"Leda e o Cisne", de Yeats.



150 anos, hein, senhor Yeats! Não vejo melhor maneira de celebrar a data do que me atrevendo a traduzir um poema seu que sempre arrepiou minha espinha.

Yeats, de modo geral, era daqueles que parecem ter ânsias de vômito ao se sugerir que um poema possa ter reentrâncias políticas. Como ele diz nos versos iniciais do poema Política (na tradução de Jorge Wanderley): "Como posso, com aquela moça parada ali, / Fixar a atenção / Na política russa / ou espanhola ou romana?" Certa feita, George Russell lhe pediu um poema político para que figurasse no Irish Stateman. Yeats topou. O problema é que Russell esperava um poema satírico sobre a guerra civil irlandesa ou coisa do tipo. Mas eis que Yeats chega com este soneto: um poema que relata um estupro. George Russell deve ter dado um pulo.

Isso em 1923. A recusa havia deixado Yeats encucado. Tanto que, já em 1924, ele opta por publicar o soneto numa revista de vanguarda irlandesa, To-Morrow, e numa revista norteamericana, The Dial. Isso possui significados interessantes. A guerra civil irlandesa estava chegando ao fim e, como se sabe, ela se seguiu à independência da Irlanda em relação à Inglaterra. O soneto de Yeats está diretamente ligado a tal situação. Ele é em muitos sentidos uma alegoria política de poderoso impacto. A jovem Leda subjugada por um cisne imenso representa a Irlanda subjugada pela Inglaterra. Que Yeats se pergunte, no final do poema, se Leda, antes de ser solta pelo cisne monstruoso, apreenderá ou não o poder e a sabedoria desse cisne, é uma pergunta interessantíssima. Explico: desde 1922 Yeats fora apontado como senador do Estado Livre Irlandês. Ele estava próximo, portanto, de questões basilares da formação daquele Estado recém-nascido, por exemplo a formação de uma constituição. Todavia, é muito difícil que, uma vez independente, o país rompa de todo os laços coloniais com o predador, de modo que, embora a independência tenha sido deflagrada, isso não quer dizer que a Irlanda simplesmente iria se apartar de todo da Inglaterra nem que ― questão nevrálgica ― ela pudesse se dar ao luxo de ignorar aspectos da constituição estatal inglesa como podendo ser benéficos para si própria. As marcas da predação colonial são profundas, é verdade, mas essa predação colonial adveio de um continente que, querendo ou não, já havia feito avanços consideráveis em questões constitucionais, para seguirmos o exemplo dado. Daí as agudas reentrâncias políticas da questão final: aquele ato brutal do estupro possuiria consequências também brutais que, não obstante, deveriam ser absorvidas no que de bom pudessem trazer. Não é algo fácil de engolir. Nós, leitores, também damos um pulo.

Sobre Leda e o Cisne. Mitologia grega. O Cisne, pra variar, era Zeus disfarçado. Desse estupro nasceu Helena, aquela mesmo da guerra de Troia, e os irmãos Castor e Pollux (mas os irmãos não aparecem no soneto). Leda era também a mãe de Clitemnestra, a esposa de Agamêmnon que o matou quando ele retornou da guerra de Troia. Para Yeats, o episódio, brutal por si só, geraria outros dois episódios igualmente horripilantes mas, no final das contas, redundariam nos alicerces da civilização grega (basta observar que tanto o nascimento de Helena quanto a morte de Agamêmnon estão relacionados à guerra de Tróia). Yeats expõe essas coisas com mais cuidado num livro chamado A Vision, onde ele mescla filosofia, astrologia e uma pá de coisas maçantes pra dedéu. A temática de Leda e o Cisne também ganhou poemas da lavra de outros autores, por exemplo H. D. ou Rilke. Para incluir alguns quadros famosos sobre o assunto, fiquemos primeiro com um de Cesare de Sesto baseado num original perdido de Da Vinci:




Observe a asa direita do Cisne abraçando Leda, observe os bebêzinhos nascendo, observe o pano de fundo que, no lado de Leda, é um cenário bucólico e extenso e, no lado do Cisne, apresenta inclusive um castelo.

