Dante Gabriel Rossetti (1828 - 1882).


(Water Willow, pintura, de Rossetti, de 1871.)



Posso começar dizendo que o nome não é bem Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), mas Gabriel Charles Dante Rossetti. O nome foi mudado pois o autor gostava muito do florentino. Mas muito mesmo. As traduções de Rossetti de Dante e de poetas italianos renascentistas (em 1861) ainda hoje são tidas como exemplares...

Quem foi a figura?

Nasceu em Londres num berço de ouro, digamos assim, e foi dessas crianças que liam de tudo, tendo se interessado desde cedo por arte medieval italiana. Nada de se espantar, visto que seu pai Gabrielle Rossetti era poeta e crítico e seus três irmãos tinham envolvimento literário, em especial sua irmã Christina Rossetti (1830-1894), que chegou a ser uma poeta de sucesso (autora do célebre Goblin Market). Em 1848, após entrar em contato com uma pintura de William Holman Hunt (1827-1910), fundou a Irmandade Pré-Rafaelita. Tinha ao todo sete membros, e, além de Rossetti e Hunt, cumpre citar John Everett Millais (1829-1896), autor daquele famoso quadro da Ofélia de Shakespeare se afogando, e, um pouco mais tarde, a aprovação crítica de John Ruskin (1819-1900). Na verdade, esse quadro de Millais também possui uma importância colateral na vida de Rossetti, posto que foi feito com base na feição física de Elisabeth (Lizzie) Siddal (1829-1862), que Rossetti conhecera em 1850 e que se tornara sua musa inspiradora. E isso em muitos sentidos: a Irmandade Pré-Rafaelita basicamente atuava na pintura e na poesia, e Rossetti foi ele mesmo um pintor dedicado. Quem sabe dedicado até demais, com um senso de inferioridade que perpassava tudo o que ele fazia: muitos de seus poemas, por exemplo, foram reescritos à exaustão ao longo da vida (mais ou menos como o caso de muitos de nossos parnasianos, marcadamente Francisca Júlia), e muitos só foram publicados no final da vida. Assim, podemos notar a presença de Lizzie em muitos poemas de Rossetti e em especial em muitas de suas pinturas. Basta você correr o olho nestas últimas pra ficar com aquele sentimento estranho de que ele estava sempre pintando a mesma moça... Se Rossetti deu ênfase a Dante em seu nome, é provável que ele também tenha dado ênfase a Lizzie como sua Beatriz também.

Só que a relação entre os dois não foi simples. Extremamente bela, servindo de modelo para os Pré-Rafaelitas todos praticamente, e no entanto de origem humilde, seu relacionamento com Rossetti foi desaprovado pela família do autor. Sua irmã Christina era veemente e chegou até a escrever um poema sobre a situação: In Artist's Studio, em que a poetisa diz que Rossetti amava Lizzie não pelo que ela era, mas pela forma como ela supria seus sonhos. Daí, basta ter em mente a moral rígida e hipócrita de boa parte da sociedade vitoriana para ter uma ideia da forma como o relacionamento entre Rossetti e Lizzie foi recebido. Foram se casar só em 1860. Lizzie chegou a engravidar, mas sofreu um aborto, o que a abalou profundamente. A saúde de Rossetti também não era das melhores; mas a saúde mental de Lizzie, pelo menos, estava muito mais abalada. Em 1862, após um jantar com Swinburne (1837-1909), Rossetti voltou pra casa e encontrou a esposa inconsciente na cama: ela havia se matado com uma overdose de láudano.

Após a morte de sua esposa, Rossetti se mudou e seguiu sua vida de relativo anonimato. Publica sua sequência de sonetos House of Life em 1881, um ano antes de sua morte. Não foi a única sequência de sonetos da época, embora talvez a mais famosa. Basta nos lembrarmos de Elizabeth Barrett Browning e da própria irmã de Rossetti, Christina, que, em Monna Innominatta, reivindicou a voz feminina na poesia, lançando a hipótese de como seria se as musas inspiradoras dos grandes sonetistas clássicos tivessem, elas próprias, voz.

Vamos dar uma concentrada nesse House of Life.

