liga? Reynolds sabe como você se sente, pois, ao que tudo indica, Keats acordou com preguiça até de ordenar o raciocínio e resolveu escrever pro amigo. Acontece nas melhores rodinhas poéticas.

Também, como no caso de outras postagens que fiz nessa reta final de ano, não vou me preocupar muito em explicitar o que pretendo ao trazer este poema em específico à baila. (A essa altura do campeonato você já deve ter imaginado que não, nem eu sei.) Eu apenas digo que, em minha tradução, por motivos não muito explicitáveis (isto é, eu digo mais por motivos que remontam a uma espécie de senso rítmico que tive e que de algum modo me pareceu adequado), eu verti os pentâmetros do original num verso de 11 sílabas com cesura na 5 (como é comum que os versos de 11 sílabas possuam), com exceção dos dois últimos onde eu realmente não consegui manter a cesura no lugar, de modo que tive que deslocá-la para a 6ª.


Para John Hamilton Reynolds.
De Hampstead, 19 de fevereiro de 1818.

Meu caro Reynolds —

Tive a ideia de que um Homem pode passar uma vida muito agradável da seguinte maneira — Deixe-o ler certo dia uma certa página repleta de Poesia ou Prosa destilada, e deixe-o pensar sobre isso, e se aclimatar àquilo, e profetizar sobre aquilo, e sonhar com aquilo: até se tornar gasto — Mas quando isso ocorreria? Nunca — Quando um Homem chega a certa maturidade intelectual, qualquer passagem grandiosa e espiritual lhe serve como ponto de partida rumo aos "trinta e dois Palácios" [referência à doutrina budista tibetana dos trinta e dois "palácios do prazer"; ler sobre isso aqui]. Quão alegre é uma viagem tal de concentração, que Indolência deliciosa e diligente!... Nem esse toque escasso dos nobres Livros será, de todo, irreverência a seus Escritores — pois talvez as honras pagas de um Homem a outro sejam ninharias em comparação com o Benefício dado por grandes obras ao "espírito e pulsação do bem" graças a sua mera existência passiva. A Memória não deve ser chamada de Conhecimento — Muitos têm mentes originais o suficiente pra não pensar nisso — muitos são conduzidos pelo Costume. Agora me parece que quase todo Homem trata a teia de aranha de seu íntimo como sua própria Cidadela aérea — os ramos e folhas dos quais a aranha inicia seu trabalho são alguns apenas, e com belo circuito o ar inteiro ela preenche. O Homem deve contar com o menor número possível de pontos que ladeiem a fina Teia de sua Alma, e tecer uma tapeçaria imperial cheia de símbolos para seu olho espiritual, de brandura para seu toque espiritual, de espaço para seu caminhar, de distinção para sua luxúria. Mas as Mentes dos Mortais são tão distintas e tendem tanto a caminhos diversos que a princípio pode parecer impossível que qualquer gosto comum e camaradagem exista entre duas ou três dessas suposições. E todavia, é quase que o contrário. As Mentes deixariam as outras em direções contrárias, atravessariam as outras em numerosos pontos, e ao menos cumprimentariam cada qual no fim da jornada. Um Velho e uma criança falariam juntos e o Velho tomaria seu caminho e a criança continuaria pensando. O Homem não deveria discutir ou asseverar mas sussurrar resultados aos que lhe são próximos e assim graças a cada germe de espírito chupando a seiva do barro etéreo o ser humano se engrandeceria, e a Humanidade ao invés de se tornar ampla charneca de Tojo e Urze-molar com Carvalho e Pinheiro remotos aqui e ali, tornar-se-ia uma grande democracia de Árvores Florestais! Já é uma velha comparação que nos estimula — a Colmeia; entretanto, me parece que seria melhor se fôssemos flor e não Abelha — pois é uma falsa noção essa de que ganhamos mais recebendo do que dando — não, quem dá e quem recebe são iguais em benefícios. A flor, eu não duvido, recebe um galardão maior que a Abelha — suas folhas ganham cores mais vivas na próxima primavera — e quem dirá, entre um homem e uma mulher, qual dos dois é o mais deleitado? É melhor sentar-se como Jove do que voar como Mercúrio — portanto que não venhamos a correr pra coletar mel, zunindo como abelhas aqui e ali, impacientemente em busca de um conhecimento do que se busca; antes, vamos nos abrir como flores e vamos ser passivos e receptivos — florescendo pacientemente sob o olhar de Apolo e haurindo as deixas de cada nobre inseto que nos favorece com sua visita — seiva será dada como comida e orvalho como bebida. Fui levado a estes pensamentos, caro Reynolds, graças à beleza da manhã operando num senso de Preguiça — não li nenhum livro — a Manhã disse que eu estava certo — não tive nenhuma ideia que não a manhã, e o tordo disse que eu estava certo — como que dizendo,

        Ó tu, cujo rosto já sentiu o inverno,
        Cujo olhar viu nuvens suspensas na névoa
        E o cimo de outeiros junto a astros gélidos,
        Por ti a primavera é tempo de colheita.
        Ó tu, cujo livro tem sido o clarão
        Da suprema treva que tu fomentaste
        Noite a noite logo que Febo ausentou-se,
        Por ti a primavera será tripla aurora.
        Ó não busque pelo saber — que não tenho,
        E entanto meu canto é simples como sopro.
        Ó não busque pelo saber — que não tenho,
        E entanto o crepúsculo escuta. Quem sofre
        Ao pensar na preguiça não tem preguiça,
        E quem pensa que dorme é quem 'stá desperto.