Agora um de Peter Paul Rubens tomando como base um original também perdido de Michelangelo (poxa vida, esse pessoal não tinha muito cuidado com a tal da Leda!):




Aquela coisa: o ato sexual, aqui muito bem representado (os dois até parecem se fundir, como ocorrerá no poema de Yeats), a parte inferior do cisne, escurecida, copulando com Leda (isso que parece uma mão é o rabo do Cisne), o pano vermelho indicando a lascívia etc etc.

Agora um de Coreggio:




O cisne está mais assanhado e a Leda está achando tudo maravilhoso. As pessoas mais ao lado não parecem dar um foda-se. Tem  cisne voando, tem cisne perto duma garota ali mais pra esquerda... Coreggio tratou a cena como se fosse tudo uma brincadeira. "Oh, veja só esse cisne, que engraçado! Oh, ele está transando comigo!"

Agora Cézanne:




Trazendo uma Leda mallarmaica nem um pouco interessada no Cisne, como se o tédio da existência tivesse lhe apossado totalmente. Ela ter dado o pulso pra que o Cisne bique talvez seja uma maneira de brincar com ele. Talvez uma maneira perigosa demais de brincar. Mas certamente uma maneira indiferente (corroborado pelas tonalidades brancas e azuis do quadro e os pequenos focos de dourado, indicando, no geral, uma nobreza apática).

E por fim, Leda Atomica, uma pintura de Salvador Dalí:




A ideia de que o conluio entre Leda e o Cisne geraria o esplendor grego é metaforizado no poema de Dalí. Observe o compasso, o livro, o pedestal. Leda parece estar sob o controle com o cisne. Do lado direito da anca de Leda, a asa do Cisne parece representar que essa anca, esse quadril é alado, é divino. No mínimo ele será muito importante. O elemento aquático talvez se ligue ao gozo e à fecundidade.

Mas adiante.

Mesmo depois da publicação do soneto Yeats afirmava que seus aspectos políticos eram de somenos importância. É verdade que Yeats estava no ápice de sua carreira: Leda and the Swan foi publicado no livro The Tower, provavelmente a obra-prima de Yeats, quando Yeats já havia entrado em contato e incorporado da maneira como lhe pareceu melhor alguns preceitos modernistas (ele já havia se encontrado há muito com o jovem Ezra Pound, por exemplo). Não creio, todavia, que seja o caso de minimizarmos a dimensão política do texto. De todo modo, soneto possui uma construção acurada. Há uma mescla contínua e um embate poderoso entre uma força maior e uma moça indefesa. Mas digo uma mescla de verdade: a primeira estrofe, por exemplo, possui uma espécie de fusão de caracteres do Cisne e de caracteres de Leda, de modo que o embate nítido que existe entre os dois vai como que se amansando (Leda perde as forças, afinal) até o instante em que ela sinta o coração, estranho, pulsar (na verdade, Yeats diz que ela não tem como não sentir) e, claro, sinta em seus quadris a gestação de catástrofes. Assim, os dois pólos apresentados no primeiro quarteto, com referências fortes a um "ele" e "ela" que se mantém despersonalizados durante todo o soneto, e estendidos no segundo (onde o domínio já é mais marcante, seja pelo fato do quarteto estar fendido com perguntas, seja pelo fato de Leda já não mais conseguir se opôr), chegam no terceiro e no quarto como um ato único.

Compilo aqui, para o leitor, todas as traduções que conheço do poema. Foram retiradas daqui, daqui e daqui. Em minha tradução, a sementinha partiu do uso do decassílabo para o pentâmetro. Não só isso, claro, pois também temos as traduções peritas de Ascher e Britto em decassílabos. Também me norteei na manutenção e na recriação do embate entre Leda e o Cisne, algo que me parece de particular interesse dentro do poema. Assim, em minha tradução, no final do primeiro quarteto "O peito dele o peito dela" e, no penúltimo verso, "o poderio dele ela". Todavia, voltando a isso da métrica, no final do primeiro terceto, temos um verso que costuma ser um problema, pois é muito difícil você manter a métrica nos eixos. No meu caso, tive que cair num decassílabo de acentuação na quinta, o que, sinceramente, não me pareceu nenhum bicho de sete cabeças uma vez que poderia inclusive ajudar a realçar a ideia de ruptura. Do ponto de vista rímico, minha tradução redundou num soneto inglês, ao invés do esquema italiano do original. Creio que se trata de um problema de somenos importância, mas não deixa, claro, de ser um problema.

