Patricia Lockwood (1982 - ).



Patricia Lockwood é aquela do texto The Rape Joke. Se você é um pouquinho antenado com a poesia gringa lá fora, é possível que o nome da autora não te seja estranho, visto que a poesia de Lockwood já foi chamada de crowd-pleasing (aqui).

Ela nasceu em 27 de abril de 1982, Fort Wayne, Indiana, num trailer. Vida estranha. Seu pai era um Marinheiro servindo num submarino nuclear durante a Guerra Fria. Ele se converteu após assistir O Exorcista — quer dizer: assistir O Exorcista mais de 70 vezes em 88 dias. Era, de acordo com Lockwood, um pai amoroso e um patriarca idiossincrático, ao passo que sua mãe, católica do começo ao fim, era mais centrada. Ela se casou aos 21 com alguém que conhecera na internet: Kendall. Chegou a terminar, nessa época, uma novela chamada The Opposable Thumbs, que não minguou. Quando Lockwood tinha 25 anos, Kendall descobriu que tinha algo de errado em sua visão e precisou fazer uma cirurgia. Mesmo com o plano de saúde, ainda tinham de arcar com 10 mil dólares. Lockwood pediu ajuda a seus seguidores no twitter — e conseguiram. Kendall fez ao todo cinco cirurgias, mas, embora estivesse até bem, ele e sua esposa de repente caíram na real: não tinham emprego. Foi mais ou menos durante essa época que ela intensificou sua participação no twitter (ela entrou em 2011 e, como vocês podem ver a partir da história da cirurgia de Kendall, ela é uma celebridade, sendo chamada de The Laureat Poet of Twitter, aqui) e publicou The Rape Joke. Em 2012 publicou seu primeiro livro pela editora independente Octopus Book, Balloon Pop Outlaw Back. Em 2014, pela grande editora Penguin Books, publicou Motherland Fatherland Homelandsexuals. E aqui estamos. Quem quiser ler com mais tardar sobre a vida de Lockwood, recomendo The Smutty-Metaphor Queen of Lawrence, Kansas, de Jesse Lichtenstein para o New York Times, aqui.

O primeiro livro de Lockwood possui uma capa estranha. Popeyes em corpos de carneiro. Nonsense? É possível. Surreal? Ainda mais possível. Num ano que contava entre seus lançamentos Eileen Myles (aqui), Michael Robbins (aqui) disse que Lockwood possuía "a savage intelligence" (aqui). O livro pode ser entendido se você se lembrar que Lockwood com frequência publica no twitter o que ela chama de "sexts", ou seja, odes a animais tarados e a seres históricos também tarados (conforme resume Sasha Frere-Jones ao incluir o primeiro livro de Lockwood entre os melhores de 2012, no The New Yorkeraqui). A ligação da poesia de Lockwood com a ferramenta do twitter me parece evidente — mas trata-se de uma discussão que adquiriu veios espinhosos graças à utilização, digamos assim, de má fé desta constatação.

A melhor resenha que você encontrará do primeiro livro de Lockwood foi feita por Josh Cook para o The Rumpusaqui. Basicamente, Cook nos mostra a importância do livro de Lockwood ("a bold, brilliant, intelligent, strange collection of poetry, one that transforms that impossibility from an adversary into a dance partner") num mundo em que a ciência deixa de lado o raio ordenador de bizarrices para ela própria se tornar bizarra — num mundo de cópias onde as cópias chegam a preceder o original etc.

Já o segundo livro de Lockwood teve uma recepção um pouco mais acalorada. A capa é também estranha. Mas o que causou rebuliço, e de certa maneira o que tem pra causar rebuliço não é a capa — são três resenhas do livro: Dwight Gamer para o The New York Timesaqui, Adam Plunkett para o The New Yorkeraqui, e Jonathan Farmer para o The Slateaqui. As resenhas de Plunkett e de Farmer são as mais controversas; Plunkett chega a sugerir que Lockwood se encaixa demais ao twitter, ou que ela não seria uma poeta tão prestigiada não fosse o twitter, e ambos demonstram um certo desgosto, um certo incômodo frente à poesia de Lockwood referindo-se ao fato de que, na posição de homens, é provável que não seja possível apreciá-la.

