Thomas Hardy (1840 - 1928).


(Créditos. Recomendo a leitura.)


Thomas Hardy, prosador e poeta. Poeta, de modo geral, só no fim da vida, quando esse restaurador de edifícios antigos tomaria tento e poria à lume seus versos. Fez bem. Embora sua obra de maior fôlego, The Dynasts, um drama-épico com 131 cenas e na maior parte escrito em versos brancos que tem como pano de fundo as guerras napoleônicas, a meu ver seja um fracasso retumbante (é um panorama poético difícil de tragar num esquema épico que, depois de Wordsworth, já se encontrava desgastado o bastante, pra não dizer na ascensão do romance: Guerra e Paz, de Tolstói, tem o mesmo pano de fundo napoleônico...); apesar disso, Hardy foi um grande poeta, e esta pequena postagem que faço é uma maneira de demonstrá-lo. Sei que, se tomarmos como base por exemplo o levantamento de Denise Bottman sobre Hardy traduzido no Brasil (aqui; ver também os comentários), nós chegamos à conclusão de que sua faceta como poeta é relegada a segundo plano, mas de todo modo não custa envidar um certo esforço em prol do contrário.

Veja o leitor que o que conhecemos de Hardy que nos marca, ou seja, aquela visão amargurada da existência (Hardy, em todos os seus 88 anos, presenciou coisas terríveis demais, entre elas a guerra), essa visão persiste e em muitos aspectos se intensifica quando passamos a falar de Hardy poeta. Assim, se pegarmos o enredo de Judas, o Obscuro, certamente o romance mais famoso do autor em solo nacional, que conta a história desse tal de Judas que, embora nascido de uma família humilde, venceu na vida e conseguiu se formar, virando dotô, e que tempo depois se casou, e que tempos depois a esposa o abandonou, e que tempos depois se apaixonou por sua prima Sue Bridehead e então... Ok. Sei que as pessoas costumam dar chiliques com esse lance de spoilers. Então paro por aqui. O pé na bunda que Judas levou da esposa já é o bastante pra que o leitor possa entender um pouco o tom amargurado da narrativa. O que estava dizendo é que se pegarmos o enredo desse romance, se pegarmos seu tom desolador, esse mesmo tom desolador, num âmbito poético, nada de braçada.

Trago quatro poemas para o leitor. Três em tradução minha e uma em tradução de Décio Pignatari. O primeiro e o terceiro poema estão dentro da faceta bélica da poesia de Hardy, talvez sua faceta mais conhecida ou pelo menos aquela em que ele logrou os melhores resultados (além dos poemas trazidos, também aprecio muito Men who march away e Drummer Hodge). A poesia da Primeira Guerra, como se sabe ou se deve imaginar, foi uma poesia marcada pelo signo do impacto e da perplexidade. A Europa não imaginava que o maquinário de guerra havia alcançado um poder tão destrutivo assim. O escalar das nações no final do século XIX ou, de modo geral, posterior ao consolidamento dessas nações enquanto tais, fez do cenário geopolítico europeu, como diz Luigi Ferrajoli, um mar de Leviatãs.

O primeiro poema que traduzo é um poema basicamente sarcástico. O sarcasmo foi uma atitude corrente na poesia da época, embora me pareça que ela tenha sido usada com mais força durante a Segunda Guerra. A poesia da Segunda Guerra, nota Michael Hamburger, foi basicamente uma poesia feita por civis, ao passo que a da Primeira foi feita também em grande parte por soldados. O clima de destruição do poema de Hardy se faz presente logo no possível encontro entre os dois soldados (que me faz lembrar da Milonga de dois irmãos, de Jorge Luis Borges), num bar todo destruído. A bebida que os dois tomariam, nipperkin, é um liquor colocado num copinho. Fosse no Brasil e certamente estaríamos diante da pinga. Todavia, como estavam numa guerra, a cena trágica e animalesca de se disparar ao ver que o outro dispararia logo ocorre. E o clima de animosidade da primeira estrofe, combinado à animalidade da segunda, cede lugar a uma desculpa interrompida e perplexa. Abalada. Aqui entra o sarcasmo de Hardy. Por exemplo ao dizer que os dois soldados estavam sem emprego, o que amplia o clima de desolação do poema. O homem que ele matou, no título, não é simplesmente o cadáver ali no chão. É também o cadáver do eu lírico ou de todos, virtualmente, que viviam naquele cenário de guerra. Afinal de contas, o fato de ambos estarem sem emprego e num estado desesperador é o suficiente pra que possamos imaginar que outros também estavam na mesma situação, pra não dizer, claro, que, como a arma do outro também dispararia, ou um ou outro estaria morto. O homem que ele matou se refere, assim, não simplesmente à ideia de homem num sentido estatístico; é um homem que, caso ele tivesse conhecido, poderia ser um companheiro de bar.

