O gato e o guarda-geleias de William Carlos Williams.




É de se perguntar o que faz com que um poema tão simples assim possa ser considerado bom. Pra não simplesmente pedir que o leitor aceite goela abaixo uma afirmação minha, respaldado nos "especialistas" (essa instituição no geral fantasmagórica), eu poderia pedir pra que o leitor observasse a extrema concisão do poema, a forma como Carlos Williams se detém ao essencial. Depois, que ele observasse o tamanico dos versos e mesmo sua leveza, como se fossem justamente passos de um gato. Que o leitor observasse o instante privilegiado que um gato subindo num jamcloset e depois entrando num vaso de flores vazio pode representar. Aquela calma e aquela certa eternidade que uma observação dessas pode, de repente, incutir ― como quando Ferreira Gullar, ao olhar seu gatinho dormindo em cima da cadeira, descobre que aquele gato de alguma maneira é eterno, não porque viverá para sempre e nem mesmo porque viverá na memória das pessoas ou quem sabe no mármore imperecível de seus versos, mas porque parece simplesmente não dar a mínima pra "morte".

Por fim, pediria ao leitor que observasse os detalhes. O gato pulando num jamcloset, uma expressão enigmática que poderia ser traduzida como simplesmente armário de conservas. E depois entrando num vaso de flores vazio, a pata da frente e depois a de trás, com cuidado. Se é um armário de conservas, ele tem que ter cuidado, caso contrário ele derruba algo. Mas um vaso de flores vazio, ali, naquele armário. Um poeta que quisesse simplesmente ser conciso não teria captado ou mesmo tentado um detalhe como este...

Sobre a tradução. O leitor poderá ler um artigo interessante de Luis Dolhnikoff a respeito do assunto para a Sibilaaqui. Compilo, logo depois da minha tradução, a tradução de Paulo Franchetti e Alcir Pécora, publicada pela primeira vez na Germinaaqui. Das três balizas que me parecem fundamentais para a tradução deste poema, a saber: 1) a manutenção de seu tom minimalista; 2) uma tradução satisfatória para jamcloset; e 3) uma forma de corresponder aos pequeninos relances sonoros do original, marcadamente pit-pot na última estrofe; dessas três balizas, a segunda, que, como o leitor pode ter percebido de meu comentário, é das que mais prezo, foi esplendidamente vertida por Franchetti e Pécora. "Guarda-geleias". Isso é fantástico! Meu "armário de conservas" ficou chocho, reconheço, ainda mais tendo em vista que me vali de um cavalgamento intra-estrófico. Fazer o quê. Quanto ao aspecto 1, busquei manter um ritmo de 2 sílabas poéticas por verso ou então 2 palavras por verso, mais ou menos. Já sobre o aspecto 3, minha inversão "vaso / vazio" ao invés de "vaso / de flores / vazio" buscou potencializar o efeito aliterativo entre "vaso" e "vazio".

§

POEMA.

trad. eu.
o gato
subiu o
armário

de conservas
pôs a pata
da frente

com cuidado
a de trás
e afunda

no vaso
vazio
de flores

§

POEMA

trad. Paulo Franchetti e Alcir Pécora.
Quando o gato
subiu no
topo do

guarda-geleias
primeiro a pata direita
da frente

cuidadosamente
depois a traseira
desceu

ao fundo
do vaso de flores
vazio

§

POEM

as the cat
climbed over
the top of

the jamcloset
first the right
forefoot

carefully
then the hind
stepped down

into the pit of
the empty
flower pot

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