Henry King (1592 - 1669).



Embora seja largamente antologizado, só fui tomar contato com este poema de King, no sentido de parar e dizer "epa!", quando reli recentemente o famoso ensaio de Eliot sobre a coletânea de poesia metafísica feita por Herbert Grieson. Daqui a pouco eu volto a ele.

Henry King nasceu em 1592, Worminghall, Buckinghamshire. Como outros poetas barrocos de seu tempo, por exemplo John Donne, com quem King manteve uma bela amizade (posso imaginá-los disputando quem escreveria a metáfora mais dissonante), ele seguiu uma carreira eclesiástica, culminada com seu apontamento para Bispo de Chichester em 1642. Considerando que King havia seguido os passos do pai, este era o ápice de sua jornada. O problema é que a Inglaterra estava numa época extremamente turbulenta... A tal da Revolução Puritana. Especificamente, a guerra civil de 1642 a 1645. Em 1643 Chichester se rendeu ao parlamento, e a biblioteca de King foi confiscada, e, no mesmo ano, seu patrimônio foi tomado. Décadas antes, em 1624, sua esposa Anne falecia, com quem King esteve casado desde 1617. Dos quatro filhos que o casal teve, só dois sobreviveram. Daqui nós já podemos perceber a tormenta que não sofreu o poeta... Tanto que King foi basicamente um poeta elegíaco: escreveu textos de caráter fúnebre para gente como Ben Jonson, John Donne, o Príncipe Henry, Gustavus Adolphus (rei da Suécia) etc. Mesmo nos poemas em que seu escopo não foi explicitamente o elegíaco, ele ainda assim incutiu em boa parte deles tristes relances.

Quem folheia sua poesia completa (deixarei o link mais abaixo) encontra, creio, gratas surpresas. (Talvez não um livro repleto de gratas surpresas, mas gratas surpresas pelo menos num nível bastante eu garanto.) Por exemplo o soneto The Double Rock, que possui um incomum recorte métrico: além do fato de ser invertido, apresenta, metricamente, a estrutura 10-4-10-4-10-10 / 10-4-10-4-10-10-10-10. Num outro, denominado apenas Sonnet (cujo primeiro verso é "Tell me no more how fair she is"), o poeta ressuscita as raízes musicais da forma fixa, apresentando-nos um poema em 18 versos, divididos em três estrofes, com métrica em torno de 8 a 7 sílabas. Num outro ("Were thy heart soft as thou are faire"), ele traz 12 versos de 8 sílabas. Na verdade, estou citando estes mas é só a título de exemplo e porque são os primeiros que o leitor encontra. Eles não são os únicos: é muito comum encontrarmos sonetos com cerca de 12 a 20 versos na obra de King, o que demonstra, eu repito, um ouvido apurado e uma concepção musical do soneto distinta até mesmo do que havia sido estabelecido pelos ciclos de sonetos elisabetanos.

Outro aspecto interessante de sua obra poética são os dois poemas intitulados "paradoxos". No primeiro ele discorre a respeito do fato de que é melhor para uma moça jovem se casar com um homem velho, e no segundo ele discorre a respeito do fato de que a fruição destrói o amor. Ele começa dizendo, neste segundo, que "Love is our Reasons Paradox" e termina dizendo que "To close my argument then. I dare say / (And without Paradox) as well we may / Enjoy our Love and yeat preserve Desire, / As warms our hands by putting out the fire." Creio que qualquer pessoa que já tenha tido um caso de amor mais intenso que logo depois se desvaneceu não há de achar absurdos os argumentos deste segundo paradoxo de King.

