OMNIA VINCIT AMOR.


A respeito da data, eu só gostaria de deixar em primeiro lugar as palavras de Virgílio e, em segundo, o soneto 116 de Shxpr. De um e de outro eu compilei todas as traduções que conheço.

Mas rapidinho sobre o soneto 116. Agradeço a Pedro Mohallem pela paráfrase divertida. Busquei, na minha, haja vista que nós possuímos um número considerável de traduções disponíveis, todas de alto nível, chegar a soluções distintas das já consagradas por outros tradutores: por exemplo a rima em Ô fechado no dístico final, ou, nos versos 9 e 11, as rimas com "-ora". Naturalmente que não consegui totalmente: os versos 2 e 4, por exemplo, mantêm a rima em "-or". No original, os versos 7 e 8 possuem um conteúdo astronômico: não se sabia qual era a matéria das estrelas nem porque elas brilhavam, mas se sabia como medir a altura das estrelas a partir dos quadrantes (a tradução de Oscar Mendes foi provavelmente a mais clara a esse respeito). Take height também tem o sentido de dar algo como certo. Um pouco antes, no verso 4, remover é alguém que se move, é alguém que muda a si mesmo. To remove é, portanto, de acordo com o sentido do verso, se fazer mudar por outra pessoa, possivelmente graças a subterfúgios.

*

P.S. (28/08/16): Embora esta não tenha pretendido ser uma compilação rigorosa nem muito menos extensiva, Raphael Soares, entrando em contato comigo, me enviou as traduções de Guilherme Figueiredo e Geir Campos, ambas excelentes, motivo pelo qual as incluo aqui. Faço notar que a postagem, inicialmente, possuía um grave erro: a transcrição da versão de Guilherme Figueiredo havia sido feita de forma errônea, mesclando-a à tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Parece muita esquizofrenia misturar as duas, mas explico: meu primeiro acesso à versão de Guilherme Figueiredo (pois a de Péricles há muito eu já conhecia) se deu graças a um ensaio, bastante clássico, de Paulo Vizioli sobre tradução. Por algum motivo obscuro, na hora de transcrever eu me embananei e criei uma verdadeira quimera. Enfim. O fato é que agora está tudo corrigido, e o leitor pode se felicitar.


da Écloga X.
Virgílio.
Omnia vincit Amor; et nos cedamus Amori.

§

trad. A. T. M., aqui.
O amor tudo vence: ao amor cedamos
Nós também, deosas do monte Parnazo.

§

trad. Manuel Odorico Mendes.
Tudo Amor vence; nós a Amor cedamos.

§

trad. Leonel da Costa.
Amor todas as cousas doma, e vence,
Nós também ao Amor obedeçamos.

§

trad. Agostinho da Silva.
A tudo vence Amor; obedeçamos.

§

trad. Raimundo Carvalho.
Amor a tudo vence; a Amor nos curvarmos.

§

trad. Péricles Eugênio.
A tudo vence o Amor, e cederemos ao Amor.


116.
Shxpr.
Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O, no! it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error and upon me proved,
I never writ, nor no man ever loved.

§

trad. eu.
Que eu não admita entraves à união
De almas sinceras. Amor não é amor
Se ele se altera face à alteração
Ou se muda por quem mudá-lo for;
Oh não; amor é inamovível marco
Que não oscila em chuva ou céu aberto;
É estrela, guia do vacante barco,
A certa altura e com valor incerto.
Por mais que a foice passe em rósea face,
Face ao Tempo o Amor não é jogral;
O Amor não muda, embora o tempo passe,
E passa assim até o juízo final.
Se provam que esta fala é incorreta,
Ninguém jamais amou nem sou poeta.

§

paráfrase de Pedro Mohallem.

