Sobre um poema inédito de Rubens Akira Kuana.

Tratado da Consolação. Acabou de sair do forno: ontem na Modo de Usaraqui. Rubens Akira Kuana é dos mais promissores. Quem visita seu blog, aqui, vai encontrar um leitor atento, elétrico. Um conhecedor amplo da poesia contemporânea lá fora. O que, por conseguinte, nos leva a verdadeiras preciosidades. Por exemplo, a tradução de Rubens para o poema Did You Ever Forget Someone Can’t Help You Because They’re Dead? I’m Boring Like That de CA Conrad, aqui. Eu também traduzi o poema, aqui, e, portanto, sei reconhecer que uma solução como "um gavião asseia-me através das veias" para "hawk washing through my veins" é esplêndida. Outro exemplo de preciosidade no blog do Rubens é sua tradução para o ensaio O Poema Difícil de Charles Bernstein, aqui, o que valida a leitura muito bem feita de Adriano Scandolara para o primeiro livro do autor, Digestãoaqui.

Um terceiro e último exemplo, pois caso contrário eu simplesmente não paro, é o ensaio do autor sobre o filme Elaaqui. Não assisti o filme; mas, de todo modo modo, as reflexões que Rubens faz no ensaio podem ser pertinentes para nós, em especial no que ele chama de "[o homem comum] Estender suas prisões afetivas".

O formato dos poemas, fininho, é usado muito bem por Ricardo Domeneck em alguns de seus textos. E de fato creio que Domeneck já seja uma influência direta sobre a poesia de Rubens, dado que, recentemente, ou, tentando trocar em miúdos, de Ciclo do amante substituível pra cá, sua poesia tem se pautado naquilo que chamo de "palavras grávidas": um termo inventado pra dizer o que na prática a poesia sempre fez, isto é, jogos de palavras, potencialização de sonoridades até que se chegue num estágio próximo do palavra-puxa-palavra que outros estudaram em Drummond (mas não uso o termo de forma pejorativa!).

Não digo com isso que Rubens copie Domeneck, ou Domeneck Drummond. Acho que, a essa altura do campeonato, quem faz uma correlação tão simplista assim com o que acabei de dizer... Eu desisto. Mas enfim. A poesia de Rubens, embora possuindo semelhanças com a trajetória de Domeneck, postas as devidas proporções de tempo, passa a descobrir outras maneiras de continuar desorientando (visto que concordo com Adriano Scandolara quando aponta os vários instrumentos desorientadores do primeiro livro de Rubens). É o caso de Pátria Empreitadaaqui, onde o termo "empreitada", o leitor pode ver muito bem, é de grande importância. "Empreitada", obra posta na conta de terceiros a ser feita mediante condições prévias. Não é bem isso o que fazemos com nossa noção de pátria? Um país melhor ― mas isso de arregaçar as mangas, isso é com os outros.

Se colocarmos Pátria Empreitada ao lado de história à primeira vistaaqui, e seu mais recente poema, podemos ver como os três abordam a temática da finalidade, da caçada, da busca por um algo que, devendo ser glória, redunda em fracasso, fracasso, fracasso. Veja-se, de história à primeira vista,

        fugaz acreditei
        que você também
        pudesse ser
        a prova
        de que nasci
        no momento
        oportuno

Não dá pra saber direito a quem se refere o "você". No plano do poema, supomos ser a História, mas é possível também que exista uma outra pessoa subentendida no poema. É comum na poesia contemporânea que esse Outro possua ares de onipresença. Mas não creio que esta tenha sido a tônica dos últimos poemas de Rubens. A tendência parece ser a de apontar para o que ele nos diz fechando seu primeiro livro ― refiro-me a Preferências Prioritárias, mais uma vez com aquela dinâmica da ambiguidade que apontei, com todo uma espécie de tomadas de cena que vão aparentemente reconciliando contrários e expandindo o campo de inclusão, até o momento em que o soneto (e o fato de ser soneto, isto é, estrutura poética realizada num arcabouço silogístico, tem significados próprios) fecha com a palavra "mesmo". Estas seriam as preferências prioritárias: as mesmas?

        (...) Espaço.
        Espaço. Espaço
        para nós e este
        óbvio discurso
        viscoso. (...)

