Ser ou não ser.



Não vou ficar fritando demais nos comentários. O máximo que compensaria destacar é que se por algum motivo você imagina Hamlet empunhando uma caveira enquanto monologa, você deve se lembrar que na peça mesmo Hamlet só vai segurar uma caveira no quinto ato: em específico, a caveira do ex-bobo da corte Yorick, no que ele reflete sobre como aquele camaradinha, que antes era tão alegre, cheio cheio de alegria, todo Infinite Jest, hoje tá só o bagaço, puro osso. No terceiro ato (ou final do segundo, se seguirmos o primeiro in-Quarto), Hamlet está monologando sem caveira nenhuma, e, pasme, com Cláudio e Polônio atrás da cortina ouvindo tudo. (Então você já sabe: quer reprovar sua turma de Literatura Inglesa todinha? Voilà.) Daí que, embora as conotações mais comuns desse monólogo sejam a respeito do suicídio, alguns também pensam, dentre tantas e tantas coisas (tem gente que se brincar consegue ver um #ForaPT aí no meio), seja possível cogitarmos que Hamlet esteja simplesmente naquele embate entre a inação física e o intentar um ato de vingança.

Um belo dia, que provavelmente foi no século XIX pois esse pessoal o século XIX era danado, foi que começaram com esse lance de puxar a caveira pra dentro desse monólogo, o que foi um enorme sucesso, pois parece dar um plus na coisa toda. Sabe como é: memento mori. Você também vai se foder, amigão. Assim, que Hamlet cogite o matar e a morte defronte uma caveira, isso é uma maneira bem interessante de aumentar o impacto dramático da cena. Encenações contemporâneas, em especial depois de Derek Jacobi (foi essa a via que Kenneth Branagh, naquele filme megalomaníaco, seguiu), colocam Hamlet monologando e vestindo uma máscara de caveira. Isso já dá uma outra turbinada na coisa; já são outros quinhentos....

Mas tá aí. Só uma pequena nota a respeito da compilação.

Existem muitas traduções aí que não consegui consultar. São elas: a de José Antonio de Freitas (1887), de Domingos Ramos (1911), de F. dos Santos Quintella (1913), de Tristão da Cunha (1933), de Geraldo de Carvalho Silos (1984), de Sophia de Mello Breyner Andresen (1987), de Mário Fondelli (1992), de Antonio M. Feijó (2002), de John Milton (2005), de Adriana de J. Buarque (2007) e de Lawrence Flores Pereira (2015).

Num artigo de Alexandra Assis Rosa sobre as traduções portuguesas deste monólogo (aqui), na página 11 do pdf, a autora cita as traduções de José Antonio de Freitas, Domingos Ramos, Sophia de Mello Breyner Andresen e Antonio M. Feijó para o primeiro verso. São:

José Antonio de Freitas: "Ser ou não ser ― eis a questão."
Domingos Ramos: "Ser ou não ser, eis aqui está a dúvida."
Sophia de Mello: Ser ou não ser, é isso a questão."
Antonio M. Feijó: "Ser ou não ser, eis a questão."

Conta a autora que José Antonio de Freitas foi o primeiro a chegar, em solo português, à solução consagrada do "eis a questão". Aqui no Brasil, os créditos ficam com Machado de Assis. É uma solução magnífica, claro, pois nos permite transformar um verso de dez sílabas num verso de oito: um raro caso em que o português é mais conciso que o inglês, o que acaba sendo uma pedra no sapato do tradutor pois ele tem que, nesse espaço de duas sílabas, chunchar outra palavra, incutindo um cavalgamneto forçado (ou simplesmente colocar as oito sílabas e foda-se tudo, como muitos recentemente tem preferido, ou, ainda, traduzir tudo num verso de oito sílabas, como Dolhikoff).

Mário Fondelli traduziu para: "Ser ou não ser, eis o problema." É o que Jorge Furtado cita num texto para seu blog aqui. É também de Jorge Furtado a intrigante informação sobre a primeira portuguesa tradução da peça, isso lá em 1607! Aqui.

