"Velejando para Bizâncio", de Yeats.



Sailing to Byzantium abre aquela que é talvez a mais bem acabada coletânea de poemas de Yeats: The Tower, publicada em 1928. O poema foi escrito entre agosto e setembro de 1926, três anos após Yeats ter sido laureado com o Prêmio Nobel.

Como ocorre com muitos poemas ao longo do livro, e dos quais eu citaria marcadamente Leda and the Swann, Sailing to Byzantium é um poema de reentrâncias políticas. Nele nós podemos observar como fundo ou, mais precisamente, como motivação, ponto de partida e até mesmo como estrutura esconse do poema, a gerência da revolução irlandesa. Isto é: uma vez que a Irlanda se encontrava independente, era necessário gerenciar os frutos e impactos da revolução ocorrida para que o país conseguisse se firmar. E, como sabemos bem, gerenciar os resultados de uma revolução é tão ou mais difícil que realizar uma.

Yeats era, a essa época, como senador da república, cargo que ocuparia até setembro de 1928. As coisas foram ficando um tanto quanto quentes pro lado de Yeats ― na verdade, pra classe política como um todo. Em 1922 houve um grupo de contra-revolucionários que, acusando a república de trair os ideais revolucionários de 1916, pegou em armas e instaurou um conflito que só seria terminado um ano depois. O mesmo 1923 em que Yeats ganharia o prêmio Nobel e em que, no mês de dezembro, ele teria a fachada de sua casa fuzilada. Ele precisou, temporariamente pelo menos, de uma escolta armada na sua residência para que detivesse assassinos e terroristas.

Só aqui nós já podemos ver o clima conflituoso da época. Se por um lado podemos dizer que ele se amainou até o final da década, nem por isso ele deixou de calar fundo na alma do poeta. A primeira estrofe do poema basicamente se refere à Irlanda como não sendo uma terra adequada para pessoas velhas ― e Yeats, a essa época e em seu país, se sentia um velho. O que é de certo modo contraditório, pois ele foi uma figura ativa no processo de independência da Irlanda e, visto que ocupava o cargo de senador da república, esteve (estava) próximo dos primeiros anos de vida política do jovem país. Não era pra se sentir velho. Mas aqui entramos de novo no que mencionei a respeito da gerência de uma revolução: dado o clima de instabilidade aguerrida que se apossava da Irlanda então, Yeats se sentia deslocado.

O tema, todavia, não se restringe apenas ao lado político da coisa. ("Restringe" é um péssimo termo, mas estou escrevendo esta postagem na madrugada de segunda, precisamente 3, e, por razões desconhecidas, não consigo de jeito maneira achar um termo melhor.) Yeats sublima significados metafísicos, em específico a dinâmica entre o tempo, a eternidade e a arte. A Irlanda recém-nascida, por assim dizer, era uma terra cheia de vida, onde os jovens andavam de braços dados (representando, metaforicamente, a união do país) e onde a paz podia ser pressentida e a alegria se espalhava (o que pode ser lido nas aves nos galhos). Mas, posto que um e outro são uma prole efêmera ― o velho porque envelhece e a ave porque é de certo modo um símbolo poético do passageiro, mas também porque necessitará, logo depois no final do poema, da mãozinha da arte pra que eternize seu canto ―, eles somam a seu brado "The salmon-falls, the mackerel-crowded seas, / Fish, flesh, or fowl". A intensidade aqui é muito maior e sem dúvidas digna de nota, pois enquanto na imagem anterior nós tínhamos os jovens congregados num espírito, presumimos, festivo, e os pássaros numa paz total, aqui nós temos um tumulto de peixes que se avoluma ainda mais graças aos efeitos sonoros das aliterações em C de mackerel-crowded e em F de Fish, flesh or fowl. Deve-se também pontuar que o salmão é um símbolo de precedência céltica que indica vigor e coragem.

Mas, por mais que aquela terra apontada possua toda essa força, ela ainda assim está presa ao ciclo da mortalidade. Toda essa plêiade de coisas celebra o que segue o curso natural das coisas e, portanto, se esquecem dos monumentos imperecíveis. A segunda estrofe possui um clima de deterioração muito profundo, com uma forte descrição de um homem velho como se esse homem velho nada mais fosse que um espantalho. Essa estrofe como que demonstra o que acontece no reverso da moeda juvenil da primeira estrofe, isto é, todo aquele vigor um dia acaba.