São versos de Pátria Empreitada, logo após baquear a ideia da Utopia. A poesia de Rubens parece apreciar isso de se mostrar ao leitor enquanto conformada. Não é um discurso corrente o de que a juventude, o de que nós somos um bando de conformados e alienados? Sempre predisposto ao sarcasmo, embora agora sua tendência seja a de deixá-lo subentendido nos versos, Rubens tira sarro desse discurso enviesado. Na verdade, se você for parar pra pensar, ele tira sarro de muitos discursos veiculados a torto e a direito. Em seu mais recente poema ele tira sarro de discursos ambientais ― mas aqui é preciso que se ressalte o fato de que ele tira sarro de alguns discursos ambientais, quem sabe aqueles vinculados à ideia de um desenvolvimento sustentável de mãos dadas com o incremento de uma máquina ambientalmente insuportável. Assim, a ideia de que "A partir / dos polos / os peixes / repovoam / o planeta." pode ser vista de muitos prismas diferentes, seja como sarcasmo para com um consolo na esteira do "ainda resta X", seja como constatação de que já não resta muita coisa, seja, à maneira do poeta baiano também contemporâneo Rodrigo Damasceno, em seu Os peixes vermelhos (aqui), a ideia de que nos confundimos com os peixes pois também estamos num ambiente predatório (o que Bauman, por exemplo, atesta com veemência).

O paralelo com Damasceno não é infundado pois vejo muitos pontos de encontro entre os dois poetas. A ideia do verso fino pode parecer apenas um quesito visual, mas possui seus significados, pois no geral os versos finos nos levam a ler de forma arquejada e cada vez mais acelerada o poema, para além do fato de que propiciam trocadilhos (e tanto Rubens quanto Damasceno ou Domeneck os utilizam com grande precisão) e para além do fato de que os versos finos parecem apontar ou deixam o gosto da concisão, o que, dos três contemporâneos que citei, não é o caminho seguido: pelo contrário, são poetas que se espraiam e querem do poema um fiapo de cabelo mais do que o mármore imperecível de Horácio. Claro que existem outros paralelos também, como o apossamento de discursos dominantes (veja-se, de Damasceno, Poema pra quê?Como escreve o poeta/ nascido e criado/ na Bahia entre os anos/ oitenta e noventa/ do século passado?/) ou o uso da ironia (também visto nos poemas citados ou em Tem espaço ― e, é claro, convido o leitor a compará-lo com o trechinho de Rubens que citei mais acima).

E se traço o paralelo com Damasceno, é para provar que Rubens é certamente um dos poetas mais bem aparelhados hoje, ou, pelo menos, dentro do que julgo como sendo um poeta bem aparelhado (um poeta que tenha especialmente leitura de poesia contemporânea e que seja um contemporâneo de seu próprio tempo, e não uma quimera inconsolada): suas influências diretas são poetas contemporâneos, poetas vivos assim como ele ou recém-falecidos, o que nos leva a toda uma dinâmica de construção em cima do que ainda está sendo construído. Uma construção sobre outra construção. Portanto, a poesia de Rubens é uma das que mais têm a nos dizer sobre o cenário contemporâneo, e, se seguirmos o preceito da crítica funcionalista de Antonio Candido (e sim, eu a sigo), de que deve-se analisar a contribuição de um poeta para seu próprio tempo, reafirmo minha certeza de que Rubens é das que mais o fazem.

Mas voltando um pouquinho, pr'aquilo das ideias acerca da passagem dos peixes que apontei, é provável que a mais pertinente dentro do poema seja a primeira, de que Rubens tira sarro dessa ideia de consolo que nos é imposta. Essa coisa de que os acontecimentos do dia efeitos são do cometa, pra me usar da expressão de Gregório de Mattos no poema. Pois a poesia de Rubens, seguindo o nome de seu primeiro livro, Digestão, é uma poesia não necessariamente indigesta ― pode ser que seu primeiro livro tenha querido sê-lo ― mas, observando os rumos que o poeta tem tomado, a dinâmica de sua criação parte de um ponto de vista sutil e mais poderoso: é uma poesia que nos leva a regurgitar. O que implica que a digestão quase foi feita. Quase. É um engano. Ela se apropria do que empurram pela nossa garganta e ridiculariza: veja-se o final de seu poema recente,

        Você, afinal
        é o mágico
        que sempre
        quis ser.

Que mágico? Aquele, de Murilo Rubião, que perdeu seus poderes aos poucos e quis se suicidar também aos poucos transformando-se em funcionário público?

É bem possível que seja. Pois estes são, com efeito, as formas de consolo que temos. Tudo vai ficar bem, se você abaixar a cabeça e ser como uma ovelhinha ― imagem que, diga-se de passagem, já está devidamente apropriada pelo discurso corrente. Com Rubens a princípio o que temos é uma confirmação disso ― sim, o que disseram é verdade, estou só falando de forma poética. Pff. Imaginem se haveria algo além disso! Imaginem se, pra citar o também recente poema de Laura Erber (aqui), reconhecêssemos que em meio a tudo o que não fica, existe "um homem recebe apaga / de vez em quando / respira comigo".

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