Edmund Spenser (1552 - 1599).



Costumamos nos lembrar da época elisabetana por seu teatro, mas ela foi mais. O teatro percorreu um longo caminho até que pelo menos parte dele gozasse das lisonjas palacianas. A lei 39 de Elizabeth, de 1597/1598, uma das famosas Lei dos Pobres, no seu capítulo 4 chegava a prever a prisão daqueles atores tidos como vadios. O que possibilitou a permanência do teatro elisabetano foi tanto sua popularidade e sua tonalidade cosmopolita, quanto a forma habilidosa com que alguns dramaturgos conseguiram se infiltrar na corte. O caso de Shakespeare é digno de nota. Durante a época da peste, na década de 1590, e o consequente fechamento dos teatros ingleses, o Bardo aproveitou para escrever dois longos poemas (Venus e Adônis em 1593 e O rapto de Lucrécia em 1594) dedicados ao lorde de Southampton, além da totalidade de seus sonetos. Isso criou um certo estreitamento de laços que, acompanhado das bajulações de outros artistas, entre eles dramaturgos, fez com que, com o passar dos anos, a corte fosse apadrinhando algumas companhias teatrais. Em 1552 a rainha ordenava que todas essas companhias fossem licenciadas (as penalidades da lei 39, repito, eram para os atores vadios), e em 1583 ela já tinha apadrinhado uma. Em 1594 tal companhia, Queen's Men, foi substituída pela Admiral's Men e a Lord Chamberlain's Men, esta última também conhecida como King's Men (pois acompanhou a ascensão de Jaime VI em 1603) e que contava com Shakespeare e Burbage em seu elenco. Uma companhia que conseguisse chegar a tal patamar tinha a vida feita. Elas contavam com uma agenda regular e podiam colocar mais peças na jogada, e, portanto, investirem com mais segurança e retorno.

A via principal de acesso, todavia, continuava sendo a da poesia. E Edmund Spenser é um caso particularmente feliz a esse respeito. Nascido em 1552 numa família modesta (embora hajam dúvidas a respeito de sua data de nascimento exata, visto que os documentos disponíveis se perderam), Spenser foi matriculado ainda criança na Merchant's Taylor school. Lá ele travou uma amizade com seu professor Richard Mulcaster, que foi importante para que Spenser estabelecesse contatos que muito lhe ajudariam em sua carreira artística.

A educação de Spenser foi esmerada. Com dezessete anos mais ou menos ele rumou para Cambridge, onde publicou uma coletânea chamada A Theatre of Wordlings, com versões suas para Petrarca e Joachim du Bellay. Muitos poetas da época, e isso não é novidade pra ninguém, se embasavam diretamente em modelos renascentistas italianos e franceses para composição de seus poemas, o que caracteriza a tão afamada emulação na poesia clássica. Que Spenser tenha batizado alguns de seus textos como sendo literalmente versões é uma maneira interessante de olhar a produção de seu tempo e a própria produção de Spenser, rastreando-lhe as fontes e escopos poéticos, qual seja: manter um contato produtivo entre a poesia antiga e a clássica.

Em 1573 Spenser receberia o título de bacharéu em artes e em 1576 o de mestre. Das amizades que fez neste período, aquela com Gabriel Harvey, também professor, foi de particular importância pois fez com que Spenser conhecesse, entre outros, o poeta Philip Sidney. O encontro entre ambos, embora tenha se dado uma única vez, gerou uma afinidade que se estenderia pela vida toda de ambos os poetas (Sidney morreu 13 anos antes de Spenser). Eles passariam a trocar cartas, dedicatórias e poemas. Na sua Apologia da Poesia, de 1579, Sidney acusa a Inglaterra de padecer nas mãos de poetas-macacos (poet-apes, seguindo um símio-símile que E. R. Curtius caracteriza como sendo de longa data, não custando lembrar que Ben Jonson, alguns anos depois, escreveria um epigrama interessante sobre o assunto) e de que nenhum de seus poetas atuais tinham a estatura de Boccaccio, Dante ou mesmo Chaucer. Como disse no parágrafo anterior, um texto como o de Sidney ajuda a entendermos as balizas pretendidas por uma apologia assim, e a ascensão poética de Sidney e em especial de Spenser pode ser vista como o cumprimento de um projeto poético intimamente ligado a uma revalorização do arcabouço clássico associado, ao mesmo tempo, a um ressaltamento de caracteres nacionais.