Por mim, pode casar a turma toda,
Havendo amor... Que amor não é bobagem:
Não muda a roupa consoante à moda,
Nem brocha se borrar a maquiagem.
Nã-não; é coisa muito bem bolada,
Não treme, e ri na cara do perigo;
Coisa que, ao longe, é linda de danada
E que de perto nem medir consigo.
O Amor não cai na ideia dos bananas
De que a velhice é desamor profundo;
Passam-se os dias, passam-se as semanas,
E ele só cresce — e que se dane o mundo.
Mas se isso for migué e alguém provar, 
Nunca fui de escrever e o homem de amar.

§

trad. Oscar Mendes.
À sagrada união de almas duas, fiéis,
Entraves não admito: amor não é amor
Que se altera se encontra alguma alteração,
Ou se inclina a mudar ao ver o que é mutável.
Oh! não, é sempre um marco eternamente erguido;
Imóvel, testemunha, o fruto da tormenta;
Astro a que tôda nau errante se reporta,
De incógnito valor, se bem que mensurável.
Não é do Tempo o bôbo, embora venha a sua
Curva foice atingir faces e lábios rubros
Não lhe abalam o curso horas breves, semanas;
Até a hora da morte êle fica imutável.
Se puderem provar que me tenha enganado,
Eu jamais escrevi, ninguém jamais amou.

§

trad. Anna Amélia.
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

§

trad. Péricles Eugênio.
Impedimentos não admito para a união
De corações fiéis: amor não é amor
Quando se altera ao perceber alteração
Ou cede em desertar quando o outro é desertor.
Oh! Não, ele é um farol imóvel tempo em fora
Que as tempestades olha e nem sequer trepida;
É a estrela para as naus, cujo valor se ignora,
Mau grado seja a sua altura conhecida.
O amor não é joguete em mãos do tempo, embora
Face e lábios de rosa a curva foice abata;
Não muda em dias, não termina numa hora,
Porém, até o final das eras se dilata.
Se isto for erro e o meu engano for provado
Jamais terei escrito e alguém terá amado.

§

trad. Ivo Barroso.
Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixel errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.

§

trad. Jorge Wanderley.
Ao casamento de almas verdadeiras
Não haja oposição. Não é amor
O que muda à mudança mais ligeira
Ou, desertando, cede ao desertor.
Oh, não, que amor é marca muito firme
E nem a tempestade o desbarata;
É estrela para a nau, que o rumo afirme,
Valor ignoto — mas na altura, exata.
Não é do Tempo mera extravagância,
Amor, embora a foice roube o riso
À face e ao lábio rosa; na constância,
Resiste até o Dia do Juízo.
Se há erro nisto e assim me for provado,
Nunca escrevi, ninguém terá amado.

§

trad. Geraldo Carneiro.
Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento,
Ou se move e remove em desamor.
Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos barcos errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.
O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo.
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.
Se é engano meu, e assim provado for,
Nunca escrevi, ninguém jamais amou.

§

trad. Guilherme Figueiredo.
Ao enlace das almas verdadeiras
Nunca eu me oponha: amor não é amor
Que mude com mudanças passageiras
Ou se deixe varrer ao varredor.

Oh, não! É luz eternamente acesa
A enfrentar nas tormentas os tormentos,
Astro-guia do barco ao léu dos ventos
Embora não lhe saibam da grandeza.

Não loucura do tempo, cujas fouces
Sulcam rosados lábios, rostos finos;
Amor jamais altera as horas doces
Mas leva-as nas distâncias dos destinos.

Se provarem que errei, erraram: ou
Nunca escrevi ou ninguém nunca amou.

§

trad. Geir Campos.
Possa eu negar obstáculos à aliança
dos corações sinceros, pois não é
amor êsse que muda ao ver mudança
ou, curvado à inconstância, perde a fé.
Oh, não - o amor é inabalável marco
que sempre em meio às tempestades vela;
é a estrêla de que sabe o errante barco
a altura, mas ignora o valor dela.
Não cede o amor ao Tempo, e embora as faces
e róseos lábios êste a alfange os vença,
ante as semanas e as horas fugaces
resiste o amor até à final sentença.
Se é êrro e há provas de que errado estou
— nada escrevi, e ninguém jamais amou.

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