Trans*.



Quando os gringos legalizaram o casamento gay, eu fiz uma postagem especial aqui no blog, em que trouxe um verso de Virgílio e um soneto de Shxpr a respeito (aqui). O mundo inteiro, ajudado por um empurrãozão do Facebook, se irisou. (P.S.: Acabo de ler que na verdade uma ínfima parcela do Facebook se irisou. De todo modo, grandes marcas, por exemplo, se irisaram, o que já demonstra pelo menos um ganho simbólico e um esforço de visibilidade dignos de nota.) Hoje, 3 de julho, a proposta é a de apoiar a questão trans*. Pois muito bem: minha solidariedade é total.

Talvez por isso minha tristeza também seja total. Nós vamos muito além de não discutir a questão trans*. Nós a tratamos de maneira cínica, e não o digo só tendo em mente aquelas piadas mais chãs e batidas. Digo tendo em vista também o fenômeno literário. Afinal de contas, ele é altamente conservador ― mais especificamente, pois o fato de ser conservador pode querer dizer coisas boas e coisas más, ele, o que pode parecer paradoxal para algo que é tido como um rico instrumento de expressão, ele também silencia. O leitor, caso queira, pode simplesmente ler esta postagem de Regina Dalcastagnè para entender um pouco mais sobre minha informação. Não estou pedindo muito. É só ligar os pontos. Dê depois uma pousada na postagem-convocação feita pela Sofia para a página de facebook Travesti Reflexivaaqui. Pimba.

O raciocínio não muda muito. Quando Virginia Woolf, pensando a questão da literatura feminina, diz que o que a mulher que queira escrever deve ter antes de tudo é um teto todo seu, ou seja, uma maneira de se sustentar, ela basicamente está dizendo que a criação literária não se afasta da realidade empírica básica, e que se um grupo é oprimido de maneira ABSURDAMENTE brutal, esse grupo por conseguinte está afastado da literatura. Na verdade até mais do que isso: a literatura também afasta esse grupo, pois ela não existe no éter ― se nós tratamos de forma brutal a pessoa trans* fora da literatura, nós, que somos as mesmas pessoas que mexem com literatura, que a corporificam, fazemos o mesmo numa esfera literária, com as ferramentas que vierem ao caso. Você pode muito bem continuar tratando a literatura com as luvas de pelica de quem só quer um clàssicozinho, uma literatura de qualidade para enaltecer a estante. Mas saiba que, com uma postura assim, você estará atropelando formulações e descobertas elementares dos estudos literários e estará adotando uma posição passiva e, me desculpe as fortes revelações, alienada.

Basta olharmos para o passado. Ou para o presente. Ou até mesmo para o futuro. Não vou nem pedir pra que tentemos uma lista de autores e autoras trans*. Se quiséssemos apenas considerar travestis, pra ficar mais fácil (mais vergonhoso) pra nós, então começaríamos com alguns epigramas antigos, talvez... E iríamos para personagens shakespearianas como Pórcia e Rosalinda, que se travestiam de homens, ou para o teatro elisabetano de forma geral, onde, graças ao fato de que mulheres eram impedidas de atuar, homens adolescentes eram elencados para os papéis femininos. Ou então, um pouco depois, no século XVII, cairíamos em algumas comédias burlescas como por exemplo Le Virgil travesti de Paul Scarron. Já no século XX, Orlando de Virginia Woolf. Um poema como Exchanging Hats de Elizabeth Bishop, que possui o verso-de-toque: "Costume and custom are complex." ("Traje e trejeito são complexos.") Em âmbito nacional, é importante ouvirmos Décio Pignatari dizer que Grande Sertão: Veredas, romance lançado em plena era Sputnik, fala de um amor gay ocorrido no interior brasileiro dos fins do século XIX ― e traz uma personagem como Diadorim, travesti.

Além disso, o que mais? Rita Dove, poetisa norteamericana contemporânea, possui um poema belíssimo a respeito do assunto (aqui). Adelaide Calhman (aqui) estuda a representação do/da travesti em contos de Marcelino Freire, Rubem Fonseca e Júlio César Monteiro Martins. Mesmo supondo que enchêssemos a lista mais um pouco, nem mesmo isso seria o suficiente, pois estaríamos falando de gatos pingados e não só isso ― nós estamos computando também obras que abordam a questão trans* de forma pejorativa, o que, ao invés de possibilitar a criação de uma vertente, de uma tradição ou de pelo menos um arcabouço artístico que crie um elo entre as representações trans* ou seus autores, cria é justamente um empecilho prático: um autor trans* que no passado tenha pego a pena estava criando do zero do mesmo modo como um autor trans* hoje está, visto que, mais do que simplesmente excluirmos o acesso de pessoas trans* à literatura, nós excluímos também um passado e a possibilidade de um futuro. Afinal de contas, mesmo que a lista fosse gorda, ou não tão mirrada assim, o campo literário ainda conta com convenções artísticas e críticas que silenciam modos de expressão determinados, de maneira que as experiências de vida relacionadas a pessoas trans* ainda assim se veriam profundamente prejudicadas.

Eu realmente não sei, portanto, o que dizer. É vergonhoso demais. Nossa sociedade opera um massacre cotidiano e não percebe. Não quer perceber. Nós ainda estamos num estágio irracional e monstruoso de lançar a vasta pilha de cadáveres ― que faria o Ossa parecer uma verruga ― debaixo do tapete e não nos incomodarmos. Isso tem de parar.

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