E, pra que não seja assim, o poeta veleja rumo a Bizâncio. Yeats se refere a Bizâncio, uma civilização que segundo ele alcançou a "Unidade do Ser", numa passagem de A Vision nos seguintes termos (uso a citação que está contida na Norton Anthology of Poetry, 1970, p. 927):

Penso que se me fosse dado passar um mês na Antiguidade, em qualquer lugar que desejasse, eu escolheria passar em Bizâncio um pouco antes de Justiniano [que reinou Bizâncio de 527 a 565: nota da edição da Norton] ter aberto Santa Sofia e fechado a Academia de Platão. Penso que poderia achar nalguma pequena casa de vinhos algum artesão filosófico num mosaico [some philosophical worker in mosaic] que respondesse todas as minhas questões, o sobrenatural descendo rente a ele mais do que a Plotino, e em decorrência de sua delicada técnica fazendo o que fora instrumento de poder a príncipes e clérigos, uma loucura mortífera na multidão, mostrando uma presença flexível e amável tal como a do corpo humano perfeito * * * Penso que nos primórdios de Bizâncio, como talvez nunca antes na história recordada, a religião, a estética e a vida prática foram um só, tanto que os arquitetos e artífices * * * falavam com as multidões e afins. O pintor, o artesão dos mosaicos, o artesão de ouro e prata, o iluminador dos livros sagrados, foram quase impessoais, quase talvez sem a consciência de um desígnio individual, absortos nas suas matérias e na visão total do povo.

Esse mosaico a que o poeta se refere no segundo verso da estrofe é muito provavelmente o mosaico da igreja de San Apollinaire Nuovo, Ravena, que Yeats visitou em 1907. Pois, a esse respeito, eu ainda não disse mas Yeats nunca visitou de fato Bizâncio. Ele está tomando a cidade numa perspectiva puramente metafórica. O poeta, na terceira estrofe, quer que sua condição mortal seja destruída por completo para que ele se enrede no extenso ardil da eternidade. Ele quer, noutras palavras, que a matéria do poema, a arte, faça com que seu canto se imortalize e o rejuvenesça perpetuamente.

Daí o início da quarta estrofe: fora da natureza ele nunca mais fará de si mesmo alguma coisa natural, isto é, uma vez que ele fugir do ciclo de mortalidade natural das coisas, ele não se limitará à sua humana condição. Antes, ele buscará ser como o pássaro que é forjado pelo ourives grego, o pássaro que é forjado pela arte e que, cantando à high society de Bizâncio, se eterniza e celebra aquilo que é eterno. A dialética entre o tempo e a eternidade é resolvida, desse modo, graças ao advento da arte, que consegue fazer com que o ser humano fuja de sua condição e se imortalize.

Sailing to Byzantium é um poema que costuma ser analisado ao lado de um outro, de fato bem próximo (e que é em certos sentidos seu negativo), intitulado Byzantium. Todavia, paro por aqui.

Aqui eu compilo todas as traduções do poema que encontrei e, claro, forneço a minha (embora eu confesse que tenha arriscado a minha mais pra cumprir tabela). Meu norte foi basicamente o de manter a oitava rima, um tipo de estrofe que Yeats usará com uma enorme felicidade ao longo de The Tower. A oitava rima não é o tipo estrófico mais usado na língua inglesa, ainda mais se compararmos o uso extensivo que nós, lusófonos, fizemos dela. De todo modo, é um recorte estrófico que possui toda uma nobreza e solenidade, de modo que, mesmo quando Byron o chacoteia em Don Juan, ele ainda assim está se valendo conscientemente dessa pompa toda em torno da oitava rima.

