Pero Mafaldo (séc. XIII).


(Detalhe da primeira estrofe do sirventês moral do autor.)


Conhecemos muito pouco de Pero Mafaldo. Data de nascimento e morte, por exemplo, necas. Há quem diga que foi português e há quem diga que foi galego. Se português, descenderia da linhagem dos Mafaldo, que quer dizer "guerreira". Se galego, toma-se como base uma cantiga de amigo sua com referência a uma partida para a Catalunha, e a partir daí se conjetura Pero Mafaldo ter sido beneficiado pelo Repartimento de Valência (1239-1240), e na existência de um tal de "Pedro, juglar de Galicia" (Pedro, jogral da Galízia) neste documento. O Repartimento de Valência se refere à conquista da Taifa de Valência pela Coroa de Aragão pelo rei Jaime I, o Conquistador (1213-1276). A conquista se deu em 1238. Seja como for, é tido como acertado que Pero Mafaldo frequentou a corte de Afonso X (1221-1284).

As principais referência históricas na pequena obra de Pero Mafaldo são relativas ao jogral Pero d'Ambroa e à soldadeira Maria Perez Balteira. O primeiro, um jogral de classe social inferior que viveu entre as cortes de Fernando III e Afonso X, foi famoso por sua poesia satírica, embora tenha sido em decorrência de seus cantares d'amor que outros trovadores, digamos assim, furaram seu olho, pois que o rei baixou um decreto o impedindo de fazê-lo, uma vez que, de condição social inferior, não o poderia. Já sobre Maria Perez Balteira, foi uma soldadeira também entre as cortes de Fernando III e Afonso X que também acarretou, como Pero d'Ambroa, inúmeras composições satíricas a seu respeito. É com base nestas duas figuras que se pode fixar a data de composição das cantigas de Pero Mafaldo entre 1250 a 1270.

Sua obra compõe-se de duas cantigas d'amigo, quatro d'amor, duas de mal-dizer e um sirventês moral (sirventês moral é uma cantiga crítica a um tema moral genérico). Conforme argumenta Segismundo Spina, sua obra não apresenta originalidade nem, de maneira geral, grande interesse, com exceção de seu sirventês moral. Quem sabe na versificação, observado que ele possuía algum conhecimento da "poesia transpirenaica" (expressão de Spina referindo-se aos Pirineus, cordilheira que separa a Espanha e a França, querendo dizer que ele tinha algum conhecimento da poesia provençal) e pelo fato de haver, digamos assim, flertado com a poesia zejelaica (referente ao zéjel, forma poética hispano-árabe que segue a estruturação de um estribilho, uma mudança e uma volta, a volta sendo, como o próprio nome diz, um retorno ao que foi exposto pelo estribilho, e de tal modo que, portanto, o esquema rímico do zéjel é AA/BBBA, este último A sendo, portanto, a volta.) Vale-se muito do decassílabo e prefere um esquema rímico ABBACCA.

Da primeira cantiga, A mia senhor, destaca-se a certa ousadia do poeta em execrar todos os fatores que possam impedir o amor, Deus inclusive. Num plano quem sabe mais formal, a recorrência de intensidades vão criando como que uma série de pólos ao longo do poema e insuflando toda uma carga dramática. Na segunda estrofe, por exemplo, é a ideia de que Deus "fez-lhi tod'est e fez-lhi muyto ben / en a fazer dona de muy bon sen [senso] / e muy mansa", que, logo depois, é contraposta a "e todo por meu mal / a fezo Deus de muyto ben senhor / e das melhores donas a melhor!" Observe o certo exagero desses "muy" e "muyto" que não apenas caracterizam a amada, mas também a colocam à frente de todas, e observe como, no final do quarto verso da estrofe e começo do quinto, o poeta diz que Deus fez tudo isso por seu mal, pra, depois, seguir com o refrão. A intensidade com que o poeta retrata as qualidades de sua amada, ditas apenas na forma do "muito isso e muito aquilo" (e não a partir de comparações, o que, quem sabe, daria uma certa concretude nas referências, pois poderíamos ter uma ideia melhor de como é), dão um certo tom abstrato à coisa, malgrado intenso, que, logo depois, é como que descarregado no eu lírico pelo fato de que toda aquela perfeição em forma de mulher é um grande mal para o poeta (e os pólos do benefício e do malefício são a mola predominante na poesia de Pero Mafaldo).

