Walter Savage Landor (1775 - 1864).



A parte da obra de Landor que conheço é a epigramática. Fortemente classicista, com uma base que poucos homens de seu tempo possuíram, Landor escreveu  parte razoável de sua obra em latim (a qual, como não sei latim, nunca li), e sua obra em prosa mais famosa, chamada Imaginary Conversations of Greek and Romans (1885), como o próprio nome diz, traz conversas imaginárias entre celebridades romanas e gregas, como por exemplo Aquiles e Helena, Diógenes e Platão, Marcelo e Haníbal etc. Embora não tenha tido uma reputação das melhores, Pound chegou a tecer alguns comentários elogiosos sobre o poeta, referindo-se a uma "qualidade cantável" de sua poesia e a seu estilo lapidar e bem torneado (e dizendo também que seus diálogos são melhores que os de Fontenelle).

A postagem que faço, que não tem bem como intuito uma apresentação rigorosa da figura para o leitor, pois não creio, sinceramente, que a biografia do poeta possa gerar algum interesse, tem como objetivo fazer um pequenino apanhado da poesia de Landor disponível em nossa língua. Se o apanhado é pequenino, é porque a poesia de Landor não é muito presente conosco. O poema mais famoso do autor, Epitaph, é uma exceção e uma efeméride.


trad. eu.
Suave é o ano que passa ―
Doce o odor do orvalho cai.
A vida esvai-se com pressa
E inodoro é o que se vai.

Espero e cortejo a treva,
Mas choro jamais cair
Em meu coração ou cova
O que o pudesse remir.

§

Mild is the parting year, and sweet 
The odour of the falling spray; 
Life passes on more rudely fleet, 
And balmless is its closing day. 

I wait its close, I court its gloom, 
But mourn that never must there fall 
Or on my breast or on my tomb 
The tear that would have soothed it all. 


trad. eu.
A morte vem e me murmura
Não sei o quê perto de mim:
O que sei dessa fala obscura
É que o temor não lhe é afim.

§

Death stands above me, whispering low 
I know not what into my ear:
Of his strange language all I know 
Is, there is not a word of fear. 



trad. eu.
As estradas da vida
     Terminam numa.
"Ele se foi?", é a dúvida
     Do amigo, em suma.

§

Various the roads of life; in one
     All terminate, one lonely way
We go; and ‘Is he gone?’
     Is all our best friends say.


trad. eu.
Não me conte do passado,
     Que uma coisa eu posso expôr:
O ódio, uma vez passado,
     Afia as farpas do Amor.

§

Tell me not things past all belief;
     One truth in you I prove;
The flame of anger, bright and brief,
     Sharpens the barb of Love.


Além do poema abaixo, um clássico de Landor, a meu ver sua obra-prima (tenho em vista em especial a forma como o poeta arruína toda a sceptred race na primeira estrofe e, na segunda, cria um clima familiar e de dedicação, de amor espontâneo e ainda assim límpido, preciso, enjaulado na cadência mínima de um epigrama), Augusto também traduziu o poema CLXXXIX, um poema satírico em que o poeta escarnece os sonetistas da época.

§

ROSE AYLMER.
trad. Augusto de Campos.
in: ABC da Literatura, Ezra Pound, editora Cultrix, p. 206.
Ah, de que vale a nobre raça,
     Ou a forma divina!
De que vale a beleza, graça:
     Rose Aylmer, ruínas.

Já que chorar só, não mais ver, é dado,
     Ó Rosa, em teu apreço,
Um dia de suspiros e saudades
     Eu escureço.

§

ROSE AYLMER.

Ah what avails the sceptred race,
         Ah what the form divine!
What every virtue, every grace!
         Rose Aylmer, all were thine.

Rose Aylmer, whom these wakeful eyes
         May weep, but never see,
A night of memories and of sighs
         I consecrate to thee.