Os interesses gerais dos Pré-Rafaelitas eram o de, na esteira revivalista de certa vertente romântica, restaurar a arte anterior ao período dos pintores Rafael e Michelangelo: portanto, um retorno aos primórdios do Renascimento e final da Idade Média. Você consegue ver as características do grupo em especial nas pinturas, onde um enfoque na Natureza é sempre dado e uma sensação de leveza combinada com realismo e perícia técnica são incutidos. No caso da poesia a coisa pode ser vista de maneira relativa, com uma espécie de mescla de sensualismo e plasticidade que percorre a superfície dos poemas, à maneira de nossos parnasianos. Claro que no caso de nosso Parnasianismo houveram características formais com as quais o grupo é comumente caracterizado, o que costuma ser reduzido ao primeiro poema do primeiro livro de Bilac, Profissão de Fé. Mas se considerarmos que nosso Parnasianismo transcende essa rotulação simples, e que ele possui momentos mais intensos e portanto distantes da posição de ourives frio, como no caso do Bilac de Via Láctea ou o Alberto de Oliveira de Alma em Flor, ou então os momentos sensuais de uma Francisca Júlia, conforme estudado por Emmanuel Santiago (de modo que à rígida restrição formal não se segue tão necessariamente assim uma rígida restrição conteudística); se considerarmos tudo isso, creio que uma ponte de contato entre os Pré-Rafaelitas e os Parnasianos brasileiros não seja totalmente descabida. Cumpre também notar que o ideal da Arte pela Arte aparece na obra de Rossetti no seu conto Hand and Soul (1849), que conta a histórica de um pintor renascentista, Chiaro dell'Erma, que, desiludido de mudar o mundo, sonha com uma mulher que pede que ele, ao invés disso, a pinte com toda a alma.

Enfocamos aqui a sequência de sonetos House of life. O primeiro soneto traduzido é uma peça largamente antologizada de Rossetti, demonstrando a maneira pictórica e escultural, monumental em suma, com que ele trata a fôrma. Se lembrarmos mais uma vez do apreço parnasiano pelo soneto, não é uma demonstração disparatada, embora seja sem dúvidas interessante comparar o que Rossetti aborda sobre o soneto enquanto objeto certa maneira pálido (note que não existem cores no poema) com o que nosso Cruz e Sousa descreve: formas voluptuosas e caprichosas. Ou então, caso queiramos correspondências mais satíricas, seria o caso de lembrar no mínimo de Gregório de Matos e de Corbière...

Pois a esse respeito, Rossetti realmente tinha um apreço pela forma. E mesmo que ele não tivesse escrito The Sonnet, seria algo perceptível não só pelo fato dele ter escrito uma sequência de sonetos, pois a esse respeito devo notar que sequências de sonetos são quase tão antigas quanto o próprio soneto, e, mesmo considerando que tenhamos casos de autores que não escreveram nenhuma ou nenhuma de grande vulto, é comum que o soneto faça parte de suas vidas e seja uma espécie de constante em sua obra poética (o "sonetista" é mais do que uma subdivisão do "poeta": ele se sustenta de pé); digo tendo em vista o esquema rímico dos sonetos de Rossetti, que retoma a forma que Philip Sidney (1554-1586) usou aqui e ali em Astrophel and Stella: algo que mistura o soneto italiano com o soneto inglês. Isso se dá pois sabemos que a forma do soneto inglês possui como características os sete ecos rimáticos, as rimas alternadas nos quartetos e o dístico no final. No caso de Rossetti, contudo, o esquema rímico dos quartetos segue frequentemente o do soneto italiano, com dois ecos rimáticos ao invés de quatro e rimas abraçadas ou alternadas (isso tudo, claro, nos quartetos, pois os tercetos sempre foram uma algazarra). Só que Rossetti, ao mesmo tempo, com frequência se vale do dístico, o que, no frigir dos ovos, implica que ele como que louva e se utiliza das duas formas ao mesmo tempo.

Já quanto aos outros sonetos traduzidos, eles formam uma sequência chamada Willowwood, também de House of Life. Willowwood é um local que realmente existe e fica localizado em Frome-Selwood, onde Rossetti e sua mãe ficaram de 1853 a 1854. A sequência foi composta em dezembro de 1868 e foi a partir dela que Rossetti começou a escrever o livro todo. Traz um dos temas que mais aparecem na obra do poeta: o amor como promessa e como impossibilidade, o amor como ganho e o amor como perda. Isso cria uma espécie de "quase-lá" que percorre muitos dos mais famosos sonetos da sequência, e que dão um ar onírico e certo modo impalpável à produção de Rossetti, ao mesmo tempo em que se observa uma proclamação carnal. Não é à toa que o primeiro título dos Willowwood Sonnets fosse A Dream...