Uma listagem das traduções de Shakespeare no país, que me ajudou a encontrar a data de publicação das traduções que arrolo, está disponível no Instituto Shakespeare Brasilaqui, e Traduções do teatro de Shakespeare no Brasil, de Marcia A. P. Martins, aqui. Da mesma autora eu cito A tradução de Shakespeare por poetas brasileiros, aqui, e Shakespeare no Brasil: fontes de referência e primeiras traduções, aqui. A data da tradução de Luís Cardim foi encontrada graças ao preview de um livro no Google Books, aqui, e a de Ersílio Cardoso como epígrafe de um artigo, aqui.




trad. Rei Luís I de Portugal. [1877]
Disponível aqui.

Ser ou não ser, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente, quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade, lembra-te dos meus peccados nas tuas orações.




trad. Bulhão Pato. [1879]
Disponível aqui.

Ser ou não ser ― eis ahi a questão. Ha mais nobresa d'alma em supportar as ferroadas e frechadas da fortuna ultrajadora, ou em armarmo-nos contra um mar de dôres, e fazel-o parar, combatendo-o? Morrer . . . dormir, nada mais . . . e dizer que por este somno pomos termo aos males do coração, e ás mil torturas naturaes, que são a herança da carne, eis um desfecho que se deve ambicionar com fervor. Morrer . . . dormir, dormir! Talvez sonhar! ― Sim, n'isto é que está a difficuldade. Quaes são os sonhos, que podem sobrevir-nos n'este sono da morte, quando nos resgatamos dos apertos da vida? Eis aqui o que nos deve conter. ― É esta reflexão que importa para nós a calamidade de tão longa existencia. Quem, com effeito, quizera supportar as flagellações e os despresos do mundo, a injuria do oppresor, a humilhação da pobresa, as angustias do amor regeitado, as tardanças da lei, a insolencia do poder e as protervias que o merito resignado recebe de homens indignos, se ficavamos quites com um simples punção? Quem quizera carregar com estes fardos, resmonear e suar debaixo de uma vida acabrunhadora, se o receio de alguma coisa depois da morte, d'essa região inexplorada, d'onde viajante algum voltou, não turvasse a vontade, e nos não fizesse supportar os males, que temos, com receio de nos arremeçarmos aos que nos são desconhecidos? ― É assim que a consciencia nos torna a todos em covardes; é assim, que as côres nativas de uma resolução amarellecem sob os pallidos reflexos do pensamento; é assim, que as empresas mais energicas e mais importantes se desviam de seu curso, a esta idéa, e perdem o nome de acção. ― Devagar, agora! Eis a bella Ophelia . . . Nympha, em tuas orações lembra-te dos meus pecados.




trad. Machado de Assis. [1880]
Poesias completas, Machado de Assis, W. M. Jackson, 1938, p. 359-360.

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
E' mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já luctando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um somno apenas,
Que as angustias extingue e á carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por elle.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a duvida. Ao perpetuo somno,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesal-o cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortunio. Quem do tempo
Soffrer quizera ultrages e castigos,
Injurias da oppresão, baldões do orgulho,
Das leis a inercia, dos mandões a affronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente merito recebe,
Quem, se na ponta da despida lamina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e miserias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida cousa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno paiz mysterioso
Donde um viajor sequer ha regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a supportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciencia.
Assim da reflexão á luz mortiça
A viva côr da decisão desmaia;
E o firme, essencial commettimento,
Que esta ideia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de acção perder o nome.




trad. Olavo Bilac. [1912]
Disponível aqui.