Aponto apenas três aspectos de minha tradução a título explicativo: 1) nos versos 3 e 4, como mencionei, há uma poderosa aliteração, um dos pontos mais altos do poema. Busquei verter essa tradução valendo-me de uma rima toante entre "brado" e "salto aquático" e de uma aliteração em T no verso 4 que terminou em "atuns", um tipo de peixe que, embora não apareça no original (salmon é salmão e mackerel é a cavala), me pareceu particularmente interessante por sonoramente permitir que minha tradução imitasse o efeito sonoro de um tapa na superfície da água. Claro que isso não me isenta de crítica a partir do momento em que reduzi o cardume de peixes e até mesmo a figura dos salmões em cascata a um simples salto aquático de atuns; mas toda tradução, enfim, tem dessas; 2) minha tradução possui mais cavalgamentos que o original; e 3) em alguns momentos eu me vali de uma rima parcial, o que, apesar de Yeats não usar neste poema em específico, é algo que ele usará ao longo de sua obra. Assim, pra citar um exemplo ao leitor, na primeira estrofe eu rimo "ninho" com "definha".

Existem outros aspectos que muito certamente minha tradução não conseguiu manter, como por exemplo a correspondência reversa entre as rimas "come" e "Byzantium" no final das estrofes 2 e 4. Haja vista que o poema pode ser repartido em duas partes, isto é, o ciclo natural das coisas (estrofes 1 e 2) e o ciclo da eternidade artística (estrofes 3 e 4), este me parece um aspecto que possui lá seu interesse.

De todo modo, fique o leitor com as traduções que consegui compilar. Se você achar que minha tradução não se saiu bem, outras, e isso você pode ver com clareza, se saíram bem melhor.


§


P.S. (16/01/16): Descobri que, ao que tudo indica, existem duas versões feitas por Péricles Eugênio da Silva Ramos para o poema. Uma delas, a primeira, de 1970, está inclusa no livro Poetas de Inglaterra. Este livro, como se sabe, foi feito em conjunto com Paulo Vizioli, mas isso quando nem um nem outro possuíam um corpus tradutório de Yeats propriamente dito. Depois é que os dois tradutores fariam suas versões para o poema, a de Péricles em 87 e a de Vizioli em 91. Como acabo de possuir acesso a esta primeira versão de Péricles, eu a incluo na postagem (que segue a ordem cronológica de aparição das versões).




NAVEGANDO RUMO A BIZÂNCIO.
trad. Mário Faustino
in: Artesanatos de poesia, Cia das Letras, 2004, p. 104-105.
Primeiro publicado no suplemento Poesia-Experiência em 10/03/57.

I

Aquilo não é terra para velhos. Os jovens
Uns nos braços dos outros, pássaros pelas árvores,
— Gerações moribundas — ao seu canto
As cachoeiras de salmão, os mares transbordantes de cavala,
Peixe, carne ou ave, consagram o verão inteiro
Tudo aquilo que é gerado, nasce e morre.
Apanhados nessa música sensual, todos deixam, de lado
Os monumentos do intelecto sempiterno.

II

Um homem velho não passa de coisa esfarrapada,
Casaco esburacado numa vara, a não ser
Que a alma bata palmas, e cante, e cante inda mais alto
Por todos os buracos de suas vestes mortais,
E não se aprende canto a não ser estudando
Os monumentos de sua própria magnificência;
Eis por que cruzei os mares e ora chego
À cidade sagrada de Bizâncio.

III

Ó sabios, de pé no fogo sagrado de Deus
Como no mosaico de ouro da parede,
Saí do fogo sagrado, em espiral de rapina,
E sede os mestres-cantores de minh'alma.
Esgotai-me o coração; doente de desejo
E amarrado a uma besta moribunda
Ele não sabe o que é; e absorvei-me
Num artifício de eternidade.

IV

Uma vez fora da natureza, jamais retornarei
 Minha forma corpórea de coisa alguma natural,
Mas de uma forma igual às que fabricam os joalheiros gregos,
De ouro batido e de esmalte de ouro
Para manter desperto o Imperador dormente;
Ou como as que eles pousam em árvores de ouro
Para cantar aos príncipes, às damas de Bizâncio,
Do que é passado, ou passa, ou vem ainda.




VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos [1ª versão].
in: Poetas de Inglaterra, Sec. da Cultura, Esporte e Turismo de SP, 1970, p. 259-261.

