Robert Herrick (1591 - 1674).



Robert Herrick fez parte de um círculo de poetas denominado Sons of Ben ou Tribe of Ben, isto é, poetas ligados à figura de Ben Jonson. A maneira descontraída de escrita (muitas vezes de cunho epigramático) sempre encaminhada para a fruição do momento e embebida na lírica greco-romana são algumas características do grupo.

Era uma época turbulenta: Guerra Civil. Mas também uma época de boa poesia: Milton preparava os voos mais altos e gente como o próprio Herrick, Herbert, Vaughan, Lovelace ou Crashaw (os poetas carolinos, em suma), estavam na jogada. Herbert Grierson e J. C. Smith dizem que poucas épocas da literatura inglesa produziram tantas canções e líricas breves de tão alto nível quanto esta. Em muitos sentidos, foram herdeiros diretos da poesia lírica elisabetana, que contava com canções refinadíssimas inclusas em peça (por exemplo as tantas de Shxpr) ou feitas em separado (por exemplo a obra de John Dowland).

Herrick não creio que seja um desconhecido do leitor. O tema central de sua obra é o carpe diem. Mas o engraçado é que Herrick morreu velho, com mais de 80 anos. E sua obra foi também um tanto quanto copiosa: ela está inclusa num livro denominado Hesperides (1648), que conta com cerca de 2.500 poemas. Herrick não tinha muita pressa em publicar seus poemas; a maior parte deles circulou na mão de amigos e nobres. Essa falta de rigor, por assim dizer, fez com que a obra recebesse um forte descrédito com o passar dos anos. Eliot, por exemplo, num artigo em que se pergunta o que é um poeta menor, usa o nome de Herrick a título de exemplo, mencionando a falta de propósito que une os poemas de Hesperides. Séculos atrás, um ano após a morte do poeta, Edward Phillips também diria o mesmo. Trata-se, até, de um lugar comum da crítica. Mas, como sugere Randall Ingram em Robert Herrick and the Making of 'Hesperides' (aqui), a composição do livro pode ser lida como um elogio à desintegração, no sentido de que Herrick nutre uma desconfiança acentuada de que a página impressa pudesse guardar a poesia eterna. Afinal de contas, é importante lembrar que o escopo predominante dos poemas de Herrick é o epigramático, e o epigrama era inscrito em superfície mais duráveis que o papel... Assim, contrapondo a certeza de Ben Jonson de que seu livro sobreviveria ao longo dos séculos, diz Randall Ingram a respeito de Herrick:

sua desconfiança acerca da vulnerabilidade física dos livros impressos o forçava a entender os limites dos poderes do autor em aperfeiçoar um livro impresso e em governar sua recepção. Hesperides, assim sendo, parece ser um livro de transição, um livro no qual o autor alternativamente declara seu controle sobre seu texto aperfeiçoado e então, posto que sabe que um livro aperfeiçoado não necessariamente viverá, deixa o controle para os leitores que são encorajados a que ajudem a fazer o livro.

Se digo que Herrick não é um desconhecido do leitor, é porque pressuponho que o leitor já tenha assistido ao filme Dead poet's society. Numa passagem, quando o professor Keating está ensinando a seus alunos sobre o carpe diem, seize the day, boys!, ele cita o poema 208 de Herrick. As situações costumam ser as mesmas: uma referência à flor, símbolo clássico da beleza natural, ao que se prossegue a fala do poeta dizendo que a flor irá perecer (algumas vezes perecer cedo, como o crepúsculo que vem antes do meio-dia no poema 316): portanto, voltando-se para a amada, que os dois se amem enquanto é tempo. Por serem no geral as mesmas, é por isso também que o poema 280, aqui incluso, a meu ver adquire uma pungência específica, pois o poeta traz a imagem de duas plantas fúnebres pra que agraciem seu funeral e não pra que sirvam de explicação metafórica da efemeridade da beleza humana. É como se o poeta pedisse um último favor...

Em nenhum desses poemas Herrick chega à inventividade metafórica de, por exemplo, Andrew Marvell ou John Donne. Mas são poemas que possuem uma cadência admirável e uma musicalidade realmente digna de nota (Ezra Pound é muito elogioso a esse respeito, e olha que Pound era um exigente leitor melopaico), além de uma tensão que, dentro do espaço via de regra exíguo dos poemas, adquire uma alta tensão. O poema 178, por exemplo, foi estudado por Cleanth Brooks em seu clássico The well wrought urn, onde o crítico aponta as tensões pagãs e cristãs ao longo do poema e de como elas não exatamente se resolvem, mas convivem e geram significados ao longo do texto.

