Ubi sunt?

Ubi sunt? é um dos topói (plural de topos) poéticos. Pode ser traduzido por "Cadê?" ou "Cadê tudo o que já vivi?" ou "Pra onde foi parar?" etc. É o que Donne (aqui) pede pra pessoa com quem conversa responder: "Tell me where all past years are". Que ele o pergunte logo depois de pedir pra pessoa engravidar uma mandrágora e pegar uma estrela cadente, só mostra que estamos diante de algo impossível. E recorrente: daí se chamar o Ubi sunt? de um topos. Pois os poetas parecem que não falam de muitas coisas. Se aquela conversa de que já se falou sobre tudo é uma verdade pra prosa, pra poesia então!... nem se fala.

Para ficarmos com apenas dois exemplos, recordemos Giácomo Leopardi, o famoso poeta romântico italiano. Leopardi era um camarada que, na adolescência, decidiu estudar. Mas estudar mesmo, de verdade, com afinco. O resultado foi que, aos 21, quando se deu conta, já era um velho. E então decidiu correr em busca do tempo perdido, mas não como Proust ― embora Proust seja uma extensão do Ubi sunt? também. O resultado foi a construção de um dos poetas italianos mais importantes desde Dante. O poeta do infinito, como é chamado graças a seu famoso soneto estrambótico. O fato é que, num de seus poemas, chamado A Noite do Dia de Festa, o clima é basicamente o de que, depois daquela festa, daquele momento tão legal, você durma e, quando acorde, seja no outro dia ou seja décadas depois, caia em si e perceba que tudo acabou. Cito o final do poema, na tradução de Décio Pignatari,

                                        (...) Já se foi
        O dia de festa, e agora chega o dia
        Normal, onde tudo se escoa no tempo,
        Todos os atos humanos. E o estrondo
        Dos antigos, as vozes dos heróis
        De ontem, onde estão? e o grande império,
        E as armas e o fragor que faz tremer
        Os caminhos da terra e do oceano?
        Tudo é paz e silêncio. O mundo
        Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
        Quando criança, vinha a espera ansiosa
        Do dia de festa, que findava logo.
        Sofrendo, comprimia o travesseiro,
        Ao ouvir pela noite aquele canto
        Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,
        Morrendo e me apertando o coração.

O segundo exemplo que quero usar é um poema de Manuel Bandeira: Profundamente. A propósito, meu poema brasileiro preferido. Uma vez que se conhece o poema de Leopardi, é possível que esse poema do Bandeira caia um pouco do cavalo. É possível. No meu caso, não; apesar de próximos pelo topos retratado e pela cena que desenham, existem diferenças entre um e outro. Leopardi, como disse, é o poeta do infinito, e, voltando a seu poema, é o que podemos observar:

        Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
        – E à antiga natureza onipotente
        Que me vota à aflição – dirijo os olhos.

No soneto que me referi, Leopardi olha pro horizonte mas existe uma sebe que atrapalha sua visão. Aí o poeta fica imaginando como deve ser bão demais da conta gozar do infinito que nem mesmo contemplar ele pode (o que a forma estrambótica formalmente reproduz, como se o estrambote fosse um empecilho também). No poema de Bandeira, não existem tais conotações grandiosas. Não existe, por exemplo, a solenidade muda do decassílabo branco de Leopardi. O poema está todo em versos livres, e Bandeira mergulha na sua lembrança e busca retratar, fazer com que sintamos aquela noite como sendo única. Em Leopardi, a noite de festa é uma noite que pode ser qualquer outra ― quer dizer: ele não se preocupa em tornar aquela noite uma única noite em específico, visto que a noite que ele fala já está no status de simbólica, ao passo que a noite de Bandeira é aquela noite de São João, com estrondos, fogueiras acesas etc etc. Assim, por mais que Leopardi se dirija a um "você" que dá uma concretude referencial ao poema, tirando-lhe da atmosfera vaga que o percorre, esse "você" não é capaz de dar a mesma concretude que a referência de Bandeira a Totônio Rodrigues, Tomásia, Rosa. Não quero dizer que devamos saber quem foram essas pessoas para apreciar o poema ou mesmo para dizermos que o compreendemos; mas se trata de um mergulho numa subjetividade que se faz específica, e, embora não saibamos quem Totônio Rodrigues foi, sabemos que tem que ser essa pessoa em específico e não qualquer outra, conforme se depreende do "você" de Leopardi.

Além disso, o poema de Bandeira possui uma estrutura poemática em duas partes. O poema de Leopardi é todo monostrófico. O poeta elucubra a respeito, ele chega a dizer:

        Mas se calculo os dias que me restam,
        Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
        Que vida horrível numa vida jovem!

Existem volteios, o pensamento é conturbado. Ele está dentro da fenda e tenta comunicar o que sente dentro dessa fenda para o leitor. Esta é uma preocupação essencial de seu texto. No caso de Bandeira, a fenda ela é literal; mas Bandeira não se preocupa da mesma forma e intensidade que Leopardi em dizer para o leitor o que sente, ou o desespero cósmico de ter percebido que perdera a vida. A repetição da última estrofe em cada uma das partes funciona mais ou menos como uma resposta ou uma constatação que pode substituir a resposta do "Onde estão todos eles?" ― todavia, ela não possui o mesmo caráter discursivo do poema de Leopardi, e tanto que são estrofes que se fazem preceder de um travessão, isto é, são elas próprias fendas entre o sentimento descrito e o cair na real de que aquilo ali acabou e você não sabe o que foi feito.

Esse o desespero. Mudou o Natal ou mudei eu?, se pergunta o eu lírico de um famoso soneto de Machado de Assis. É óbvio que essas coisas passaram; contudo, elas persistem na lembrança, mas isso não quer dizer que elas permaneçam vivas da forma como queremos que estejam. O Ubi sunt? é um desdobramento do tema da mortalidade, da efemeridade, da nossa própria constituição física e mental enquanto seres humanos.

