Coletânea pequenininha de SLAM.


SLAM Poetry, ou simplesmente SLAM, nada mais é que um concurso de poesia declamada. Os vencedores são julgados pela plateia, e os melhores poetas de SLAM são aqueles que ou já ganharam muitos concursos (esses SLAM's lá fora dão gente pra caramba) ou aqueles cujos poemas possuem muitas visualizações (alguns se tornam virais, por exemplo, com milhões de acessos).

No geral o que temos nestes poemas é uma construção muito centrada no eu, próxima da biografia e com recursos emotivos usados em torrente. Assim, por exemplo, seria o caso de imaginarmos que o eu lírico destes textos, ou o poeta, pois no geral a poesia dos SLAMs nos permite uma confusão assim, estivesse acuado e escrevesse o poema como um grito de basta ou então uma confissão (e a poesia SLAM deve muito ao movimento da poesia confessional, bem como a poetas como um Frank O'Hara e sua simplicidade e corporalidade sobressalentes). A coletânea que ofereço contempla alguns dos poemas mais bem realizados do gênero, acompanhado de seus respectivos vídeos, ou seja, as gravações dos poetas declamando seus textos. Afinal de contas, a poesia feita nos SLAM, se num olhar um pouco mais detido aparente possuir baixo valor estético, uma vez que é posta na voz de seus autores pode ganhar aspectos interessantes, tonalidades e mesmo fontes semânticas onde a priori não pareciam existir. É como se o tom direto do poema, ao invés daquele trabalho linguístico historicamente próprio da poesia, fosse nada mais que um campo de potencialidades para que o poeta ou o performer, na leitura, realçasse os pontos escondidos do texto.

Mas não vou dizer que chego a gostar, no geral, do que é produzido. O que não é nenhuma novidade e não serve, nem de longe, pra desmerecer a "poesia SLAM", digamos assim, como um todo. Mesmo que os índices sejam mais insatisfatórios ainda que a média das outras formas de poesia, que não são poucas e que possuem variados graus de satisfatoriedade, indo desde a zona realmente ruim até uma zona mediana, uma zona aceitável e salutar e uma zona nebulosa que merece um pouco mais de estudo e demora; mesmo que os índices estejam por aí, eles não são suficientes pra simplesmente embolemos a poesia que é feita nesses SLAM's e a joguemos fora. Para um leitor que se orgulha em se dizer "crítico", mesmo que "mirim", é um dever acompanhar o que tem feito sucesso lá fora, mesmo porque pode ser útil para pensar a poesia que vem sido feita aqui, um país onde os concursos literários têm se espraiado com relativo êxito e onde os saraus às vezes são o que mantêm a poesia de uma região (por exemplo o caso goiano, embora eu alerte que nem todo sarau é exatamente um SLAM...).

Afinal de contas, uma das razões de sucesso da poesia SLAM reside precisamente no fato de que alguns desses poemas, como eu disse, se tornam virais. Ou seja, é um sucesso muito ligado à plataforma virtual. Se considerarmos que a receita básica do SLAM, como argumentei, é a de um texto simples, em que aquela dificuldade que costuma ser própria da poesia é colocada de lado em prol de uma discursividade a mais cara-a-cara-possível, e de tal modo que nesse texto simples a performance do poeta consiga revelar nuances inesperados, fazendo com que aquela frase "dar vida a um texto" realmente faça todo sentido; se considerarmos que é assim, então, olhando para correlatos nacionais como a poesia de várias páginas de facebook, no geral compartilhando trechos de poemas e em especial letras de música famosas ou, no caso de textos autorais, frases de efeito com sabor de auto-ajuda e transbordando experiência própria (algo do tipo "aconteceu assim comigo e, olha, é um conselho que te dou"); se fizermos esse movimento comparativo, poderemos observar como a poesia SLAM tem o que dizer também em solo nacional, postas, claro, as devidas proporções, uma vez que enquanto a poesia SLAM se pauta em vídeos de performances que de fato ocorreram, estas páginas de facebook se constroem em cima de textos estilizados acompanhados de imagens e com uma certa carga epigramática.