A segunda cantiga, Senhor do muy bon parecer, possui mais ou menos a mesma ideia, embora a meu ver superior. A intensidade das características de sua dama, ditas apenas como grandes, enormes e presumivelmente sem comparação, certamente fazem parte do arcabouço poético da época, e aquela suposta concreção referencial que apontei num parêntesis do parágrafo passado, pode ter sua causa de, digamos assim, rejeição explicada se observarmos que estamos falando de uma atividade poética intimamente ligada ao mecenato, à aristocracia e à sobrevivência parasitária. Ou seja: é melhor que se mantenha os índices de construção poética num certo nível mais abstrato, pois isso garantiria a permanência do fazer poético.

De todo modo, aqui o poeta diz que se maravilha do mal que a graciosidade de sua amada lhe causa, e que muitos de seus amigos lhe instam a que não se deixe mais afligir por isso. Mas como, ora essa, simplesmente deixar? É o que o poema nos diz, de maneira, pelo menos eu acho, tocante. Creio que em especial pelo trocadilho com "mal" que aparece nos versos 2 e 3 das estrofes (e aqui é bom observar que o poema todo está em cobras unissonantes, ou seja, todas as estrofes possuem as mesmas rimas) e pelo fato de que a mensagem do poema é bela: a persistência do amor, apesar do fato dele fazer tanto mal e, de algum modo, e quem sabe por isso mesmo, fazer bem.

O tema é tal e qual o que aparece na terceira cantiga, Ay mia senhor! Também pode ser lido na segunda estrofe da quinta cantiga, Senhor, por vós e polo vosso ben:

       Formosa Dama, mais não te direi:
       Você, o seu bem e mais vosso amor
       Causam dor que não pode ser maior.

A quarta cantiga, Ay amiga, já é uma cantiga de amigo. A ideia é a de que a mulher, atendendo aos pedidos de sua amiga, diz que não fará tanto mal a seu amado, embora não fará exatamente bem. Fará um pouquinho. Sem exagero. Segismundo Spina nota que existe uma abundância de construções adversativas e causais, certamente explicadas pela busca das razões do coração que, num âmbito poemático, era representada a partir de construções marcadamente antitéticas. Bastará ao leitor ler terceira estrofe (vide abaixo). É também de se notar que a expressão "fazer ben" pode ter muitos significados, chegando até o nível da entrega sexual. Não é bem o que se depreende do contexto do poema, que parece estar se referindo a coisas miúdas, quem sabe um sorriso ou um olhar. Seja como for, nada que viesse a realmente contentar o eu lírico.

É na sexta cantiga que estão as referências à Catalunha. O verso dessa canção é interessante: treze sílabas, resultado da união de dois hexassílabos. Apesar de ser uma cantiga de amigo, possui um tom certo modo enfurecido, a amiga dizendo que seu amado sempre mente para ela sem vergonha.

As três cantigas seguintes, e as últimas, possuem interesse maior. De maldizer a sétima, referente a Maria Perez, ela fala de um bem que foi feito para o eu lírico de tal jeito, que acabou sendo um mal, no que se segue a queixa de que, ora essa!, é com esse bem que ele é pago! Veja-se o refrão da primeira estrofe:

       pois você me faz de modo tal
       bem, minha dama, que se torna um mal;
       e é desse bem que eu não ando agradado!

