Ben Jonson (1572 - 1637).



Benjamin Jonson foi um fanfarrão. Nascido em 1572 em Westminter, sua vida pessoal, como já era de se esperar quando o assunto é "poetas", foi turbulenta. Ele ficou órfão de pai aos dois meses. Embora tenha chegado a estudar na Universidade de Westminter, onde travou uma amizade intensa com seu mestre William Camden, que duraria até a morte de Camden em 1623, e embora tenha cogitado ir estudar também em Cambridge, Jonson largou os estudos e resolver aprender o ofício de mestre-de-obras (era a profissão de seu padrasto), que lhe serviria sempre, pra aproveitar a rima, como uma margem de manobra. Casou-se em 1592 e teve filhos. Uma menina, Mary Jonson, morta antes dos seis meses, e um menino, Benjamin Jonson, morto na infância durante a peste (década de 1590), seriam imortalizados em dois comoventes poemas do autor. Todavia, Jonson não convivia lá muito bem com a esposa, no que passou alguns anos fora de casa e, durante isso, acabou se envolvendo com o teatro.

Quem conhece a vida de Shakespeare já pode notar muito bem o paralelo. Shakespeare também saiu de casa e foi tentar a vida em Londres, no que conseguiu, de maneira brilhante, ascender de uma profissão que era mais ou menos a de flanelinha dos teatros da época para a de ponto (isto é, o carinha que avisa pro sr. Burbage que está na hora dele entrar em cena) e para a de ator, dramaturgo e empresário de sucesso. No caso de Jonson, que também chegou a atuar em algumas peças (uma delas a famosa The Spanish Tragedy), sua primeira peça intitulava-se Everyman in his Humour ("Cada Homem em seu Humor", numa tradução livre ou, tentando pegar o espírito da coisa, "Cada-um no seu Quadrado"), e dizem que o próprio Shakespeare chegou a atuar nela. Jonson a essa época trabalhava para a Admiral's Men, uma das maiores companhias de teatro da época.

Mas Jonson, como eu disse, era um fanfarrão. A época elisabetana era uma época casca grossa. No âmbito da poesia, a coisa se movia em termos palacianos, e o camarada tinha plenas condições de tocar o barco sem muitos problemas se ele conseguisse cravar os dentes na quimera monárquica. Afinal de contas, como nos conta Arnold Hauser, a formação do nobre elisabetano era uma formação que envolvia um percurso literário, de modo que fomentar, dar uns trocados pr'esses pobres fazedores de versos era uma coisa útil. Isso ajuda a explicar o esplendor literário que a época elisabetana ostentava: basta que olhemos, por exemplo, o apreço que a corte tinha para com as traduções, e algumas dessas traduções as mais belas da língua (a tradução de Goulding para as Metamorfoses de Ovídio, de 1567, foi considerada por Ezra Pound como literalmente uma das mais belas obras de toda a literatura), e o apreço que também tinha para com a dramaturgia.

Claro que no caso da dramaturgia a coisa era um pouco diferente. O teatro era uma coisa mais incerta. Uma coisa mais, digamos assim, na conta da livre iniciativa. A corte tinha suas companhias de teatro oficiais, e a companhia de Shakespeare (chamada Lord Chamberlain's ou King's Men) chegou a ser uma. Uma companhia que conseguisse uma honraria assim estava feita. Mas não custa lembrar que o teatro era extremamente popular na época, e a estrutura física do teatro elisabetano, que conseguia abarcar gente da nobreza à plebe, fazia com que o teatro fosse uma enorme fonte de lucro. A universalidade do teatro shakespeariano, por exemplo, pode ser explicada em grande parte graças ao cosmopolitismo do teatro elisabetano...

De todo modo, a ribalta era um bom meio de ganhar a vida. Se você se associava à corte, ainda melhor. Se você se associava à corte e ainda escrevia uns versos de vez em quando (o que implica por conseguinte um mecenas por trás ou, especificamente, na frente), aí pronto. Você tava com a vida ganha. Foi por exemplo o que Shakespeare fez. Se Shakespeare tivesse que apostar sua carreira numa obra, ele não apostaria em Hamlet. Certamente apostaria nos seus longos poemas O rapto de Lucrécia e Vênus e Adônis. Nem mesmo nos sonetos eu acho que ele apostaria, visto que os sonetos, como diz Nehemias Gueiros no excelente posfácio às também excelentes traduções de Ivo Barroso, eram mais ou menos cartas versificadas. Tinham um remetente certo e comentavam coisas da ordem do dia, claro que de forma poeticamente convencional. Na prática essas cartas caíam na boca da corte, então ficava uma coisa meio que dissimulada, num jogo de empurra-empurra.