No final da década de 1570, Spenser e Sidney cairiam do cavalo. A rainha não estava muito feliz com a forma com que alguns artistas palacianos receberam a notícia de que ela intentava se casar com o príncipe francês, católico, François. O espírito protestante clamava uma independência política e religiosa para a Inglaterra, o que, o casório fosse eventualmente realizado, seria abalado. Dizem que Sidney chegou até a escrever uma carta pra rainha. No caso de Spenser a coisa não foi tão traumática pois, em 1580, ele estava de mala e cuia para a Irlanda, onde ficou até o fim da vida.

Foi nessa época que Sidney publicou The Shepheardes Calendar. Foi um sucesso grandioso, com seis edições sucessivas antes do novo século, malgrado o fato de, graças às vicissitudes políticas que o poeta enfrentava na época, Spenser ter tido de publicar a obra sob o pseudônimo de Inmeritô. A obra é uma sequência de doze poemas que representam, cada qual, um mês do ano. Remonta às éclogas antigas, mas faz uma verdadeira salada de referências, mesclando influências como Virgílio, Hesíodo ou Mantuano. A tessitura alegórica, graças a qual Spenser ainda hoje é tido como um mestre consumado, já estava presente aqui. Cada poema pode ser lido como uma alegoria política: por exemplo o poema que representa o mês de Abril é dedicado à rainha Elisabeth, e, como já sabemos desde Chaucer, Abril é o mais aprazível dos meses (só Eliot é que criaria caso depois). Assim, o poema que é dedicado à rainha representa o fausto, a época feliz etc etc. Noutros poemas, de épocas relacionadas ao outono, nós podemos enxergar alguns indícios que apontam para o embate protestante que o país ainda não tinha resolvido de todo (a rainha conduziu de forma habilidosa seu governo no fio da navalha).

E não só isso: cada poema possui como influência um modelo de composição chamado emblem books, que consistia de três partes: um emblema, isto é, uma figura, seguida do mote, isto é, do texto, e, no final, de uma explicação daquele mote (uma vez que o mote no geral era escrito em termos enigmáticos). Assim, cada um dos poemas começa com uma imagem, no que se segue o argumento do poema, em prosa, o poema em si e, no fim, de uma glosa, em latim, e de uma seção chamada "Emblema", onde o poeta explica o metro e as fontes poéticas usadas. Este instrumental poético, aliás, foi considerado bastante avançado para a época. Spenser usou metros e tipos estróficos até então novos, além de ter conseguido um certo equilíbrio entre uma linguagem genuinamente inglesa ao mesmo tempo que próxima de uma tonalidade antiga, algo que podemos explicar notando que Spenser meio que aplicou um inglês arcaico na composição de seus textos, remetendo a Chaucer mas sem toda sua bufonaria.

Há também uma reentrância emocional que percorre o livro, ou seja, ele trata da recusa de uma tal de Rosalind a um tal de Colin. Os meses que representam o fausto são os meses em que a tônica do poema é mais alegre, e aqueles que representam épocas mais outonais, vocês já sabem.

Enfim. Não posso negar que é um livro muito bem construído. Deveria ser mais lido.