Existiram muitas contra-respostas. Será despiciendo listar todas. Katy Waldman, para o The Awl,  aqui, rebate a ideia de que somente mulheres poderiam resenhar o livro de Lockwood, visto que a ideia, da forma como foi formulada pelos resenhistas acima, dá a entender que estamos frente a algo idiossincrático, um código secreto contra discursos opressores ou que o valha. Não é bem assim. Outra boa resposta foi dada por Kat Stoeffel para o The Cutaqui. A correlação do novo livro de Lockwood como crítica à indústria pornográfica, e de certa maneira à forma como lidamos com a sexualidade, foi muito bem pontuada no Navigatoraqui. Kathleen Rooney, para o Coldfront,  aqui, também lança uma boa análise do livro: "In other words, she puts her readers in a state, and subsequently asks what state they belong in. Who belongs in America? Who belongs in love?" Por fim, Mary Ortberg no The Toast, aqui, listou como os resenhistas do parágrafo anterior se valeram de seis dos onze instrumentos utilizados para suprimir a escrita feminina.

§

Vou colocar aqui meus vinte centavos em dois míseros parágrafos. É sobre os títulos, uma questão que para os gringos, pós-DFW, está melhor resolvida.

Pra quem jura de pé junto que um título enorme é sinônimo de falta de criatividade, a autora está aí para provar o contrário. Infelizmente não tenho nenhum livro seu em mãos, mas, do que pude ler disponível na internet, trata-se de uma poesia que me lembra muito a de Marilia Garcia (em especial 20 poemas para seu walkman) e, por conseguinte, Ana Cristina César — é dizer, a busca por uma fuga da emoção?, você pode se perguntar ao ler os poemas que traduzo, visto que todos parecem fugir do simplesmente dizer "eu não te esqueci", "eu não me esqueci disso, daquilo" — é, quem sabe seja por aí mesmo, mas veja bem — veja bem e observe como é mais correto dizer que Lockwood possui uma poética de circunlóquios mais do que uma poética de monólogos, pois o circunlóquio é para ela o único caminho possível. Esse: o mais longo. Pois é assim que temos mais chance de que você, que lê, também participe (e aqui, provavelmente, há uma forte reminiscência do Personism de O'Hara). Aquilo dos 3/4 do poema suspenso é um luxo mallarmaico.

Não exatamente, sendo assim e conforme me corrigi, o caminho de que se receie a expressão direta do que se sente, mas antes, entendendo que essa circunavegação por fatos aparentemente desnecessários é importante para que consigamos validar as inutilidades que nos rodeiam — por conseguinte, que a tarefa do afeto seja certo modo mais realista — o que parece uma constatação um tanto quanto estranha para uma poesia que foi apontada como surreal, mas que, dentro dessa lógica que aponto dos circunlóquios, pode se respaldar.

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Mas pode-se enxergar muito Angélica Freitas na poesia de Lockwood, em especial graças ao trato satírico do discurso dominante, já apontada por outras leituras inclusive como próximo de instrumentos dadaístas (Victor da Rosa para a Revista Pessoa, aqui).

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A poesia de Lockwood está inserida num contexto de confessionalismo ralo. Muito parecido com as sacadas leminskianas pobres com que a poesia brasileira tem sido representada em páginas da internet que fazem o poema se acompanhar de um desenho ou que o valha — poesia próxima da frase de efeito, da epifania, do estalo, da afetuosidade efêmera. Lá fora, você pode ver isso de maneira especial graças a sites como o Button Poetryaqui. Como no Brasil nós não tivemos, com grande força, uma poesia confessional no sentido que tal poesia ganhou lá fora, mas tivemos antes uma poesia marginal que ressuscitou o poema-piada de 22, pode-se entender o refluxo que hoje sentimos — e que fique bem claro que não o condeno por si só; condeno a utilização pobre dele, o que também nem chega a ser novidade pois todo período literário precisa de seu maremoto de párias.

