Soneto 20. Shxpr.



O soneto 20 de Shakespeare é um dos mais interessantes da coletânea. Está incluso na sequência em louvor ao fair youth. Pois, caso o leitor não saiba, boa parte dos sonetos de Shakespeare, especificamente os primeiros 127, são dedicados a essa figura do fair youth, ou seja, um rapaz charmoso que teria ganho a estima de Shakespeare. Muito provavelmente ganhou algo mais do que a simples estima, no que se conjetura uma bissexualidade do Bardo. Alguns não concordam muito com essa tese, haja vista que quando um poeta renascentista falava de amor, ele não estava querendo falar necessariamente de amor carnal. Muitas expressões relacionadas ao amor estavam ligadas a uma relação de afeto ou respeito apenas (como quando se dizia, em português antigo, "por amor de"), pra não dizer no fato de que a manifestação de afeto entre dois homens possuía, por assim dizer, níveis toleráveis distintos dos de hoje em dia (ainda mais se considerarmos uma manifestação assim dentro dum plano de sonetos que, partindo da voga dos sonetos de amor, por exemplo o ciclo petrarquiano, ia bater à porta dos poemas laudatórios). Nehemias Gueiros, por exemplo, nega qualquer inferência homossexual nos sonetos de Shakespeare; o que existiria seria uma relação de carinho do poeta para com seu patrono que, se ganha ares sensuais em alguns momentos, não nos dão permissão para que leiamos além disto. (Um bom comentário, disponível virtualmente e em português, sobre os sonetos shakespearianos de modo geral, passando também pela questão da bissexualidade, é este aqui de Rafael Antonio Blanco.)

De todo modo, o argumento corrente é o de que o fair youth seria o Lorde de Southampton. Os sonetos eram escritos como se fossem cartas versificadas endereçadas a uma pessoa, fazendo menção a acontecimentos da época. Essas cartas passavam de mão em mão e adquiriam uma sobrevida literária até o ponto em que eram compiladas em coletâneas posteriores. Naturalmente existiam aquelas sequências concebidas como um todo, concebidas em livro, e a coletânea de Shakespeare parece ter sido um meio termo, pois, embora se liguem ao acaso da composição de poemas afeita à época, esses sonetos ainda assim apresentam uma estrutura muito bem amarrada, com sequências de poemas relacionados à ausência da pessoa amada ou então relacionados a conselhos a respeito da descendência.

Na edição de 1640 dos sonetos, a encargo de Ben Jonson, algumas mudanças foram feitas e as referências explícitas, no ciclo do fair youth, a um homem, foram apagadas. Nehemias Gueiros cita por exemplo, no soneto 108, trocar sweet boy por sweet love (foi só em 1780 que Edmund Malone republicou os sonetos sem as alterações de Jonson!...). Apesar do argumento central de Nehemias ser o de que o ciclo shakespeariano não se reduz apenas ao louvor de um homem ou de uma mulher em específicos, subvertendo, antes, a lógica dos sonetos de amor em voga, creio que a reação dos imediatamente pósteros aos sonetos bem como algumas notas mais intensas ao longo dos sonetos (por exemplo o soneto 52, que faz um jogo velado com imagens e gírias homossexuais) são indícios fortes da bissexualidade, se não da pessoa Shakespeare, pelo menos do eu lírico de alguns dos poemas.

De todo modo, o soneto 20 é prova contrária. Aqui o poeta fala da aparência feminil da pessoa em questão, chegando até mesmo a mencionar o fato de que "for a woman wert thou first created". É um soneto todo ele permeado de tensões que não se resolvem: convivem. E aqui não me refiro simplesmente à fórmula "master mistress", embora ela seja um ponto de apoio poderoso; me refiro ao fato de que a figura louvada possui uma ambiguidade masculina e feminina que o poeta faz refletir em seu poema em quase todos os níveis poemáticos.

Poderia citar, por exemplo no plano imagético, o entrelaçamento que o poeta faz entre caracteres masculinos e femininos o soneto todo, muitas vezes indo até minúcias, como quando ele usa o verbo "Gilding" no verso 6, isto é, "dourando", o que nos remete ao Sol, figura tipicamente masculina e contraposta (mesclada), na microscopia imagética do poema, à Natureza no verso 10, figura tipicamente feminina; ou então, no plano rítmico, o recorte que ele faz, em especial nos dois primeiros quartetos, da estrofe em dois pares de duas frases, de modo que, graças ao mecanismo rímico alternado do soneto inglês, os conteúdos dos pares de frases se cruzem e cheguem num resultado só. É dizer: os versos 1 e 2 são uma só frase, e possuem rimas A e B. Os versos 3 e 4, todavia, já são outra frase, mas também possuem rimas A e B, de modo que as características da primeira frase se mesclam à segunda graças ao instrumento da rima. Um terceiro exemplo do jogo de tensões no poema está na estrutura discursiva do primeiro quarteto se comparado ao segundo. Enquanto no primeiro nós temos a descrição de que, apesar de possuir um rosto afeminado, a pessoa descrita não possui um coração tão instável quanto o da mulher, ou seja, ele chegou bem perto de se parecer totalmente com uma mulher mas no finalzinho escapuliu. A segunda estrofe, por sua vez, fala de um olhar resplandecente e de uma forma tão cheia, tão corpulenta, que tanto o homem quanto a mulher admiram, o que é de certo modo uma tensão com a estrofe anterior, que demonstrava uma espécie de escapadela da feminilidade total, ao mesmo tempo que é uma proclamação da beleza absoluta da pessoa descrita: ela agrada tanto a meninos e meninas.