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PREZADOS HÉTEROS.
Denice Frohman.

Prezados Héteros,
Quem vocês pensam que são?
Precisam mesmo deixar claro que eu os deixo desconfortáveis?
Por que os deixo desconfortáveis?
Vocês sabem o que os deixa desconfortáveis?

Agora estamos todos desconfortáveis.

Prezados Héteros,
Vocês são a razão porque ficamos no armário.
Vocês são a razão porque temos um armário.
Não gosto de armários, mas vocês fizeram da sala de estar um lugar não público
e agora me sinto como uma convidada em minha própria casa.

Prezados Héteros,
Sexualidade e gênero? Duas coisas distintas
combinadas de muitas formas distintas.
Se vocês não combinam as meias, vocês entenderam.

Prezado Hip-Hop,
Por que se espantam em descobrir rappers gays?
Gays fazem rap. Tal como gays andam de bicicleta e comem tofu.

Prezados Héteros,
Não penso que Deus tenha uma orientação sexual,
mas se fosse heterossexual, seria uma porra.
De que outro modo inventaria arco-íris?

Prezadas Mulheres Héteras,
Digo, "Mulheres Héteras."
Me deixem em paz, caralho!
Prezados Héteros,
Se flerto com vocês
é porque é engraçado. Zoeira.

Prezados Héteros,
Estou cansada de provar que meu amor é autêntico. Então quero indenizações.
Por que vocês acham que são héteros? Quem ensinou vocês?
Foi porque seus pais são divorciados?
Foi porque seus pais não são divorciados?
Foi porque cheiraram muita cola na quinta série?

Prezados Héteros,
Por que me encarar quando ando
de mãos dadas com minha namorada
como se eu fosse roubar vocês?

Prezados Héteros,
Vocês me fazem, na real, querer roubar vocês!

Prezados Amigos Héteros,
valeu, valeu demais!

Prezados Inimigos Héteros,
Vocês estão certos. Não temos os mesmos valores.
Vocês abatem diferenças.
Eu as preservo.

Me diga, o que houve com
Jorge Mercado?
Sakia Gunn?
Lawrence King?

O que houve com as almas alienadas
em muros e mais muros de escolas,
que planejaram seus anjos da morte na aula de matemática,
que imaginaram seus funerais como desfiles militares,
que pensaram que o depois da morte fosse mais que um depois da festa.

Vocês já pensaram que o ódio
está vivo e muito bem em muitas lanchonetes,
leciona em silêncio em muitos professores,
passa como roupa de segunda mão
em muitos pais.

Prezada Jovem Lésbica,
Vejo você.
Não querem que te veja
e assim você troca o "ela" de seu poema de amor por um "ele".
Eh, eu também.

Prezados Héteros,
Vocês fazem que jovens poetas estraguem seus versos.

Prezados Héteros,
Beijar minha namorada em público sem olhar pra quem está a meu redor
é uma luxúria que ainda não tenho de todo.

Mas hoje à noite estou bêbada de minha liberdade,
pego ela pela mão na rua mais movimentada da Filadélfia,
cruzo meus dedos nos dela e pressiono nossos lábios firme,
até que mesclemos nossos olhares em ovação ereta, e imaginemos
que estamos num mar de faces sorridentes,
mesmo quando não estamos
e quando não estamos,
começamos a cavar,
cavar fundo olhar por olhar e dizemos,
"Ei, meu bem, nada vai parar esta noite"
pois esta noite o mundo está quebrado
e nós somos a única coisa
que o manterá unido.


§




10 PENSAMENTOS HONESTOS SOBRE SER AMADA POR UM MAGRELO.
RACHEL WILEY.

1.

Digo, "Sou gorda."
Ele diz, "Não, você é linda."
Penso se não posso ser os dois.
Ele me beija
forte.

2.

Meu professor de teatro do ensino médio
me disse uma vez que, apesar do meu talento,
eu nunca seria escalada pro par romântico.
Encenamos peças que envolvem animais que cantam
e crianças que podem voar,
mas aparentemente ninguém
quer realmente que a suspensão de descrença
mostre o amor de uma gorda.
Sonho regularmente
em trepar com meu namorado no quintal da frente.