O segundo caso é um poema intimista de Hardy. Faz parte de uma tripla sequência chamada In tenebris. Os outros dois são escritos em versos de metro maior, mas a meu ver não possuem nem de longe a carga dramática do pequenino aqui. A citação da epígrafe é do salmo 102 (ou 101), versículo 5, que diz: "O meu coração está ferido e seco como a erva." Seguindo Nicholas Friedman em Thomas Hardy's 'In Tenebris': The Problem of Relativity (aqui), o poema é dos mais hábeis em retratar a ansiedade moderna. O eu lírico espera alguma coisa terrível. Terrível: terrível. Ou terrível por deixá-lo num estado de espera que simplesmente o despedaça. O clima de retardo que é trabalhado em Judas, o Obscuro, surge aqui com uma veemência ancorada em versos curtos e incisivos. Lancinantes. Na verdade, observando a estrutura frásica das estrofes, notamos como não só o clima de dilatação tende a uma espera vazia que parece não dar em lugar nenhum, ou, melhor dizendo, ao mesmo lugar de onde se patira, só que com uma nítida sensação de que as coisas pioraram; notamos não só isto, mas também como cada estrofe abre com uma pequena constatação no geral referente ao declínio, com esse périplo que mencionei antes e, no final, com outro pequeno verso abordando esse beco-sem-saída que me referi. É um pequeno voo rasante sobre um deserto. Com exceção do final da segunda estrofe, por exemplo, todas as outras abrem e terminam de maneira negativa. É uma inclusão particularmente interessante, essa da segunda estrofe, pois ela ajuda a incutir e a manter poematicamente a posição isenta do eu lírico, no sentido de que as cenas de dores passadas não podem mais atingi-lo, mas, como estamos num poema que retrata o vazio e a isenção como dolorosos ambos, então esse clima pacato é massacrado e incorporado pelo todo do texto.

É também de se destacar o fato de que os primeiros versos das estrofes se referem a elementos da natureza relacionados num contexto invernal ou outonal. Ou a natureza ataca ou ela perece. O restante dos versos ao longo das estrofes iniciam com "But", seguido daquele périplo circular que mencionei antes. Interessante, esse "But". Grande parte da carga desoladora do poema está inclusa nele. O clima já é de devastação pelo que podemos presumir só dos versos de abertura das estrofes. Esse "But" é meio que redundante, visto que ele inicia uma série de versos que irão aumentar o clima de desolação que já sabemos. É como se Hardy partisse do princípio que algo de bom fosse acontecer (a penúltima estrofe o demonstra de modo especial) mas que, no entanto, "But", não acontece. Daí a espera excruciante. A espera in tenebris.

Já o terceiro poema é um poema de guerra que retrata aquela vida besta que Drummond nos fala (ou pelo menos é esta a minha interpretação, o que embasa minha opção de traduzir "their story", no último verso, por "a vidinha / Que levam"). Algo que vai totalmente na contra-mão, por exemplo, do primeiro poema apresentado, onde a rapidez do recorte narrativo e, mais importante, do recorte frásico, dinamizam o texto. "The breaking of nations" é uma citação de Jeremias 51:20. Esse clima certo modo bucólico que se mescla ao clima bélico não chega a ser propriamente uma novidade: os pastores virgilianos, por exemplo, possuem um pano de fundo bélico e político, e não custa lembrar, com E. R. Curtius, que a vertente bucólica da poesia é pelo menos tão firme na tradição poética ocidental quanto a vertente épica. A técnica de se descrever uma cena com minúcias e buscando pôr o estático em primeiro plano, quando, no segundo, o dinâmico come solto, será anos depois aplicada com a mesma perícia por W. H. Auden em Musée de Beaux Arts. No poema de Hardy, nós nos deparamos com uma vida besta universal, conduzida por uma aliteração bem demarcada, demonstrando aqueles instantes de paz que ou são simplesmente focalizados (ou seja, pode muito bem ser que em outro lugar não-abarcado pelo poema esteja ocorrendo uma guerra, um conflito ou pelo menos algo mais animado, o que podemos deduzir da inclusão das Dinastias passando e dos anais de guerra) ou são falsos. Ponto. Este último extrato de sentido vai de encontro ao que podemos ler quando o poeta nos diz que nada ali muda embora as Dinastias mudem ou no como a noite apaga, eclispa, cloud (alguns textos dispõem fade) o que os anais de guerra têm contado. É um detalhe interessante este, o dos anais de guerra, talvez a mola mestra do poema: digo a mola mestra pois digamos que descrever uma cena pacata não é algo lá muito difícil e nem Hardy consegue resultados tão espetaculares assim; no máximo a imagem dos montões of couch-grass sem chama alguma, só com fumaça, o que demonstra que algo passou e que talvez estejamos diante de uma lenta reconstrução do cenário (wight, abrindo a terceira estrofe, é termo arcaico para cavaleiro, o que talvez ajude a corroborar esta leitura). Eles implicam a consagração de uma guerra, de um conflito, algo que, por conseguinte, redunda na máxima de que a história é a história dos vencedores. Só que mesmo estes anais as noites, como disse, cloud. Podemos pensar que a paz reinará no fim das contas, mas num cenário tão rigorosamente atemporal como este, é também de se pensar se este reinício ou se este trabalho de embaçamento do que os anais de guerra têm gravado, não redundaria num reinício também do que a guerra, e não simplesmente os anais, tem a contar.