Jonson conseguiu chegar lá, por incrível que pareça. Ele era uma personalidade turbulenta da época, mas isso não impediu de gozar os faustos da fama artística. Jonson era mais ou menos como os cantores mais controversos de hoje em dia, que, de algum jeito ou de outro, ainda assim não deixam de ter lá sua legião de fãs. Como disse no começo, ele era um fanfarrão, era barra pesada como muita gente da época. Não custa lembrar que Christopher Marlowe, talvez o nome mais promissor de toda aquela geração, morreu numa briga de bar. Jonson foi ainda mais longe. Pouco depois da estreia de sua primeira peça, Jonson matou um ator chamado Gabriel Spencer. Buscando escapar da forca, Jonson provou que era letrado e realizou em latim a leitura de um poema. A formação intelectual de Jonson era realmente muito sólida, e quando ele diz, numa elegia dedicada a Shakespeare que abre o primeiro in-fólio das obras dO Bardo: "Sabes pouco Latim e menos Grego, / Mas mesmo assim te honro e buscar não chego / Títulos", se por um lado ele estava exagerando, pois a formação de Shakespeare ao que tudo indica não foi tão tão espúria assim, por outro estava tomando como base a bagagem invulgar que ele, Jonson, tinha. De todo modo, essa foi por pouco! Todavia, marcaram a ferro quente no seu polegar esquerdo a letra T, que significava "Tyburn", o lugar onde eram executados os prisioneiros na época. Que ficasse esperto.

Jonson voltou então ao emprego de mestre-de-obras, mas logo ele estaria pirulitando no meio artístico da época, e em 1599 ele lançava Everyman out of his Humour (grifo meu). Em 1605 era a vez da peça Volpone, um de seus maiores sucessos, e em 1610 The Alchemist. Não podemos dizer que Jonson tenha propriamente quietado o faixo, visto que seus versos epigramáticos, publicados num in-folio em 1616, ano da morte de Shakespeare, causavam um certo desconforto na corte (um desconforto feito com o condimento da curiosidade), e tanto que ele chegou até ser preso por um curto período de tempo — o que não quer dizer que ele bem uma persona non grata, visto que em 1616 ele chegou a receber uma pensão anual de 100 marcos, o equivalente a 60 libras, fazendo dele talvez o primeiro poeta laureado do país. Também não podemos dizer que ele quietou o faixo pois Jonson sempre esteve envolvido com provocações de e para outros dramaturgos da época (uma delas batizada de War of the Theatres, envolvendo Jonson contra John Marston e Thomas Dekker) e chegou até mesmo a jantar com alguns dos participantes do Gunpowder Plot.

Sua fama começou a decair a partir de 1620. Quer dizer: decair? É... "Decair". Jonson não chegou a ter um fim melancólico. Era um poeta respeitado pelos mais jovens, e entre esses mais jovens estão boa parte da chamada poesia metafísica: Robert Herrick, Thomas Carew, Richard Lovelace, Sir John Suckling. Em suma, o que hoje se chama de Tribe of Ben. Com a ascensão de Charles I em 1625, Jonson também recebeu uma atenção do monarca, que aumentou sua pensão para o equivalente a 100 libras mais um tonel de vinho anual.

Mas o pano caía. Jonson morreu em 1637. Seguiu escrevendo até o fim da vida. Não pendurou as botas como seu compadre William.


§


Epigrama. Como dito por Coleridge num epigrama de 1809,


       O que é o "Epigrama"? Um nanico
       De pouco corpo e engenho rico.