*

Esta tradução eu fiz em conjunto com Pedro Mohallem. O Pedro tem 19 anos, é mineiro e nasceu em Itajubá. Cursa Letras na Universidade de São Paulo. Aspirante a tradutor e poeta, publica seus escritos no Facebook, Palavras de Calebe Cruz, e em seu blog pessoal, Esta pouca cinza fria. Aprendeu a gostar de poesia com os clássicos, mas descobriu recentemente uma paixão incondicional pelo anticânone.

Eu traduzi The Sonnet e os dois últimos sonetos da sequência Willowwood, ao passo que o Pedro traduziu os dois primeiros de Willowwood. Afora questões de ordem formal, como por exemplo a alteração no esquema rímico dos quartetos de The Sonnet (mesmo assim mantendo o esquema abraçado) ou duas rimas parciais ao longo do conjunto e um pé quebrado, tivemos problemas ao traduzir as expressões Willowwod e woodside, esta última do primeiro soneto da sequência.

No primeiro caso, o problema era tanto de ordem imagética, visto que um bosque de salgueiros é algo pra lá de bonito (pare você mesmo e pinte a cena na sua cabeça), de ordem geográfica (pois, como dissemos, o lugar existia mesmo) e de ordem poética, visto que, no terceiro soneto da sequência, Rossetti brinca muito com paranomásias e aliterações com o termo (veja-se widowhood). A solução que encontramos foi a de que manter o nome do local provavelmente não daria certo, e que, entre manter a imagem de um bosque de salgueiros e poder optar em, digamos assim, desmatar esse bosque e reduzi-lo a apenas um salgueiro e tentar compensar a perda paranomásica do original com outra coisa; entre isso, a segunda via foi a melhor, no que traduzimos tendo em vista um esquema aliterativo constante e uma musicalidade presente e atuante ao longo do soneto, quem sabe até maior que a do original. Mas aqui faço notar que como esse terceiro soneto incorpora a estrutura de uma canção (e tanto que o esquema rímico dos quartetos muda), então nossa solução possui seu respaldo. Outros detalhes constitutivos deste soneto, como seu jogo de paralelismos forte, também buscou ser mantido no maior grau possível, como por exemplo os quatro neologismos distribuídos dois-a-dois ao longo do soneto: fathom-depht e soul-struck no verso 3, e tear-spurge e blood-wort no verso 10. Na nossa tradução, por questões formais reduzimos os quatro neologismos a apenas dois e antecipamos o neologismo no verso 3 para o 2, tendo em vista em especial o ganho aliterativo.

Já quanto a woodside, a opção foi a de, perdendo o significado exato do termo, e de certa maneira a ideia de imersão que a sequência representa (ou seja, nós começamos em woodside, vamos penetrando no bosque e no final estamos praticamente nos afogando, sumindo num só halo); perdendo isto, tentar manter ao menos o clima idílico que o poema apresenta, no que faço destacar um termo como "viço".


UM SONETO.
trad. Matheus "Mavericco".

Soneto: um monumento a um momento, ―
Um memorial da eternidade d'Alma
A uma hora imortal morta. Vê que calma,
Dada ao batismo ou dada a atroz portento,
Sagra-lhe a ardente completude: entalhe
Seu conteúdo em ébano ou marfim,
Conforme Dia e Noite, e o Tempo enfim
Se contempla em esplêndido detalhe.

Soneto: uma moeda cujas faces
Revelam a Alma ― e aquilo que a governa: ―
À vida e seus magníficos impasses
Ou à turba que ao Amor se subalterna,
Ele serve ou, no porto que amedronte,
Põe o óbolo na palma de Caronte.

**

WILLOWWOOD.

I
trad. Pedro Mohallem.

Sentei-me com o Amor à natureza,
Sobre uma fonte, os dois em quedo enlace;
Nada me disse, nem fitou-me a face,
Porém seu alaúde, com destreza,
Tocou, por que um segredo me contasse:
Espelhados na baixa correnteza,
Mudos, nos vimos, e do som se fez a
Amada voz; e a dor rolou da face.

Na queda, os olhos seus verteram os dela;
Seus pés e pena em súbita procela
Varreram de meu peito o viço brando.
A negra vaga, então, se fez cabelo,
E, inclinando-me às águas, com desvelo,
Pude senti-la em beijos transbordando.

II
trad. Pedro Mohallem.

Então, cantou o Amor seu canto vário,
À vaga remembrança atado e firme,
Como a alma presa à morte que confirme
Tardar a vir um novo aniversário.
E eis que notei, suspenso em cada galho,
Um silente tropel como a encobrir-me:
Formas minhas e dela, u'esboço falho
dos tempos idos que hoje nada exprime.

