"Árvores de Natal", de Frost.

 


Depois que apresentei o sr. Frost de forma um tanto quanto corrida a vocês na postagem que fiz do autor aqui no bloguinho, eu considero que isso tenha sido o suficiente pra que pelo menos um aperto de mão tenham trocado, e considero também que, deste rápido encontro, vocês já tenham sacado que Frost é um cara que, claro, não gostava de traduções (hunf! e eu também não gosto dele, bobão) mas não só isso: ele é também um cara que costuma trazer sempre uma poesia marcada por contradições e fendas essenciais. Neste singelo poema que trago pra vocês em pleno Natal, um poema que é tipo um clássico dos poemas-para-Natal, nós conseguimos ver isso de maneira até interessante.

A começar do manejo do verso branco que, como disse também na postagem passada, é meio que um clássico particular da poesia de Frost. Poucos como ele souberam chunchar uma voz-do-povo em seu verso como o caso de Frost, o que, tendo em vista que estamos lidando com um verso metrificado (mas elástico o suficiente), resulta numa experiência poética sui generis. Digo sui generis pois nós sabemos que nossa fala não é algo tão apartado assim de dimensões rítmicas, e, se fôssemos parar pra escandir as merdas que falamos diariamente, nós então chegaríamos num punhado de "versos" que eu te garanto que de livres, livres, não teriam muito. Frost meio que entendeu isso e, valendo-se de um verso que possui uma constrição formal ― embora, como eu tenha dito, uma constrição formal um tanto quanto elástica (à maneira do verso branco do último Shakespeare) ― conseguiu trazer um conteúdo que você lê e parece que escuta a pessoa sussurrando em seu ouvido ao mesmo tempo que saboreia a cadência bem marcada.

Nesse poema daqui nós temos basicamente alguém que vive no interior, mas que não necessariamente é um simplório, e que recebe a visita de alguém da cidade que havia esquecido alguma coisa sem a qual não tinha como ter Natal. Que coisa é essa?!, você pergunta sem nem me esperar terminar o raciocínio. Eu explico. Imaginemos a cena. Mas só que sob a ótica de uma pessoa do interior ― ou seja, imagine que eu e você somos do interior e temos que cogitar como seria a vida na cidade (acredite: as pessoas do interior adoram fazer isso). O cara de terno pula do carro, um carro sempre muito chique que evidentemente dirige sozinho e faz sabe-se lá Deus o quê, chega em casa no meio da ceia de Natal, entrega pros filhos um video-game de última geração e vai cortar o chester que o fogão também fez sozinho. A esposa tá meio zangada e diz que ele, marido, nunca se lembrava mesmo, e que só isso já era uma verdadeira [insira um palavrão bem moderninho] ― mas que naquele Natal ele havia exagerado. Esquecer isso? É demais! Esquecer o quê, o marido pergunta enquanto tira a gravata. Oras: esquecer a árvore de Natal!

Isso seria péssimo. E é meio que por causa disso que o homem da cidade foi pra lá. Claro que, a bem da verdade, não foi assim, assim. Afinal de contas, o cara da cidade quer comprar muitas árvores. Ele quer mil. Ele quer, na verdade, que todos os homens da cidade que passam o dia trancafiados num terno ― ele quer que esses homens passem longe da situação chata de terem que passar o Natal sem uma árvore (ou que a família deles passe, visto que, afinal de contas, eles são da cidade grande e vão passar o Natal por teleconferência). Oras: o Natal precisa fazer com que as pessoa consumam. E a árvore de Natal é um símbolo disso, pois nós colocamos os presentes debaixo dela e a árvore precisa ser gorda. Daí a necessidade das árvores. Daí as mil.

O eu lírico, do interior, que atende o homem da cidade (eu adoro do detalhe dele ir perguntar "quê que tá pegando" enquanto abotoa o casaco), possui uma postura crítica a respeito disso tudo, e chega até mesmo a ser tentado a vender as árvores. Ou melhor dizendo. Vamos colocar os pingos nos i's. O cara da cidade diz que quer árvore de Natal. O eu lírico pensa em vendê-las, mas acha melhor não pois senão sua casa ficaria nua ― e aí entra o lance do Sol etc etc. Parece que ele está dando uma desculpa mais pra si do que pro homem da cidade (se bem que ele trata as árvores como se fossem vivas, por exemplo quando ele diz que, se realmente fosse vendê-las, odiaria que elas, as árvores, soubessem). Aí o homem da cidade pede pra que olhasse as árvores como quem não quer nada com nada. Legal. Mas eu ainda assim não vou vender, capisce?