O Button Poetry tem uma estrutura próxima do diário, da prosa, da história de vida — só que besuntada de momentos poéticos. Mais uma vez, à afetuosidade fácil e efêmera, embora os poemas possuam tamanho considerável. Tamanho considerável. Repito: tamanho considerável. Tamanho considerável... na internet, terra do tl;dr?

Não só na internet, pois muitos eventos advêm de SLAMs ou saraus, sendo depois só gravados, e pois muitos consumidores desse tipo de poesia são universitários e, por fim, pois alguns deles se tornam vídeos bem produzidos (meio que vídeos de sabão em pó, mas sem sabão em pó). Claro que com suas exceções, como o poema de Rachel Wiley que traduzi no bloguinho, aqui, e que a meu ver se destaca pois consegue momentos interessantes e fora dos relatos de história estereotipados e esperados — acredite, até mesmo a desconstrução pode ser típica, o que seria algo como denunciar a pobreza incluindo crianças que comem lixo (isso depois de Bandeira dificilmente chega a algum lugar — e Calixto, por exemplo, chegou) ou denunciar padrões de beleza e ficar no tom auto-afirmatório o poema todo, como se o eu lírico estivesse com uma bota em cima de apresentadores de concursos de beleza.

Em Lockwood, não temos bem isso. As situações que a autora cria são no geral absurdas, surreais, eu disse, mas, em torno a esse surrealismo aparente, existe uma desconstrução de estruturas discursivas opressoras. Uma desconstrução efetiva. E de fato — Lockwood é uma mestra no armar situações, e sua habilidade em armá-las é a meu ver sua grande habilidade. Pois veja como, ao armar a situação de mulheres que entram na guerra vestidas de homem, Lockwood consegue desarmar no mínimo, e de maneira esplêndida, pilares e mais pilares: o da guerra, o da fragilidade feminina, o da própria condição feminina, o da questão trans*... Outro exemplo está no primeiro poema que traduzo: observe como, pra falar do tema da memória, Lockwood crie um ambiente de exploração coroado de cientificismo e testes escolares, como que dizendo que, em meio a tantas certezas e tantas tecnologias, a memória é bem o que Proust disse: inesperada. Joia. Matéria-prima.

§

Os poemas que traduzi incluem famosos, como The Rape Joke (aqui), aquele que é a meu ver o ponto alto de Lockwood e quem sabe da poesia norteamericana contemporânea, List of Cross-Dressing Soldiers (aqui; ouça aqui), um poema que demonstra o estilo em circunlóquios da autora, Children with Lamps Pouring out of Their Foreheads (aqui), e um de crítica mais direta, Government Spending (aqui). Foram inclusos na ordem cronológica.

Destaco o título de List of Cross-Dressing Soldiers. É importante não confundir os termos. O cross-dresser, ou a cross-dresser, não é o travesti ou a travesti. Pra citar Elizabeth Bishop do poema Exchanging Hats, "Costume and custom are complex", ou "Traje e trejeitos são complexos." A wikipedia norteamericana diz que Lockwood é uma das poetas que mais trabalham o tema do trans-gênero (trans*). Confesso ao leitor que o que não tenho nenhum livro de Lockwood em mãos, embora tenha lido praticamente tudo o que tem da autora na internet — o que não é pouco. É uma maneira interessante de encarar a poesia de Lockwood, pois, de resto, a questão do gênero não costuma ser muito abordada na poesia — de maneira geral, quase que inexiste no terreno literário, o que não deve ser visto com espanto se nos lembrarmos que a literatura está longe de ser aquele xangrilá utópico que muitos gostam de apregoar, sendo, na verdade, um troço um tanto quanto conservador. Assim, além do poema de Bishop, do quê nos lembraremos ao tratar do assunto? Do Orlando de Virginia Woolf? Das personagens shakespearianas (Pórcia, Rosalinda), e, certa forma, do teatro elisabetano de maneira geral (onde inexistiam atrizes, mas sim adolescentes homens que faziam os papéis femininos)? Se a questão do trans* é necessariamente uma questão complexa, e não esse binarismo ou reducionismo com que mesmo pessoas no geral esclarecidas caem, isto é, não se pode reduzir o trans* a causas e consequências simplistas, como a de que todo trans-homem é homossexual — se é assim, podemos entender as razões da poesia de Lockwood a priori parecer complexa, ou confusa, quem sabe até mesmo insossa — afinal de contas, se ela é uma poesia que está voltada, entre outros, à demolição de um senso comum poético opressor (vide o caso do citado Revealing Nature Photographs), então me parece natural que o leitor se sinta um pouco perdido ao ler seus poemas. Não são poemas que servem apenas para si próprios. Via de regra, os poemas de Lockwood estão sempre falando de muitos outros — especialmente os muitos outros que deixamos um dia de escrever, especialmente os muitos outros que, quem sabe, teremos coragem de um dia escrever.