O epigrama possui precedência antiga. Na poesia grega ele era um poema inscrito em lápides ou monumentos, uma espécie de discurso honorífico a ser gravado no tal do mármore que Horácio nos contaria mais a respeito séculos depois. Tinha uma proximidade muito grande com a elegia, tanto que na prática muitos desses epigramas gregos nem curtos eram. A coisa mudou com a poesia romana, que fixou o paradigma de epigrama que temos até hoje. Na poesia romana o epigrama era um negócio meio que vandalizado. O grande chefão do epigrama foi um poeta romano chamado Marcial, que escreveu muitos deles e dos mais variados tipos, especialmente eróticos. O que Coleridge diz em seu epigrama, do epigrama ser um poema curto espirituoso, são as características do gênero que se fixaram ao longo dos séculos, passando pelos epigramas de Jonson, pelos de Goethe, pelos de Walter Savage Landor (estes últimos com uma sobriedade e latinidade distante da fanfarronice de Marcial e mais próximos de uma tonalidade virgiliana), pelos de Edgar Lee Masters ou de Rudyard Kipling etc etc. Isso só se quisermos uma linhagem direta. Os epigramas exerceram forte influência na poesia de Pound, por exemplo, e podem ser vistos na construção do soneto inglês (isto é, o dístico do soneto inglês possui uma estruturação epigramática), na poesia de Emily Dickinson ou num poema de proporções maiores como Auguries of Innocence de William Blake (o que, por ricochete, conecta o epigrama à construção lapidar e sapiencial de muitos livros bíblicos...).

Num âmbito brasileiro, para não me tardar muito, seria o caso de conectar o epigrama ao que muito já se produziu no país sob nome de haicai mas que na verdade de haicai tinha pouco. Ou, para não me meter num caminho assim, pois demandaria uma explicação do que é o haicai e blábláblá, seria o caso de olharmos para a produção dos poetas marginais, a produção dum José Paulo Paes, alguns momentos primorosamente concisos da poesia concreta de primeira fase ou então... Tcharã.

Para algumas pixações.

Oh céus, pixações?!

O limite que se costuma traçar entre a pixação ou pixo (com X ou CH ambos; a meu ver tanto faz) do grafite é tido como sendo apenas o da legalidade (inclui-se depois disso o "um é arte e o outro não" e o "um é belo e o outro não"). Os dois são feitos em paredes ou edificações, monumentos urbanos. Só que a pichação, conforme o art. 65 da Lei de Crimes Ambientais (9.605/98), é crime. Aproximar-se-ia também do que se entende por intervenção urbana, com a diferença de que a intervenção urbana, creio, seria menos poluente, menos definitiva. A intervenção urbana costuma ocorrer na base dos cartazes pregados.

Não pretendo entrar em questões morais e/ou mesmo legais do pixo. Minha posição tende a ser conservadora; mas é um conservadorismo moderado, entendendo que nem tudo no pixo é uma questão de degradação, e o voltarmos os canhões da condenação jurídica para algo que tende a se resumir a questiúnculas, ignorando o que uma pequena infração como o pixo pode estar comunicando (lembro-me, a esse respeito, de Paulo Leminski dizendo que o pixo está para a arte verbal como o grito para a voz); este voltar os canhões é um absurdo. Não considero que uma definição meramente criminal do pixo consiga captar a complexidade do fenômeno. Existe a degradação pura e simples, existe a degradação simples (o clássico "Fulano <3 Sicrana") e existe a degradação informacional, que se encaixaria dentro do mote de que o alheio é mensagem. Não tenho dúvidas de que há uma zona do pixo que podemos considerar como sendo arte; se essa zona ainda assim seria aceitável ou não, se ela pode ou não demandar do Direito posicionamentos controversos, como o de que o Direito decidisse o que é arte ou o que é boa arte, algo que, mesmo sob instrumentos finos de análise teórica, ainda assim não consegue captar a natureza ampla e mutável da questão; se essa zona é aceitável ou não, isso eu vejo como sendo outros quinhentos.

Pra dizer as razões de abordar o pixo, precisamos voltar pro começo. Os epigramas romanos não eram coisa apapelada ou apergaminhada apenas. Os epigramas romanos também eram coisa de parede. Por exemplo isto:




E tem muito mais. Um negócio desses não é efeméride. No site da pompeiana.org (aqui) nós podemos encontrar uma generosa seleção de pixações em paredes romanas.