Mais uma vez a recorrência de termos referentes a mal e bem está presente, com a diferença de que, quem sabe graças à índole satírica do poema, seja algo embaralhado de maneira ainda mais intensa, dado que a cortesia foi posta abaixo. Alguns chegam até a enxergar indícios de que Pero Mafaldo teria pego alguma doença venérea (baseados de novo na expressão "fazer ben"). Na última estrofe, diz que, se aquilo durar por muito tempo, seria melhor se matar ou "seer ao dem'encomendado!" É nessa cantiga que a poesia zejelaica, lembrada por Segismundo Spina, pode ser vista. Observe como a última estrofe de certa maneira retoma o tema da anterior. É uma espécie de conclusão que, digamos assim, reenceta o poema como um todo. Na verdade, microscopicamente todos os poemas de Pero Mafaldo possuem estrutura assim, e o leitor deverá observar como muitas estrofes parece que reiniciam o tema do zero, empreendendo um movimento de recorrência que é bem a base zejelaica. Claro que no caso de Mafaldo isso possui uma fundamentação musical, algo que, se analisado nas canções contemporâneas, pode ser detectado: basta que se note como, após o refrão, é comum que se reinicie tudo do zero, o refrão servindo de clímax. E digo isso me lembrando mesmo dos momentos mais vanguardistas da música contemporânea, por exemplo o caso do clímax orgásmico de A Day in the Life dos Beatles.

Já sobre a oitava cantiga, não creio haver muito o que ser dito que não caia nas raias do contexto. A pena imputada, de acordo com a cantiga de Pero Mafaldo, seria a de se ter os dentes arrancados. O que deve ser notado, por certo, é que, quando o poeta diz, no final da primeira estrofe, que não se deverá chamar de trovador a quem não souber trovar, ele não está falando apenas numa perspectiva técnica. Existem regras sociais que perpassam o trovar de ponta a ponta. Advir de classe social inferior e pretender o cantar d'amor, implicando por conseguinte cantar uma mulher de classe superior, é uma forma de não saber trovar.

Já a nona cantiga traz o tema do mundo transtornado. Concordo com Segismundo Spina quando a classifica como a melhor do autor. A ideia é a de que o mundo está tão mudado, tão esquisito, que, para se adaptar e se dar bem na vida, será necessário ser um vilão como o restante das pessoas e desprezar a verdade. O discurso é irônico, pois, afirmando uma decisão sua, o poeta está ao mesmo tempo criticando tais caminhos. Mais uma vez com Segismundo Spina, é de se notar que Pero Mafaldo, ao contrário do que comumente ocorre com a tópica do mundo transtornado, não está saudando um tempo passado. Não existem tais tipos de referência em sua cantiga. Aferrado ao presente, o tom de crítica é mais poderoso justamente por isso.

§

Traduzo três cantigas de Pero Mafaldo: a quarta, a oitava e a nona. Se a oitava, como vimos, diz respeito a Pero d'Ambroa, fiz por bem, em anexo, incluir uma cantiga de mal-dizer do autor também sobre Maria Peres Balteira. Pus também a cantiga de Mafaldo para que o leitor possa comparar. Note que enquanto as ambiguidades do texto de Mafaldo estão em torno do termo "fazer ben", e o máximo que houver de escrachamento está no "o diabo me carregue" do final, na segunda estrofe da canção de Ambroa já temos a informação de que a Balteira foi desonrada por muitos e, na terceira, o poeta compara a desonra da guerra à desonra de se deixar levar pelas delícias desta mulher.

Foram traduções que se quiseram contemporâneas, e daí a opção pelo "você".  Pois tendo em vista que eram poemas musicados, julguei que, seguindo esta via, pudesse quem sabe estar mais próximo da comunicação direta que os poemas possuíam para com o público de sua época.


III

Ai amiga, você sempre me instiga
a que eu faça algum bem a meu amigo,
e apesar disso, amiga, eu sempre digo
que não é fácil; mas, por ser amiga
     sua, eu farei, só que não farei
     tanto quanto ele queira, mas farei.

Você pediu pra mim, de coração,
que lhe fizesse bem alguma vez
pois isso mostraria altivez;
e eu, somente por sua imprecação,
     eu lhe farei bem, só que não farei
     tanto quanto ele queira, mas farei.

Você pediu, amiga, em boa fé,
que eu fizesse para ele sempre bem,
e por você; e, se assim é, convém
que o faça; todavia, se assim é,
     eu lhe farei bem, só que não farei
     tanto quanto ele queira, mas farei.

§

VIII

Você, Pedro d'Ambroa, não irá
gostar do que nós vamos te fazer:
trovadores, queremos prescrever
que o trovar ruim venha a acabar,
nem iremos chamar, por nenhum amor
que lhe tenhamos, como trovador
se essa pessoa não souber trovar.

