Henry Wadsworth Longfellow (1807 - 1882).



Um busto de Longfellow (1807-1882) se encontra no Poet's Corner, na Westminter Abbey, Londres. Longfellow é o único escritor americano a receber tal honraria. O Poet's Corner é o correlato inglês do Mosteiro dos Jerónimos, em Portugal, onde se encontram os túmulos de Fernando Pessoa, Luís de Camões, Vasco da Gama, Alexandre Herculano, Almeida Garrett. No caso do Poet's Corner, podemos encontrar os túmulos de nomes como Geoffrey Chaucer, Robert Browning, Alfred Tennyson ou Charles Dickens, bem como honrarias de praticamente toda a literatura inglesa, de Christopher Marlowe a Ted Hughes, passando pelos poetas metafísicos e pelos poetas da Primeira Guerra.

Longfellow nasceu em 1802 em Portland, Maine. Sua história de vida, até certo ponto, é como a de quase todos os poetas de seu tempo: classe média, seus pais nutriam planos de que o filho seguisse uma carreira jurídica mas o estro de poeta deu nisto. No caso de Longfellow, seu interesse por literaturas europeias e em especial por línguas o levou a estudá-las com afinco, empreendendo várias viagens à Europa e se tornando inclusive professor universitário. Numa dessas viagens à Europa, foi parar na Alemanha, onde se familiarizou com a escola romântica. Com a publicação de seu primeiro livros de poemas, Voices of the Night (1839), alcançou certa notoriedade, mas foi só com o longo poema épico em hexâmetros datílicos Evangeline, de 1847, sobre a busca dessa tal de Evangeline por seu amor perdido Gabriel durante a expulsão britânica dos acadianos (1775-1763), que ele realmente estourou.

Mas estourou de verdade. Evangeline foi um sucesso estrondoso, e a tal ponto que Longfellow, a partir de 1854, abandonou o ensino e passou a se dedicar exclusivamente à literatura. Ele tinha bala na agulha pra fazer algo do tipo. Não será exagero se dissermos que a fama de Longfellow nessa época era mundial. Em 1874, por exemplo, o The New Yorker Ledger pagou três mil dólares pela publicação seriada do poema "The Hanging of the Crane". No final da vida, Longfellow recebeu títulos honoríficos de várias universidades americanas, teve sua poesia traduzida para muitas línguas, recebia pedidos de pessoas do mundo inteiro pra que autografasse seus livros (e Longfellow sempre autografava), pra não dizer no fato de que era convidado de honra de muitos monarcas de seu tempo, por exemplo Dom Pedro II. Quando Abraham Lincoln leu os versos "Thou, too, sail on, O Ship of State! / Sail on, O UNION, strong and great!" ("Navegai vós, Navio da Nação! / Navegai grande e forte, Ó UNIÃO!"), de "The Building oif the Ship", ele chorou de emoção. Ao morrer, Longfellow deixou um patrimônio de mais de 300 mil dólares para seus herdeiros, o que, não preciso nem dizer, é uma quantia simplesmente vultuosa, ainda mais considerando que Longfellow conseguiu isso praticamente apenas da literatura.

Sua vida pessoal não chegou, contudo, a ser lá as mil maravilhas. Longfellow teve duas esposas, e as duas morreram. Sua segunda esposa, pra se ter uma ideia, estava selando algumas cartas com vela quando seu vestido acidentalmente pegou fogo. Um dia depois ela falecia. Se no geral Longfellow encontrava apoio na literatura para seus momentos intensos de dor, e diga-se de passagem a poesia de Longfellow realmente possui um certo tom sapiencial que não chega necessariamente a excluir a pungência de seus versos (e talvez por isso ela realmente funcione muito bem como, digamos, auto-ajuda); se no geral era assim, com a morte de sua segunda esposa, na década de 60, Longfellow decidiu se dedicar à tradução da Divina Comédia em versos brancos, o que ocupou boa parte de seu tempo, mas que também lhe deu renome (mais ou menos por essa época Dante Gabriel Rossetti também traduzia a lírica de Dante e, no Brasil, em 88, a primeira tradução da Comédia, pelo Barão da Villa da Barra, em decassílabos brancos, saía).

Nem tudo, claro, na recensão crítica de Longfellow são flores. Na prática, Longfellow é tido como um poeta menor hoje em dia, malgrado o fato de ter sido um verdadeiro titã em seu tempo. Walt Whitman, embora elogiasse o apelo público que a poesia de Longfellow possuía, acusava Longfellow de ser um mero imitador de formas europeias, o que de certo modo Longfellow nunca chegou a negar (boa parte dos poetas do século XIX, se formos parar pra pensar bem, estão muito próximos da sistemática da imitação na poesia clássica). Edgar Allan Poe é um caso ainda mais interessante. Em 1841 Poe escreveu uma carta elogiando Longfellow, chegando até mesmo a dizer que Longfellow era inquestionavelmente o maior poeta da América. Anos depois, no Broadway Journal, ele acusaria ferrenhamente Longfellow de ser um imitador de outros poetas, em especial Alfred Tennyson. Eu sei: uééééé!...