Como dizia, Spenser por essa época estava de mala pronta pra Irlanda. Seria secretário particular de Arthur Gray, um lorde deputado irlandês. Spenser teve outros empregos por lá também. Foi escrivão (clerk) do Privy Council e xerife designado pela rainha até o fim da vida. Ganhava uma nota preta com esses empregos. Pra você ter uma ideia, em 1588 ele chegou a comprar um castelo. Das amizades que fez por lá, a única digna de nota é a travada com o poeta Walter Raleigh, autor daquele poema The Nymph's Reply to Shepherd, que depois receberia uma resposta (a meu ver superior) de Marlowe. Na verdade Raleigh teve uma vida e tanto, ainda mais se comparada ao tédio que não deve ter sido a de Spenser (em especial depois de 1580). Raleigh foi enviado para a Irlanda com fins a dar cabo a uma revolta que ali ocorria, um problema meio que frequente por essa época e que foi uma das causas da Guerra Civil posterior (isto é, o maquinário e as crias de guerra dessas operações mata-leão foram usados décadas depois pro arranca-rabo interno). Bem sucedido, ganhou a simpatia da rainha. O problema foi que, em 1592, a rainha descobriu que Raleigh mantinha um caso com uma de suas damas de honra, o que a deixou possessa: Raleigh e sua esposa foram presos. Ao ser solto, Raleigh saiu numa expedição em busca de El Dorado. Quando Jaime VI subiu ao trono, a coisa só iria ficar pior, pois Jaime VI não gostava nem um pouco de Raleigh. O poeta foi acusado, em 1603, de tramar contra a vida do rei. Foi preso, só que dessa vez sua prisão durou 12 anos. Em 1616, ao sair, o poeta vai de novo em busca de El Dorado, no que, durante essa caçada, desafia as ordens do rei e ataca a Espanha (uma verdadeira cagada, visto que a Espanha era uma super-potência e as relações diplomáticas entre ingleses e espanhóis eram extremamente delicadas). Ao voltar pra Inglaterra, foi condenado pela terceira vez. Só que agora o decapitaram.

Pois bem. Spenser travou uma amizade com Raleigh lá na Irlanda. Daqui pra frente, até a morte de Spenser em 1599, não existem muitos fatos biográficos interessantes (na verdade, nunca houveram: foi uma vida banal). Spenser chegou a se casar duas vezes. A maré baixa que sua influência havia gozado na Inglaterra era relativa; disse que The Shepheardes Calendar foi um sucesso, e foi mesmo. As duas outras obras capitais de Spenser só iriam arrebentar ainda mais a boca do balão.

A primeira delas é o longuíssimo poema épico The Faerie Queene, publicado de 1590 até o fim da vida ao poeta e dedicado à rainha. Seguindo preceitos clássicos de carreira artística, Spenser primeiro havia se ensaiado na poesia mais leve, isto é, na poesia pastoril, e só depois é que ele daria azo à frauta canora de que fala Camões, isto é, assuntos épicos. Não vou comentar com mais tardar sobre o poema pois não o li todo; devo ter parado lá no segundo livro. Spenser terminou, ao todo, seis livros e dois cantos do sétimo. Seu plano era o de escrever pelo menos doze livros, correspondentes às doze virtudes privadas conforme Aristóteles (embora, claro, Spenser faça uma mistura com elementos medievais, ingleses, cristãos etc). Na verdade, é possível que Spenser quisesse ainda mais, conforme podemos deduzir de uma carta que Spenser escreveu a Raleigh (uma preciosa fonte de informações sobre o poema). É possível que, depois de terminadas as doze virtudes privadas, Spenser se arriscasse também a abordar as virtudes públicas ou políticas...

A estrofe usada por Spenser no poema ficou conhecida posteriormente como estrofe spenseriana. É feita de nove versos: os oito primeiros são pentâmetros jâmbicos e o último é um alexandrino, ou seja, um hexâmetro jâmbico. O esquema rímico é ABABBCBCC. Este modelo estrófico seria usado posteriormente por Lord Byron em Childe Harold's Pilgrimage, por Keats em The Eve of St Agnes e por Tennyson na primeira parte de The Lotos-Eaters. A influência da oitava rima italiana é bastante clara. Spenser tinha como modelos poéticos nomes como Boccaccio e Ariosto. Ariosto, por exemplo, recebeu duas traduções durante a era elisabetana: a de Huggins e Boyd entre 1575 e 1584 e a de John Harington em 1591.

Cada um dos livros mostra uma jornada de um cavaleiro arturiano em busca das virtudes que capitaneiam os livros. A carga alegórica de cada um dos cantos é extremamente densa, cominada a um forte conteúdo religioso e político. Não é fácil encarar uma obra assim. Na verdade, de modo geral encarar obras que fazem uso de um substrato alegórico ou simbólico tão intenso não é coisa fácil. Nós conseguimos ler uma obra como a Comédia graças às copiosas notas que costumam acompanhar as edições. O mesmo com, num exemplo moderno, o Ulysses de Joyce, embora o caso do Ulysses seja um pouco distinto pois seu subtrato romanesco é mais acentuado, e nós podemos muito bem ler o Ulysses como sendo simplesmente o dia na vida de um homem qualquer. (Se bem que, se formos tomar como base os três modos de leitura que Dante diz serem possíveis ao leitor da Comédia, numa carta que Dante escreveu para Cangrade della Scala, então nós também podemos ler a Comédia como simplesmente um homem que vai do Inferno ao Céu e o Faerie Queene como uma série de viagens fantásticas.)