Mas sei bem que isso tudo é mera sofisticação (embora ela se avizinhe de qualquer verdade) para desculpar minha preguiça — então não vou me decepcionar caso um homem realmente não seja igual a Jove — mas pensar bem nele como uma espécie de Mercúrio de quinta categoria, ou mesmo uma Abelha operária. Não importa se estou certo ou errado, de um jeito ou de outro, se for o bastante pra pelo menos se erguer um pouquinho em seus ombros.

Com afeição de seu amigo,
John Keats



To John Hamilton Reynolds

From Hampstead, February 19th, 1818

My dear Reynolds

I had an idea that a Man might pass a very pleasant life in this manner — Let him on a certain day read a certain page of full Poesy or distilled Prose, and let him wander upon it, and bring home to it, and prophesy upon it, and dream upon it: until it becomes stale — But when will it do so? Never — When Man has arrived at a certain ripeness in intellect any one grand and spiritual passage serves him as a starting-post towards all 'the two-and-thirty Palaces.' How happy is such a voyage of concentration, what delicious diligent Indolence! ...Nor will this sparing touch of noble Books be any irreverence to their Writers — for perhaps the honors paid by Man to Man are trifles in comparison to the Benefit done by great works to the 'spirit and pulse of good' by their mere passive existence. Memory should not be called Knowledge — Many have original minds who do not think it — they are led away by Custom. Now it appears to me that almost any Man may like the spider spin from his own inwards his own airy Citadel — the points of leaves and twigs on thich the spider begins her work are few, and she fills the air with a beautiful ciruiting. Man should be content with as few points to tip with the fine Web of his Soul, and weave a tapestry empyrean full of symbols for his spiritual eye, of softness for his spiritual touch, of space for his wandering, of distinctness for his luxury. But the Minds of Mortals are so different and bent on such diverse journeys that it may at first appear impossible for any common taste and fellowship to exist between two or three under these suppositions. It is however quite the contrary. Minds would leave each other in contrary directions, traverse each other in numberless points, and at last greet each other at the journey's end. An old Man and a child would talk together and the old Man be led on his path and the child left thinking. Man should not dispute or assert but whisper results to his neighbour and thus by every germ of spirit sucking the sap from mould ethereal every human might become great, and Humanity instead of being a wide heath of Furze and Briars with here and there a remote Oak or Pine, would become a grand democracy of Forest Trees! It has been an old comparison for our urging on — the Beehive; however, it seems to me that we should rather be the flower than the Bee — for it is a false notion that more is gained by receiving than giving — no, the receiver and the giver are equal in their benefits. The flower, I doubt not, receives a fair guerdon from the Bee — its leaves blush deeper in the next spring — and who shall say between man and woman which is the most delighted? Now it is more noble to sit like Jove than to fly like Mercury — let us not therefore go hurrying about and collecting honey, bee-like buzzing here and there impatiently from a knowledge of what is to be aimed at; but let us open our leaves like a flower and be passive and receptive — budding patiently under the eye of Apollo and taking hints from every noble insect that favours us with a visit — sap will be given us for meat and dew for drink. I was led into these thoughts, my dear Reynolds, by the beauty of the morning operating on a sense of Idleness — I have not read any books — the Morning said I was right — I had no idea but of the morning, and the thrush said I was right — seeming to say,

        O thou whose face hath felt the Winter's wind,
 
        Whose eye has seen the snow-clouds hung in mist, 
        And the black elm-tops 'mong the freezing stars, 
        To thee the Spring will be a harvest-time.
        O thou, whose only book has been the light 
        Of supreme darkness which thou feddest on 
        Night after night when Phoebus was away,
        To thee the Spring shall be a triple morn.
        O fret not after knowledge — I have none,
        And yet my song comes native with the warmth. 
        O fret not after knowledge — I have none,
        And yet the Evening listens. He who saddens 
        At thought of idleness cannot be idle,
        And he's awake who thinks himself asleep.

Now I am sensible all this is a mere sophistication (however it may neighbor to any truths), to excuse my own indolence
— so I will not deceive myself that man should be equal with Jove — but think himself very well off as a sort of scullion-Mercury, or even a humble Bee. It is no matter whether I am right or wrong, either one way or another, if there is sufficient to lift a little time from your shoulders.

Your affectionate friend,
John Keats 

Comentários