O último poema é uma tradução de Décio Pignatari. Décio foi um grande tradutor, mas aqui ele entornou o caldo. No geral Décio sempre trabalhou com projetos tradutórios que privilegiassem aspectos relegados a segundo plano de uma obra: a musicalidade de Heine, o chulo na poesia erótica romana (Horácio, Marcial, Juvenal, Propércio), o primado linguístico em Shakespeare etc (todos capitaneados por um ouvido como poucos atento ao prosaico). Isso explica o grau de radicalidade considerável que ele costumava aplicar em suas traduções, chegando inclusive a experimentos em que o próprio funcionamento da tradução era problematizado (por exemplo na tridução de Mallarmé). Neste caso, todavia, Décio aplicou desdobramentos poéticos a meu ver implausíveis não só para o original de Hardy como também na poética do autor. Expressões como "deve-amor" e "haver-rancor", no final da primeira estrofe, poderiam se encaixar muito bem em outros contextos (Dante Gabriel Rossetti, por exemplo, pra ficarmos com outro vitoriano), mas, aqui, ficam desconexas, e uma expressão como "Mal nata" é cacofônica demais. Uma versão mais sóbria poderia simplesmente estampar, sem descuidar da poesia:

           Se algum deus vingativo me chamasse
           Do alto e risse: "Você, coisa que apanha,
           Eu me entretenho com o teu trespasse:
           Se seu amor perde, meu ódio ganha!"

Existem, claro, soluções interessantes por parte de Décio. A assonância em U nos versos 6 e 7 é algo que dificilmente um tradutor qualquer chegaria, e o mesmo posso dizer da paranomásia "ofego-afoga" no verso 10. Também destaco o último verso, malgrado o fato de que, devido à necessidade da rima, o tradutor tenha tido de se valer de uma expressão como "são bem loucos", infeliz em muitos sentidos. Em muitos sentidos eu diria tanto em relação ao que havia sido dito, ou seja, na tonalidade sustentada ao longo da tradução, de modo que fica algo apartado do restante (e sem necessidade), como também ao original e à poesia de Hardy. Uma solução mais plausível seria o tradutor mudar o esquema rímico inglês por um esquema rímico italiano. Assim ele poderia, sei lá, se valer de um verso como "E o Tempo alegra e joga em gritos roucos..." para "And dicing Time for gladness casts a moan. . . .".

Fiquemos com os poemas.


O HOMEM QUE ELE MATOU.
trad. eu.
"Tivéssemos nos topado
Num bar coberto de estragos,
E teríamos tomado
Uma porrada de tragos!

"Mas, postos na artilharia
E a postos e cara a cara,
Ao ver que dispararia
Minha arma também dispara.

"Matei ele ― eu disparei
Pois ― bem, ele era inimigo:
Não, ele era sim, eu sei;
Isso eu guardo cá comigo;

"Mas ele se alistou meio
No improviso ― e eu também ―
Sem emprego ― a guerra veio ―
Não tem porquê ― veio e ― bem...

"Guerra mais... mais... singular!
Você mata um cara morto
Como estivessem num bar
Ou então, vai saber, num horto."