O livro tinha como objetivo a educação ética e estética dos nobres ingleses da época. A busca elisabetana pela literatura era uma busca com fins educacionais. Isso explica, por óbvio, a densa carga alegórica que a obra recebeu, para além da inclinação pessoal que Spenser trazia consigo. Se compararmos com o fundo igualmente nacional de Os Lusíadas, podemos estabelecer um paralelo interessante, pois, enquanto em Os Lusíadas temos um arcabouço histórico fortemente ressaltado, talvez um reflexo da relação prática e certo modo imediatista do homem português, em Faerie Queene temos uma narrativa que requer uma fruição distinta. Esta educação ética e estética do nobre ajuda também a entender o enorme sucesso que a obra de Spenser adquiriu na época. Dizem que a rainha nunca chegou a ler a obra, mas, de todo modo, Spenser passou a receber uma pensão anual de 50 libras, uma quantia maior que a que qualquer outro poeta da época receberia.

Além do Faerie Queene, Spenser publicaria uma sequência de sonetos chamada Amoretti em 1594, acompanhada de um longo poema denominado Epithalamion. Ao contrário da sequência Astrophel and Stella, de Philip Sidney, escrita em 1582 e publicada postumamente em 1592, e, de modo geral, da maior parte de ciclos de sonetos que foram produzidos durante a época elisabetana, diretamente embebidos na tradição petrarquiana de se prantear a amada distante, impassível, o caso de Amoretti de Spenser é distinto pois o saldo final é positivo. Spenser escreveu a sequência em louvor de sua segundas esposa, e o fato do Epithalamion, um poema escrito em celebração de um casamento, constar no final da obra, indica que o final foi feliz. Dois anos depois, em 1596, Spenser publicaria um poema de moldes análogos ao Epithalamion denominado Prothalamion, celebrando, agora, o casamento duplo das filhas do Conde de Worcester. Ambos os poemas são célebres em língua inglesa. O caso do Prothalamion ganha um detalhe a mais pois Eliot se baseou nele para compôr a terceira parte de The Waste Land: no poema de Spenser, o eu lírico está tristonho, às margens do Tâmisa, vendo as ninfas dançarem. Diz a primeira estrofe:

     Calmo era o dia, e junto ao ar tremula
     Zéfiro brando, cuja aragem fraca,
     Gentil espírito, a Titã aplaca
     Os raios, em que a graça se acumula;
     Quando eu, que me atribula
     Pensar-me descontente em vã estada
     No palácio, com vãs expectativas
     De esperanças apáticas que a cada
     Instante afligem tais quais sombras frívolas,
     Caminho junto às vivas
     Praias do Tâmisa, de cuja costa
     Acidentada eu vejo ser disposta
     Uma gama de flores de alto jaez
     E um terreno com uma gema exposta
     Decorando buquês
     Com graça e altivez
     Num dia de núpcias que não dura tanto:
          Segue, Tâmisa, até que cesse o canto.

["Calm was the day, and through the trembling air / Sweet breathing Zephyrus did softly play, / A gentle spirit, that lightly did delay / Hot Titan's beams, which then did glister fair; / When I whose sullen care, / Through discontent of my long fruitless stay / In prince's court, and expectation vain / Of idle hopes, which still do fly away / Like empty shadows, did afflict my brain, / Walked forth to ease my pain / Along the shore of silver streaming Thames, / Whose rutty bank, the which his river hems, / Was painted all with variable flowers, / And all the meads adorned with dainty gems, / Fit to deck maidens' bowers, / And crown their paramours, / Against the bridal day, which is not long: /  Sweet Thames, run softly, till I end my song."]