Famoso mesmo, todavia, é The exequy. Foi usado, por exemplo, como epígrafe de um conto de Edgar Allan Poe, The Assignation. Como dito, King não perdeu apenas a esposa; ele também perdeu dois filhos, e chegou a escrever uma elegia para ambos, mas nada que alcançasse a pungência de Exéquias. Neste poema, escrito em 1657, nós temos basicamente aquilo que Eliot chama a atenção com grande argúcia: ao fato de que o poeta prolonga o efeito poético, aumentando a dor que percorre seus versos e até mesmo, de certo modo, como que aumentando a presença da mulher amada. Isto é: a partir do instante em que ele prolonga as metáforas e as comparações, é como se ele tentasse, graças a isso, fazer com que sua amada permanecesse pelo menos mais um pouco do seu lado.

Herbert Grierson, como eu disse, publicou em 1921 uma antologia de poetas barrocos. Intitulava-se Metaphysical Lyrics & Poems of the 17th C. É uma antologia muito competente, e quem a folheia não se espanta nem um pouco de Eliot ter se encantado tanto com o livro. Sua introdução eu também julgo muito bem feita, onde podemos ler, já no primeiro parágrafo, a definição de que a poesia metafísica "has been inspired by a philosophical conception of the universe and the rôle assigned to the human spirit in the great drama of existence." Com isto em mente, e com o que sabemos que esteve por trás da famosa desmedida barroca (isto é, os excessos e os contrastes epocais atuando diretamente no plano poemático), nós podemos eu julgo de maneira até bem firme lançarmos um olhar distinto para o poema de King. Que ele possua um fundo religioso por trás não é de se espantar pois, de resto, os influxos religiosos serviram como uma espécie de barreira contra o avanço racionalista e humanista da época, para além do fausto e do poderoso impacto que a descoberta do novo continente representou. Se na Inglaterra os influxos religiosos não possuíram a mesma intensidade por exemplo do solo ibérico, isto não quer dizer que foram menos atuantes, haja vista que, do mesmo modo que a poesia barroca ibérica se inscreveu na fenda entre o libertino-desmedido e o sacro, do mesmo modo a poesia barroca inglesa se inscreveu. O poema de King não me deixa desmentir: muitas de suas metáforas são ousadas, como quando ele transforma o topos do mundo como um livro na imagem do eu lírico, cego, contemplando uma biblioteca.

Assim, o gosto pelo paradoxo que a poesia de King costuma ostentar, seu gosto (pelo menos é o que me parece) por estruturas duplas que percorram o poema, possui um fundamento nesse influxo religioso em sua poesia. Afinal de contas, é desejo do poeta o de se encontrar com sua amada noutro plano: e aqui, de novo como em muitos poemas barrocos onde o sentimento é intenso demais ou a questão levantada é intrincada demais, o plano divino surge como uma solução repentina e face à qual o poeta tem apenas que reverenciar.

No texto em que Eliot resenha a antologia de Grierson (e que é um exemplo de resenha bem escrita), ele retoma a metáfora anteriormente desenvolvida em Tradition and individual talent do poeta como um catalisador de experiências díspares. Diz Eliot na resenha (na tradução de Ivan Junqueira):

Quando a mente de um poeta está perfeitamente aparelhada para seu trabalho, ele está constantemente combinando experiências díspares; a experiência do homem comum é caótica, irregular, fragmentária. Este último se enamora, ou lê Espinosa, e essas duas experiências nada têm uma com a outra, ou com o ruído da máquina de escrever ou o cheiro da cozinha; na mente do poeta, essas experiências estão sempre formando novos conjuntos.

Uma vez passada a época da metafísica, a poesia como que perdeu sua sensibilidade onívora, isto é, sua sensibilidade capaz de digerir qualquer experiência. Se antes o poeta podia meditar em cima de uma rosa e unir elucubrações filosóficas a todo um sensualismo e notas pungentes de dor, como podemos ver na poesia metafísica ou então na poesia elisabetana, com o passar dos séculos, argumenta Eliot, o poeta perde essa capacidade e, embora o verso e a linguagem se aprimorem, "a emoção se revela mais grosseira." Daí que, para Eliot, se essa perda da capacidade onívora da sensibilidade não tivesse ocorrido, então muito provavelmente não chamaríamos os poetas barrocos de "metafísicos" (quem começou com essa história aí foi o Dr. Johnson...), visto que, afinal de contas, eles eram poetas que conseguiam transformar qualquer coisa em poesia.