Nós o reconhecemos, e ele a nós;
Unidos, agarramo-nos, enfim,
Ao beijo que a alma torce; e, nesse ínterim,
Advinda da dor própria em tudo a voz
Ecoou: 'Por um, por um momento a sós!'
Mas inda o Amor cantou, e o fez assim:

III
trad. Matheus "Mavericco".

"Ó vocês que vagueiam em meio ao vime,
Vagueiam com vossos alvinúteis rostos;
Que vultosa viuvez é esta que oprime,
Que longo, longo instante sempre a postos
'Té que vocês, de novo e em vão regime,
Pranteiem a fé perdida que põe gostos
Esplêndidos nos lábios e os suprime
Antes que a luz revenha aos vosso rostos!

Margens amargas, ah!, em meio ao vime,
Com lurilágrimas, com fibra rubra:
Ao sono fosse dado, ah!, se aproxime
Da alma até que morta ele a descubra,
Antes morrer seu Ser que morrer isto,
Para que em meio ao vime seja visto."

IV
trad. Matheus "Mavericco".

Assim cantou: e tal qual rosa e rosa
Se amparam e se põem ao léu do vento,
Quando a folha caída ganha alento
Na nódoa íntima de um céu cor rosa,
Desse modo a canção o beijo esposa;
E seu rosto afogou-se tão cinzento
Com seus cinzentos olhos, que, se atento
E os revejo, não sei se Amor os olha.

Sei apenas que aos poucos me embebedo,
Em longos goles, disto que ela bebe,
E o que chora, choro, e o que inala, inalo:
E quanto mais me inclino, o gentil dedo
Do Amor em meu pescoço se percebe
Até que os dois sumamos num só halo.


A SONNET

A Sonnet is a moment's monument,
Memorial from the Soul's eternity
To one dead deathless hour. Look that it be,
Whether for lustral rite or dire portent,
Of its own arduous fulness reverent:
Carve it in ivory or in ebony,
As Day or Night may rule; and let Time see
Its flowering crest impearled and orient.

A Sonnet is a coin: its face reveals
The soul,its converse, to what Power 'tis due:
Whether for tribute to the august appeals
Of Life, or dower in Love's high retinue,
It serve, or, 'mid the dark wharf's cavernous breath,
In Charon's palm it pay the toll to Death.


**

WILLOWWOOD.

I

I sat with Love upon a woodside well,
Leaning across the water, I and he;
Nor ever did he speak nor looked at me,
But touched his lute wherein was audible
The certain secret thing he had to tell:
Only our mirrored eyes met silently
In the low wave; and that sound came to be
The passionate voice I knew; and my tears fell.

And at their fall, his eyes beneath grew hers;
And with his foot and with his wing-feathers
He swept the spring that watered my heart's drouth.
Then the dark ripples spread to waving hair,
And as I stooped, her own lips rising there
Bubbled with brimming kisses at my mouth.

II

And now Love sang: but his was such a song,
So meshed with half-remembrance hard to free,
As souls disused in death's sterility
May sing when the new birthday tarries long.
And I was made aware of a dumb throng
That stood aloof, one form by every tree,
All mournful forms, for each was I or she,
The shades of those our days that had no tongue.

They looked on us, and knew us and were known;
While fast together, alive from the abyss,
Clung the soul-wrung implacable close kiss;
And pity of self through all made broken moan
Which said, 'For once, for once, for once alone!'
And still Love sang, and what he sang was this:

III

'O ye, all ye that walk in Willow-wood,
That walk with hollow faces burning white;
What fathom-depth of soul-struck widowhood,
What long, what longer hours, one lifelong night,
Ere ye again, who so in vain have wooed
Your last hope lost, who so in vain invite
Your lips to that their unforgotten food,
Ere ye, ere ye again shall see the light!

Alas! the bitter banks in Willowwood,
With tear-spurge wan, with blood-wort burning red:
Alas! if ever such a pillow could
Steep deep the soul in sleep till she were dead,
Better all life forget her than this thing,
That Willowwood should hold her wandering!'

IV

So sang he: and as meeting rose and rose
Together cling through the wind's wellaway
Nor change at once, yet near the end of day
The leaves drop loosened where the heart-stain glows,
So when the song died did the kiss unclose;
And her face fell back drowned, and was as grey
As its grey eyes; and if it ever may
Meet mine again I know not if Love knows.

Only I know that I leaned low and drank
A long draught from the water where she sank,
Her breath and all her tears and all her soul:
And as I leaned, I know I felt Love's face
Pressed on my neck with moan of pity and grace,
Till both our heads were in his aureole.

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