Aí, enquanto o cara da cidade olha e diz que aquela e aqueloutra servem, o eu lírico fica meio que repensando se vende ou não, ou, no mínimo, fica acompanhando aquele esquisitão. É quando vem a informação das mil árvores. É aí sim que o eu lírico decide não vender mesmo ― mas em especial pois nem ele sabia que tinha mil árvores ― e, às vezes, ele realmente não tem, o que, considerando que o cara da cidade é uma extensão do Deus Mercado que lança um foda-se de tamanho continental pro meio ambiente; considerando isso, não faz a mínima diferença que seu fornecedor tenha ou não. Um jeito será dado, nem que, pra isso, ele tenha que arrasar com a propriedade de outros não sei quantos. Uma parte muito instigante do poema, a esse respeito, é quando o cara da cidade diz pro eu lírico softening that to me que ele pagaria trinta dólares pelas mil. Óbvio que isso não aliviou nem apaziguou nada. Na verdade, ele como que interpretou errado o espanto do eu lírico. Achou que o eu lírico tinha achado que ficaria rico, quando, na verdade, o eu lírico soltou algo parecido com um "Ora pinhões!"

O episódio é cortado nesse exato instante. O eu lírico fala que, mesmo que ele fosse vender as mil, seria num preço bem menor ― e ele lucraria muito mais se fosse, por exemplo, doá-las. Ele diz que é cálculo simples, mas, como eu sou de humanas, eu não faço a mínima ideia de que raio de cálculo foi esse. Se brincar, nem o próprio eu líricos saiba, mas o fato é que ele disse que se os amigos aí da cidade, pra quem ele escreve a carta (na verdade, escreverá a carta algumas horas depois), fossem comprar uma árvore, essa árvore custaria mais caro pros colegas da cidade que os três centavos cada. Enfim. O funcionamento de mercado aqui é realmente simples ― comprar um monte de árvores pra que cada uma saia barato e você possa revendê-las a um preço maior. O eu lírico acha isso um absurdo, pois daria uma trabalheira ter que cortar todo aquele campo, e, no fim das contas, haja vista que estamos num espírito natalino, seria muito melhor se ele pudesse colocar uma árvore numa carta. Pois aí ele poderia transformar nem que fossem mil árvores em presentes reais e belos, presentes que captassem de fato o espírito do Natal.

É um pedido bonito. Tocante. Frost consegue fazer essas coisas de maneira maravilhosa. O poema não termina de uma maneira propriamente positiva, pois nós sabemos que entre o cara da cidade comprar mil árvores e a pessoa do interior mandar as mil árvores de Natal, é claro que a primeira opção é muito mais factível, mesmo que, pra calibrar as coisas, nós considerássemos a segunda opção em vertentes mais factíveis como mandar mil cartas desejando Feliz Natal ou insuflar um espírito natalino verdadeiro a mil pessoas que fossem. Mas é uma mensagem. É uma carta. (Isso me lembra, de pronto, a flor no asfalto de Drummond, ou seu elefante "e todo o seu conteúdo / de perdão, de carícia, / de pluma, de algodão", ou, ainda, sua carta "com palavras sabidas, / as mesmas, triviais, / embora estremecessem / a um toque de paixão.") E, se você for parar pra pensar bem, o poema de Frost é uma espécie de ajuda a que essa segunda opção se concretize. Pois o poema pode chegar até mil mãos (o subtítulo do poema, A Christmas Circular Letter, indica-lhe um objetivo propriamente público). Pode desejar Feliz Natal a mil pessoas. Pode, nem que de uma maneira utópica, futura, distante... ele pode mudar alguma coisa. Nem que seja nós mesmos, que o lemos.

Estes são apenas alguns comentários. Daria pra falar mais, como por exemplo a respeito da fenda que existe entre cidade e interior expressa de maneira esplêndida logo no primeiro verso ou na maneira como o cara da cidade possui um jeitão invasivo, o que enxergo em especial quando ele fica esperando que venham até ele. Também daria pra falar daquelas imagens maravilhosas, como dos abetos balsâmicos "like a place / Where houses all are churches and have spires." Só imaginar. Feche os olhos. É exatamente isso: aquele topo serrilhado, aos montes, balançando ao vento... (E olhe que eu nunca nem devo ter visto um abeto ao vivo, hein!) É um poema realmente muito legal. Dá vontade de mandar estamparem na camiseta ou então de bater uma foto minha e dele tomando sorvete.