3.

De manhã me sinto feia,
e enquanto ele dorme,
sento no chão e checo os bolsos de suas calças por uma motivação,
por uma moral da história,
por um telefone de uma gostosona.

4.

Quando andamos de mãos dadas,
fico pensando se ele nota os olhares --
como se andasse ao lado de um dirigível no meio da multidão;
se ele nota que minhas mãos são feitas de corda.

5.

Mundo Mundo Vasto Mundo: Vá se foder.
Não quero conselhos sexuais de você
sobre como agradar alguém que você acha que não mereço.

6.

Ele diz que me ama com a luz ligada.

7.

Posso dedilhar seu osso do quadril,
sentir suas costelas sem apertar muito.
Ele não acredita quando digo que é lindo.
Às vezes penso que quando acreditar, vai me deixar.

8.

A periguete bonitinha na lanchonete
diz que só somos amigas
e paquera no balcão.
Passo as próximas duas semanas
mentalmente pensando em nós duas
e em nossas fotografias juntas.
Quando digo isso pra ele
nós ficamos a tarde toda tirando novas fotos.
Ele não vai me deixar deletar nenhuma delas.

9.

A frase "As gordinhas também precisam de amor" que se queime.
Me foder não requer um asterisco.
Me amar não é um fetiche.
Me achar bonita não é exótico.
Não sou exótica porra nenhuma.

10.

Digo, "Sou gorda."
Ele diz, "Não. Você é muito mais.",
e me beija
forte.


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MULHERES QUE ENCOLHEM.
Lily Meyers.

Do outro lado da mesa de jantar, minha mãe sorri através do vinho vermelho que ela bebe no copo de medição.
Ela diz que não se priva,
mas eu aprendi a encontrar nuances em cada movimento de seu garfo.
Em cada ruga de sua testa enquanto ela me oferece parte da comida que nem chegou a comer.
Acho que ela só janta quando sugiro pra ela jantar.
Penso no que ela faz quando não estou pra fazer isso.

Talvez é por isto que minha casa parece grande cada vez que retorno; é proporcional.
Ao encolher, o espaço a seu redor parece gradualmente vasto.
Ela mingua enquanto meu pai enche. Sua barriga arredonda com vinho, noitadas, ostras, poesia. Uma nova namorada que estava acima do peso quando adolescente, mas meu pai responde que agora ela tá "doida por fruta."

É o mesmo com os parentes dele;
à medida que minha vó se tornou frágil e angulosa, o marido dela engrossou até as bochechas ficarem vermelhas e redondas, redonda a barriga,
e eu penso se minha linhagem é a das mulheres que encolhem,
abrindo espaço pra que os homens entrem em suas vidas,
sem saber como preenchê-lo quando eles se vão.

Me ensinaram a acomodação.
Meu irmão nunca pensa antes de falar.
Fui ensinada a filtrar.
"Como alguém pode namorar a comida?" ele pergunta, rindo,
enquanto eu como uma sopa de feijão preto que escolhi por ter pouco carboidratos.
Queria dizer: somos diferentes, Jonas,
te ensinaram a ir além,
me ensinaram a ir aquém.
Você aprendeu com o pai a emitir, produzir, embalar cada pensamento pra fora da boca com confidência, você tende a perder a voz a cada semana por gritar tanto.
Eu aprendi a absorver.
Tive lições com a mãe sobre criar espaços a meu redor.
Aprendi a ler os sulcos na testa dela enquanto os caras iam buscar ostras,
e nunca pensei em respondê-la, mas
passei tempo o bastante aprendendo a me sentar do lado oposto de alguém e você pegando os hábitos deles -

é por isso que as mulheres na minha família encolhem por décadas.
Aprendemos isso umas das outras, a maneira como as gerações ensinam as outras a tricotar,
tecendo o silêncio em meio à trama
enquanto eu ainda sinto como se andasse por esta casa sempre-crescente,
a pele formigando,
pegando todos os hábitos que minha mãe asperamente deixou cair, como
pedaços de papel amarrotado de seu bolso, nas idas e idas da cama pra cozinha e pra cama novamente.
Noites e noites ouvi ela sair furtivamente pra comer iogurte no escuro, uma fugitiva roubando calorias as quais ela sente não lhe pertencerem.
Decidindo quantas mordidas bastam.
Quanto espaço merece ocupar.