Já esta tradução aqui está meio escondidinha na edição brasileira do ABC da Literatura do Pound. Como todos sabem, o livro foi traduzido em parte por Augusto de Campos e em parte por José Paulo Paes. O Zé Paulo traduziu, especificamente, a segunda parte, em que Pound faz uma espécie de apanhado histórico do seu paideuma. Nesta passagem, Pound cita muitos poemas e trechos, e em muitos casos os poemas e trechos são citados na edição brasileira no original, ou seja, sem tradução. Alguns, porém, recebem uma tradução logo abaixo, entre parêntesis, a qual, presumo, foi feita por José Paulo Paes. Não há indicação explícita de quem tenha sido, mas as traduções de Augusto de Campos foram compiladas, junto com as traduções de seu irmão Haroldo e de Décio Pignatari, no precioso apêndice da edição brasileira, chamada Mini-antologia do paideuma poundiano. É por isso que deduzo e credito a tradução do poema de Landor abaixo como sendo da pena de Zé Paulo e não da pena de Augusto: fosse da pena de Augusto, e ele teria sido incluso na mini-antologia.

§

DIRCE.
trad. José Paulo Paes.
in: ABC da Literatura, idem, p. 146-147.
Fechai-vos à sua volta, estígio bando,
         Que com Dirce na barca estais viajando.
Talvez Caronte esqueça, ao avistá-la,
         Que está senil e que ela é sombra rala.

§

DIRCE.

Stand close around, ye Stygian set,
         With Dirce in one boat conveyed!
Or Charon, seeing, may forget
         That he is old and she a shade.


O poema "You smiled, you spoke, and I believed", que também me parece um caso bastante agradável, foi traduzido por Adriano Nunes em seu blog pessoal, aqui.


O poema a seguir, Epitaph (mas que também recebe o título de Dying Speech of an Old Philosopher), como disse, é o mais famoso de Landor. Foi escrito no 75º aniversário do poeta, ou seja, em 1849. Landor não estava bem perecendo... Ele ainda tinha com uma vida social ativa. Lá no blog Medianeiroaqui, o leitor poderá encontrar uma excelente coletânea de traduções para o poema, incluindo duas de Nelson Ascher (ver nos comentários a segunda). As versões que compilo abaixo são uma de Fernando Pessoa, descoberta por Rodrigo Lobo Damasceno em Fernando Pessoa, tradutor discreto (aqui), e uma de José Lins Grünewald (aqui). No geral não sou muito entusiasta das versões de Grünewald, mas devo confessar que essa versão dele para o poeminha de Landor ficou danada de boa.

§

EPITAPH.

I strove with none, for none was worth my strife.
Nature I loved and, next to Nature, Art:
I warm'd both hands before the fire of life;
It sinks, and I am ready to depart.

§

trad. Fernando Pessoa.
Não combati: ninguém mo mereceu.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.

§

trad. José Lins Grünewald.
Lutei com nada e nada valia a lida.
Amei a Natureza e logo após a Arte;
Aqueci as mãos ante o fogo da vida;
Tudo se afunda e estou como quem já parte.


Zanzando ou, como se diz, stalkeando o facebook de Josely Vianna Baptista, encontro uma postagem em que ela nos relata uma bitradução do epitáfio de Landor, feita em conjunto com Paulo Leminski. O resultado para ambas as partes ficou bastante divertido. Insuflei-me desse espírito e esbocei uma paráfrase minha, que ficou como se vê abaixo. Também incluí, já no pique, uma versão caipira pra Rose Aylmer.

§

trad. eu.
Tretei, só que ninguém valia a treta.
A Natureza e a Arte eu curti pacas.
Botei as mãos no fogo (fraco, fracas).
Tô pronto pra vazar deste planeta.

§

ROSINHA.
trad. eu.
Me diz, pra quê um bando de almofadinha?
     E essas formas santas,
E essas virtudes e essas graças tantas?
     Isso é seu, Rosinha.