Ser ou não ser... E' este o tremendo problema...
Que é mais nobre? soffrer as injurias da sorte
E os golpes do infortunio até a hora suprema,
Ou dar combate á dor indo direto á morte?
Morrer... dormir... mais nada... Um sonho em que se encerra
Tudo... Um instante só de ousadia e de calma
Basta, para fugir ás tristezas da terra,
Aos martyrios da carne e ás amarguras da alma...
Quem não te apetece, ó fim da desventura?
Morrer... dormir... ― dormir? talvez sonhar... Que sonho?
Eis a interrogação cruel que nos tortura!...
Quando, rôto da carne o envolucro medonho,
Escaparmos da vida á bravia tormenta,
Que sonhos haverá no lethargo do nada?
Dormir?... talvez sonhar... E' isto o que adormenta
A coragem mais forte; esta é a razão sagrada
Que ao misero prolonga a lutuosa existencia...
Poi quem supportaria ultrajes e castigos
Do tempo, humilhações do presente, a insolencia
Dos queridos da sorte, o odio dos inimigos,
Os golpes do desprezo e da oppresão infame
Que o orgulho forte inflinge á fraqueza innocente,
A preguiça das leis, da pobreza o vexame,
E o fingido desdém que o merito paciente
Recebe dos villões, e a ingratidão, e o inferno
Do incomprehendido amor, ― se acaso visse um dia
Na ponte de um punhal sorrir-lhe o somno eterno?...
Quem da vida enfadonha ao peso vergaria,
Se não fosse o terror da cousa não sabida
Que ha para lá da morte, e o mysterio profundo
D'esse escuro paiz, região desconhecida
De onde nenhum viajor voltou jámais ao mundo?
O receio do além... Isto nos acovarda,
E em anhelitos vãos os propositos muda;
Este só pensamento o nosso fim retarda,
E a calma decisão nos tolhe... Mas, caluda!
A bella Ophelia...
(Entra Ophelia)
                              O' flor da graça e da virtude,
Em tuas orações pede a Deus que me ajude!...




trad. Luiz Cardim. [1931]
Disponível aqui.

Ser, ou não ser, – eis a questão: se acaso
é mais nobre sofrer d’ânimo firme
os pelouros e dardos da má sorte,
ou terçar armas contra um mar de agruras
e findá-las de vez? Morrer…,dormir …,
mais nada…; e com um sono desfazer-nos
da angustia, e mil embates naturais
de que é herdeira a carne, — alguém deseja
um término melhor? Morrer…, dormir…
dormir… talvez sonhar… Sonhar?! Ah, não:
pois no sono da morte, quando formos
do terreal tumulto já libertos,
que sonhos podem vir — basta essa ideia
para fazermos pausa; ela e só ela
gera às calamidades longa vida.
Quem sofreria os golpes e sarcasmos
do mundo, as iniquidades dos tiranos,
as prosápias do orgulho, as dores acerbas
do amor menosprezado, as dilações
do foro, a brusquidão da famulagem,
e as sevicias que ao mérito paciente
a nulidade inflige, — se pudera
ele próprio de tudo redimir-se
co’a ponta dum punhal? Ou quem os fardos
da canseirosa vida suportava
a suar e gemer, senão pungido
pelo ansioso pavor de qualquer coisa
depois da morte — esse país ignoto
das fronteiras do qual ninguém regressa —
que mareia a vontade, e nos coage
a preferir os males deste mundo
àqueles que nos são desconhecidos?
A consciência nos torna assim cobardes,
a todos nós, e assim a cor nativa
da decisão, desmaia e desfalece
sob a pálida luz do pensamento;
de tal sorte que empresas de grão vulto
se apartam dos seus fins, e vão perdendo
todo o nome de acção…




trad. Oliveira Ribeiro Neto. [1948]
Disponível aqui.

Ser ou não ser, eis a questão. Que será mais nobre  para o espírito, sofrer as pedradas e as flechas da fortuna ingrata, ou tomar armas contra um mar de aborrecimentos e exterminá-los por oposição? Morrer. Dormir. Não mais. Se dizem que no sono sufocamos a dor do coração e os mil acidentes naturais a que está sujeita a carne, aí está um estado que devemos desejar fervorosamente. Morrer, dormir. Dormir, talvez sonhar. Sim, esta é a dúvida.




trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. 1955.
A tragédia de Hamlet, José Olympio, 1955, p. 136-139.