Note a forma como Spenser transforma um estado melancólico numa paisagem viva e alegre, especificamente depois que menciona estar caminhando às margens do rio Tâmisa. Como no caso de Eliot o Tâmisa está poluído e meio seco, isso talvez explique a tonalidade depressiva que o poema apresenta, para além, claro, da subversão temática que Eliot aplica: enquanto no poema de Spenser temos a celebração de um casamento, na terceira parte do The Waste Land temos a descrição de um estupro.

O caso do Amoretti envolve ao todo 89 sonetos. Começam em 23 de janeiro e terminam em 17 de maio. O casamento de Spenser com sua segunda esposa, Elizabeth Boyle, se daria em 11 de junho. A crítica tem notado que existe uma estrutura litúrgica que subjaz aos sonetos, concernente ao chamado Book of Common Prayer, um livro de orações usado na comunidade anglicana que foi publicado pela primeira vez em 1549 e que até hoje possui edições sucessivas (com alterações, claro). Assim, por exemplo, o soneto 22 do Amoretti corresponderia à Quarta-Feira de Cinzas, o 68 ao Domingo de Páscoa e por aí vai.

Da seleção que foi feita para esta postagem, o leitor pode observar, em especial lendo os sonetos 56 e 81, a ambiguidade do eu lírico em relação à amada, chegando a adotar uma postura um tanto quanto agressiva no 56. Isso inclusive ajuda a criar uma dimensão emocional intensa para os sonetos, algo que Spenser já trabalhava de maneira digna de nota desde The Shepheards Calendar. Indo do louvor certo modo penitente e reticente até a proclamação da ferocidade daquele amor e das negações implícitas, o leitor possui um espectro amoroso vívido e amplo, diferente, de certo modo, do que corriqueiramente se costuma observar na maior parte dos sonetos da época. O fundo de louvor que se imiscui num âmbito religioso, conforme o soneto 75, persiste de maneira muito forte na sequência, e a referência teatral no 54 é um modo inconvencional (pelo menos na época e considerando, em especial, a obra de Spenser, que quase não se vale de símiles teatrais) de retratar a situação amorosa.

§

Tinha planos de traduzir o Epithalamion e, em especial, o Prothalamion de Spenser. Mas, como dizem os portugueses, creio que não terei pachorra tão cedo para fazê-lo. Minha versão inicial do Prothalamion terminou a primeira estrofe e só. Não estava me contentando muito com o resultado, que a meu ver se valia de uns cavalgamentos excessivos (a concepção clássica de verso seguia o preceito de que o verso era uma unidade de sentido e devia encerrar uma ideia, rechaçando, portanto, as rupturas entre versos), então ficamos como estamos.

Alguns dias depois de ter lançado o desafio de que eu e uns colegas traduzíssemos Ben Jonson, dei a ideia de traduzirmos Spenser, mas ninguém se animou, com exceção de Kleiton Muniz, pau-pra-toda-obra. Kleiton Muniz é mineiro nascido em 1989. Iniciou na poesia um pouco tarde e de forma meio livre (se bem que não sei se haveria uma forma própria pra se iniciar na poesia): chama-se de autodidata em matéria de poesia. Já participou do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, em 2009, e do 7º e do 8º Festival de Sonetos "Chave de Ouro" da Academia Jacarehyense de Letras, em 2013 e 2014. Quem quiser acompanhar sua produção pode acessar a página de facebook Multipalavra.

Os sonetos de Spenser seguem um modelo que hoje é conhecido como soneto spenseriano. Quase não é praticado mais, malgrado o fato de ter uma construção digna de nota, mesclando habilmente o soneto italiano e o inglês: seu esquema rímico é ABABBCBCCDCDEE. Nas traduções que o leitor verá abaixo, eu e Kleiton quase não mantivemos a fôrma do soneto spenseriano, o que a meu ver é um problema grave de nossos textos, visto que Spenser aborda a fôrma que criara de modo muito inventivo. Esse entrelaçamento próprio ajuda a criar um ritmo e uma continuidade na exposição de seus sonetos, visto em especial no 56 e no 81, com um formato, um andamento até meio padronizado: "Você é bela mas X. Você é bela mas Y. Você é bela mas Z." Cada uma dessas características X, Y e Z são entretecidas por tratarem do mesmo assunto e, no caso do soneto spenseriano, pelo fato de guardarem um pouco do que foi exposto na estrofe anterior (no caso, ajudado pela rima). A única exceção foi o soneto 75, que, de resto, eu traduzi tendo como fim justamente a manutenção da fôrma spenseriana.