I

Aquela não é terra para anciães. Os jovens
nos braços uns dos outros, pássaros nas árvores
— oh perecíveis gerações! — cantando,
as cachoeiras cheias de salmões,
os mares onde atuns se apinham,
peixe, ave ou carne louvam todo o estio
o que é gerado, nasce e morre.
Presos em música sensual todos esquecem
os monumentos do intelecto sempre jovem.

II

Um velho é apenas uma coisa sem valor, um paletó
esfarrapado em cima de um bordão, a menos que
sua alma cante e bata palmas e mais alto cante
a cada rasgo de seu traje efêmero;
mas escola de canto lá não há que estude apenas
os monumentos de seu próprio reslendor.
portanto atravessando os mares me mudei
para a cidade santa de Bizâncio.

III

Sábios que vos postais de Deus no fogo santo
como em áureo mosaico na parede,
saí do fogo santo,
e, retornando ao ciclo das idades,
sêde os mestres-cantores de minha alma.
Aniquilai meu coração: enfêrmo de desejo,
prêso num peito de animal agonizante,
êle não sabe o que é; e ao artifício
da eternidade recolhei-me, ó sábios.

IV

Fora da natureza, então jamais modelarei
minha forma corpóea pelas coisas naturais,
mas tomarei aquela que os ourives gregos fazem
de ouro forjado e esmalte de ouro,
para manter desperto um sonolento imperador;
ou a que pousam sôbre um ramo de oujro,
para cantar aos nobres e senhoras de Bizâncio
o que é passado, está passando ou há de vir.




VIAJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Augusto de Campos.
in: Folha de São Paulo, Folhetim, 26/02/86, aqui.
Linguaviagem, Cia das Letras, 1987, p. 158-161.
Poesia da Recusa, Perspectiva, 2006, p. 186-189.

Aquela não é terra para velhos. Gente
jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
— gerações de mortais — cantando alegremente,
salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
as obras do intelecto que nunca envelhece.

Um homem velho é apenas uma ninharia,
trapos numa bengala à espera do final,
a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
sobre os farrapos do seu hábito mortal;
nem há escola de canto, ali, que não estude
monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância,
em busca da cidade santa de Bizâncio.

Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idade
para o lavor sem fim da longa eternidade.

Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássa-
ro, o que passou e passará e sempre passa. 





VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. [2ª versão]
inPoemas, Art, 1987. Não sei a página.
Trecho encontrado como epígrafe aqui.

Terra aquela não é que sirva para ancião.
Os moços a abraçar-se, as aves a cantar
Nas árvores (...)




RUMO À BIZÂNCIO.
trad. José Agostinho Baptista.
inUma antologia, Assírio & Alvim. Não sei a página.
E não sei se primeiro na edição de 1988
ou se na de 1996. Link aqui.

I

Este país não é para velhos. Jovens
Abraçados, pássaros que nas árvores cantam
― essas gerações moribundas ―
Cascatas de salmões, mares de cavalas,
Peixe, carne, ave, celebrando ao longo do Verão
Tudo quanto se engendra, nasce e morre.
Prisioneiros de tão sensual música todos abandonam
Os monumentos de intemporal saber.

II

Um velho é coisa sem valor,
Um andrajo apoiado num bordão, a não ser que
A alma aplauda e cante, e cante mais alto
Cada farrapo da sua mortal veste.
Nem há escola de canto somente o estudo
Dos monumentos de seu próprio esplendor;
Por isso cruzei os mares e cheguei
À sagrada cidade de Bizâncio.

III

Oh, sábios que estais no sagrado fogo de Deus
Qual dourado mosaico sobre um muro,
Vinde desse fogo sagrado, roda que gira,
E sede os mestres do meu canto, da minha alma.
Devorai este meu coração; doente de desejo
E atado a um animal agonizante
Ele não sabe o que é; juntai-me
Ao artifício da eternidade.

IV

Da natureza liberto jamais de natural coisa
Retomarei minha forma, meu corpo,
Mas formas outras como as que o ourives grego
Em ouro forja e esmalta em ouro
Para que o sonolento Imperador não adormeça;
Ou em dourado ramo pousado, cantarei
Para damas e senhores de Bizâncio
Cantarei o que passou, o que passa, ou o que virá.





VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Paulo Vizioli.
inPoemas, Cia das Letras, 1991. Não sei a página.
Link da tradução aqui.

I

Este não é país para ancião.
Jovens aos beijos, aves a cantar
(Mortal estirpe), saltos de salmão,
Cavalas que povoam todo o mar,
O peixe, o pêlo e a pluma, no verão
Só louvam o que nasce e vai passar.
Na música sensual vêem com desdouro
As obras do intelecto imorredouro.

II

Um velho é apenas coisa irrelevante.
Trapos sobre um bastão ele é na essência,
A menos que a alma aplauda e alegre e cante
Acima dos farrapos da existência;
Nem se aprende a cantar senão perante
Os monumentos da magnificência.
Sulquei por isso o mar e cheio de ânsia
Vim à cidade santa de Bizâncio.

III

Oh, vós, sábios de Deus no fogo santo,
Como em áureos mosaicos de um mural,
Ensinai-me a cantar, deixando entanto
O fogo, perno em giro vortical.
Tomais meu coração: ansiando tanto,
E preso a perecível animal,
Não se conhece; e eu seja assimilado
Pelo artifício da eternidade.

IV

Fora da natureza nunca mais
Forma da natureza irei tomar,
Mas forma que um ourives grego faz
Com ouro fino e fino cinzelar
E a sonolento imperador apraz;
Ou num galho dourado hei de cantar
Para a nobreza de Bizâncio ouvir
Do que passou, ou passa, ou há de vir.




VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Jorge Wanderley.
in: 22 ingleses modernos, Civilização Brasileira, 1993, p. 29, 31.

Não é lugar para velhos. Os moços
Todos se abraçam, pássaros às falas,
― São gerações que findam ― alvoroços
De salmões e o mar, cheio de cavalas:
Ave, carne ou peixe, louvando o esboço
De tudo o que é gerado e nasce e morre.
Tal música ordena negligência a
Monumentos de eterna inteligência.

Um homem velho é coisa desprezível,
Um casaco rasgado num bastão,
A menos que a alma entoe, e muito audível,
Um canto a cada trapo do roupão
― Sem ir à escola de canto e em seu nível
Mesmo analisando a própria grandeza;
Pois pelos mares tendo navegado,
Eis-me em Bizâncio, este lugar sagrado.

Sábios que estais ao divino lampejo,
De uma muralha mosaicos dourados,
Vinde do fogo em círculos e adejos,
Mestre-cantores de minha alma, alados.
Meu coração devastai; seus desejos
A um animal moribundo se enlaçam
E já não sabe quem é; dai-me a idade
E o artifício da eternidade.

Expulso da natureza, jamais
Tomarei qualquer forma natural
Senão a que um ourives grego traz
Do ouro batido, do ouro ornamental
Que faz o tonto Imperador vivaz;
Ou que às damas e nobres de Bizâncio
De áureo ramo despede um canto puro
Sobre o passado, o presente e o futuro.




VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Vasco Graça Moura.
in: Blog Abrupto, 2005. Link aqui.

Velhos não têm país. Os jovens tão
enlaçados e as aves em trinado
― levas que hão-de ir ―, açudes do salmão,
mares de cavalas em cardume, e alçado
em peixe, carne ou pássaro, no verão,
tudo o que nasce e morre, após gerado,
desleixa em sensual música infrene
testemunhos do espírito perene.

Um homem velho é coisa não prestante,
um casaco de trapos em bengala,
a menos que a alma bata as mãos e cante,
cante alto os mortais trapos a tapá-la,
sem escola de canto e prescrutante
dos monumentos dessa excelsa gala;
assim cruzei os mares e assim
a Bizâncio, cidade santa, vim.

Sábios que estais no fogo divinal
como em mosaico de oiro na parede,
girai, do fogo santo, em espiral,
mestres do canto e da minha alma sede.
E consumi meu coração: em mal
de ansiar e preso a um bicho à morte, vede,
não sabe o que é; levai-me de verdade
ao artifício da eternidade.

