"Política", de Yeats.



Politics é o último poema de Yeats. Foi escrito em 24 de maio de 1938. O poeta morreria em 28 de janeiro de 1939. A Europa estava às portas da Segunda Guerra Mundial; na verdade, a Espanha já estava em plena guerra civil, a Itália e a Alemanha já estavam sob domínio fascista e nazista, e a Rússia vivia o Grande Expurgo. Tudo isso, porém, é aparentemente posto de lado pelo eu lírico. Uma garota parada ali. Dá pra prestar atenção em algo além disso?

Existem coisas dignas de nota nesse pequenino poema. Yeats sempre foi um poeta de reentrâncias políticas. Em especial aquele que é chamado o segundo Yeats, isto é, o Yeats após o encontro com o jovem Ezra Pound na década de 10. A partir de então, ele passou a usar uma linguagem certo modo mais prosaica e menos sugestiva e abstratizante, como a de seus poemas pós-simbolistas de primeira fase, e passou a incutir personagens reais, de uma concreção admirável, em seus textos. O ápice dessa segunda fase está em The Tower, de 1928, mas também encontra exemplares anteriores como por exemplo no poema Easter 1916.

Yeats esteve muito ligado à independência da Irlanda. A Revolta da Páscoa, por exemplo, foi um evento que transtornou sua cabeça: tanto que até escreveu o poema que citei acima. Mas também é preciso lembrar que Yeats foi senador durante os primeiros anos da Irlanda independente, o que demonstra que ele esteve próximo da política do jovem país. Todavia, na década de 20 as coisas começaram a desandar um pouco para ele. O poeta já era um sexagenário, e se via como um velho face aos mais jovens. Em Sailing to Byzantium ele expressa isso de maneira muito clara ("That is no country for old men"), mas ao longo de outros poemas de The Tower também: pense-se no próprio poema homônimo, The Tower, onde Yeats mescla memórias pessoais a lendas locais e à política irlandesa, tudo isso num intenso caldeirão poético.

Pensar que Yeats foi um poeta alienado não é nem de longe uma boa ideia. O desdobramento que ele faz do homem viajado ali e o político aqui é um desdobramento que pode ser lido como sendo dele próprio, Yeats, que era um homem viajado e que era um político de leitura e opinião. Isso ajuda a esvaziar o eu lírico de si mesmo: ele já não é mais o que fora. Ele é velho. Não pode mais amar aquela garota parada ali. E também não consegue acompanhar a política de seu tempo. Como ele diz na segunda estrofe de Sailing to Byzantium, um homem velho não passa de trapos sustentados por uma bengala. Parece que Yeats se reduziu a isso, então.

Afinal de contas, a primeira estrofe nos dá a entender que o eu lírico possui um certo vigor ou ao menos que ele não é tão debilitado assim. A garota está parada ali, e ele não consegue pensar em política. O que andam dizendo de guerra e alarmes de guerra, e que, como hoje sabemos, se tornará verdade, é importante, mas aquela garota parada ali é mais. Mas eis que vem a segunda estrofe e quebra com isso: o eu lírico não é mais jovem. Se ele fosse jovem de novo ele teria a garota em seus braços. Mas ele não é.

A opção a todo instante reiterada da garota parada ali pode nos levar a entender o poema como um elogio à alienação política. O jogo dos demonstrativos é particularmente interessante a esse respeito. A garota parada está parada there. O homem viajado, here, e o político, there também. É como se tivéssemos um triângulo que cercasse o eu lírico. Podemos ler de dois modos: 1) ele está acuado, isolado, com todos longe dele; ou então 2) podemos ler que ele na verdade é o homem viajado (graças ao here's), o que não me parece ser uma boa leitura pois o homem viajado e o político se unem pra dizer algo sobre a guerra e os alarmes de guerra: isto é, se o eu lírico realmente fosse o homem viajado, então Yeats teria escrito "eu e o político dizemos". Ao contrário, ele só diz: "eles dizem".

Então a hipótese de que o eu lírico está acuado parece prevalecer. Todos estão distantes, apartados de algum modo do eu lírico. Mas a garota está ali. Parada. Ela parece resistir ao fluxo do tempo, à maneira daquela metamorfose que os pássaros sofrem em Sailing to Byzantium: enquanto na primeira estrofe os pássaros, mortais, estão no meio dos ramos e, junto aos jovens de braços dados e os salmões saltando e os mares povoados de cavalas, se esquecem dos monumentos imortais, na última estrofe nós temos o eu lírico se comparando a um pássaro que pousa num ramo de ouro e canta o que passou, ou passa, ou passará. Isto é: tudo.