Ser ou não ser, eis a questão: pois que é mais nobre?
Sofrer passivamente as setas e balistas
Com que a fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais ― herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece a desejemos com fervor.
Dormir... talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte os sonhos que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Tôda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos tem de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
― Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta ―
Não nos pusesse atônita a resolução,
Nem nos fizesse tolerar os nossos males
De preferência a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfêrmo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Emprêsas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação. Mas vê, pára com isso!
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas orações
Recorda-te de todos os pecados meus.




trad. Carlos Alberto Nunes. [1956; 1961]
Hamleto, Romeu e Julieta, Macbeth, Otelo, Melhoramentos, 1969, p. 65-66.

Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais
nobre para a alma: suportar os dardos
e arremessos do fado sempre adverso,
ou armar-se contra um mar de desventuras
e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?
Morrer... dormir... mais nada... Imaginar
que um sono põe remate aos sofrimentos
do coração e aos golpes infinitos
que constituem a natural herança
da carne, é solução para almejar-se.
Morrer... dormir... dormir... Talvez sonhar...
É aí que bate o ponto. O não sabermos
que sonhos poderá trazer o sono
da morte, quando alfim desenrolarmos
tôda a meada mortal, nos põe suspensos.
É essa idéia que torna verdadeira
calamidade a vida assim tão longa!
Pois quem suportaria o escárnio e os golpes
do mundo, as injustiças dos mais fortes,
os maus tratos dos tolos, a agonia
do amor não retribuído, as leis morosas,
a implicância dos chefes e o desprêzo
da inépcia contra o mérito paciente,
se estivesse em suas mãos obter sossêgo
com um punhal? Quem fardos levaria
nesta vida cansada, a suar, gemendo,
senão por temer algo após a morte ―
terra desconhecida de cujo âmbito
jamais ninguém voltou ― que nos inibe
a vontade, fazendo que aceitemos
os males conhecidos, sem buscarmos
refúgios noutros males ignorados?
De todos faz covardes a consciência.
Desta arte o natural frescor de nossa
resolução definha sob a máscara
do pensamento, e emprêsas momentosas
se desviam da meta diante dessas
reflexões, e até o nome da ação perdem.
Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia.
Em tuas orações, ninfa, recorda-te
de meus pecados.




trad. Anna Amélia de Queiroz. [1968]
Hamlet, Rei Lear, Macbeth, Abril, 2010, p. 118-119.

Ser ou não ser, essa é que é a questão:
Será mais nobre suportar na mente
As flechadas da trágica fortuna,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer ― dormir,
Nada mais; e dizer que pelo sono
Findam-se as dores, como os mil abalos
Inerentes à carne ― é a conclusão
Que devemos buscar. Morrer ― dormir;
Dormir, talvez sonhar ― eis o problema:
Pois os sonhos que vierem nesse sono
De morte, uma vez livres deste invólucro
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo
Que prolonga a desdita desta vida.
Quem suportara os golpes do destino,
Os erros do opressor, o escárnio alheio,
A ingratidão no amor, a lei tardia,
O orgulho dos que mandam, o desprezo
Que a paciência atura dos indignos,
Quando podia procurar repouso
Na ponta de um punhal? Quem carregara
Suando o fardo da pesada vida
Se o medo do que vem depois da morte ―
O país ignorado de onde nunca
Ninguém voltou ― não nos turbasse a mente
E nos fizesse arcar co'o mal que temos
Em vez de voar para esse, que ignoramos?
Assim nossa consciência se acovarda,
E o instinto que inspira as decisões
Desmaia no indeciso pensamento,
E as empresas supremas e oportunas
Desviam-se do fio da corrente
E não são mais ação. Silêncio agora!
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces
Recorda os meus pecados.




trad. F. C. Cunha Medeiros e Oscar Mendes. [1969]
Obra completa, vol. I, Tragédias, José Aguilar, 1969, p. 568.