Minha tradução buscou manter o verso decassílabo de Frost ― mais uma vez, de uma maneira, quem sabe, mais rígida que o original, isto é, com uma acentuação mais certinha que a que o próprio original internamente ostenta. A tradução de J. A. Rodrigues, que compilo abaixo, me foi muito útil no sentido de me ajudar a entender algumas passagens do original


ÁRVORES DE NATAL.
(Uma Carta Circular de Natal)
trad. eu.
A cidade a si própria retirou-se,
Deixando o interior pro interior;
E entre a neve, que não cairá, em vórtices
E os vórtices de folhas não caídas,
Um estrangeiro de jeitão urbano
Estaciona seu carro e, por costume,
Fica sentado e espera até nós virmos
Dizer olá, abotoando a roupa.
Disse que vinha da cidade e só
Procurava por algo que deixou
E sem o qual Natal não haveria.
Perguntou se eu vendia as minhas árvores
De Natal ― meus abetos iguais vila
Onde as casinhas fossem como igrejas
Com campanários. De árvores de Natal
Nunca os pensei. Até que eu quis vendê-los
E arrancar da raiz pra irem em carros,
Deixando toda nua a nossa casa
Justo onde o sol é quente como a lua.
Se eu o fosse, odiaria que soubessem.
Mas odiaria mais manter as árvores
Exceto como quem não vende ou deixa
Além do tempo em que são mais rentáveis:
Tudo deve adequar-se pro mercado.
Pensei bastante nisso, de vendê-los.
E então, seja com falta de mesura,
Seja temendo ser curto ou, até,
Querendo que aplaudissem meus abetos,
Disse: "São poucos pra valer a pena."
"Posso dizer quais deles cortaríamos,
Se eu puder ver melhor."

                                            "Tá, pode ver.
Mas não pense que vou deixar levá-los."
Brotam num pasto, às vezes tão pertinhos
Que seus galhos se truncam. Alguns, muitos,
Solitários, têm ramos parecidos
A seu redor. Ele diz "Sim" pro último,
Ou, frente a um mais belo, ele estagna
E diz, com jeito de quem compra: "Serve."
Penso o mesmo, mas não estava lá.
Nós fomos rumo ao sul; o percorremos
E descemos ao norte.

                                     Ele diz: "Mil".

"Mil árvores de Natal! ― Quanto cada?!"

Ele julgou ser bom me apaziguar:
"Mil delas sairiam trinta dólares."

Então eu tava certo em não querer
Repassá-las... Jamais mostrei surpresa!
Mas trinta dólares parece nada
Diante do pasto a desmatar, uns três
(Pois era o quanto cada uma custava),
Três centavos miúdos face aos dólares
Que os amigos a quem escrevo pagam,
Na cidade, por árvores idênticas,
De sacristia que escolas dominicais
Muito penduram pra que muito colham.
Nem eu sabia que eu tinha mil árvores!
Três centavos a mais ganho se as doo
Ao invés de vender. Cálculo simples.
Pena não dê pra pôr uma na carta.
Mas mesmo assim, desejo mandar uma:
Por isso te desejo um bom Natal!

§

ÁRVORES DE NATAL
(Uma Carta Circular de Natal)

trad. J. A. Rodrigues.
em: Blog do Castorp, 07/12/14, aqui.
A cidade havia se retirado em si mesma
E deixado, por fim, o interior ao interior;
Quando, entre vórtices de neve não aplacados
E remoinhos de folhagens ainda não assentes, parou
O carro em nosso pátio um estranho, com aspecto citadino;
No entanto, à moda interiorana daquele lugar,
Sentou-se e esperou até que, abotoando os casacos,
Saímos a perguntar-lhe quem ele era.
Ele revelou ser da cidade e estar de volta novamente
Em busca de algo que havia deixado para trás
E não poderia ficar sem, para celebrar o seu Natal.
Perguntou-me se gostaria de vender minhas árvores de Natal;
Meu bosque ― os jovens pinheiros tais como um lugar
Onde todas as casas são igrejas e têm campanários.
Eu jamais havia pensado neles como árvores de Natal.
Tenho dúvidas se, por um momento, fiquei tentado
A arrancá-los de seus pés e vendê-los para serem transportados em carros,
Deixando a encosta atrás da casa toda desguarnecida,
Onde agora brilha um sol não mais ardente do que a lua.
Detestaria tê-los sabendo que eu o faria.
Detestaria ainda mais manter minhas árvores exceto
Como outros mantêm as suas ou recusam propostas por elas,
Além do tempo de crescimento rentável,
Todas as coisas, afinal, devem se submeter à prova do mercado.
A ideia de vendê-los fez-me hesitar por um longo tempo.
Então, fosse por equivocada cortesia
E o receio de parecer escasso de palavras, ou fosse
Por esperar ouvir elogio ao que era meu,
Disse-lhe: “São muito poucos para valer a pena”.