§

P.S. (16/01/16): Tentei adicionar a data das traduções, não sendo, todavia, bem sucedido no tocante à tradução de Jorge de Sena. Ampliei também a postagem, adicionando a primeira versão das traduções de Nelson Ascher e Paulo Vizioli. Organizei-as cronologicamente.


LEDA E O CISNE.

§

trad. Jorge de Sena.
em: ????. Retirado daqui.

Um golpe: asas ainda adejam sobre a presa
Que é ela vacilante, acariciadas ancas
Por membranas sombrias, bico agarra as tranças:
Segura ele contra si o seio sem defesa.

Com dedos aterrados, afastar-se a glória
Que se adentra emplumada às pernas já se abrindo?
Neste rompante branco, o corpo, pressentindo,
Do estranho coração pode ignorar vitória?

das um tremor dos lombos nesse instante gera
A muralha abatida, o tecto e a torre ardendo,
Agamémnon morto.
                               Enlaçada como era,
E do sangue brutal dos ares possuída,
Juntou dele o saber ao poder del tremendo,
Antes de lasso o bico a abandonar caída?

§

trad. Mário Faustino.
em: Poesia-Experiência, 10/03/57.
Artesanatos de poesia, Cia das Letras, 2004, p. 108-109.

Um golpe súbito: as grandes asas batendo ainda
Sobre a jovem cambaleante, as coxas acariciadas
Pelas plamuras negras, a nuca segura ao bico,
Ele a mantém inerme, o colo contra o colo.

De que modo poderão os gagos dedos temerosos
Repelir, de entre as coxas que já cedem,
Essa glória emplumada?
E que fazer o corpo, entregue à urgência branca
Senão sentir pulsando de onde jaz
O estranho coração?

Um frêmito nos flancos lá engendra
A muralha ruída, tetos em chamas, torre
E Agamenon defunto.
                                   Assim possuída,
Capturada pelo bruto sangue aéreo,
Assumiria o saber dele como seu poderio
Antes que o bico indiferente a deixasse cair?

§

trad. Paulo Vizioli. [1ª versão]
em: Poetas de Inglaterra, Sec. Cultura, Esportes e Turismo SP, 1970, p. 264-265.

Súbito golpe: grandes asas no alvorôço
Sôbre a oscilante jovem, coxas sob o agrado
Das membranas escuras, bico no pescoço,
Seu peito abate sobre o pêito abandonado.

Como afastar, com dedos vagos de terror,
A glória alada de suas coxas se apartando?
E o corpo o que fazer, naquele alvo furor,
Senão sentir o estranho coração pulsando?

Um tremor dos quadris ali vem conceber
A muralha fendida, a tôrre a se queimar
E o morto Agamenon.
                              Enquanto sob o impasse,
Enquanto a dominava o sangue bruto do ar,
Tomou o saber dêle com o seu poder
Antes que o bico indiferente a abandonasse?

§

trad. Nelson Ascher. [1ª versão]
em: Folhetim, 26/02/84, aqui.

Um vento abrupto: as asas batem sobre
a moça atônita e o quadris sujeitos
às membranas escuras ― ele a encobre,
bico na nuca e peito contra peito.

Como, alterada, opor dedos perplexos
à glória alada abrindo coxas hirtas?
Que fazer, sob o arrojo branco, exceto
sentir que o estranho coração palpita?

Um tremor nos seus rins gera as ruínas
muradas, torres e tetos chamejantes
e Agamenon defunto.
                                        Alçada, em face
do rude sangue aéreo ― ela assumira
o saber dele junto ao poder antes
que o bico indiferente a abandonasse?