§

P.S. (03/01/16): Sobre Lost of Cross-Dressing Soldiers, ler também esta matéria.


CRIANÇAS COM LÂMPADAS À BEÇA CAINDO A TESTA.

Descer a este tal fato. Aqui estamos
pois bombamos no primeiros-socorros,
quisemos escrever “fratura” mas
saiu “fartura”, o que até fez sentido
na época, vimos vidraças chutando
sua moldura quando chutaram a pedra,
               e após a aula falamos pra tia,
               “Menino é menino, algum deles jogou
a pedra”, o braço, meio estranho na manga,
e ela, “Façam fila na porta, andando,
e que tipo de pedra era”, e agora
               somos sentenciados a não
explorar pedras nós mesmos, mas a cor,
os riscos do que as risca, usos para indústria,
para brocas e extrações musicais. Onde são
                     geralmente encontradas,
                     nós exploramos.
      Há um brilho nelas, como o passarinho
      sobre os dentes do hipopótamo. Como
      a nós não há canários, mas paira um
      sobrescrito, “-eiros”, “-avos”, “-écimos”,
      que torna nossos números aniversários,
      e estes, arremessados pra bem longe,
      testados se nesse “longe” viveremos,
      e é claro que sim, damos um jeito, quase
corcundas pelo vasto teto cristalino
que estaca o crescimento. Praticamos o explorar
quartos, pilares; talhamos palácios,
cada quarto talhado é um estudo e os tipos
      de colunas, os tipos de marfim
      das colunas, os métodos de polimento
pra deixar brilhando. Então, vamos para
a sala de minérios, um cartão com números
imutáveis, alto-relevo, como um livro-
-de-magia na banheira; e então pra sala
rubrificante, ou seja, “colorir cor-de-rubi”,
      mas algo está faltando; e então
pra sala de corte, onde estão os Fatos Cinza-Azuis-
                     -Pimpões, perto de aspas cintilantes,
      e quanto mais vamos, mais diamantes,
perto do suspiro. Anos e anos de suspiros
e o ar aqui faz mal pro pulmão: se estrelas-
-do-mar são pulmões, tarântulas então têm quatro
pulmões, como que dois bastam pra bater um papo?
Que dois bastam é um fato; tossimos e sentimos
dores agudas, sentimos nossas picaretas
      baterem, cavarem pepitas
      cor-de-rosa, as quais cuspimos.
      Não podemos faltar ao teste —
o teste é hoje, é amanhã. As fichas mostram
                     seus lados de uma só vez.
Agora quando uma fratura chuta a moldura,
sabemos qual a palavra, anotada e embalada em
pedra, dizendo que agora eu te pertenço,
      dizendo onde estás, fincando
      bem o pronome possessivo.
Dizendo que eu olho pra janela manhã-tarde-
-noite. O fato dos olhos estarem cercados
de estrabismo, que lemos de novo e de novo.
O osso que quebramos é o Rádio, e aponta.
E em torno dele, em linhas que brilham,
                     todos os minutos do dia.