Já a respeito deste poema, o 178, ele possui como refrão a frase: "going a-maying" e variantes. O "going" é meio ambíguo pois pode dar a entender que a pessoa está indo em direção ou que ela está se aprontando. Isto é: um se preparar e um já estar a caminho. Além disso, "a-maying" se refere a festividades pré-cristãs que ocorriam no mês de Maio, a princípio referente à deusa Flora, mas, a partir do século XVIII, incorporadas pela tradição cristã e referente à Virgem Maria. Trata-se de uma referência realmente difícil de ser mantida, mesmo porque ela também possui uma pitada erótica. Na tradução, optei por "foliar" que faz uma referência velada a um tipo de festa em específico (as folias) e também possui uma pitada, todavia distante, de sensualidade consigo.

A seleção que fiz de poemas eu considero generosa, e espero que o leitor aprecie. Além de minhas traduções, só conheço outras três, por Augusto de Campos, inclusas na Mini-antologia do paideuma poundiano, no final de ABC da Literatura. Dá pra ler online a edição de Hesperides, em dois volumes, aqui.

§

P.S. (16/01/16): Existem também traduções de Péricles Eugênio da Silva Ramos para dois outros poemas do autor: Delight in disorder e To Electra. Isso no livro Poetas de Inglaterra, de 1970, montado em conjunto com Paulo Vizioli. O primeiro, Delight in disorder, é bom lembrar, também foi traduzido por Augusto de Campos.




178. CORINA, INDO FOLIAR.

Levante-se! A manhã já floresceu
E em suas asas ela traz um deus.
          Vê como a aurora lança o airoso
          Matiz vivaz e preguiçoso:
          Levante, sua lesma, e veja
          O orvalho que lá fora adeja.
Cada flor chora, posta mais ao leste,
Faz uma hora; por quê não se veste
          Logo e, oras!, sai dessa cama?
          Finda a algazarra das aves,
          Cantados seus cantos suaves,
          É uma desonra e te difama
Ficar quando outras virgens, muito antes,
Gozam meses de Maio radiantes!

Levante. Vista-se. Procure ser
Vista como Abril ― linda! ― e a esplender
          Igual à Flora. Não se importe
          Com joias que a fronte comporte:
          Não tema; as folhas distribuem
          Gemas que sobre ti debruem:
Além disso, o dia ainda é infante
E tem, pra ti, um oriental diamante:
          Venha e o receba enquanto a luz
          Em mechas-orvalhadas luz:
           O titã da oeste colina
          Se retira, ou então não declina
'Té você vir. Então, vá se arrumar:
Melhor é irmos logo foliar.

Minha Corina, vem, e, vindo, atente
Como o campo tornou-se rua; e a gente
          E a rua toda um Parque verde:
          A fé que galha ou ramo dê de
          Presente a cada lar: varanda
E porta, até então, arca e tabernáculo
Eram de espinho-branco emaranhado,
Quais sombras de um amor pacificado.
          Existirá, em meio às ruas,
          Sorrisos e planícies nuas
          Que nós não vemos? Vem; saudemos
          O mês de Maio, e o proclamemos:
Não mais pequemos em nos atrasar;
Minha Corina, vamos foliar.

Não há menina nem menino em flor,
Hoje, que traga Maio a seu dispôr.
          Até então, aos jovens compete
          Trazer 'spinho-branco de enfeite.
          Alguns trouxeram creme e bolo:
          Um dia, sonhar foi consolo.
Tem quem joga a preguiça para fora,
Tem quem se casa, oficializa e chora:
          Muitos gorros verdes são dados
          E beijos seja como for
          Bem como uns olhares trocados
          Muito além do Empíreo do Amor:
Contam-nos de uma porta se trancar
Co'a chave se não formos foliar.

Vamos, enquanto é viva a nossa aurora
E o tempo não nos fere e comemora.
          A velhice e a morte vem sem
          Que se goze a vida que se tem.
          Pois ela é curta; os dias correm
          Como o Sol, e as horas escorrem:
Tal como a chuva ou tal como o vapor,
O que se foi ninguém jamais achou:
          Então, você e eu sendo feitos
          De conto, canto, sombra ou feitos;
          O amor e afeto que se externa
          Morre conosco em noite eterna.
Ande o tempo e a nós resta desandar:
Minha Corina, vamos foliar.