Longfellow morreu em 1882 em Cambridge, Massachussets. Sua morte foi súbita. Emerson escreveu seu epitáfio: "Este senhor era uma alma bela e doce, mas eu me esqueci completamente do seu nome." Particularmente acho meio engraçado como o epitáfio de Emerson, com uma singeleza e uma simplicidade que demonstram uma amizade bonita entre os dois poetas, acabou se demonstrando certo de uma maneira irônica. É um exagero reputar toda a obra de Longfellow como datada, visto que ela ainda possui textos de singular importância e beleza — por exemplo "A Psalm of Life", cuja abertura ainda hoje me toca profundamente:

            Não me fale tristemente
      Que a vida é só um sonho vão!
            A alma é um morto dormente,
      E as coisas não são o que são!

["Tell me not, in mournful numbers, / Life is but an empty dream! / For the soul is dead that slumbers, / And things are not what they seem."]

O poema que traduzo foi escrito em 1852. Na época a população de judeus nos Estados Unidos era de aproximadamente 50 mil. Dez anos depois ela quadruplicaria. Quando Longfellow visitou o cemitério de Newsport, ele não se encontrava propriamente em ruínas. Ele realmente precisava de reparos, mas não era pra tanto. A pose de Longfellow frente ao cemitério certamente se encaixa na cutucada que Whitman e Poe deram no poeta: imitação. Aqui é o caso de nos lembrarmos que, na lírica anglófona, a situação de escrever um poema versando sobre cemitérios, se de maneira geral quando o assunto é poesia é um certo lugar-comum (encaixando-se como uma luva no tropos do Ubi sunt?), adquire um significado um pouquinho maior pois possui em seu passado o Elegy Written in a Country Churchyard, do poeta oitocentista Thomas Gray. A situação é basicamente a mesma no poema de Longfellow: você para num cemitério, olha aquele monte de túmulos e pensa na vida que já se foi, na glória que já se foi e tal e coisa e coisa e tal. Face ao holocausto quase um século depois, e face às recensões certo modo violentas que a figura do judeu recebeu na literatura europeia via de regra (de modo que a figura dum Shylock, por exemplo, com alguns repiques humanos que sejam, é uma exceção), o poema ganha uma pungência a mais. Sua construção, fluida, sua mescla de referências bíblicas, sóbria, e alguns relances imagéticos, marcantes, a meu ver são suficientes para que o leitor possa considerar a beleza dos seus versos e, quem sabe, se encantar como eu me encantei.

Sobre as traduções de Longfellow no Brasil, o leitor há de lembrar que mencionei a amizade entre Longfellow e Dom Pedro II. O Imperador mantinha, em seus caderninhos de poesia, traduções de Longfellow, e o Barão de Loreto, Franklin Dória, em 1870, na Corte Imperial, leu sua tradução de Evangeline para Dom Pedro II. A tradução receberia uma segunda versão, corrigida, em 1909.

Em Portugal, Miguel Street de Arriaga traduziu de forma literal Evangeline em 1879. O estudo introdutório, feito por Xavier da Cunha, é, como diz John E. Englekirk (em "A literatura norteamericana no Brasil II", Revista iberoamericana, 14, n. 29, 1949), o mais completo disponível. Na verdade, Longfellow era um poeta muito usado em antologias escolares, e no Brasil a coisa não era diferente. Englekirk também nos dá notícia de uma tradução, igualmente literal, de Antônio P. d'Albuquerque em 1884 com o intuito de "coadjuvar os estudantes de inglês". Em 1883, Evangeline foi escolhido como poema para exame de língua inglesa na Corte e em todas as províncias do Império. Outro tradutor digno de nota de Longfellow foi Bittencourt Sampaio, que traduziu os Poems on Slavery (1842) em 1884. Este interesse pela faceta anti-escravocrata da poesia de Longfellow vai de encontro ao que Hélio Lopes em "Norte-americanos em nosso romantismo" (Estado de São Paulo, 12/02/78) afirma como sendo fruto da influência, por vinte anos redondos, de Longfellow em nosso romantismo: ou seja, Longfellow foi influente tanto por sua faceta anti-escravocrata quanto por sua faceta campestre.

Machado de Assis possui uma citação de Longfellow no conto O Espelho. Existem muitas outras efemérides espalhadas por aí, mas a maior parte delas remete ao século XIX. O descrédito que a poesia de Longfellow sofreu no século XX, cominado ao descrédito que a poesia romântica de modo geral sofreu, foi o suficiente para que a tradução de sua poesia praticamente fosse eclipsada. Com exceção de duas traduções para o poema Excelsior, uma de Alexei Bueno (na obra Cinco séculos de poesia, editora Record) e outra de Ivan Justen Santana (aqui), não sei de mais nada.

§

O CEMITÉRIO JUDAICO EM NEWSPORT.

Estranho! Estes hebreus em covas, onde as
     Ruas que dão pro mar são avistadas,
Silentes frente às não-silentes ondas,
      Estão em paz — em terras agitadas!