§

GASTOS GOVERNAMENTAIS,

Gasto governamental: 01 Patricia em mim,
“um grande gasto”, lamentaram, “quando
podíamos gastar com outro Nixon”,

gasto governamental: toda beleza
do grande e leve salto do veado
na placa de trânsito — bem difícil
algo tão belo assim hoje na América,
e olhando pro lado, o governo
disse,
“Ah, não tem não? Imprimam”,

você nasceu, quase não se contém,
cresceu, dentro de ti, alguém gastou
bilhões em prisões mais luxuosas;
dentro de ti, alguém gastou bilhões
pra que as bibliotecas fechem mais tarde;
então, que bom, não é bom?,
oh deus, que bem-estar,
                     vem você pro bem-estar,

o governo gastou sua educação toda
comigo, pelo menos é o que parece agora,
queimo com dólares educacionais,
queimo com outros dólares também,
estou toda toda, toda cheia de Oh's,
tenho tantas vírgulas
                 que a frase não acaba,

os dólares em mim são mapa do Missouri
minha mãe não consegue dobrar de volta, oh não
pra tudo quanto é lado, mas sei o caminho, tá
quente, quente, queimo com os dólares
que põem a aragem na droga da drogaria,

todos os gastos do programa espacial tão em mim,
as estrelas parecem especialmente perto, afinal
são doação do governo, eles estão gastando
milhões em pesquisas lunares, quando eu for Presidente

corto as artes e deixo meu braço direito ladeira abaixo,
tô pronta, não deixei nada de trivial meu pra trás,
elimino centavos a cada segundo,

um dólar é descascado de outros mil,
é o dia, seu hortelã tá na minha boca,
então a abro, tudo refrescante.

§

A PIADA DE ESTUPRO.

A piada de estupro é que você tinha 19.

A piada de estupro é que ele era seu namorado.

A piada de estupro é que ele tinha um cavanhaque. Um cavanhaque.

Imagine a piada de estupro se olhando no espelho, que reflete perfeitamente, e se arrumando pra parecer mais com uma piada de estupro. "Ahhhh", pensa. "Sim. Um cavanhaque."

Sem ofensas.

A piada de estupro é que ele era sete anos mais velho. A piada de estupro é que você o conhecia há anos, desde que você era jovem demais pra se interessar por ele. Você gostava da forma da palavra interesse, como se você fosse um pedaço de saber que alguém pudesse estar desesperado em adquirir, em assimilar, e cuspir de um jeito diferente por sua boca cavanhacada.

Então você era subitamente mais velha, mas não tão velha assim.

A piada de estupro é que vocês tomavam vinhos caseiros. Vinhos caseiros! Quem toma vinhos caseiros? Pessoas que querem ser estupradas, de acordo com a piada de estupro.

A piada de estupro é que ele era um segurança, e protegia as pessoas.

Não você!

A piada de estupro é que ele carregava uma faca, e iria mostrá-la pra você, e iria mexer com ela como se fosse um livro.

Ele não estava te ameaçando, você entendeu. Ele só gostava da sua faca.

A piada de estupro é que uma vez ele quase matou um cara jogando nele uma janela de vidro laminado. No outro dia ele te disse e ele estava tremendo, o que era uma evidência de sua sensibilidade.

Como pode um pedaço de saber ser estúpido? Mas é claro que você era tão estúpida.

A piada de estupro é que às vezes ele diria pra você que você estava indo a um encontro e então ele te levava pra casa do seu melhor amigo Fimose [Pewee] e te fazia ver luta livre até que todos estivessem bêbados.

A piada de estupro é que seu melhor amigo se chama Fimose.

OK, a piada de estupro é que ele reverenciava o The Rock.

Como o cara que estava totalmente apaixonado pelo The Rock. Ele pensou que era tão legal o que ele podia fazer com as sobrancelhas.

A piada de estupro é que ele chamava luta livre de "novela mexicana [soap opera] para homens." Homens adoram dramas também, ele te assegurou.

A piada de estupro é que a estante de livros dele era só um monte de brochuras sobre assassinos em série. Você se enganou quanto a isso graças a um interesse na história, e trabalhando em cima deste engano você deu pra ele uma cópia de Meu Século, de Günter Grass, o qual ele nunca tentou ler.