§

IN TENEBRIS (I).
trad. eu.

“Percussus sum sicut foenum, et aruit cor meum.” —Ps. ci.

          Noite úmida.
Mas minha angústia bravia
De novo não o traria:
          A morte é única.

          Pétalas voam.
Mas se o que passou, passou,
Estes cenários de dor
          Não mais atroam.

          A ave morre.
Eu não perco a força antiga
Neste inverno que castiga:
          A força escorre!

          Murcha a folha.
Mas o amigo não se afasta
Nesta época que se basta,
          Sem escolha.

          Venham geenas.
Mas nada penetra um peito
Que agora é, de todo jeito,
          Vazio apenas.

          Noite forte.
Mas o pavor não vem até
Quem aguarda, sem fé,
          A morte.

§

NO TEMPO DO "DESPEDAÇAR NAÇÕES".
trad. eu.
Alguém gradando com ancinho
      E andando de mansinho
Sobre um velho corcel que trota
      Sonolento na rota.

Somente a fumaça sem chama
      Dos montões de mato e grama,
Os quais mesmo assim nada mudam
      Enquanto Dinastias mudam.

Ao longe, uma moça e um homem:
      Se as trevas já consomem
Os anais de guerra, a vidinha
      Que levam não definha.

§

ACASO.
trad. Décio Pignatari.
in: Poesia, Pois É, Poesia, Ateliê, 2004, p. 262.
Se ao menos do alto me chamasse um deus
De ódio, e risse: "Ó homem coisa-dor,
Teu sofrimento é o júbilo dos céus,
Teu deve-amor é o meu haver-rancor",

Eu me conformaria, indo ao extremo
De não dobrar-me, réu de juiz verdugo,
Mas orgulho que um poder supremo
Me obrigasse a gemer sob o seu jugo.

Mas não. Mal nata, a Alegria já é Morte,
E num ofego a Esperança se afoga:
Brinca de sol e chuva o tempo, e joga
Dados trancados com meu crepe da Sorte.

Tais juízes viciados são bem loucos:
Condenam-me a viver, mas pouco, e aos poucos.


THE MAN HE KILLED.

“Had he and I but met
By some old ancient inn,
We should have sat us down to wet
Right many a nipperkin!

“But ranged as infantry,
And staring face to face,
I shot at him as he at me,
And killed him in his place.

“I shot him dead because —
Because he was my foe,
Just so: my foe of course he was;
That’s clear enough; although

“He thought he’d ‘list, perhaps,
Off-hand like — just as I —
Was out of work — had sold his traps —
No other reason why.

“Yes; quaint and curious war is!
You shoot a fellow down
You’d treat if met where any bar is,
Or help to half-a-crown.”

§

IN TENEBRIS (I).
“Percussus sum sicut foenum, et aruit cor meum.” — Ps. ci.

            Wintertime nighs;
But my bereavement-pain
It cannot bring again:
            Twice no one dies.

            Flower-petals flee;
But, since it once hath been,
No more that severing scene
            Can harrow me.

            Birds faint in dread:
I shall not lose old strength
In the lone frost's black length:
            Strength long since fled!

            Leaves freeze to dun;
But friends can not turn cold
This season as of old
            For him with none.

            Tempests may scath;
But love can not make smart
Again this year his heart
            Who no heart hath.

            Black is night's cope;
But death will not appal
One who, past doubtings all,
            Waits in unhope.


§

IN THE TIME OF 'THE BREAKING OF NATIONS'.

Only a man harrowing clods
      In a slow silent walk
With an old horse that stumbles and nods
      Half asleep as they stalk.

Only thin smoke without flame
      From the heaps of couch-grass;
Yet this will go onward the same
      Though Dynasties pass.

Yonder a maid and her wight
      Come whispering by:
War's annals will cloud into night
      Ere their story die.

§

HAP.

If but some vengeful god would call to me
From up the sky, and laugh: "Thou suffering thing,
Know that thy sorrow is my ecstasy,
That thy love's loss is my hate's profiting!"

Then would I bear it, clench myself, and die,
Steeled by the sense of ire unmerited;
Half-eased in that a Powerfuller than I
Had willed and meted me the tears I shed.

But not so. How arrives it joy lies slain,
And why unblooms the best hope ever sown?
— Crass Casualty obstructs the sun and rain,
And dicing Time for gladness casts a moan. . . .

These purblind Doomsters had as readily strown
Blisses about my pilgrimage as pain.

Comentários