*

178. CORINNA'S GOING A-MAYING.

Get up, get up for shame, the Blooming Morne
Upon her wings presents the god unshorne.
                     See how Aurora throwes her faire
                     Fresh-quilted colours through the aire:
                     Get up, sweet-Slug-a-bed, and see
                     The Dew-bespangling Herbe and Tree.
Each Flower has wept, and bow'd toward the East,
Above an houre since; yet you not drest,
                     Nay! not so much as out of bed?
                     When all the Birds have Mattens seyd,
                     And sung their thankful Hymnes: 'tis sin,
                     Nay, profanation to keep in,
When as a thousand Virgins on this day,
Spring, sooner than the Lark, to fetch in May.

Rise; and put on your Foliage, and be seene
To come forth, like the Spring-time, fresh and greene;
                     And sweet as Flora. Take no care
                     For Jewels for your Gowne, or Haire:
                     Feare not; the leaves will strew
                     Gemms in abundance upon you:
Besides, the childhood of the Day has kept,
Against you come, some Orient Pearls unwept:
                     Come, and receive them while the light
                     Hangs on the Dew-locks of the night:
                     And Titan on the Eastern hill
                     Retires himselfe, or else stands still
Till you come forth. Wash, dresse, be briefe in praying:
Few Beads are best, when once we goe a Maying.

Come, my Corinna, come; and comming, marke
How each field turns a street; each street a Parke
                     Made green, and trimm'd with trees: see how
                     Devotion gives each House a Bough,
                     Or Branch: Each Porch, each doore, ere this,
                     An Arke a Tabernacle is
Made up of white-thorn neatly enterwove;
As if here were those cooler shades of love.
                     Can such delights be in the street,
                     And open fields, and we not see't?
                     Come, we'll abroad; and let's obay
                     The Proclamation made for May:
And sin no more, as we have done, by staying;
But my Corinna, come, let's goe a Maying.

There's not a budding Boy, or Girle, this day,
But is got up, and gone to bring in May.
                     A deale of Youth, ere this, is come
                     Back, and with White-thorn laden home.
                     Some have dispatcht their Cakes and Creame,
                     Before that we have left to dreame:
And some have wept, and woo'd, and plighted Troth,
And chose their Priest, ere we can cast off sloth:
                     Many a green-gown has been given;
                     Many a kisse, both odde and even:
                     Many a glance too has been sent
                     From out the eye, Loves Firmament:
Many a jest told of the Keyes betraying
This night, and Locks pickt, yet w'are not a Maying.

Come, let us goe, while we are in our prime;
And take the harmlesse follie of the time.
                     We shall grow old apace, and die
                     Before we know our liberty.
                     Our life is short; and our dayes run
                     As fast away as do's the Sunne:
And as a vapour, or a drop of raine
Once lost, can ne'r be found againe:
                     So when or you or I are made
                     A fable, song, or fleeting shade;
                     All love, all liking, all delight
                     Lies drown'd with us in endlesse night.
Then while time serves, and we are but decaying;
Come, my Corinna, come, let's goe a Maying.


205. ÀS VIOLETAS.

Oi, honrosas virgens!
        Vocês florem,
        Colorem
Abril, e aí vigem.

Virgens que Abril possua,
        Tantas, tantas!,
        Não encantam
Tanto quanto as suas.

Pois que sendo buquês,
        Graciosas
        Junto às rosas
É o lugar de vocês.

E embora respeitadas,
        Aos pouquinhos
        Definham,
Garotas, rejeitadas.

*

205. TO VIOLETS.

Welcome, maids-of-honour!
        You do bring
        In the spring,
And wait upon her.

She has virgins many,
        Fresh and fair;
        Yet you are
More sweet than any.

You're the maiden posies,
        And so grac'd
        To be plac'd
'Fore damask roses.

Yet, though thus respected,
        By-and-by
        Ye do lie,
Poor girls, neglected.


208. ÀS VIRGENS, PARA QUE APROVEITEM O TEMPO.

Colha rosas enquanto pode!
     A idade não tarda.
Esta rosa que agora eclode,
     A morte a aguarda.

O sol, régio lume divino,
     Pro auge se encaminha.
Mas logo o curso chegue ao fim, o
     Sol então definha.