Ser ou não ser, eis a questão! Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne! Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida. Aí está a reflexão que torna uma calamidade a vida assim tão longa! Porque, senão, quem suportaria os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando êle próprio pudesse encontrar quietude com um simples estilete? Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o pêso de uma vida afanosa, se não fôsse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou, confundindo nossa vontade e impelindo-nos a suportar aquêles males que nos afligirem, ao invés de nos atirarmos a outros que desconhecemos? E é assim que a consciência nos transforma em covardes e é assim que o primitivo verdor de nossas resoluções se estiola na pálida sombra do pensamento e é assim que as emprêsas de maior alento e importância, com tais reflexões, desviam seu curso e deixam de ter o nome de ação... Agora, silêncio!... A bela Ofélia! Ninfa, em tuas orações, recorda-te de meus pecados!




trad. Ersílio Cardoso. [1982]
Disponível aqui.

Ser ou não ser… eis a questão; será maior nobreza da alma sofrer a funda e as flechas da fortuna ultrajante ou pegar em armas contra um mar de infortúnios opondo-lhes um fim? Morrer, dormir… nada mais… É belo como dizer que pomos fim ao desgosto e aos mil males naturais que são a herança da carne. É esse um fim a desejar ardentemente. Morrer, dormir… dormir… e talvez sonhar. Sim, eis o espinho! Pois que sonhos podem vir desse sono da morte, depois de libertos do tumulto da vida? Eis o que deve deter-nos. Eis a consideração que nos traz a calamidade de uma tão longa vida. Pois quem suportaria as chicotadas e mofas do mundo, a tirania do opressor, a insolência do orgulhoso, as dores do amor desprezado, as delongas da lei, a arrogância do poder, o desdém que o mérito paciente recebe dos indignos, quando podia buscar a própria quietude com um simples estilete? Quem suportaria tais fardos, protestando e suando numa vida dura, se não fosse o receio de qualquer coisa após a morte, dessa região não descoberta e de cuja fronteira nenhum viajante regressa, que lhe quebranta a vontade e faz que antes queira sofrer os males da Terra do que voar para outros de que nada se sabe? Assim, a consciência faz de nós cobardes; assim, a cor primitiva da resolução descora perante a pálida luz do pensamento e empreendimentos de grande porte e importância desviam a sua rota e perdem o nome de ação.




trad. Millôr Fernandes. [1988; 1995]
Hamlet, LPM, 2006, p. 63-64.

Ser ou não ser ― eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias ―
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono ― dizem ― extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer ― dormir ―
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte ―
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante ― nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais, saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação. (Vê Ofélia rezando.)
Mas devagar, agora!
A Bela Ofélia!
(Para Ofélia.) Ninfa, em tuas orações
Sejam lembrados todos os meus pecados.




trad. Ivo Barroso. [1991]
O torso e o gato, Record, 1991, p. 58-61.

Ser, ou não ser... eis a questão.
Se mais nobre à razão é suportar
Fundas e frechas da afrontosa sorte
Ou tomar armas contra um mar de opróbrios
E enfrentando-o acabar? Morrer, dormir;
Não mais? E imaginar que em sono acabam
Mil dores d'alma e os naturais conflitos
Herdados pela carne... eis um epílogo
De ansiar-se com fervor. Morrer, dormir.
Dormir: sonhar, quem sabe? Eis o impasse.
Nesse sono da morte vir-nos sonhos,
Depois de livres do mortal invólucro,
Nos faz deter. E tal cogitação
Nos transforma em flagelo a longa vida.
Pois quem sofrera os látegos do tempo,
Ultrajes do opressor, o ar do arrogante,
Os ais do ingrato amor, da lei delongas,
A insolência do mando, as rejeições
Que o mérito paciente tem do indigno,
Se ele próprio pudesse resgatar-se
Com a adaga nua?

Quem levara fardos,
Gemendo e suando numa vida insulsa,
Senão que o medo de algo após a morte
― Inachado país de cujas raias
Viajante algum voltou ― enreda o intento
E nos faz preferir nossas misérias
A voar para outras mais que não sabemos?
Assim nos faz covardes a consciência
E a primitiva cor da decisão
Dilui-se ante o palor do pensamento,
E as empresas de alcance e de visão
Desviam-se por isso de seu curso
E perdem o nome de ação.




trad. Alexei Bueno. [1997]
Cinco séculos de poesia, Record, 2013.