Vendo a luta eu nem a imitava ou odiava,
E não queria fazer o mesmo nunca mais,
mas o fardo desta casa me seguiu país afora.
Fiz cinco perguntas na classe de genética hoje e todas elas começaram com a palavra "desculpe."
Não sei quais os pré-requisitos pra Sociologia pois passei o tempo todo decidindo se comeria ou não outra fatia de pizza,
uma obsessão circular que nunca quis, mas

a herança é acidental,
ainda me encarando com lábios manchados de vinho do outro lado da mesa de jantar.


§




TOC.
Neil Hilborn.

A primeira vez que a vi...
Tudo na minha cabeça se acalmou.
Todos os tiques, todas as imagens constantemente renovadas desapareceram.
Quando você tem Transtorno Obsessivo Compulsivo, você nunca tem momentos calmos.
Mesmo na cama, eu penso:
Tranquei a porta? Sim.
Lavei as mãos? Sim.
Tranquei a porta? Sim.
Lavei as mãos? Sim.
Mas quando a vi, só podia pensar na curva de seus lábios tipo um grampo de cabelo.
Ou os cílios no seu rosto -
ou os cílios no seu rosto -
ou os cílios no seu rosto.
Sabia que tinha que falar com ela.
Chamei ela pra sair seis vezes em trinta segundos.
Ela disse sim depois da terceira, mas como não me pareceu segura, fui indo.
No nosso primeiro encontro, gastei mais tempo organizando por cor a comida do que comendo, ou falando qualquer merda que fosse pra ela...
Mas ela amou.
Ela amou eu ter que me despedir com beijos dezesseis ou vinte e quatro vezes se fosse Quarta.
Ela amou eu ter demorado uma eternidade indo de volta pra casa só porque tinham rachaduras na calçada.
Quando a gente caminhava junto, ela dizia se sentir segura, pois ninguém conseguiria nos roubar uma vez que tranquei a porta dezoito vezes.
Eu sempre olhava pra boca dela quando ela falava -
quando ela falava -
quando ela falava -
quando ela falava
quando ela falava;
quando ela falou que me amava, ela tencionava o canto dos lábios.
De noite, ela ficava na cama e me via apagar todas as luzes. E acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar.
Ela fecharia os olhos e imaginaria os dias e noites passando em sua frente.
Em algumas manhãs eu começaria me despedindo com beijos mas ela simplesmente iria embora pois
eu a estava fazendo se atrasar pro trabalho...
Quando parei frente à rachadura da calçada, ela só continuou andando...
Quando ela disse que me amava os lábios dela estavam certinhos.
Semana passada ela começou a dormir na cama da mãe.
Ela me disse que ela não devia ter deixado que me apegasse tanto a ela; que tudo isso era um enorme erro, mas...
Como podia ser um enorme erro se eu não tinha que lavar as mãos antes de tocá-la?
O amor não é um erro, e acaba comigo isso dela conseguir fugir e eu não.
Não posso - não posso ir e encontrar outra pessoa porque sempre penso nela.
No geral, quando fico obcecado com algumas coisas, vejo germes entrando em minha pele.
Vejo a mim mesmo esmagado por um milhão de carros.
E ela foi a primeira coisa bela a qual eu me agarrei.
Quero acordar toda manhã pensando na forma como ela segura o volante.
Na forma como abre o chuveiro como se abrisse um cofre.
Na forma como sopra as velas -
sopra as velas -
sopra as velas -
sopra as velas -
sopra as velas -
sopra...
Agora, posso pensar em quem pode estar beijando ela.
Não consigo respirar pois ele só a beija uma vez - ele não se importa se é perfeito ou não!
Quero muito ela de volta...
Deixo a porta destrancada.
Deixo as luzes acesas.

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