Passemos agora para um caso contemporâneo. O poema Outro dia de folia do livro homônimo de Eduardo Lacerda (editora Patuá, 2012). A temática da festa é comum ao longo dos poemas. Pra citarmos apenas dois, temos Festim e Embrulho, este último com uma bela epígrafe de Auden. O caso do primeiro, Festim, retrata o desespero avizinhado à comemoração, uma espécie de busca pela própria personalidade que se esconde, como o próprio título alude, no festim, na suntuosidade. Veja-se:

        Rabiscou espelhos
        não sendo ele
        sua própria

        letra.

Se existe um tom frenético nesse poema, em Embrulho a coisa é bem mais calma. As velas estão frias e o eu lírico está numa posição que parece a da capa do livro, por Leonardo Mathias: um garoto sentado no canto com um chapéu de festa, aparentemente de castigo. Mas não necessariamente. Talvez exausto. Entregue a si próprio. Aquilo que Drummond disse: ficar torto no seu canto. Creio que seja isso mesmo. Independente de ser castigo, tristeza ou um porre, ele está jogado dentro de si mesmo e, em meio à fanfarra, a ficha cai. Ele está sozinho.

Daqui podemos voltar a Outro dia de folia. Observe-se:

        / É a presença

        que insiste:


        sim,

        você

        está
        
        triste. /

É um poema curioso pois entre cada verso existe um espaço, e cada verso acaba funcionando como uma estrofe. Mas uma estrofe, você pode ver, praticamente inefetiva, pois temos a sensação de estilhaços que foram jogados e formaram ilhas. Ou talvez a sensação muito forte de um poema que deveria ser corrido, pois seria feito de versos finos (e versos finos aceleram a leitura), mas que, por estarem todos funcionando como estrofes, requerem do leitor uma respiração pausada. Uma das poucas exceções é o verso "como quem conta passos de dança [e tropeça]", que parece querer restaurar a normalidade poética mas que, como ele demonstra literalmente, tropeça e volta tudo ao normal.

Formalmente existem razões muito bem construídas para isso. Vejam: o título é Outro dia de folia. Outro. Não há mais aquela ideia de um dia único, conforme vimos em Bandeira; estamos mais próximos de Leopardi, de que aquela festa é universal, posto que simbólica. E contudo, esse Outro também dá um sentido diferente. Pois é Outro também no sentido de enfado, também no sentido de "de novo". É Outro não mais na condição de um poeta que levantou a cabeça e percebeu que perdera sua vida, nem de um poeta que passou a vida inteira na sua, quieto; estamos mais próximos de um poeta que frequenta festas, um poeta, digamos assim, que caiu na pista. O pano de fundo deixa de ser o infantil de Bandeira e deixa de ser também o melancólico de Leopardi para ser um que tem tudo para ser agitado. E talvez até seja. Mas estamos sozinhos. Caímos na real. E, embora seja um Outro dia de folia, ele é o mesmo ― e daí a grande ironia que o poema de Eduardo Lacerda demonstra se posto ao lado de Bandeira e Leopardi. A impossibilidade de que aquele dia de folia seja único não decorre do fato de ser irrepetível; ele talvez até venha a ser, mas o poeta constata de que ainda assim tem algo faltando. Ele não sabe direito o quê ― e, pós-modernos, também não saberíamos dizer.

Formalmente, sendo assim, o fato de serem versos que funcionam como estrofes ou que, no mínimo, estão muito distantes um do outro, pode simbolizar o fato de que teríamos um dia de folia para cada verso. Se cada verso não possui uma unidade de sentido, é porque todas as folias por si só também não possuem, exceto aquela em que o eu lírico pareceu se alegrar e até mesmo a dançar ― mas, como vimos, isso passou, ele tropeçou e voltou à estaca zero. E, cada verso não possuindo unidade de sentido, a união deles nos revela uma mensagem triste, bem o que podemos inferir de todos os dias de folia juntos.

A inclusão de instrumentos de diferenciação dentro dos poemas de Eduardo Lacerda é também digna de nota. Ele põe versos em itálico, em colchetes, parêntesis, entre barras, precedidos de dois pontos. Isso dá relevo ao que é dito. Isso destaca. Isso seleciona. Faz aquele trabalho de separar o joio do trigo, com a diferença de que, embora em relevo, o poeta simplesmente não pode se dar ao luxo de se contentar com apenas aqueles momentos e criar algo como uma poesia pura. Aqueles momentos necessitam estar rodeados de outros, banais, para que ganhem seu brilho. O trabalho não é o de destacar uma noite de festa em específico nem o de imortalizar ou universalizar uma delas; é o de observar todas e encará-las em sua totalidade. A dificuldade, enfim, de que se selecione, em meio a tanto, em meio a tudo, o que nos é essencial ― mais uma vez, uma dificuldade pós-moderna.

Assim, o eu lírico de Eduardo Lacerda não mais se pergunta: Ubi sunt? Como ele diz no poema Aceno, "Dar de ombros // é meu aceno." Se o Ubi sunt? pode ser traduzido num "Cadê?", o que vemos no poema de Eduardo Lacerda é um "Cadê o quê?" A distância entre os versos, o fato de muitos deles se apartarem, demonstram de forma literal a condição de seres humanos ilhados. Para ficarmos com uma última citação, é o que se vê no poema Por um fio, onde, ao falar da pálpebra, o poeta nos diz: "E ainda que esfregue / os olhos, ela mesma // não enxerga."

O buraco, portanto, é muito mais embaixo. É profundamente mais embaixo.

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