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.
em: Poemas, Art, 1987. Não sei a página.

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
                                    Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?

§

trad. Paulo Vizioli. [2ª versão]
em: Poemas, Cia das Letras, 1991. Não sei a página.

Um baque súbito: ei-lo em forte ruflar de asa
Sobre a jovem que oscila, a coxa acarinha
Com a membrana escura, a nuca lhe atenaza,
E o peito sobre o peito sem aparo aninha.

Que podem suas mãos, vagas de horror, perante
O emplumado esplendor que aparta as coxas dela?
Que pode o corpo, sob a alvura avassalante,
Se não sentir que o estranho coração martela?

Um tremor dos quadris ali vem conceber
A muralha fendida, a torre a se queimar
E o morto Agamenão.
                     Enquanto sob o impasse,
Enquanto a domina o sangue bruto do ar,
Tomou o saber dele com o seu poder
Antes que o bico indiferente a abandonasse?
§

trad. Nelson Ascher. [2ª versão]
em: Poesia Alheia, Imago, 1998, p. 102-103.
Um vento abrupto: as asas batem sobre
a moça atônita e o quadril sujeito
às membranas escuras ― ele a encobre,
bico na nuca e peito a inerme peito.

Como, assustada, opor um gesto incerto
se a glória alada lhe abre a carne aflita?
Que fazer ― sob o arrojo branco ― exceto
sentir que o estranho coração palpita?

Um tremor nos seus rins gera a fogueira
da torre ao teto, os muros vacilantes
e o fim de Agamemnon.
                                        Rendida a esse
selvagem sangue do ar ― ela absorvera
o seu saber com seu poder antes
de o bico a abandonar sem interesse?

§

trad. Augusto de Campos.
em: Coisas e anjos de Rilke, 1ª ed, Perspectiva, 2001, p. 176-177.
Poesia da recusa, Perspectiva, 2011, p. 184-185.

Um baque súbito. A asa enorme ainda se abate
Sobre a moça que treme. Em suas coxas o peso
Da palma escura acariciante. O bico preso
À nuca, contra o peito o peito se debate.

Como podem os pobres dedos sem vigor
Negar à glória e à pluma as coxas que se vão
Abrindo-o e como, entregue a tão branco furor,
Não sentir o pulsar do estranho coração?

Um frêmito nos rins haverá de engendrar
Os muros em ruína, a torre, o teto a arder
E Agamênnon, morrendo.
                                 Ela, tão sem defesa,
Brutalizada pelo abrupto sangue do ar,
Se impregnaria de tal força e tal saber
Antes que o bico inerte abandonasse a presa?

§

trad. Paulo Henriques Britto.
em: O complexo de Portnoy, Philip Roth, Cia das Letras, 2004. Não sei a página. Retirado daqui.

Súbito, um baque: as grandes asas brancas
Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito,
As patas negras lhe afagam as ancas
E a estreitam, impotente, contra o peito.

Com dedos trêmulos, como afastar
Das coxas fracas o esplendor plumado?
E como não sentir a palpitar
O estranho coração, desabalado?

Um espasmo ― e eis que se gera um novo ser,
O muro rompido, a torre incendiada
E Agamêmnon morto.
                              Ali, fremente,
Pelo poder brutal aprisionada,
Terá ela apreendido o seu saber
Antes que a solte o bico indiferente?

§

trad. eu.

Súbito, um baque: a imensa asa machuca
A moça aflita, enquanto ele a afaga
Com a pata negra e, o bico contra a nuca,
O peito dele o peito dela esmaga.

Mas como, trêmula, afastar a gala
Plúmea sobre seu ventre, com repulsa?
Como não, se a alvura a avassala,
Sentir estranho o coração que pulsa?

Um tremor nos quadris há de engendrar
O teto em chamas, a ruína e a torre
E Agamêmnon, morto.
                                 Presa pelo ar
De sangue bruto e abrupto, a ela ocorre
Que o poderio dele ela apreenda
Antes que o bico apático a desprenda?

§

LEDA AND THE SWAN.

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
                                   Being so caught up,
So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?
1923

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