Claro que não se trata de dizer que toda pixação seria um epigrama. Mas, historicamente, a proximidade entre ambos é notória. Fosse o caso de me valer de um exemplo goianiense, pois creio que nós só podemos discutir a pixação, o grafite ou a intervenção urbana com exemplos locais, ou seja, que considerem o contexto em que eles foram feitos, seria o caso de considerarmos o trabalho de Oscar Fortunado, um dos mais bem realizados artistas goianos:




Na verdade aqui eu passo da pixação para falar mais especificamente da intervenção artística. Marginal Botafogo é o nome de uma via goianiense de grande tráfego. Ela é um dos símbolos da urbanização da capital. "Marginal" em seu nome possui conotações meramente urbanísticas, no sentido de que, creio, quando foi construída ela estava à margem do trânsito (basta lembrarmos da Marginal Tietê em São Paulo). "Botafogo" não sei dizer o que significa. Mas o trabalho de Oscar Fortunado, ao inverter a ideia meramente, digamos assim, formal do nome da via e de repente enxergar um marginal ali no meio é incômoda. Primeiro pois realmente existem marginais à margem da Marginal Botafogo. É só passar por lá e olhar pros cantos. Muita gente debaixo das pontes... Aqui não se trata, claro, de realmente descobrir quem é ou quem teria sido esse marginal botafogo, mesmo supondo que, sei lá, o nome da via tenha sido em homenagem a um morador de rua (o que é uma hipótese esdrúxula e impossível). Trata-se de enxergar nesse marginal botafogo uma figura mais ampla que abarca todo marginal goianiense. A mudança do artigo "a" de "A Marginal Botafogo", referindo-se à via, para "O marginal botafogo", é uma mudança atenta. Una-se às letras que simulam o alfabeto dos pixadores (sim, eles possuem um alfabeto, caso não saiba, e não, ele não é tão complicado assim), retorcidas e pontiagudas, e una-se ao fato de os cartazes serem pregados em pontos da cidade onde as pessoas via de regra não param pra enxergar, ou, mesmo supondo que estejam num lugar de grande circulação, ainda assim as pessoas simplesmente não param e veem. "Eu sou o marginal botafogo": eu quem? O objetivo é justamente não saber. Incutir a dúvida. O incômodo. Nós não prestamos atenção mesmo. A urbanização, a urbanidade trouxe consigo seus cadáveres escondidos...

Mas enfim. O trabalho de Oscar Fortunado é um trabalho que se aproxima de uma matriz epigramática que descende diretamente do caos dos epigramas pixados em muros romanos. É um trabalho densamente contextual. Quando Oscar Fortunado lança, este ano mesmo, seu livro Tipo assim pela Cegraf UFG, a coisa muda de conversa pois ele já não trabalha o contexto como a poderosa fonte semântica que estamos acostumados a ver na produção do autor. O fracasso de um livro como Tipo assim, sua escrita insípida e boba, sua concisão e trocadilhos seguindo a nave-mãe da vertente poética de maior sucesso hoje em dia (uma vertente pseudo-leminskiana) e bebendo na fonte da poesia marginal (que em Goiânia encontrou no nome de Pio Vargas um porto seguro), se dá porque no livro o que mais falta é precisamente Oscar Fortunato. Ele resolve pisar em terreno desconhecido, terreno ao qual não se demonstra acostumado, e falha miseravelmente. Existem poetas contemporâneos que também se ordem em dimensões epigramáticas, só que a diferença é que estes exemplos eu julgo muito melhores, livrescamente, que os de Fortunato: destaco o caso de Angélica Freitas (penso em especial no caso de "diz-me com quem te deitas / angélica freitas"), Reuben da Cunha Rocha (talvez o poeta mais próximo da estética do pixo entre nós), Adriano Scandolara (com a sequência Muros, subvertendo a concisão epigramática do pixo e sua relação anônima num determinado contexto seja com outros epigramas, seja com poemas um pouquinho mais longos de proposta interessantíssima) ou então André Vallias.

O caso de todo epigrama, portanto, seria assim: fortemente condensado, ele se vale do contexto como uma fonte semântica e não raro tende para o anonimato, como se ou essa dependência do contexto ou essa falta de espaço contribuíssem para isso. Se considerarmos o caso da intervenção de Oscar Fortunato, é observar como a afirmação "eu sou o marginal botafogo", se inclusa numa estrutura discursiva maior, poderia retirar-lhe a carga anônima que o emplastra. A condensação quase que mágica do epigrama é uma condensação contextual. Nem sempre o epigrama traz consigo um dito que filosófica ou emocionalmente consiga ser tão compacto quanto, sei lá, um haicai ou coisa do tipo. O epigrama se aproxima muito das nossas trovinhas. Elas se embebem e se qualificam muito pela pertença, ou seja, pelo fato de se incluírem numa tradição que faz com que os poemas compostos dentro dela se tornem mais ricos. Não quer dizer que a trova em si necessite ser rica. Ela pode ser boba, mas sua inclusão num contexto pode torná-la muito mais rica, e é dever do leitor ficar atento a nuances assim. Não basta a ele querer aplicar um padrão de leitura que não se encaixa ao epigrama e às suas propostas. Isso, por definição, nem de longe faz jus ao que podemos entender como ler bem uma obra qualquer.