Apesar dessa capacidade onívora não estar, a meu ver, inteiramente presente no poema de King, ela pode ser vista muito bem quando Donne elucubra filosoficamente e até mesmo astronomicamente a respeito de um strip-tease que sua amada lhe faz ou quando Marvell compara o amor que sente a um casal de abutres que se adora. Para que o poeta consiga imagens tão díspares assim, ele só pode estar catalisando um número enorme de representações sensíveis no todo de um poema que não parece possuir limites referenciais.

Quem quiser ler a poesia completa de King pode clicar aqui. Quem quiser ler a antologia de Grierson, pode clicar aqui. O trecho da tradução que apresento, ao lado da minha, é da pena de Aíla de Oliveira Gomes (editora Cia das Letras, 1991). Não tive acesso a sua antologia de poesia metafísica, embora presuma que deva ser um excelente livro: tenho como base a antologia de Hopkins que Aíla montou, onde, apesar de suas traduções não serem lá muito esmeradas, ela conseguiu trazer para um leitor um aparato crítico que fazem com que a edição seja uma excelente edição crítica de Hopkins, o que, se já é algo difícil e raro de acontecer para um poeta lusófono, quem dirá para um anglófono! Tive acesso ao trecho da tradução com base no que Adalberto de Queiroz, em seu blog, disponibilizou: aqui. Em minha tradução, eu afrouxei as rédeas aqui e ali, seja por necessidade rímica, seja pelos ditames da sensibilidade tradutória (posso citar como exemplos os versos 11 a 13 ou o início da terceira estrofe). Não chego a dizer que um ou outro seja exatamente boas razões. A fôrma do poema de King é a mesma do poema de Marvell To his coy mistress: tetrâmetros iâmbicos em dísticos. O mais importante, que seria o recorte estrófico, foi mantido, isto é, manter as onze estrofes: digo que é mais importante que, por exemplo, o seguir tão fielmente o esquema rímico (se bem que entre um e outro não há oposição alguma...), pois esse recorte em onze estrofes, conforme argumenta Hugh Kenner comentando o episódio dos Gados do Sol no Ulysses de Joyce, é um recorte tipicamente elegíaco, tendo sido usado também por Milton.

Pois, a esse respeito, eu chamo a atenção do leitor pro fato de que existem versões incompletas, muitas aliás, do poema correndo a internet. Elas advêm de uma edição compacta, com 94 versos e 10 estrofes, compilada por Arthur Quiller-Couch (aqui). A versão que traduzo tem como base a edição da poesia completa do autor linkada acima, e possui exatos 120 versos.


EXÉQUIAS À SUA ESPOSA.


Aceite o santuário de meu amor,
E, invés de nênias, este hino de dor;
Invés de flores como um diadema
Fúnebre, este buquê de meu poema —
Um triste amigo a quem você vai ver
Chorar a sua morte até morrer.

Perda amada! Cumprido o teu destino,
Minha tarefa é meditar sozinho
Sobre você, você! Você é o livro,
A biblioteca que olho, embora cego.
Por você, cara argila, eu jamais vivo
A luz do dia, e, sim, me desapego,
Perco... E tudo o que faço é tão somente
Ver as coisas que estão à minha frente:
E assim, co'os olhos encharcados, vejo
Quão indolente o tempo tarda e adeja o
Âmago de quem chora: este é, apenas,
O meu fardo: chorar as minhas penas
À medida que conto as tristes horas
Que meu pranto alagou, levou embora.