Em Politics a garota está ali, parada, e cercando o eu lírico temos um homem viajado e um político. Mas na verdade temos mais: temos a Itália, a Espanha e a Rússia bombardeando o eu lírico de notícias políticas, o que, no contexto geopolítico europeu, significa banhando a Europa de conflitos até que o estopim estourasse (e de fato há quem comente que em Politics o espectro político de Yeats alcança a Europa inteira, ao contrário de alcançar a Irlanda como antes Yeats fizera em seus poemas). A garota é um refúgio, mas talvez seja até mais do que isso: como tudo era político naquela época, o que é corroborado pela frase de Mann na epígrafe, então a garota acaba se realçando de um jeito ou de outro. Ela foge, ela escapa às contingências políticas cruentas de seu tempo. O amor em tempos de cólera.

Eu mencionei a epígrafe. É mais ou menos inútil querermos procurar na obra de Thomas Mann sobre seu significado. Yeats descobriu essa frase de Mann lendo um artigo do jovem poeta Archibald McLeish intitulado Public Speech and Private Speech in Poetry, publicado no Yale Review em 1938. Neste artigo, McLeish chama Yeats de poeta público, no sentido de um poeta que usa de uma linguagem não-idiossincrática que se comunica fortemente com públicos amplos. Uma língua "humana, viva, natural e uniformizada, capaz de comunicar publicamente a experiência comum, que (...) não pode ser confinada (...) aos sussurros íntimos no ouvido da pessoa que se passam por poesia pura nos períodos de declínio." A poesia de Yeats, para McLeish, é uma poesia do mundo, mas num nível que a poesia de língua inglesa dos últimos 100 anos, pelo menos, não lograra alcançar.

Yeats gostou da análise de McLeish, conforme conta numa carta endereçada a Dorothy Wellesley: "o único artigo a respeito do assunto que não me aborreceu por anos" (foi nessa carta, aliás, que ele enviou o rascunho do poema também). Como o próprio McLeish dirá depois, aquela era uma época em que a concepção que se fazia de poesia pública era uma concepção basicamente propagandista e panfletária. Por isso sua concepção de poesia pública se calca na linguagem essencialmente, sem detrimento, todavia, da relação entre poeta e mundo: tanto que McLeish contrapõe Yeats a Auden e Eliot, que, segundo ele, não eram tão públicos quanto Yeats: a linguagem que empregavam servia a fins satíricos ou subjetivos.

Ainda do mesmo artigo de McLeish, Yeats retirou uma referência a um poema anônimo do século XVI. O original diz:

       O western wind, when wilt thou blow  
         That the small rain down can rain?  
       Christ, that my love were in my arms  
         And I in my bed again!

Uma tradução:

       Ó vento! Pra que a chuva chova,
            Quando é que você vem?
       Deus! Se eu estivesse em meu leito...
            Juntinho de meu bem!

A interpretação padrão deste poema nos diz que o eu lírico é um viajante que está longe de casa. A coisa deve esta preta pro seu lado ou, ao menos, a saudade bate. Ele quer simplesmente estar com os seus, fazer amor... Não seria exatamente o que o eu lírico do poema de Yeats também quer? Ele só quer amar. Ele se sente longe de tudo. Cheguei até a sugerir que ele se sente longe dele próprio. Claro que não é tão simples assim alcançar o amor numa época onde tudo lança reentrâncias políticas em tudo. No poema de Yeats isso está formalmente muito bem representado. Yeats nunca antes havia usado o verso livre. Só isso já é algo digno de nota. Por mais que Politics tenha sido escrito no fim de sua vida, houveram meses e meses entre a escrita do poema e a morte do poeta. Além do mais, Yeats deixou ordens de que Politics fosse publicado no final de sua coletânea de poemas. A forma do poema não era assim tão provisória. Ele queria um poema mais prosaico, por assim dizer (mais prosaico, pelo menos, em relação ao padrão da obra yeatsiana), que, quem sabe, realçasse ainda mais a garota parada ali...