§


As traduções que compilo abaixo foram feitas em conjunto e são todas inéditas. Já me referi em postagem passada a um grupo de poetas que participo denominado "A Lira dos Poetas". Já faz um bom tempo que eu não escrevo poesia, e não tenho a menor vontade de voltar a escrever, mas de modo geral muita gente nesse grupo também não escreve mais.

Lancei o desafio de traduzirmos os pequeninos poemas de Jonson e deu nisso. Muitas dessas traduções tiveram dedo dos amigos, por exemplo a tradução do epigrama XXII ou o XXXVI (tanto que ele se desdobrou em muitas traduções). Esperamos que o leitor se divirta. O último poema não é um epigrama, evidentemente. Incluí-o pelo fato de julgar que ele se encaixa na tonalidade altamente mordaz que seus pequeninos companheiros ostentam. O texto utilizado foi o disponível no site luminarium.org.






I. AO LEITOR.

trad. Kleiton Muniz.
Peço a quem tem meu livro em mãos e lê-lo
Que leia-o bem — isto é, busque entendê-lo.

§

trad. Calib.
Peço-te a ti, que tens meu livro, o zelo
De bem o ler — isto é, de compreendê-lo.

§

trad. Pedro Mohallem.
A quem comprou-me por algum motivo:
Tente entender a porra do meu livro.

§

I. — TO THE READER.

PRAY thee, take care, that tak'st my book in hand,
To read it well—that is, to understand.


IX. — A TODOS POR QUEM ESCREVO.
trad. Mavericco.
Que nomes quaisquer não honrem meus versos,
Buscando graus e títulos diversos:
Isto é contra a conduta do epigrama;
Somente a Arte meu nome proclama.

§

IX. — TO ALL TO WHOM I WRITE.

May none whose scatter'd names honor my book,
For strict degrees of rank or title look :
'Tis 'gainst the manners of an epigram ;
And I a poet here, no herald am. 


XV. — DO CORT'ELMINTE.
trad. Calib.
Homens são vermes, mas não este. Em seda
Coberto à corte veio, alvura azeda,
Onde emborboleteou mais tarde adulto,
E era lagarta: e assim depois sepulto.

§

XV. — ON COURT-WORM.

All men are worms ; but this no man.  In silk
'Twas brought to court first wrapt, and white as milk ;
Where, afterwards, it grew a butterfly,
Which was a caterpillar : so 'twill die.


XXII. — SOBRE MINHA PRIMEIRA FILHA.
trad. Kleiton Muniz.
Jaz aqui, para a pena de seus pais,
Maria, fruto de anos joviais;
Saber que o que é do céu pra lá se vai,
Deixa, porém, menos tristonho o pai.
Ao fim do sexto mês, em segurança,
Apartou-se da vida de criança.
Mãe de Deus, ela traz teu nome santo
Junto ao conforto maternal do pranto,
Entre um coral de virgens colocada:
Que ela, então, permaneça separada,
E que agora esta cova que a abriga
Cubra-a com gentileza, terra amiga!

§

XXII. — ON MY FIRST DAUGHTER.

Here lies, to each her parents' ruth, 
Mary, the daughter of their youth; 
Yet all heaven's gifts being heaven's due, 
It makes the father less to rue. 
At six months' end, she parted hence 
With safety of her innocence; 
Whose soul heaven's queen, whose name she bears, 
In comfort of her mother's tears, 
Hath placed amongst her virgin-train: 
Where, while that severed doth remain, 
This grave partakes the fleshly birth; 
Which cover lightly, gentle earth! 


XXXIV. — DA MORTE.
trad. Calib.
Quem teme ou chora a morte, tem deveras
Fé na Ressurreição pouco sincera.

§

XXXIV. — OF DEATH.

He that fears death, or mourns it, in the just,
Shews of the Resurrection little trust.