A melhor idade é a primeira,
     Repleta de viço.
Na que se segue o que nos beira
     É apenas suplício.

Então não se acanhe. Usufrua
     Sua mocidade.
Perdida, não será mais sua
     Se ela só se evade.

*

208. TO VIRGINS, TO MAKE MUCH OF TIME.

Gather ye rosebuds while ye may,
     Old time is still a-flying;
And this same flower that smiles today
     Tomorrow will be dying.

The glorious lamp of heaven the sun,
     The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
     And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
     When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
     Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
     And, while ye may, go marry;
For, having lost but once your prime,
     You may forever tarry.



257. ÀS PRÍMULAS BANHADAS DE ORVALHO.

Por quê o pranto, ó bebês? O pranto
                 Lhes expressa
                 Tanto quanto
       À manhã modesta
       Que o orvalho infesta?
Vocês ignoram a tormenta
                 Que a flor enfrenta,
                 Não sentem qual
       É a força do vendaval,
       Nem o tempo as desgasta
                 Ou vergasta,
                 Julgando irreal
       Que, tal como um órfão, a flor,
Sem língua, expresse sua dor.

Falem, filhotes, deixem claro
                 Por quê o choro
                 Lhes é caro;
       É o sono? É o consolo,
                 É o amparo?
Ou não viram, e isso os inquieta,
                 A violeta?
                 Ou é um beijo
                 Que a vocês veio?
       O que o pranto caído
                 Tem exibido
                 Pode ser lido
Como: as coisas, as coisas de valor,
Na dor se fazem e se expressam na dor.

*

257. TO PRIMROSES FILLED WITH MORNING DEW.

Why do ye weep, sweet babes? can tears
                 Speak grief in you,
                 Who were but born
       Just as the modest morn
       Teem'd her refreshing dew?
Alas! you have not known that shower
                 That mars a flower,
                 Nor felt th' unkind
       Breath of a blasting wind,
       Nor are ye worn with years,
                 Or warp'd as we,
       Who think it strange to see
Such pretty flowers, like to orphans young,
To speak by tears before ye have a tongue.

Speak, whimp'ring younglings, and make known
                 The reason why
                 Ye droop and weep;
       Is it for want of sleep?
       Or childish lullaby?
Or that ye have not seen as yet
                 The violet?
                 Or brought a kiss
       From that sweetheart to this?
       No, no, this sorrow shown
                 By your tears shed
       Would have this lecture read:
That things of greatest, so of meanest worth,
Conceiv'd with grief are, and with tears brought forth.



280. AO TEIXO E AO CIPRESTE, PRA QUE AGRACIEM SEU FUNERAL.

     Vocês ambas
     Ornam tumbas:
            Num
Enterro, vê-las é comum.

     Serei feito
     Triste aspeito:
            Peço
Deem à minha tumba adereço.

     Não neguem;
     Mo entreguem
            E alfim
Sou grato a vós, ou vós a mim.

*

280. TO THE YEW AND CYPRESS TO GRACE HIS FUNERAL.

     Both you two have
     Relation to the grave:
            And where
The funeral-trump sounds, you are there,

     I shall be made,
     Ere long, a fleeting shade:
            Pray, come
And do some honour to my tomb.

     Do not deny
     My last request; for I
            Will be
Thankful to you, or friends, for me.



316. AOS DAFÓDILOS.

Dafódilos, pranteio
      Perecerem tão cedo
Num ocaso que ao meio-
     -Dia veio!
           Descansem
      'Té que as horas alcancem
           O ledo
     Cantar matinal;
Após a prece, em meio
A vós eu vou, afinal.

Curta é a minha vida
      Também, e a primavera;
Viver é despedida
     Em nós todos sentida.
          A morte
     Também é nossa sorte,
          Austera
     Como austera é a brisa
E o orvalho que se esmera
Em pérola e não mais se avista.

*

316. TO DAFFODILS

Fair Daffodils, we weep to see
         You haste away so soon;
As yet the early-rising sun
         Has not attain'd his noon.
                        Stay, stay,
                Until the hasting day
                        Has run
                But to the even-song;
And, having pray'd together, we
Will go with you along.

We have short time to stay, as you,
         We have as short a spring;
As quick a growth to meet decay,
         As you, or anything.
                        We die
                As your hours do, and dry
                        Away,
                Like to the summer's rain;
Or as the pearls of morning's dew,
Ne'er to be found again.

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