Além das traduções minhas e de Kleiton, também trouxe três outras traduções para o soneto 75: uma de Paulo Viziolie  Péricles Eugênio da Silva Ramos, conforme citado por Alípio Correia Neto e John Milton em Literatura Inglesa, IESDE Brasil, p. 60-61 (tradução primeiro impressa na infelizmente esgotada coletânea Poetas de Inglaterra), uma de J. G. Araújo Jorge, retirada daqui, e outra de Eugênio Gardinalli Filho, publicada, junto com uma tradução para o soneto 30, no n. 2, 1998, da Cadernos de Literatura em Traduçãoaqui. Todos os sonetos que trouxemos estão entre os mais citados do autor.


54
trad. Kleiton Muniz.
Do mundo teatral que nos abriga,
Meu amor na plateia cruza os braços,
E atenta a tudo o que o papel me obriga,
Disfarça, indiferente aos meus cansaços.
Às vezes eu me alegro, quando há clima, 
E faço do meu riso uma comédia, 
Depois, quando se abaixa a minha estima,
Eu lamento e costuro uma tragédia.
No entanto, fixamente, ela me vendo,
Não se deleita em minha exultação,
Mas ri e zomba se a chorar me rendo, 
E endurece inda mais seu coração.
        O que a comove? Se nem riso ou dor,
        Não é mulher, mas pedra sem amor.

§

56
trad. Mavericco.
Bela você é, mas cruel e rude
Qual tigre em caça que ensanguenta o prado,
Tomando, achada a presa, a atitude
De prontamente tê-la devorado.
Bela você é, mas prudente e má
Qual tormenta que passa e tudo estraga;
Achada a árvore que alívio dá,
Ruidosa nela bate e logo a esmaga.
Bela você é, mas tenaz e dura
Qual rocha entre a corrente enfurecida
Contra a qual o navio a certa altura
Bate e naufraga a carga ali trazida.
        Eu sou este navio, árvore e presa
        Que você naufraga, esmaga e despreza.

§

75
trad. Mavericco.
Um dia escrevi seu nome na areia,
Mas a maré o apaga. Eis que tento
De novo, e então de novo a maré cheia
O apaga e faz refém meu sofrimento.
Homem tolo, ela diz, e seu intento
De tornar imortal o que é mortal!
Um dia hei de sofrer tal decaimento
Que a meu nome também será igual.
Não é bem assim (digo). O que é banal,
Sim, perece, mas tua fama fica;
Meu verso te celebra, e o celestial
Plano teu nome grava e glorifica.
        A morte arrase o mundo muito embora,
        Nosso amor vive e a vida revigora.

*

trad. Paulo Vizioli e Péricles Eugênio da Silva Ramos.
Um dia eu escrevi na praia o nome dela,
Mas para desmanchá-lo sobreveio a vaga;
Mais uma vez o nome eu escrevi da bela:
Minhas letras, de novo, eis que a maré as apaga.
“Homem vaidoso, em vão procuras ― diz-me ela ―
Dar imortalidade àquilo que é mortal:
Eu própria decairei; meu nome, isso é fatal,
Se esvairá como os traços que a maré cancela.”
“Não ― eu respondo ―, as coisas vis podem morrer
Na poeira, mas a fama te fará imortal;
Teus dotes em meu verso não terão final,
E nos céus o teu nome ilustre hei de escrever.
        Lá viverá, malgrado a morte, o nosso amor,
        Concedendo à outra vida juventude em flor.”

*

trad. J. G. Araújo Jorge.
Sobre a areia escrevi seu nome um dia
mas o mar o levou; a mesma empresa
volto a tentar, insisto, ― todavia
as ondas tudo apagam com presteza.
E ela me disse: tudo é vão e passa.
Nunca eternizaras o que é mortal.
E eu passarei também, tal como a escassa
pegada de meu nome, desigual.
Não! protestei. ― Só o vil é que perece!
Tu sobreviverás, nem tudo some.
Em teu louvor meu verso se engrandece
e em altos céus há de gravar teu nome.
        E na terra, até a morte, em sonho e lida,
        viverá nosso amor com a nossa vida.