XXXVI. — À SOMBRA DE MARCIAL.
trad. Alexandre Z. de Borba.
Epigramas cedeste ao teu Domiciano,
Marcial, que eu jamais logrei brindar a Jaime:
Mas na fidelidade ao meu grão-soberano
Excedo-te: feliz, convivo co'o sublime.

§

trad. Calib.

Destes mais nobres epigramas, sei,
Ao DOMICIANO, que eu ao JAIME rei.
Mas no real sujeito vos ganhei:
Adulastes ao vosso, e ao meu nem posso.

§

trad. Kleiton Muniz.
Marcial, ao Dominicano compuseste
Epigramas que ao Jaime eu nunca ousei,
Mas te excedi na estima ao meu grão mestre
Por ser tão impassível quem louvei.

§

trad. Mavericco.
Compuseste epigramas a Domiciano,
Marcial, que ao rei Jaime eu não logrei compor:
Mas na fidelidade a meu grão-soberano
Te excedo: louvar quem não aceita o louvor.

§

XXXVI. — TO THE GHOST OF MARTIAL.

Martial, thou gav'st far nobler epigrams
To thy DOMITIAN, than I can my JAMES :
But in my royal subject I pass thee,
Thou flatter'dst thine, mine cannot flatter'd be.


LIX. — AO TOLO OU IMBECIL.
trad. Mavericco.
Espiões, vocês são a vela de segunda
Do Estado que, queimada, se revela imunda
E jogam fora. E só. Tá passando de bom.

§

LIX. — ON SPIES. (ou: TO FOOL, OR KNAVE.)

SPIES, you are lights in state, but of base stuff,
Who, when you've burnt yourselves down to the snuff,
Stink, and are thrown away. End fair enough. 


XLV. — ACERCA DE MEU PRIMEIRO FILHO.
trad. Mavericco.
Ó filho meu da mão direita, adeus.
    Imperdoáveis os pecados meus,
Não tiveste esperança. Morto aos sete,
    Eu pago o fado teu que em mim se investe.
Oh, que eu perdesse tudo! Não se chora
    Um fim tão invejável: ir-se embora
Da cólera mundana e de qualquer
    Outra miséria! Durma em paz, e, em ser
Questionado, responda: "Aqui jaz
    A grande obra que Ben Jonson fez jamais."
E a quem ouvir saiba que, tão sincero,
    O que ele um dia amou será eterno.

§

XLV. — ON MY FIRST SON.

Farewell, thou child of my right hand, and joy ;
    My sin was too much hope of thee, lov'd boy.
Seven years thou wert lent to me, and I thee pay,
    Exacted by thy fate, on the just day.
Oh, could I lose all father now ! For why
    Will man lament the state he should envy?
To have so soon 'scaped world's and flesh's rage,
    And if no other misery, yet age !
Rest in soft peace, and, asked, say, Here doth lie
    Ben Jonson his best piece of poetry.
For whose sake henceforth all his vows be such
    As what he loves may never like too much.


XLIX.  AO TEATRO.
trad. Mavericco.
     Leio teatro e meus versos não prestam.
     "Que tal um epigrama?", alguns requestam.
     Dizem que não tenho sal nem o jeito
     E que o engenho à obscenidade é afeito.
Teatro, odeio lerem no meu livro casto
Teus modos: e por isso à ribalta os afasto.

§

XLIX. — TO PLAYWRIGHT.

PLAYWRIGHT me reads, and still my verses damns,
He says I want the tongue of epigrams ;
I have no salt, no bawdry he doth mean ;
For witty, in his language, is obscene.
Playwright, I loath to have thy manners known
In my chaste book ; I profess them in thine own.


LII.  AOS CENSORES.
trad. Mavericco.
Censores, eu prefiro que profiram
Desgostar de meus versos do que o firam
Com aplausos, visto darem a entender
Ser amigos — o que não vem a ser.
É tolice... Mas a outra forma ilude
O vosso gozo e a vossa má atitude.

§

LII. — TO CENSORIOUS CORTLING.

COURTLING, I rather thou should'st utterly
Dispraise my work, than praise it frostily :
When I am read, thou feign'st a weak applause,
As if thou wert my friend, but lack'dst a cause.
This but thy judgment fools : the other way
Would both thy folly and thy spite betray.


