Padraic Colum (1881 - 1972).



Padraic Colum foi um poeta, novelista e folclorista irlandês. Não fosse o comentário de Ezra Pound em A Few Dont's, numa seção denominada Only emotion endures, onde, compilando meio que de cabeça os poemas que lhe marcaram profundamente, ele menciona I shall not die for thee, o poema que traduzo abaixo, e os doze primeiros versos de Drover; não fosse esse comentário e é provável que eu não teria lido o autor tão cedo (se é que leria). Em especial graças ao fato de que suas obras circulam de forma esparsa, talvez com exceção de Nordic Gods and Heroes, que recebeu uma publicação pela Unabridged Dover em 1996 (ao que me consta, é uma seleção bem feita e numa linguagem elegante). Quanto aos poemas, o leitor pode ler os poemas completos de Colum aqui. Os doze primeiros versos de Drover (Vaqueiro, Rei do Gado) que Pound se refere são:

        Ao longo do pasto,
        Da colina ao mar,
        Leitrim a Longford,
        Meu gado vai pastar.

        Escuto no escuro
        Seu passo e alento 
        Nomeio meu gado
        Que passa, desatento;

        E então águas negras
        Na fossa castanha;
        Penso em barcos brancos
        E na filha do Rei da Espanha.

[To Meath of the pastures, / From wet hills by sea, / Through Leitrim and Longford, / Go my cattle and me. // I hear in the darkness / Their slipping and breathing ― / I name them the by-pass / They're to pass without heeding; // Then the wet, winding roads, / Brown bogs with black water, / And my thoughts on white ships / And the King o' Spain's daughter.]

Belíssimos. Pois veja você que nós não podemos pedir a um crítico que ele "acerte". Pedi-lo é desconsiderar algumas questões elementares de crítica literária (a subjetividade do juízo estético, a temporalidade como um critério vazio se pensado por si só, a crítica como uma questão de argumentos etc). O que podemos pedir à crítica é basicamente o que podemos pedir a qualquer um que queremos ouvir a opinião: ou seja, uma forma de olhar para a literatura, de preferência uma forma que se queira a mais sincera e transparente possível. Um instante de consideração na perspectiva do outro para que possamos ter nós mesmos um olhar mais rico. Mãos dadas, entende? Quando falamos de crítica, é isso o que conta: o quanto a opinião alheia é capaz de enriquecer a nossa. Nada de certezas absolutas ou coisa do tipo. Estas são palavras vazias numa discussão estética.

Pound pedir pra que olhemos para os doze primeiros versos do poema é interessante por si só uma vez que quando alguém nos indica um poema, é muito improvável que ela lhe indique estrofe tal e tal. Nestes versos, a situação de um vaqueiro levando seu gado no escuro, enquanto ele pensa em barcos brancos e na filha do Rei da Espanha. Não há nenhuma conexão clara entre uma coisa e outra. E não precisa ter. Ele simplesmente pensa, num daqueles instantes mágicos onde nosso corpo parece se dissolver ao redor, onde a paz é tão intensa que, quando percebemos, contrapostos a Brown bogs with black water (a forma com que Colum colore a imagem é também digna de nota), nós pensamos em barcos brancos e na filha do Rei da Espanha.

I shall not die for thee é uma tradução de um poema irlandês anônimo do século XVII. Duas versões dele podem ser encontradas aqui, e uma tradução literal, feita por Douglas Hyde, aqui. Uma tradução. Espanto algum que Pound tenha listado uma tradução entre seus poemas favoritos. É sempre bom lembrar que a versão elisabetana de Arthur Golding para as Metamorfoses de Ovídio era, pra Pound, um dos mais belos livros da língua. O poema possui um tom bélico latente, mas ao mesmo tempo um louvor liricamente límpido da mulher amada (algo que, ainda em solo irlandês, encontraria um correspondente de alto nível no No Second Troy de Yeats). É como se unisse a crueza da guerra à crueza do amor. Ideias disparatadas? Dentro de uma tradição poético-sentimental, nem tanto. A guerra é cruenta, mas a vassalagem e o cortejo também são. A ideia é basicamente a de um chororô por parte do pretendente que, face à recusa ou face a qualquer coisa do gênero que a mulher amada lhe dê, abre o berreiro e a chama de cruel ou coisa do tipo.

Isto posto, se por um lado não podemos dizer ao certo que o eu lírico vai ou não pra guerra, nós podemos no mínimo presumir que ele possui um conhecimento dela, e como que traz dentro de si a imagem da mulher amada para que sirva de alento durante o combate. Mas nesse caso ele afirma que não morrerá por ela, o que pode ser interpretado de muitas maneiras: ou ele realmente não vai mesmo, ou então ele, fundado nesse amor, não morrerá, ou então, se sairmos de esferas explicitamente bélicas, ele, trazendo a sistemática do amor como uma batalha e da mulher como alguém que já matou de amor outros pretendentes, diz que não morrerá por este amor. É uma forma interessante de ler o poema, o que nos permite olhar com mais naturalidade a mescla de imagens bélicas e líricas ao longo do texto, bem como na veemência com que o poeta afirma que não morrerá (embora, na penúltima estrofe, ele como que titubeie: "I cannot die!").

Fiquemos com o poema.


POR TI NÃO MORREREI.

Dama, esguia à guisa de um cisne,
Por tua causa não morrerei.
Os que mataste eram menos,
Trivial grei.

Pergunto: "Morrerei por estes
Lábios rubros ou o eclipse
Eles, tão esguios!, farão
Que antecipe-se?"

Esbelto o corpo, tenra a pele,
Formoso o rosto, solta a trança ―
E a morte, inda assim, sobre mim
Não avança!

Este cenho e cabelo louro
Mais esta aparência pudica
E este quadril que só aos tolos
Prejudica!

Teu espírito arguto e esplêndido,
Pescoço e olhar a resplender,
Palma estreita e perfil oceânico ―
Não posso morrer!

Dama, esguia à guisa de um cisne,
Entre os sábios eu me formei:
Ó peito branco, ó palma esguia,
Não morrerei!


I SHALL NOT DIE FOR THEE.

O woman, shapely as the swan,
On your account I shall not die:
The men you've slain ― a trivial clan ―
Were less than I.

I ask me shall I die for these ―
For blossom teeth and scarlet lips ―
And shall that delicate swan-shape
Bring me eclipse?

Well-shaped the breasts and smooth the skin,
The cheeks are fair, the tresses free ―
And yet I shall not suffer death,
God over me!

Those even brows, that hair like gold,
Those languorous tones, that virgin way,
The flowing limbs, the rounded heel
Slight men betray!

Thy spirit keen through radiant mien,
Thy shining throat and smiling eye,
Thy little palm, thy side like foam ―
I cannot die!

O woman, shapely as the swan,
In a cunning house hard-reared was I:
O bosom white, O well-shaped palm,
I shall not die!

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