*

trad. Eugênio Gardinalli Filho.
Gravei seu nome um dia à beira-mar,
Mas, revolvendo-o, a vaga logo o rapta;
Ainda outra vez à praia o quis fixar,
Mas a maré o pilhou, velho pirata.
Em vão, disse ela, tentas tu que intata
Dure uma coisa a perecer propensa;
Meu nome, vê, a vaga o desbarata,
E presa estou eu mesma a igual sentença.
Jamais, disse eu; avance a morte e vença
As coisas vis, porém nos versos meus
Terás contínua flama e florescência,
E um nome que alçarei até os céus.
        O nosso amor com tal primor se esmera,
        Que enfim converte a morte em primavera.

§

81
trad. Kleiton Muniz.
Belo é o meu amor, seu cabelo louro
Ao vento solto que por versos chama:
Belo é o seu rosto, o rosa a enaltecê-lo,
E o seu olhar, onde crepita a chama.
Belo é quando seu seio é um navio
De produtos preciosos carregado:
Belo é quando uma nuvem de ar sombrio
Se esvai com seu sorriso iluminado.
Mas o mais belo é quando ela revela
O portão abundante de rubis:
Por onde sai sua mensagem bela
Tão própria dos espíritos gentis.
        O mais são obras naturais de efeito
        Diante das obras naturais do peito.


54

Of this world's theatre in which we stay,
My love like the spectator idly sits
Beholding me that all the pageants play,
Disguising diversely my troubled wits.
Sometimes I joy when glad occasion fits,
And mask in mirth like to a comedy:
Soon after when my joy to sorrow flits,
I wail and make my woes a tragedy.
Yet she beholding me with constant eye,
Delights not in my mirth nor rues my smart:
But when I laugh she mocks, and when I cry
She laughs, and hardens evermore her heart.
        What then can move her? if not mirth nor moan,
        She is no woman, but senseless stone. 

§

56

Fayre ye be sure, but cruell and unkind,
As is a tygre, that with greedinesse
Hunts after bloud; when he by chance doth find
A feeble beast, doth felly him oppresse.
Fayre be ye sure, but proud and pitilesse,
As is a storme, that all things doth prostrate;
Finding a tree alone all comfortlesse,
Beats on it strongly, it to ruinate.
Fayre be ye sure, but hard and obstinate,
As is a rocke amidst the raging floods;
Gaynst which a ship, of succour desolate,
Doth suffer wreck both of her selfe and goods.
        That ship, that tree, and that same beast, am I,
        Whom ye doe wreck, doe ruine, and destroy.


§

75

One day I wrote her name upon the strand,
But came the waves and washed it away:
Again I wrote it with a second hand,
But came the tide, and made my pains his prey.
Vain man, said she, that dost in vain assay
A mortal thing so to immortalize!
For I myself shall like to this decay,
And eek my name be wiped out likewise.
Not so (quoth I), let baser things devise
To die in dust, but you shall live by fame:
My verse your virtues rare shall eternize,
And in the heavens write your glorious name;
        Where, whenas death shall all the world subdue,
        Our love shall live, and later life renew.


§

81

Fair is my love, when her fair golden hairs,
With the loose wind ye waving chance to mark:
Fair when the rose in her red cheeks appears,
Or in her eyes the fire of love does spark.
Fair when her breast like a rich-laden bark,
With precious merchandise she forth doth lay:
Fair when that cloud of pride, which oft doth dark
Her goodly light with smiles she drives away.
But fairest she, when so she doth display,
The gate with pearls and rubies richly dight:
Through which her words so wise do make their way
To bear the message of her gentle sprite.
        The rest be works of nature's wonderment,
        But this the work of heart's astonishment.

Comentários

  1. Caro Matheus:
    Que beleza de trabalho, tanto teórico quanto de tradução, se é que as duas coisas podem ser separadas assim.
    Sobre o soneto 75, vale lembrar a tipicidade temática da permanência da mulher amada nos versos do poeta, presente nas obras dos autores clássicos. A poesia é fonte da imortalidade da mulher amada, nos versos elas viverão para sempre a metalinguagem a serviço do amor. Veja os seguintes sonetos, o primeiro do Bardo na versão da Bárbara Heliodora, o segundo, de Camões.