LVI. — SOBRE O JUMENTOETA.
trad. Mavericco.
Jumentoeta que se julga vate,
     Cujo verso possui engenho esnobe,
A corretagem chega ao arremate:
     Se preocupar apenas com quem roube.
No começo, voo baixo, colhe e cata,
     Compra peças antigas; hoje ganha
Uma fortuna e a fama o arrebata
     Graças à posse da alheia façanha:
Só que ele menospreza. Crime tal
     A plateia vadia adora e ingere.
Não sabe qual foi o primeiro: o aval
     Do tempo a autoria a ele aufere.
Asno! O ser mais tonto é capaz, eu digo,
     De ainda assim separar joio e trigo.

§

LVI. — ON POET-APE.

Poor POET-APE, that would be thought our chief, 
   Whose works are e'en the frippery of wit, 
From brokage is become so bold a thief, 
   As we, the robb'd, leave rage, and pity it. 
At first he made low shifts, would pick and glean, 
   Buy the reversion of old plays ;  now grown 
To a little wealth, and credit in the scene, 
   He takes up all, makes each man's wit his own : 
And, told of this, he slights it.  Tut, such crimes 
   The sluggish gaping auditor devours ; 
He marks not whose 'twas first : and after-times 
   May judge it to be his, as well as ours. 
Fool !  as if half eyes will not know a fleece 
   From locks of wool, or shreds from the whole piece ? 


LXVIII.  SOBRE O TEATRO.
trad. Mavericco.
O teatro nos mostra os caminhos errados
     E recomeça as brigas entre os nossos.
     Dois valores são de uma vez lançados:
Ativo para a mente, passivo pros ossos.

§

LXVIII. — ON PLAYWRIGHT.

PLAYWRIGHT convict of public wrongs to men,
Takes private beatings, and begins again.
Two kinds of valour he doth shew at once;
Active in's brain, and passive in his bones.


UMA ODE A ELE PRÓPRIO.
trad. Mavericco.
Mas onde jaz você,
     Que dorme e não reluta?
Intelecto assim vai morrer;
Gente tão resoluta
     É uma peste na fruta
Do engenho e arte que aos dois mata e amputa:

O Aônico verão
     Secara? e os gostos Tépidos?
Quer Apolo a canção
Que as ninfas não lhe dão?
     Ou caem tão decrépitos,
Ameaçado o trono por tagarelas intrépidos?

Se se segue o sossego,
     Este sossego é justo;
Que isto dê aconchego:
O ser sábio e augusto
     A Sorte faz robusto,
O que a Virtude exalta a qualquer custo.

Porém, e se o fedelho
     For cair num engodo
Pedante, achando-se parelho
A poetas? O todo
     De sua obra é espelho
Que se escarra, escarnece e se mete o bedelho.

Pois pegue então a lira
     E toque notas boas.
Como Jafé, aspira
Ao Sol, tece loas
     A todas as pessoas:
Quem te ajuda, o ajuda, pois Jove abençoa-os.

E nosso tempo grácil
     Esperneie com críticas,
Não seja você fácil
     Com essa gente, mas, face o
Canto de notas críticas,
Fuja dos lobos e burrices paralíticas.

§

AN ODE TO HIMSELF.

Where dost Thou carelesse lie 
    Buried in ease and sloth ? 
Knowledge that sleeps, doth die ; 
And this security, 
    It is the common moth 
That eats on wits and arts, and destroys them both : 

Are all the Aonian springs 
    Dried up ?  lies Thespia waste ? 
Doth Clarius' harp want strings, 
That not a nymph now sings ? 
    Or droop they as disgraced, 
To see their seats and bowers by chattering pies defaced ? 

If hence thy silence be, 
    As 'tis too just a cause ; 
Let this thought quicken thee : 
Minds that are great and free 
    Should not on Fortune pause, 
'Tis crown enough to Virtue still, her own applause. 

What though the greedy fry 
    Be taken with false baits 
Of worded balladry, 
And think it poesy ? 
    They die with their conceits, 
And only piteous scorn upon their folly waits. 

Then take in hand thy lyre, 
    Strike in thy proper strain, 
With Japhet's line aspire 
Sol's chariot for new fire, 
    To give the world again : 
Who aided him, will thee, the issue of Jove's brain. 

And since our dainty age 
    Cannot endure reproof, 
Make not thyself a page 
    To that strumpet the stage, 
But sing high and aloof, 
Safe from the wolf's black jaw, and the dull ass's hoof. 

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