Mas há uma coisa ainda mais interessante: é a rima que ele faz entre alarms, no final da primeira estrofe, e arms, na última. De todas as traduções que listei, e digo isso incluindo a minha, a única que manteve a rima foi a de Jorge Wanderley. Não creio que tenha sido algo ocasional por parte de Yeats. Os alarmes de guerra dão uma pungência muito poderosa ao verso, o que nós, leitores de hoje, sabemos muito bem. Na verdade, a própria repetição "war and war's alarms" é pungente. Mas a rima... Ah, a rima. Ela lança os alarmes de guerra sobre o amor hipotético do eu lírico. É a conquista final da política no domínio íntimo da pessoa. E tudo isso com uma simples rima!

Listo abaixo as traduções que encontrei para o poema. Agradeço a Jamesson Buarque, professor da UFG e poeta, e a Miguel Jubé, editor da excelente martelo casa editorial, pela permissão de republicar suas traduções em meu bloguinho bem como por, no caso de Jamesson, ter me passado a tradução de Jorge de Sena.

§

P.S. (10/07): Incluí a tradução parcial de Alipio Correia Neto, feita para o livro A verdade da poesia, de Michael Hamburger. Especificamente após a de Jorge Wanderley, tendo em vista que a tradução de Alipio é de 2007 (ano da morte de Hamburger). Como o leitor pode perceber, ela se esforçou em manter a rima que enxerga entre os versos 2 e 4, isto é, entre fix e politics. O que é bem interessante, pois, observando bem, podemos enxergar também uma rima, ainda que fraca, entre about e thought...


POLÍTICA.

§

trad. Jorge de Sena.

No nosso tempo, o destino do homem propõe o seu sentido em termos de política.
(Thomas Mann)

Com esta rapariga ali especada
Como posso eu atentar
Em políticas romanas
Ou russas ou espanholas?
Quem fala é homem viajado
Que há-de saber o que diz,
E muito lido político
Que tudo meditou bem.
Será verdade o que dizem
De guerras e mais desgraças.

Mas quem me dera ser jovem
Com aquela nos meus braços!

§

trad. Jorge Wanderley.

Como posso, com aquela moça parada ali,
Fixar a atenção
Na política russa
Ou espanhola ou romana?
No entanto, aqui está um homem viajado
Que sabe o que diz
E ali um político
Que leu e meditou
E é possível que seja verdade
O que dizem da guerra e seus percalços.

Mas ah, eu queria ser jovem de novo
E estreitar a moça em meus braços!

§

trad. parcial de Alipio Correia Neto.

Com essa garota ali,
Como é possível que eu acompanhe a
Política em Roma, na Rússia
Ou na Espanha?

§

trad. Jamesson Buarque.

“Em nosso tempo o destino das pessoas apresenta seu significado em termos políticos”
(Thomas Mann)

Como posso eu, àquela garota ali,
Fixar minha atenção
Em política espanhola,
Italiana ou russa?
Contudo, sou um homem experiente que sabe
Sobre o que diz,
E também um político
Que tem leitura e opinião,
E talvez seja verdade o que dizem
Da guerra e alarmes de guerra.

Mas, oh, se eu fosse jovem novamente 
Eu a seguraria em meus braços!

§

trad. Miguel Jubé.

Como posso, aquela garota ali,
Minha mente fixa-se
Na paulista ou goiana
Ou na mineira política,
Aqui um homem viajado
O qual sabe e diz,
E há também um político
Que detém tempo e ideia
E podem só dizer verdades
De guerra e berros bélicos,
Mas, ó, novamente estou novo
E a tinha nos meus braços.

§

trad. eu.


Em nosso tempo o destino do homem apresenta seu significado em termos políticos.
(Thomas Mann)

Com aquela garota parada ali,
Como prestar atenção
Na política romana, russa
Ou espanhola?
E contudo, eis aqui um homem viajado
Que sabe o que diz,
E ali um político
De leitura e opinião,
E o que dizem talvez é verdade
Sobre guerra e alarmes de guerra.

Ah, se eu fosse jovem de novo
E a tivesse em meus braços!


POLITICS.

In our time the destiny of man presents its meanings in political terms.
(Thomas Mann)

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here's a travelled man that knows
What he talks about,
And there's a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war's alarms.

But O that I were young again
And held her in my arms.

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