Vai ficando mais engraçado.

A piada de estupro é que ele tinha um diário. Penso se ele escrevia sobre estupro.

A piada de estupro é que você uma vez o leu, e ele falava sobre outra garota. Ele a chamava Miss Geografia, e disse "ele já não tinha esses impulsos quando olhava pra ela", não desde que te encontrou. Por um triz, Miss Geografia!

A piada de estupro é que ele era estudante universitário de seu pai  seu pai ensinava Religiões do Mundo. Você o ajudou a limpar a sala de aula no fim do ano, e ele te deixou levar pra casa os livros didáticos mais surrados.

A piada de estupro é que ele conhecia você quando você tinha 12 anos. Ele uma vez ajudou sua família com duas emergências, e você foi de Cincinnati a St. Louis com ele, por si próprios, e ele foi gentil com você, e você falou o dia todo. Ele mascava algo o tempo todo, e você disse que ele era nojento e ele riu, e escarrou o suco pelo cavanhaque numa garrafa Mountain Dew.

A piada de estupro é que, vamos lá, você devia ter visto o que vinha por aí. A piada de estupro está praticamente escrevendo a si mesma.

A piada de estupro é que você tava de cabeça baixa. A piada de estupro é que você vestia um colar verde bonitinho e que sua irmã fez pra você. Depois você vai cortar o colar. O colchão era de um certo jeito, e sua boca se sentiu de um certo jeito de encontro a esse colchão, mas você sabia que não. Como se sua boca estivesse dez anos no futuro, recitando um poema chamado A Piada de Estupro.

A piada de estupro é que o tempo é diferente, fica mais horrível e mais habitável, e acomoda suas necessidades pra ir fundo.

Assim como o corpo, que, além de forma concreta, é capacidade.

Você sabe que o corpo do tempo é elástico, pode abranger quase tudo o que você conseguiu, e cura rápido.

A piada de estupro é que, claro, não havia sangue, o que na natureza humana é próximo da superfície.

A piada de estupro é que você foi pra casa como se nada houvesse acontecido, e riu sobre isso no outro e no outro dia, e quando você disse aos outros eles riram, e essa era a piada de estupro.

Foi antes de você contar pros seus parentes, pois ele era como um filho. A piada de estupro é que quando você contou pro seu pai, ele fez o sinal da cruz sobre e você e disse, "Eu te absolvo de seus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", o que, mesmo com todo seu engano, foi afetuoso.

A piada de estupro é que você estava doida pelos próximos cinco anos, e tinha que mover cidades, tinha que mover estados, e dias inteiros naufragaram ao tentar entender a razão de ter acontecido. Como quando você olha pro jardim e de repente não está lá, e você estava olhando pra baixo, pro centro da terra, que perpetuamente desempenhava o mesmo evento vermelho.

A piada de estupro é que após um tempo você não está mais doida, mas por um triz, Miss Geografia.

A piada de estupro é que pelos próximos cinco anos tudo que você fez foi escrever, e nunca sobre você mesma, mas sobre qualquer coisa, sobre maçãs nas árvores, sobre ilhas, poetas mortos e os vermes que os areavam, e não havia calor no seu corpo quando você escrevia, era em outro lugar.

A piada de estupro é no final inartística. A piada de estupro é que você não escreve inartisticamente.

A piada de estupro é que se você escrever um poema chamado Piada de Estupro, você está pedindo pra que ele seja a única coisa que se lembrarão sobre você.

A piada de estupro é que você se perguntou porque ele fez isso. A piada de estupro é que ele disse que não sabia, pois afinal o que mais uma piada de estupro diria? A piada de estupro disse que VOCÊ era a bêbada ali, e a piada de estupro disse que você não se lembrava direito, o que fez você rir alto por um longo e súbito segundo. Os vinhos caseiros não eram Bartles & James, mas a piada de estupro seria mais engraçada se fossem. Era um sabor de boceta, como Manga Apaixonada ou Morango Destruído, que você bebeu sem questionar e crendo de coração em Cincinnati Ohio.