Ido eu da natureza, não se irá
meu corpo em forma natural formar,
mas qual de ourives grego ela será
de oiro batido e de oiro a esmaltar
que apático imperador despertará,
ou posta em ramo de oiro há-de cantar,
nobres e damas de Bizâncio a ouvir,
do que passou, ou passa, ou há-de vir.





ZARPAR PARA BIZÂNCIO.
trad. Alberto Soares.
in: Blog Arposeaqui. 2010.

I

Este país não é para velhos. Os jovens
Trocam abraços e os pássaros nas árvores
― Aquelas gerações agonizantes ― no seu cantar,
Cascatas com salmão, mares de golfinhos
Povoados, peixe, carne ou aves que louvam o Verão,
Tudo o que foi gerado, nasceu e vai morrer.
Seduzidos pela música sensual todos esquecem
As grandes obras que o espírito fez eternas.

II

Um velho não é mais que um empecilho,
Um casaco esfarrapado sobre um ponto fixo, a menos
Que a alma bata palmas e cante, cante forte
Por cada trapo velho do seu mortal vestido,
Porque não há escola de canto para o estudo
Das grandes obras na sua magnitude;
Por isso eu naveguei nos mares para chegar
À sagrada cidade de Bizâncio.

III

Ó sábios guardiões do sagrado fogo de Deus
Como no dourado mosaico da parede
Deixai o fogo sagrado, falcão de seu voo circular,
Sêde os mestres-cantores da minha alma.
Esgotai meu coração; doente no desejo
E preso a um animal moribundo
Que não se reconhece no que é; acolhei-me
No artifício próprio da eternidade.

IV

Para sempre abandonada a natureza, nunca
Mais regressarei à minha forma corporal,
Apenas relevo cinzelado por gregos artífices
No ouro martelado ou esmaltes dourados
Para manter desperto um Imperador com sono;
Ou talvez eu pouse num áureo ramo a cantar
Para os senhores ou damas de Bizâncio
Celebrando o passado, o presente, e o porvir.




VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Joedson Adriano.
in: Blog pessoal do tradutor, aqui. 2012.

Aquele não é país pra velhos. Jovens vão
Nos braços uns dos outros, pássaros nas árvores ―
Aquelas gerações mortais ― em sua canção,
O salmão-cachoeiras, a cavala-cheios mares,
Guelra, grei ou grou loam ao longo do verão
O que seja gerado e nasça e gore.
Cativos nessa música sensual são negligentes
Aos monumentos da imperecível mente.

Um ancião é só algo insignificante,
Um puído casaco numa vara, a menos
Que a Alma bata palmas e cante e alto cante
Por cada farrapo do mortal indumento,
Sem escola de canto, mas estudando ante
Sua magnificência os próprios monumentos;
E assim tenho viajado os mares e avanço
Para a sagrada cidade de Bizâncio.

Oh sábios que estais em Deus de santa pira
Como se no áureo mosaico da parede,
Vinde da santa pira, espiral que gira,
E os mestres-cantores de minha alma sede.
Queimai meu coração que em desejo pira
E está a um moribundo animal em rede
E não sabe o que é; e acolhei-me padres
Para o artifício da eternidade.

Além da natureza não tomarei mais
a corporal forma de natural nado,
Mas da forma como o Grego ourives faz
De martelado ouro e ouro esmaltado
Pra manter um inerte Imperador vivaz;
Ou me porei sobre um galho dourado
A cantar aos donos e damas de Bizâncio
O que é passado ou passando ou ao avanço.




VIAGEM A BIZÂNCIO.
trad. Tadeu Andrade.
in: Blog pessoal do tradutor, aqui. 2013.

Este não é um lugar pros velhos. Enredados
Os jovens uns nos outros, pássaros nos ares
― Aquelas gerações mortais ― em seus trinados,
Nas quedas os salmões, verdéis enchendo os mares,
O escama, o pêlo, a pena no ano ensolarado
Exaltam tudo o que se gera, nasce e morre;
Esquecem, presos nessa música sensível,
Os monumentos de intelecto imperecível.

Um homem velho é algo insignificante,
Um manto esburacado num graveto, a menos
Que a alma bata palmas, cante, e alto cante
Para cada retalho em seus trajes terrenos,
E não há jeito de aprender canção sem antes
Estudar monumentos de esplendor superno,
E, por isso, singrei o mar anos a fio e
Vim à santa cidade de Bizâncio.