E muito mais vai lhe pesar, eu sei,
o que de boa fé vou lhe contar:
todo plebeu, por ser plebeu, não há
de ser chamado nobre, pois o rei
ordenou que isso fosse decretado;
se não, seus dentes vão ser arrancados
e ele dirá: "assim te punirei!"

Porém, o que estou prestes a dizer
vai pesar ― com razão, mas vai pesar ―
pois manda o Rei que quem vier clamar
dádivas, sendo plebeu, ou vier
a ser chamado de jogral, sem ser,
pois então que ninguém nada lhe dê,
e o que ele tenha, ele venha a perder.

§

IX

Vejo as pessoas todas revolvendo
e mudando o caráter velozmente
do que antes foi jurado e foi patente:
e a isso tudo eu já vou aprendendo
e então, logo mais, mais aprenderei;
com quem eu firmar trato, mentirei,
e assim de vida eu só irei crescendo.

Pois vejo que quem mente sai melhor
do que quem é franco com seu amigo;
e é por isso que juro e também digo
que não mentir jamais, nunca é o melhor;
melhor mentir, jurar e não cumprir,
e a quem eu sorrir, logo lhe agredir,
posto que é assim que vive o agressor.

Pois uma vez que meu valor não cresce,
porque pretendi me ater à verdade,
veja só o que farei, por caridade:
vendo que tudo isso me acontece,
mentirei ao amigo e ao senhor,
e assim irá medrar o meu valor
com mentiras, se com verdades desce.


BALTEIRA (sec. XIII).




Não são poucos os poemas que se referem a Balteira. Doze ao todo. O leitor pode conferir uma pequena coletânea feita pelo Consello de Cultura Galega aqui. Dizem que chegou a ir à guerra junto com as hostes de Afonso X, e que seu apoio, digamos assim, diplomático, foi fundamental para convencer os espanhóis a deixarem de apoiar militarmente Granada. Uma mulher forte. É errado chamá-la de cortesã, prostituta ou que o valha. Era uma soldadeira: cantava e bailava na corte em troca de dinheiro. Se o relato de vários trovadores é verdadeiro, e, uma vez que são doze, fica difícil crer o contrário, então temos uma mulher que ia pra cama com muitos.

Mas e daí?

No final de Las cantigas eróticas de Afonso X el sabio, por Luís Alonso Tejada, aqui, alguns detalhes da vida dessa célebre mulher podem ser averiguados. Não é uma referência gratuita pois, em uma de suas cantigas (aqui), segundo a emenda de Rodrigues Lapa, Balteira teria reclamado ao rei das cantigas de escárnio que lhe foram dirigidas por d'Ambroa. E aqui temos, o que pode parecer meio surpreendente, um bom relato de como as cantigas de mal-dizer não eram um terreno ilimitado, embora nesse caso seja forçoso lembrar que a Balteira possuía lá suas posses: tinha uma renda vitalícia e seu enterro, diz Tejada, foi honorífico.

§

Pero Garcia d'Ambroa.
O que Balteira ora quer vingar
das desonras que no mundo prendeu,
se bem fezer, nom dev'a começar
em mi, que ando por ela sandeu,
mais começ'ant'em reino de Leon,
u prês desonras de quantos i som,
que lh'as desonras nom querem peitar.

E em Castela foi-a desonrar
muito mal home, que nom entendeu
o que fazia, nem soube catar
quam muit'a dona per esto perdeu;
[s]e quem a vinga fezer com razom,
destes la vingue, ca em sa prisom
and'eu e dela nom m'hei d'emparar. 

E os mouros pense de os matar,
ca de todos gram desonra colheu
no corpo, ca nom em outro logar;
e outra tal desonra recebeu
dos mais que há no reino d'Aragom;
e deste'la vingu'el, ca de mim nom,
pois há sabor de lhi vingança dar.

§

Pero Mafaldo.
Maria Pérez, and'eu mui coitado
por vós, de pram, mais ca por outra rem,
e vós cuidades que hei de vós bem,
que eu nom hei de vós, mao pecado:
ca mi fazedes vós em guisa tal
bem, mia senhor, que depois é meu mal;
e de tal bem nom sõo eu pagado.