Ser ou não ser, esta é a questão. Para a alma
O que é mais nobre, suportar os dardos
E as pedras da ultrajante sorte, ou contra
Um mar de erros se erguer, aniquilando-o?
Morrer, dormir, não mais. E com o sono,
Dizem, a dor do coração findamos
E as lutas mil que são da carne e herança.
Qual mais buscado fim? Dormir, morrer.
Dormir! Talvez sonhar. Este é o obstáculo:
Neste sono mortal podem vir sonhos
Quando libertos deste liame efêmero.
Há pois que vacilar. Tal raciocínio
Faz a desgraça da tão longa vida;
Pois quem do tempo aguentaria os golpes
E o escárnio, e o peso do opressor, e a afronta
Do altivo, o amor sem volta, a lei morosa,
A ofensa do poder, e o coice certo
Que o paciente valor leva dos crápulas
Se a paz pudesse dar-se com um punhal?
Quem tais fardos levara, suando e arfando
Sob o exausto viver, não fosse o medo
De algo depois da morte, a terra obscura
De onde ninguém voltou ― turvando o arbítrio,
Fazendo-nos tragar antes os males
Daqui, que voar aos outros não sabidos?
Assim nos faz covardes a consciência
E o ardor primeiro do desígnio murcha-se
Frente ao pálido olhar do pensamento,
E as maiores e mais vitais empresas
Com essa ideia desviam-se, perdendo
Qualquer nome de ação. ― Silêncio, agora!
A bela Ofélia. ― Ninfa, em tuas rezas
Pede por meus pecados.




trad. José Roberto O'Shea. [2010]
O primeiro Hamlet, in-Quarto de 1603, Hedra, 2010, p. 97-98.

Ser ou não ser ― sim, eis aí o ponto:
Morrer, dormir ― tudo? Sim, tudo. Não:
Dormir, sonhar ― sim, ora! Por aí vai;
Pois, do sonho da morte despertamos,
E somos ao eterno juiz levados,
De onde passageiro algum retorna,
Do reino escondido, cuja visão
Faz o bom sorrir e o mau praguejar.
Não fosse isso, a jubilosa esperança,
Quem seria capaz de suportar
O desprezo e a desilusão do mundo,
Desdém do rico, maldizer do pobre,
Viúva oprimida, órfão ultrajado,
Gosto de fome, reino de tirano,
E milhares de outras desventuras;
Grunhir e suas na vida fatigante,
Quando se pode obter pleno descanso
Na ponta de um punhal? Quem haveria
De isso tolerar, não fosse a esperança
De algo depois da morte, algo que
Deixa perplexo o cérebro e a razão,
Que nos faz aguentar males sabidos,
E não fugir para os desconhecidos?
É isso! E tal consciência nos faz covardes.
Dama, em tua prece lembra meus pecados.




trad. Luís Dolhnikoff. [2012]
Disponível aqui.

Ser ou não ser, eis a questão:
É mais nobre a alma sofrer
Os golpes da fortuna infame
Ou se armar contra um mar de danos
Para, opondo-se, pôr-lhe fim?
Morrer e dormir. Nada mais.
Dizer que em um sono findamos
A angústia e milhares de embates
Que são a herança da carne,
Eis o final mais ansiável.
Morrer, dormir. Dormir! Talvez,
Sonhar. Eis a dificuldade.
No sono da morte que sonhos
Virão, livres do afã da vida,
Então cismamos: e a desgraça
Desta longa lida está posta.
Quem traria o desdém do tempo,
O dolo do tirano, a afronta
Do soberbo, a dor do amor findo,
O langor da lei, as ofensas
Que o mérito ganha do indigno,
Podendo se dar paz com a faca?
Quem traria tão grandes cargas,
Gemer, suar a dura vida,
Sem temer algo além da morte –
Terra indescoberta, de onde
Nenhum viajante retorna –,
Confundindo a vontade e impondo
Sofrer nosso mal a lançar-nos
Noutro do qual sabemos nada?




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