No final do terceiro quarteto, o poeta está nos dizendo que, embora a pessoa descrita tenha nascido como mulher, a Natureza deu uma rearrumada e adicionou algo que o poeta não faz nenhum proveito. Ela, a Natureza, na verdade não deu essa rearrumada de maneira gratuita, pois a própria Natureza caiu de amores pela figura: só ler o verso 10, "fell a-doting" (infelizmente não consegui mantê-lo na minha tradução). Como a pessoa descrita havia nascido mulher, e como a Natureza, que, como eu disse, é na verdade a Mãe Natureza, ou seja, é mulher também, não queria cair (presumivelmente) numa relação lésbica, ela então decidiu rearrumar a pessoa e inserir alguma coisa que tornasse essa pessoa um homem. Especificamente: um pênis. No original nós temos "to my purpose nothing". Esse "nothing", esse vazio, seria a vagina, o que é respaldado se dermos uma olhada naquela passagem de Hamlet (ato III, cena 2) em que o príncipe vira pra Ofélia e, todo assanhadinho, diz: "That's a fair thought to lie between maid's legs", no que Ofélia pergunta "What is, my lord?", e Hamlet arremata dizendo: "Nothing". Se, no soneto 20, o eu lírico diz que não faz nenhum proveito daquilo, então nós temos a aludida prova contra a homossexualidade nos sonetos do Bardo. Assim, quando, no dístico, o poeta diz "Mine be thy love and thy love's use their treasure", é como se ele estivesse dizendo: seja minha a sua estima e o resto você dê a essas daí. Uma referência sexual direta que, de resto, é corrente ao longo dos sonetos shakespearianos...

Apresento, além de uma tentativa minha de tradução, a tradução de Jorge Wanderley, a recente de Emmanuel Santiago e uma tradução parcial de Barbara Heliodora. Caso o leitor conheça alguma outra que queira compartilhar comigo, receba de antemão meus agradecimentos.



20

trad. eu.
Rosto que a natureza afeminou
É o seu, senhor-senhora de meu peito;
Coração de mulher, que não logrou
Reter, da mulher, seu instável jeito:
Olhar que resplandece e não rodeia
E que enaltece a coisa que se mira;
Forma que é de qualquer forma tão cheia
Que o homem olha e a mulher admira.
Outrora você foi menina impúbere,
Mas logo a Natureza te rearruma
E, me privando de você, insere
O que pra mim não tem valia alguma.
         Se ela deu-te o que damos à mulher,
         Pois me ame ― e a ela dê o que ela quer.

§

20

trad. Jorge Wanderley.
in: Sonetos, Civilização Brasileira, 1991, p. 71.
Um rosto de mulher a natureza
Te deu, amo-senhora e meu amor;
Coração de mulher, sem a fraqueza
De amar mudanças, seu maior pendor;
Olho mais vivo e bem menos fingido
Em seus volteios, dourando o que fita,
Homem na forma e das formas servido,
Que os homens olham e às damas excita;
Para mulher, de início foste feito,
Até que a natureza impeditiva
Numa adição de que eu nada aproveito,
Te deu a mais o que de ti me esquiva;
         Pois te fez membro do ardor das mulheres,
         Ama-me! E a elas dá o que tiveres.

§

20

trad. Emmanuel Santiago.
inaqui.
Obra da Natureza, esse feminil rosto
Que possuis, ó senhor-senhora do meu peito!
Das mulheres tens a alma gentil, mas oposto
És à labilidade, e à moda contrafeito.
Teu olhar brilha mais que o delas, mais sincero,
Iluminando tudo em que tu o desferes;
Mil nuances há, em teu olhar másculo e austero,
Que dos homens o amor roubam, e das mulheres.
A princípio mulher foste tu concebido;
E a Natureza, ao criar-te, era toda alegria,
Entregando-me a ti de coração rendido
E enchendo aos poucos minha existência vazia.
         Mas destinado foste ao prazer das donzelas,
         Teu amor então é meu e teu gozo é delas.

§

trad. parcial de Barbara Heliodora.
in: Shakespeare, Jean Paris, José Olympio, 1992, p. 59.
Um rosto de mulher a Natureza,
De-te, amo-ama de minha paixão.

§

20

A woman's face with nature's own hand painted,
Hast thou, the master mistress of my passion;
A woman's gentle heart, but not acquainted
With shifting change, as is false women's fashion:
An eye more bright than theirs, less false in rolling,
Gilding the object whereupon it gazeth;
A man in hue all hues in his controlling,
Which steals men's eyes and women's souls amazeth.
And for a woman wert thou first created;
Till Nature, as she wrought thee, fell a-doting,
And by addition me of thee defeated,
By adding one thing to my purpose nothing.
         But since she prick'd thee out for women's pleasure,
         Mine be thy love and thy love's use their treasure.

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