D'haver de vós bem and'eu alongado,
pero punhades vós em mi o fazer
quanto podedes, a vosso poder;
demais, fostes ogan'a meu mandado,
por mi fazerdes [i] bem e amor:
e com tal bem qual eu entom, senhor,
houvi de vós, mal dia eu fui nado.

Em ũa noite o tive chegado;
diss'eu entom com'agora vos direi:
"Bom grad'a Deus, ca já agora haverei
o bem porque andava em cuidado".
E vós entom guisastes-mi-o assi,
que mi valvera muito mais a mi
jazer mort[o], ou seer enforcado.

E se muit'aquesto mi há-de durar
vosco, senhor, devia-m'a matar
ant'ou seer ao Dem'encomendado.


TEXTOS ORIGINAIS.

III

Ai amiga, sempr'havedes sabor
de me rogardes por meu amigo
que lhi faça bem; e bem vos digo
que me pesa, mais, já por voss'amor,
     farei-lh'eu bem; mais de pram nom farei
     quant'el quiser, pero bem lhi farei.

Vós me rogastes mui de coraçom
que lhi fezesse bem algũa vez,
 ca me seria mesura [e] bom prez,
e eu, por vosso rogo e por al nom,
     farei-lh'eu bem; mais de pram nom farei
     quant'el quiser, pero bem lhi farei.

Rogastes-mi, amiga, per bõa fé,
que lhi fezesse todavia bem
 por vós, e, pois vós queredes, convém
que o faça, mais, pois que assi é,
     farei-lh'eu bem; mais de pram nom farei
     quant'el quiser, pero bem lhi farei.


§

VIII

Pero d'Ambroa, haveredes pesar
do que nós ora queremos fazer:
os trobadores queremos poer
que se nom faça tanto mal cantar,
nem ar chamemos, per nẽum amor
que lh'hajamos, nulh'home trobador
senom aquel que souber [bem] trobar.

E pesará-vos muit', eu ben'o sei,
do que vos eu direi, per bõa fé:
polo vilão, que vilão é,
pom or'assi em seu degred'el-rei
que se nom chame fidalgo per rem,
senom os dentes lhi quitem por en;
e diz: "Assi o escarmentarei".

Ar pesará-vo-l'o que vos disser
(est'é pesar e pesar com razom):
ca manda el-rei que se demandar dom
o vilão ou se se chamar segrel
e jograria nom souber fazer,
que lhi nom dê home [de] seu haver,
 mais que lhi filhem todo quant'houver.


§

IX

Vej'eu as gentes andar revolvendo
e mudando aginha os corações
do que põem antre si os varões;
e já m'eu aquesto vou aprendendo
e ora cedo mais aprenderei:
a quem poser preito, mentir-lho-ei,
e assi irei melhor guarecendo.

Ca vej'eu ir melhor ao mentireiro
ca o que diz verdade ao seu amigo;
e por aquesto o jur'e o digo
que jamais nunca seja verdadeiro;
mais mentirei e firmarei log'al,
[e] a quem quero bem, querrei-lhe mal,
e assi guarrei come cavaleiro.

Pois que meu prez nem mia honra nom crece,
porque me quigi teer à verdade,
vêde lo que farei, par car[i]dade,
pois que vej'o que m'assi acaece:
mentirei ao amigo e ao senhor,
e poiará meu prez e meu valor
com mentira, pois com verdade dece.



O QUE LI PRA FAZER ISSO.

Todas as cantigas de Pero Mafaldo podem ser lidas no esplêndido site dedicado às Cantigas Medievas Galego-Portuguesas, mantido pela FCSH da Universidade de Lisboa, aqui. O texto dos poemas foi copiado de lá, bem como a imagem que abre o texto. Recomendo ao leitor também o livro As cantigas de Pero Mafaldo, por Segismundo Spina para a Tenpo Brasileiro em coedição com a Universidade Federal do Ceará em 1983, para a Coleção Oskar Nobiling. Além de utilíssima introdução, conta com o texto fixado, notas de grande valia, paráfrases, análises formais, pequeno glossário etc.

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