O jovem Wallace Stevens.


(Stevens em 1952. Créditos.)

Você encontra aqui seis poemas: três da juventude de Stevens, dois de sua maturidade, vale dizer, após a publicação do primeiro livro, Harmonium, 1923, e um incluso no próprio Harmonium (é o último da seleção). Na verdade poderiam ser sete, se considerarmos que Table Talk (aqui) também está na maturidade e também é marginália. Mas fique em suspenso.

Nos dois primeiros podemos observar o que no geral todo poema juvenil de um grande poeta tem a oferecer: a construção de um estilo. Dou destaque em especial ao tatear do poeta em busca do que mais tarde se tornaria uma sensibilidade tão esplêndida, aliada, é claro, à razão: fórmula que se tornou marcadamente stevensiana, e que, pra me valer do correlato nacional tão batido, conversa muito com Cabral, embora a base da poesia de Stevens, conforme nota Harold Bloom (entre outros), é a poesia romântica, especialmente Shelley. Assim, se por um lado podemos trazer Cabral, do outro é interessante nos lembrarmos de Drummond, que, no fim da vida, dizia sua poesia ser de uma matriz casimiriana, para além, é claro, da mistura entre sensibilidade e racionalidade que ele desenvolveria de forma esplêndida durante a geração de 45, bem como na juvenália drummondiana (o recém-lançamento dos 25 poemas da triste alegria).

Mas claro também que a maior parte da produção juvenil de Stevens destoa do que selecionei. Assim, pra ficarmos com só um exemplo, veja-se a abertura e o final do soneto Imitation of Sidney, também de 1899: "Unnumbered thoughs my brain a captive holds" e "Yet these do all take flight at thought of thee." Mesmo o leitor mais desacostumado com Stevens sabe que, no decorrer de sua obra, algo assim dificilmente ocorrerá... "A poet looks at the world the way a man look at a woman".

Já sobre os poemas da maturidade, dou destaque a uma faceta um pouco diferente de um poeta que no geral é tido como sisudo (e não é pra menos, visto que Stevens diz com todas as letras, no seu Adagia, que poesia não é pessoal, que poesia é uma forma de melancolia etc), quando, na verdade, ele tem momentos de alegria plena: "But in contentment I still feel / The need of some imperishable bliss", diz em Sunday Morning. Como estão distantes do fim da vida de Stevens, onde ele, em estado terminal (mas sem saber disso), se tornou um verdadeiro brincalhão, recitando Longfellow para as enfermeiras; como estão distantes do fim de sua vida, essa alegria ou esse espírito mais caseiro, mais gente-como-a-gente talvez não se explique de todo. Mas ainda assim se explica.

Optei por escolher o poema de Harmonium para que o leitor possa comparar os estilos, digamos, oficial e não-oficial de Stevens.

O texto utilizado para as traduções foi o do Collected Poetry & ProseLibrary of America.


CANÇÃO.

Ela me ama ou não me ama,
         Que importa? ―
Doce o campo, assim o céu
         Se comporta.

Ela me ama ou não me ama,
         É o fim? ―
Verde a mata, o céu também
         É assim.
1899. (20 anos)

§

Você diz que isto é íris?
E que este azul fantástico
São não-me-esqueças?
E que este matiz d'ouro
São somente rosas?
E que estes quatro longos talos
São tulipas roxas que abrangem
Tantas e tantas folhas?
Seus nomes são tenros murmúrios
Pra quem só
Sabe disso; em meu espírito
Seus encantos vagam, anônimos.
1899.

§

CORES.

I.

Laranja pálido, verde e rubro, e
branco, e dourado e marrom.

II.

Lapis-lazuli e laranja, e verde opaco,
fulvo, preto e dourado.
1909.

*

Se Valentim traz amor
E a Primavera a harmonia
Nenhum dos dois me soergue
Ao meu dever de poesia

Mas Elsie e Holly sim
E o fazem dia a dia ―
Bem mais que Valentim ou Primavera
E com mais alegria.
1925.

§

HIEROGLÍFICA.

Gente que vive em casarões
Tem os piores bafos.
Hey-di-ho.

Mesmo sem ter o que fazer
Eu olharia pras flores.
Hey-di-ho.

O beija-flor é a ave nacional
Do beija-flor.
Hey-di-ho.

entende Aristóteles apenas
Instintivamente.
Hey-di-ho.

Que o sábio com sabedoria remonte o mundo
Ou que o poeta o faça com milagres.
Hey-di-ho.
1934.


ANEDOTA DO HOMEM PELOS MIL.

A alma, ele disse, é composta
Do mundo externo.

Existem homens do Leste, ele disse,
Que são o Leste.
Existem homens da província
Que são a província.
Existem homens dos vales
Que são o vale.

Existem homens cujas palavras
São como sons naturais
De seus lugares
Como o cacarejo de tucanos
No lugar dos tucanos.

O bandolim é o instrumento
Dum lugar.

Existem bandolins das montanhas ocidentais?
Existem bandolins dos luares setentrionais?

O vestido duma mulher em Lhassa,
Em seu lugar,
É um elemento invisível daquele lugar
Feito visível.

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