"Feriados santos", de Longfellow.

 


A impressão que tenho é que Longfellow parece ser um poeta que te pede pra que você traduza aquele poema que bem entender, em especial aquele que parece ter surgido na sua frente ao sabor do acaso. Claro que sempre tem aqueles famosões ou aqueles que eventualmente possam se revestir de alguma importância, como por exemplo a coletânea Poems on Slavery ou mesmo o longo Evangeline, que funciona até bem como um retrato de época. Ou então aqueles antológicos, como o caso de Excelsior, The arrow and the song (que recebeu uma tradução interessante de Henriqueta Lisboa, descobri recentemente) ou The skeleton in armor (que, se fosse transformado numa canção de heavy metal, talvez resultasse em algo interessante).

Mas existe também o fascínio daqueles poemas ocasionais, aqueles poemas que, tendo em vista que nossa época não é uma época dada à fruição da poesia do autor, demonstra seu encanto assim que por uma espécie de conjunção dos astros, como eu disse, você entre meio que de forma inesperada em contato com o poema e pimba!, curtiu. É o que aconteceu comigo este Natal. Lá estava checando meu e-mail, marcando como lidos os e-mails das namoradas e esperando, afora isso, receber o Poem-a-day do Poets.org. Você se inscreve no site deles e eles te mandam um poeminha diário. Muitas vezes, ler esse poeminha recebido vai ser a melhor coisa que você vai fazer o dia inteiro.

Como era Natal, eu imaginei que viria um poema daqueles de arrasar quarteirão. Longfellow. Oh. Bem, interessante. Longfellow, apesar de não ter muita moral com a gente hoje, em vida foi daqueles poetas tão queridos e amados (num nível que, no Brasil, eu penso de imediato em Bilac ou Quintana), que provavelmente vai ser bom deixar de lado um pouco o peso do armamento crítico pra poder apreciar, sem querer nada com nada, esse poema aqui que me mandaram. Um singelo soneto que celebra as delícias de passar um feriado sozinho, sem qualquer coisa grandiosa como por exemplo uma viagem que você tenha planejado desde o começo do ano. Não. Só isso: estar consigo mesmo, como se aquele fosse um dia como todos os outros, quando você sabe que, na verdade, dada a importância do feriado, não é, e, no meio daquela situação propícia a se perder na espuma dos dias, você de repente viver um dos dias mais memoráveis da sua vida.

Gosto disso. Saborear a solidão é uma coisa que considero importante. É uma independência, uma liberdade, embora, como diga Auden em In memory of Sigmund Freud, "(...) To be free / is often to be lonely (...)". O Natal desse ano na minha família foi meio estranho pois uma tia-avó faleceu na véspera de Natal, de modo que, por mais que todos estivessem se divertindo pra valer na confraternização de sempre, alguma coisa estava faltando. Alguma coisa: ela. A sabedoria que esse soneto de Longfellow é capaz de nos trazer também abarca situações assim. Não vou dizer por você, mas por mim mesmo: eu saí consideravelmente mais rico depois de ler esse soneto.

Isso me lembrou de imediato uma citação de Clarice Lispector que li muito tempo atrás. Ela diz:

Fiquei sozinho um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentado num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesmo e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo.

Quando você lê citações de Clarice na internet, você fica com um pé atrás pois aquilo pode muito bem ser de um escritor de auto ajuda wannabe de qualquer fundo de poço Brasil afora. Mas essa citação é de Clarice mesmo: está no romance Um sopro de vida, de 1978, na página 71. Descobri isso graças a uma citação de um livro de Igor Rossoni, Zen e a poética auto-reflexiva de Clarice Lispector, editora Unesp, 2002, p. 181 (aqui).

Oras: e não é isso mesmo? Não é isso mesmo o que o poema de Longfellow fala? Pois então. O soneto de Longfellow foi publicado no livro Kéramos, and other poems, de 1878, especificamente numa seção chamada A book of sonnets. Não é um livro que apresenta nada de mais, mesmo dentro da própria poesia de Longfellow. Da parte dos sonetos, por exemplo, eu só destacaria The harvest moon, que me encanta meio que de forma abobalhada. Mas enfim. Engraçado pensar como um século separa o soneto de Longfellow e o livro de Clarice, tão íntimos entre si, não é mesmo?

Fica aí essa reflexão.


FERIADOS SANTOS

Santo entre feriados santos esse
    Que nós passamos em silêncio e sós;
    Secreto aniversário d'alma em nós
    Quando o fluir das emoções encheu-se; ―
Dias contentes de céu não nublado;
    Riso que do íntimo das trevas veio
    Como fogo em carvão; célere anseio
    De andorinha que ao vento tem cantado!
Alvo como o fulgor de um barco ao léu,
    Alvo como uma nuvem flui no céu,
    Alvo como o alvor de um lírio ao rio
Estas memórias são; ― Conto de Fadas
    De tão longínquas terras encantadas,
    Amáveis várzeas que ao sonhar se viu.


HOLIDAYS

The holiest of all holidays are those
    Kept by ourselves in silence and apart;
    The secret anniversaries of the heart,
    When the full river of feeling overflows;—
The happy days unclouded to their close;
    The sudden joys that out of darkness start
    As flames from ashes; swift desires that dart
    Like swallows singing down each wind that blows!
White as the gleam of a receding sail,
    White as a cloud that floats and fades in air,
    White as the whitest lily on a stream,
These tender memories are;— a Fairy Tale
    Of some enchanted land we know not where,
    But lovely as a landscape in a dream.

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