Rosinha, talvez seu olhar pudico
     Chore, mas não vê
As noites de lembranças que eu dedico
     A você.


P.S. (16/01/16): Mais um poema para a postagem, também dos mais famosos do autor.

§

trad. eu.
Vive Helena, Tróia estruída,
      E das trevas Alceste escapa.
O verso os aviva e dá vida
       Imortal para a mortal guapa.

Logo que o manto do Esquecer
       Se imponha aos plainos povoados,
Ledos, fátuos ― os namorados
      De outrora louvam eu e você.

Pranto que à Beleza chorou
      Não chora a Glória agonizante.
Uma Forma em meio ao Horror,
      Um nome não morrerá: Ianthe.

§

Past ruin'd Ilion Helen lives,
      Alcestis rises from the shades;
Verse calls them forth; 'tis verse that gives
      Immortal youth to mortal maids.

Soon shall Oblivion's deepening veil
      Hide all the peopled hills you see,
The gay, the proud, while lovers hail
      In distant ages you and me.

The tear for fading beauty check,
      For passing glory cease to sigh;
One form shall rise above the wreck,
      One name, Ianthe, shall not die.



P.S. (16/01/16): No livro Poetas de Inglaterra, de 1970, montado por Péricles Eugênio da Silva Ramos com contribuições de Paulo Vizioli, nós encontramos duas traduções de Péricles para poemas do autor. São as que ponho aqui abaixo. Os autores o caracterizam como de "De temperamento clássico, arredio e não participante, exceto em suas convicções políticas e republicanas (...)".

§

ROSE AYLMER.
 trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
Que importa ser da espécie que domina,
ah, de que vale a forma, tão divina!
tôda virtude, e mais toda magia,
       Rose Aylmer possuía.

Rose Aylmar, não te podem contemplar
os meus olhos insones, mas chorar:
                 a suspirar,
consagro-te uma noite de lembranças.

§

EM SEU 75º ANIVERSÁRIO.
  trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
Não lutei com ninguém, ninguém valia a emprêsa;
amei a arte e, mais que a arte, a natureza;
aqueci as mãos ante o fogo da vida,
             êle se apaga,
e pronto já estou para a partida.


P.S. (26/09/16): Adiciono uma nova versão, desta vez séria, para o famoso epitáfio de Landor. Na oportunidade, incluo uma recente tradução de Nelson Ascher, publicada na data de hoje em seu facebook pessoal, bem como faço menção à ótima postagem (como de praxe) feita por Raphael Soares meses atrás em seu blog, aqui (postagem, específica, sobre o Epitáfio, pode ser lida aqui).

§

trad. Nelson Ascher.
Não comprei brigas, pois custavam muito.
Gostava de arte e amei a natureza.
Quentes as mãos da chama que se apaga
da vida, eu me despeço sem tristeza.

§

trad. eu.
Nunca briguei com nada. Não compensa.
Amei Natureza e Arte, que lhe é afim;
Esquento as mãos na chama da existência;
Ela se apaga, e estou pronto pro fim.



P.S. (28/04/17): Adiciono a versão de Dirceu Villa também para o epitáfio, publicada na edição 21 da saborosa Officina Perniciosa (aqui).

§

trad. Dirceu Villa.
Luta alguma merecia-me, não lutei.
Amei a Natureza e perto dela, a Arte:
Ao fogo da vida ambas as mãos levei;
Ela esfria: posso seguir à outra parte.

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Matheus, segue a tradução que fiz do Epitáfio, em um estilo ligeiramente mais clássico do que a seu... Espero que goste:

    Não lutei com ninguém; nada valia a lida.
    Amei a Natureza, e, tanto quanto, a Arte.
    As mãos, estas aqueci no fogo da vida
    Que naufraga: estou pronto para o desate.

    (Nelson Santander)
    http://nsantand.tumblr.com/

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