“Poderia lhe dizer quantos deles seriam cortados,
Se você me permitir olhar mais”.

“Você pode examinar.
Mas não espere que eu permita que você os resgate”.

Eles brotam num pasto, alguns em grupos tão próximos
Que chegam a truncar os galhos uns dos outros, embora não poucos
Sejam bem destacados e possuam ramos iguais
Em toda a volta. Ao último, acenou “Sim” com a cabeça,
Ou fez uma pausa para dizer baixinho algo mais gracioso,
Com moderação de comprador, “Este pode ir”.
Eu pensava do mesmo modo, mas não estava ali para dizer isso.
Nós subimos o pasto pelo sul, o percorremos,
E descemos ao norte.
Ele disse, “Mil”.

“Mil árvores de Natal! ― a que preço cada uma?”

Sentiu alguma necessidade de me abrandar:
“Mil árvores sairiam por trinta dólares”.

Concluí que estava correto em nunca haver desejado
Repassá-las a ele. Jamais mostrei surpresa!
Mas trinta dólares pareciam tão pouco frente
À extensão do pasto que eu deveria desnudar, três centavos
(Por essa quantia sairia cada árvore),
Três centavos tão pequenos em comparação com o dólar que os amigos
A quem eu escreveria dentro de uma hora
Pagariam nas cidades por boas árvores como aquelas,
Habituais árvores de sacristia de todas as escolas dominicais
Poderiam nelas pendurar o suficiente para bastantes escolhas.
Não sabia que tinha mil árvores de Natal!
E doadas valem três centavos a mais do que vendidas,
Como pode ser demonstrado por meio de cálculos simples.
Pena que não tenha como incluir uma numa carta.
Não posso deixar de tencionar em lhe enviar uma,
Ao lhe desejar desse modo um Feliz Natal!


CHRISTMAS TREES
(A Christmas Circular Letter) 

The city had withdrawn into itself
And left at last the country to the country;
When between whirls of snow not come to lie
And whirls of foliage not yet laid, there drove
A stranger to our yard, who looked the city,
Yet did in country fashion in that there
He sat and waited till he drew us out
A-buttoning coats to ask him who he was.
He proved to be the city come again
To look for something it had left behind
And could not do without and keep its Christmas.
He asked if I would sell my Christmas trees;
My woods—the young fir balsams like a place
Where houses all are churches and have spires.
I hadn’t thought of them as Christmas Trees.
I doubt if I was tempted for a moment
To sell them off their feet to go in cars
And leave the slope behind the house all bare,
Where the sun shines now no warmer than the moon.
I’d hate to have them know it if I was.
Yet more I’d hate to hold my trees except
As others hold theirs or refuse for them,
Beyond the time of profitable growth,
The trial by market everything must come to.
I dallied so much with the thought of selling.
Then whether from mistaken courtesy
And fear of seeming short of speech, or whether
From hope of hearing good of what was mine, I said,
“There aren’t enough to be worth while.”
“I could soon tell how many they would cut,
You let me look them over.”

                                                     “You could look.
But don’t expect I’m going to let you have them.”
Pasture they spring in, some in clumps too close
That lop each other of boughs, but not a few
Quite solitary and having equal boughs
All round and round. The latter he nodded “Yes” to,
Or paused to say beneath some lovelier one,
With a buyer’s moderation, “That would do.”
I thought so too, but wasn’t there to say so.
We climbed the pasture on the south, crossed over,
And came down on the north. He said, “A thousand.”

“A thousand Christmas trees!—at what apiece?”

He felt some need of softening that to me:
“A thousand trees would come to thirty dollars.”

Then I was certain I had never meant
To let him have them. Never show surprise!
But thirty dollars seemed so small beside
The extent of pasture I should strip, three cents
(For that was all they figured out apiece),
Three cents so small beside the dollar friends
I should be writing to within the hour
Would pay in cities for good trees like those,
Regular vestry-trees whole Sunday Schools
Could hang enough on to pick off enough.
A thousand Christmas trees I didn’t know I had!
Worth three cents more to give away than sell,
As may be shown by a simple calculation.
Too bad I couldn’t lay one in a letter.
I can’t help wishing I could send you one,
In wishing you herewith a Merry Christmas.

(To Louis Mertim ― 1920)

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