    Se te comparo a um dia de verão
    És por certo mais belo e mais ameno
    O vento espalha as folhas pelo chão
    E o tempo do verão é bem pequeno.
    Às vezes brilha o Sol em demasia
    Outras vezes desmaia com frieza;
    O que é belo declina num só dia,
    Na eterna mutação da natureza.
    Mas em ti o verão será eterno,
    E a beleza que tens não perderás;
    Nem chegarás da morte ao triste inverno:
    Nestas linhas com o tempo crescerás.
    E enquanto nesta terra houver um ser,
    Meus versos vivos te farão viver.

    (SHAKESPEARE, W. Soneto XVIII. In Poemas de amor, Agir Editora Ltda, 2009. Tradução: Barbara Heliodora)

    Cara minha amiga, em cuja mão
    Pôs meus contentamentos a ventura,
    Faltou-te a ti na terra sepultura,
    Por que me falte a mim consolação.

    Eternamente as águas lograrão
    A tua peregrina formosura:
    Mas enquanto a mim a vida dura,
    Sempre viva em minha alma te acharão.

    E, se meus rudos versos podem tanto,
    Que possam prometer-te longa história
    Daquele amor tão puro e verdadeiro,

    Celebrada serás sempre em meu canto:
    Porque, enquanto no mundo houver memória,
    Será a minha escritura o teu letreiro.

    (CAMÕES, Luís de. Lírica completa II. Sonetos. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1980)

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    1. Boa lembrança, Ruy! De Camões, sobre uma situação certo modo praieira, me lembro daqueles versos da 12ª elegia, que andei relendo graças a seu post: "Ando gastando a vida trabalhosa, / espalhando a continua saudade / ao longo de ua praia saudoso."

      Já sobre a situação do amor como algo cruento, lembrei de outro soneto camoniano, esse aqui:

      Aquela fera humana que enriquece
      A sua presunçosa tirania
      Destas minhas entranhas, onde cria
      Amor um mal que falta quando cresce;

      Se nela o Céu mostrou (como parece)
      Quanto mostrar ao mundo pretendia,
      Porque de minha vida se injuria?
      Porque de minha morte se enobrece?

      Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
      Senhora, com vencer-me e cativar-me;
      Fazei dela no mundo larga história.

      Pois, por mais que vos veja atormentar-me,
      Já me fico logrando desta glória
      De ver que tendes tanta de matar-me.

      Engraçado: nunca havia parado pra prestar atenção nele. "Aquela fera humana que enriquece / A sua presunçosa tirania / Destas minhas entranhas"... Caramba, isso é forte, é raivoso demais, não acha? E no entanto: "Já me fico logrando desta glória / De ver que tendes tanta de matar-me."

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    2. Caro Matheus:

      A ferocidade do Amor está lá no episódio de Inês de Castro d'Os Lusíadas:
      "Se dizem, fero Amor, que a sede tua
      Nem com lágrimas tristes se mitiga,
      É porque queres, áspero e tirano,
      Tuas aras banhar em sangue humano.”
      Canto III, 118 a 135

      Mas me lembro agora deste soneto, em que se dá a visita ao templo do Amor:

      "Amor, co a esperança já perdida,
      teu soberano templo visitei;
      por sinal do naufrágio que passei,
      em lugar dos vestidos, pus a vida.

      Que queres mais de mim, que destruída
      me tens a glória toda que alcancei?
      Não cuides de forçar-me, que não sei
      tornar a entrar onde não há saída.

      Vês aqui alma, vida e esperança,
      despojos doces de meu bem passado,
      enquanto quis aquela que eu adoro:

      nelas podes tomar de mim vingança;
      e se inda não estás de mim vingado,
      contenta-te co as lágrimas que choro."

      Que imagens: o náufrago que "em lugar dos vestidos", veste a vida, pura e simples; esse que não sabe voltar a becos sem saída, ainda que forçado de/pelo Amor, insano e vingativo. Há uma contemporaneidade nas "coisas", nas imagens, na fanopeia, não é?

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