Ó, sábios, que em seu fogo Deus faz sempre arder,
Tal como em um mosaico na parede áurea,
Vinde do santo arder, a rodar e volver,
E conduzi a música da minha alma.
Queimai meu coração: doente de querer
E acorrentado numa besta encarquilhada
Ele ignora o que é. Vinde agora pousar-me
Em meio ao artifício da imortalidade.

Fora da natureza, não escolherei
Minha forma corpórea de algo natural,
Mas como a faz o ourives grego eu a terei,
Que esculpe em ouro cinzelado ou em cristal
Para manter desperto um sonolento rei;
Ou num ramo dourado a dar um recital
Aos senhores e damas de Bizâncio
Sobre o que foi, ou passa, ou inda não se viu.




VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. Edson Manzan.
in: Mallarmagensaqui. 2014.

I

Esse país não é para homens velhos. Os jovens
Nos braços uns dos outros, pássaros nas árvores,
― Essas gerações moribundas ― em sua canção,
As quedas de salmão, os mares infestados de cavala,
Peixe, carne ou ave louvam, ao longo de todo o verão,
Tudo que é concebido, nasce e morre.
Capturados nessa música sensual, todos negligenciam
Os monumentos de intelecto atemporal.

II

Um homem de idade não passa de algo sem valor,
Um casaco surrado sobre um bordão, a não ser
Que a alma bata palmas e cante, e cante mais alto
Para cada farrapo em seu vestido mortal,
Nem há escola de canto a não ser estudar
Os monumentos de sua própria magnificência;
E, portanto, eu velejei os mares e vim
Para a cidade sagrada de Bizâncio.

III

Oh sábios se sustentando no fogo sagrado de Deus
Como no mosaico dourado de um muro,
Venham do fogo sagrado, girem numa espiral,
E sejam os mestres cantores de minha alma.
Consumam meu coração; doente de desejo
E atado a um animal agonizante
Ele não sabe o que ele é; e me unam
Ao artifício da eternidade.

IV

Uma vez fora da natureza, eu nunca tomarei
A forma de meu corpo a partir de qualquer coisa natural,
Mas de tal forma como os ourives gregos fazem
De ouro martelado e ouro derretendo
Para manter um sonolento Imperador desperto;
Ou, pousado sobre um galho dourado, cantar
Para os senhores e as senhoras de Bizâncio
Do que passou, está passando, ou passará.


§


VELEJANDO PARA BIZÂNCIO.
trad. eu. [2015]
I

Não é terra pra velhos. Lado a lado
Os mais jovens, e pássaros no ninho,
― Prole efêmera ― somam a seu brado
O salto aquático de atuns, e assim o
Que ave, corpo e cardume têm cantado
No verão é o que nasce e o que definha.
Presos nesta canção lânguida, esquecem
Dos monumentos que jamais perecem.

II

Um idoso é apenas um inválido,
É um trapo sobre uma bengala, a não
Ser que ele exalte e entoe um verso cálido
Aos farrapos da humana condição.
Aulas de canto não há; o que é válido
Aprender é o sublime e a razão
De que assim seja, e por isso eu avanço
Rumo à cidade santa de Bizâncio.

III

Ó sacerdotes frente ao sacro fogo
Como se frente a um mosaico de ouro,
Venham do sacro fogo, em giro, e rogo
Virem mestres-cantores do que sou!
Arruínem meu peito; o anseio logo
O amarra a um animal no matadouro,
Pois ele ignora o que é; ou me juntai de
Novo ao extenso ardil da eternidade.

IV

Fora da natureza eu nunca mais
Farei de mim um algo natural,
Mas sim o que o ourives grego faz
De áurea forja e áureo esmalte, o qual
Desperta o rei inerte e o satisfaz;
Ou, pássaro em ramagem áurea, canto, à
Mais alta estirpe que em Bizâncio há,
O que passou, ou passa, ou que virá.




SAILING TO BIZANTIUM.

I

That is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees,
—Those dying generations—at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.


II

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.


III

O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.


IV

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.

1927.

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