O pó alveja as árvores, que em sono
     Descerram as cortinas do ar frenético,
Enquanto, abaixo, as folhas dão abono
     Ao Êxodo da Morte, estranho e hermético.

E as pedras sepulcrais, cinzas, puídas,
     Pavimentando o túmulo que esvai,
São quais Tábuas Sagradas destruídas
     Por Moisés aos pés do Monte Sinai.

São estranhos os nomes aqui postos,
     São de um sotaque e climas diferentes;
Álvares e Rivera trocam postos
     Com Abraão, Jacó e outras gentes.

"Bendito seja Deus que fez a Morte —"
     Diz quem lamenta, "— a Morte, eterna paz";
E logo após, crente que a fé o conforte,
     "E a Vida, que não vai cessar jamais!"

Fechados os portões da sinagoga,
     Salmo nenhum esta mudez destrói
Nem rabi nenhum lê o velho decálogo
     Num falar que a um profeta apenas sói.

Os vivos se vão, porém não os mortos,
     Inesquecidos. Uma mão oculta
Há que, como um verão, verte confortos
     E cuida dessa gente aí sepulta.

Como vieram? Que ódio cristão, súbito,
     E que perseguição, cega e tirana,
Levou ao mar — desértico em seu âmbito —
     Hagares e Ismaels da raça humana?

Eles viviam em pequenas vilas,
     Em guetos, Judenstrass, becos obscuros;
Aprendiam a levar vidas tranquilas
     E a suportar a dor de seus futuros.

Por toda a vida, com pão sem fermento
     E ervas amargas de temor e exílio,
Seu próprio peito era um alimento
     E as lágrimas, tal como um Mara, auxílio.

Anathema maranatha! era o grito
     Ouvido vila a vila, rua a rua;
E nos portais a um Mordecai aflito
     O punho dos cristãos caçoa e acua.

Orgulho e humilhação braço com braço
     Andavam junto a eles mundo adentro;
Batidos como areia e como aço,
     Restavam impassíveis em seu centro.

Pois ao fundo figuras vastas, vagas
     De patriarcas ínclitos se erguiam,
E as grandes tradições de antigas sagas
     Nos tempos que virão eles previam.

E com o olhar reverso eternamente
      O livro místico do mundo lendo à
Guisa de um livro hebreu, de trás pra frente,
      A vida que tiveram virou Lenda.

Mas ah! o que antes foi já não é mais!
     Trabalhe a terra e trema de aflição
E gere raças, nunca, nunca mais
     As nações mortas levantar-se-ão!

§

THE JEWISH CEMETERY AT NEWPORT.

How strange it seems! These Hebrews in their graves,
      Close by the street of this fair seaport town,
Silent beside the never-silent waves,
      At rest in all this moving up and down!

The trees are white with dust, that o'er their sleep
      Wave their broad curtains in the south-wind's breath,
While underneath these leafy tents they keep
      The long, mysterious Exodus of Death.

And these sepulchral stones, so old and brown,
      That pave with level flags their burial-place,
Seem like the tablets of the Law, thrown down
      And broken by Moses at the mountain's base.

The very names recorded here are strange,
      Of foreign accent, and of different climes;
Alvares and Rivera interchange
      With Abraham and Jacob of old times.

"Blessed be God! for he created Death!"
      The mourners said, "and Death is rest and peace;"
Then added, in the certainty of faith,
      "And giveth Life that nevermore shall cease."

Closed are the portals of their Synagogue,
      No Psalms of David now the silence break,
No Rabbi reads the ancient Decalogue
      In the grand dialect the Prophets spake.

Gone are the living, but the dead remain,
      And not neglected; for a hand unseen,
Scattering its bounty, like a summer rain,
      Still keeps their graves and their remembrance green.

How came they here? What burst of Christian hate,
      What persecution, merciless and blind,
Drove o'er the sea — that desert desolate —
      These Ishmaels and Hagars of mankind?

They lived in narrow streets and lanes obscure,
      Ghetto and Judenstrass, in mirk and mire;
Taught in the school of patience to endure
      The life of anguish and the death of fire.

All their lives long, with the unleavened bread
      And bitter herbs of exile and its fears,
The wasting famine of the heart they fed,
      And slaked its thirst with marah of their tears.

Anathema maranatha! was the cry
      That rang from town to town, from street to street;
At every gate the accursed Mordecai
      Was mocked and jeered, and spurned by Christian feet.

Pride and humiliation hand in hand
      Walked with them through the world where'er they went;
Trampled and beaten were they as the sand,
      And yet unshaken as the continent.

For in the background figures vague and vast
      Of patriarchs and of prophets rose sublime,
And all the great traditions of the Past
      They saw reflected in the coming time.

And thus forever with reverted look
      The mystic volume of the world they read,
Spelling it backward, like a Hebrew book,
      Till life became a Legend of the Dead.

But ah! what once has been shall be no more!
      The groaning earth in travail and in pain
Brings forth its races, but does not restore,
      And the dead nations never rise again.

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