Mas não se espante caso o tempo corra
Ao contrário, e contrário a nós incorra:
Você me anoiteceu. O ocaso
Que enegreceu a tarde, quem deu azo
Foi você, você, meu dia (enublado
Antes do meio-dia ter passado):
E eu devo me lembrar com dor e pranto
Que o que você viveu não era tanto,
Quanto as horas do dia. Teu sol claro
À minha sorte e amor deram amparo;
Mas nunca mais você irá surgir
Neste hemisfério, e o envolver, cingir,
Uma vez que teu gesto e meneio
São estrela cadente sobre a encosta,
E, entre mim e o que a meu amor é anseio,
O mundo inteiro entre nós dois se posta...
E um eclipse de tal modo incomum
Não se vê mencionar em livro algum.

Eu poderia até deixar você
Me ensombrear um pouco, e entristecer.
Fosse por um mês, fosse um ano, ou dez,
Manter o teu exílio ou então, talvez,
Que ele espace e adie o meu deleite —
Pra que assim teu retorno mais se estreite,
Pondo as cinzas e os restos da mortalha
Ao léu, no que a dor se dispersa e espalha.

Mas, coitado de mim! A maior data
É pequena demais e não constata
Esperanças vazias: nunca mais
Terei sequer a graça de em relance
Ver o teu vulto — e isso até que alcance
A data quando a terra é capataz
De si mesma, e um poder maior calcina
O corpo térreo — ó terra pequenina,
Um corpo igual ao teu! Passada a chama,
Tanto o meu quanto o teu corpo proclama
A graça a nossas almas: subiremos
E com olhar mais claro a nós veremos
Na calma região onde o escuro
Não se interpõe a nós tal como um muro.

Enquanto isto, terra, ela é só sua:
Tamanho bem é um mal! O Céu anua
Que no céu ela fique, não irei,
Então, chamá-la minha, pois que dei
Toda a pouca honraria que guardava
A ela, a quem mais que tudo eu amava.
Seja gentil com ela; peço observe
Que no Juízo Final se conserve
Cada parcela desta raridade
Que jaz em teu caixão, e a reconheça
E dê-lhe o espaço que ela bem mereça,
Posto que esta incumbência, terra, é só
Sua: manter os restos dela, e o pó.
Assim, se você, terra, algum dia há de
Pedir a Ele que empreste — não que dê —
Meu monumento, peça, e com mercê.

Perto do chão, próximo à sombra dela,
Da minha noiva, fecha-se a janela.

Durma, meu amor, durma em cama fria!
Que nada viole esta calmaria!
O último boa-noite! Você dorme
Até que eu tome o teu destino e forme,
Com a idade, com a dor e a doença,
Um casal, meu corpo e a poeira imensa
Em conúbio, pois não possuirei termo
Quando for te buscar no vale ermo.
Não repare se atraso-me um pouquinho:
Eu já estou, meu amor, indo a caminho,
E te sigo com toda a rapidez
Que o desejo faz, ou a tristeza fez.
Cada segundo é um degrau pequeno e
Cada minuto um passo rumo a ti...
E quando à noite eu me sujeito ao sono,
No outro dia eu pressinto o abandono
Da vida, após por oito horas singrar
Tendo o sono, soprando, a me guiar.

Longe do sol o meu batel navega,
E o fim da vida pouco a pouco chega:
Não me esforço em contrário às ondas ir,
Pois, não indo, mais perto estou de ti.

Sim, confesso, por mais que isso desgoste.
Você conquista o campo como a hoste
Que põe-se a festejar sua conquista,
Ousando perecer à minha vista
Quando, não perecesse assim tão nova,
Seria digna de estar nesta cova.
Mas, sus!, meu pulso, como um tambor breve,
Bate e anuncia que virei em breve;
E caso minha marcha seja lenta,
Logo meu ser próximo ao teu se assenta.

Pensar nisto me ordena ir em frente
Até que eu me dissolva inteiramente
Com esperança e paz. Amada — esqueça
O crime — viver é mais que eu mereça,
Mesmo a alma amputada em grande parte,
'Té que eu te encontre e nada nos aparte.


trecho da trad. Aíla de Oliveira Gomes.





EXEQUY TO HIS WIFE.











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