Richard Nixon (1914 - 1994).



É meio que de praxe imaginarmos políticos como seres desalmados que não possuem sensibilidade alguma. Sensibilidade = escrúpulos. Condição estranha. Políticos tentam de todos os modos passarem simpatia e humanidade para seus eleitores (a famigerada relação de confiança!), no geral sob vias as mais arquetípicas do mundo: por exemplo exercícios físicos. Mas, quanto mais ascendem, mais vai ficando claro a artificialidade de sua posição e dos esforços envidados em prol de sua humanização e despolitização. Afinal de contas, hoje em dia o que se entende por política é simplesmente politicagem, e alguns políticos chegam até mesmo ao descalabro de dizerem que o que fazem não é política. Se isto é uma confusão errônea e evidente em muitos aspectos, em especial por estabelecer uma linha divisória tênue demais para que nela possamos crer, no caso de alguns políticos devo reconhecer que não é algo infundado.

Podemos nos lembrar da dominação burocrática de que falava Hannah Arendt, algo impessoalizante e de controle altamente eficaz, e com base numa ideia assim tentarmos entender de maneira um pouco menos pré-concebida ou axiomática a despersonalização que a figura do político traz consigo. Podemos nos lembrar que num âmbito estatal, caso queiramos realmente restringir o campo política apenas nesta cúpula de decisões oficial (ignorando o que Michel Foucault chama de a microfísica do poder), o que temos é um emaranhado de forças precisamente políticas que faz com que a personalização do Estado, ou seja, tratar o Estado como se ele fosse um ente vivo (algo corrente na argumentação da direita ou da esquerda) quando na verdade ele é, repito, um complexo de forças políticas em muitos sentidos antagônicas; podemos tomar como base uma concepção assim da alta cúpula política e entendermos como a figura do político transcende a ideia da representatividade simples e adquire também a posição de um entrelaçado de interesses sociais. Mas também podemos, pra não me estender demais no assunto, nos lembrar que uma das formas de dominação política pensadas por Max Weber era precisamente a carismática, e que, queiramos ou não, ela ainda persiste e segue como sendo um poderoso sustentáculo no atual cenário político, não sendo à toa que os gastos de campanha adquirem somas vultuosas, apoiados, é claro, na padronização sentimental que qualquer veiculação em massa é capaz de esboçar ou estabelecer.

Esta digressão quer chegar mais ou menos a: imaginamos o político como um ser desumanizado, de modo que quando descobrimos que esse político, suponhamos, escrevia ou escreve poesia, achamos a coisa mais esquisita do mundo. É o caso do ex-presidente norteamericano Richard Nixon, chamado por alguns de "nosso melhor poeta presidente". Todavia, não custa lembrar que Dante também era político (chegou a ocupar um cargo que era mais ou menos o de prefeito de Florença), o mesmo podendo ser dito de Goethe e Graciliano Ramos. Não quero nem de longe chegar às raias das entediantes questões valorativas simples, ou seja, o velho "Ah, mas é claro que Dante era muito mais [...]". Nós perdemos demais nos preocupando com questões assim, no geral conduzidas das formas mais desastrosas possíveis. O que digo é: Nixon escreveu poesia, e alguns desses poemas me parecem de particular interesse. E veja o leitor que nem chego a acoplar concepções modernas de poeticidade, como a de Roman Jakobson, e enxergar num slogan político como "I like Ike" um enunciado de conteúdo eminentemente poético, o que certamente aumentaria nosso escopo poético de maneira considerável, nem pretendo me enredar no lado reverso da moeda, tido por muitos, no êxtase de suas luvas de pelica, como um absurdo de prontidão, de tratarmos a relação entre poesia e política ainda que em seus casos mais explícitos (por exemplo Haroldo de Campos escrevendo para a campanha presidencial de Lula). Presumo que, se assim fosse, alguns leitores poderiam ter um piripaque...

O primeiro poema que trago aqui para o leitor recebeu atenção de Hugh Kenner num micro-ensaio satírico publicado em 1974. Kenner escamoteia comparando o poema de Nixon com um do poeta elisabetano Thomas Wyatt "They flee from me". No poema de Wyatt, que ainda pretendo tentar traduzir um dia, o eu lírico relata como todos os que ele conhecia fugiram dele, por mais que um dia tenham se demonstrando amigáveis. Só uma mulher, todavia, não o fez: eles se amaram uma noite, e, embora hoje se encontrem separados, aquele encontro gravou a memória do poeta. Não concordo muito com toda a galhofa de Kenner, embora não chegue a dizer, com Dan Piepenbring, que Nixon foi o melhor presidente-poeta americano (quer dizer; é um título meio ridículo, que, por si só, não quer dizer que Nixon tenha sido um grande poeta). Acho que no caso desse primeiro poema, que, não custa lembrar, possui apenas dez palavras, a situação adquire um caracteres mais agressivo, o que sua concisão ajuda e muito, demonstrando, por parte do ex-presidente, um senso poemático a meu ver notável: ele soube exatamente onde terminar o poema.

Já o segundo demonstra, ainda seguindo a zombaria de Kenner, a forma "habilidosa" com que o ex-presidente conseguiu fugir de uma rima banal. Nós esperamos que ele vá dizer qualquer outra coisa (a rima em -all é exatamente a mesma coisa que a rima em -al conosco), mas essa repetição de "recall" é algo bem pensado justamente frente a tamanha abundância: ele retorna na mesma moeda e se aproveita do duplo sentido que recall traz consigo, de rememorar, trazer de volta ou ligar novamente.

Na tradução do primeiro poema, consegui ser mais conciso que o original. Já na do segundo, que envolve a polissemia com recall, decidi tentar enfrentá-la e, embora tenha fugido da letra do original, achei que o caso de nosso "não ligar" pudesse resolver o impasse.

§

Quem
         diabos
                  eles buscam?
Eles
         nos
                  buscam.

*

Diga que não me lembro
Diga que nunca te ligo.

Com coisas assim
         Eu nem
                       Ligo.

§

Who
         the hell
                  are they after?
They
         are
                  after
                           us.

*

You can say I don't remember
You can say I don't recall.

I can't give any answer
         To that
                  That I can recall.

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