Podem piadas de estupro serem engraçadas, eis a questão.

Pode qualquer parte da piada de estupro ser engraçada. A parte em que ela termina  haha, só zoando! Embora você sonhe por anos em matar a piada de estupro, esguichando seu sangue, e contando-a assim.

A piada de estupro grita pela noite em que será contada.

A piada de estupro é que foi assim mesmo que aconteceu.

A piada de estupro é que no novo dia ele te deu o Pet Sounds. Não, sério. Pet Sounds. Ele disse que se sentia mal e então te deu Pet Sounds. Vamos lá, até que foi engraçado.

Admita.

§

LISTA DE SOLDADOS CROSS-DRESSERS.

Primeiro foi Helena de Esparta, que o fez
só com óleo, ninguém sabe como; depois
Maggie da Inglaterra, que mesmo em guerra
descompunha os homens; e então Rose
do Sul, que permaneceu nas roupas
do pai e saiu de casa por conta própria.

Mulheres disfarçadas sempre estiveram
entre eles. Mal vestiam azul, ou queriam
vestir vermelho, queriam se mesclar
    na selva ou no solo. Juntas com homens
elas eram expulsas de seus pronomes.
Seu rosto também era, logo depois
livre do corpo. "Nunca tive bonecas,
só soldados. Brincava de soldado
desde que nasci. Engrossei a voz
tipo trovão, vesti bandagens onde
não precisava, fui descoberta então
    pelo doutor, no fim fui descoberta."

Alguém pensava bem sobre como fazer
meu irmão se mesclar à areia. Ele vinha
e apinhava a si mesmo como uma duna,
tinha duas vezes meu tamanho, seu vulto
luzia mais que o de sua família, e sozinho,
e atacava, e acometia, e parecia ser como
o próximo, e era ouro e calor e era
                                            alhures.

Meu irmão me dava a mão e me dizia,
"Não deviam estar aqui. Mulheres não
deviam estar aqui." Dizia, "Vi gente
queimando viva. Na minha frente."
Semana depois seu amigo ruivo se matou.
E mesmo o nome era masculino: Andrew.

Um amigo lhe escreve, "Meu vestido azul:
todo manchas de sangue." É um verso bonito,
não consigo parar de ouvir. "Beijos", escrevia
aos amigos. O amigo: "Abraços." Maricas,
maricas. Escreviam uns aos outros, "Saudades,
irmão." Maricas, maricas. Passavam horas
na guerrinha de cócegas. Cresciam o bigode
juntos. Caíam de amores com os cães locais,
                        maricas, maricas.

Mandei meu irmão pro deserto pois estava
ocupado escrevendo poemas. Decidindo
vírgula por vírgula, ou quando parar
ou seguir. Este seria um poema sobre
a liberação do corpo. Este seria um poema
sobre outra pessoa, quem sabe sobre mim.

Meu irmão está vivo graças à capacidade
de minha família de crescer cabelos na nuca.
Na noite em que a bomba explodiu na estrada,
as três irmãs sonharam com ele. Ali, eu senti,
a capacidade familiar. Meu irmão está vivo
pois a família escuta às vezes vozezinhas.

Escrevia o poema antes do menino morrer.
Não parecia certo falar, então, que aquele fogo
dizia algo diferente pra diferentes corpos. Ia
pôr no fim algo sobre a grama. Mas morreram
num deserto, e eu tava no deserto quando
pensei neles, e nenhum final novo me surgiu
Ia escrever,
             "A colina em que morreram
                         era uma dama
             em belo traje de guerra,
                         isto é, a grama."
                      Sei da cabeça de meu irmãozinho.
O escalpo é quase verde, onde o cabelo é curto. Sei
a cabeça de meu irmãozinho, e é nela que o fim
sobrevive, o que enviou o poema pra casa, e fez
a grama ficar na nuca, e serve tão bem que ninguém
    respira  as últimas palavras vivem
na cabeça da família, e assim vivam mais um pouco.




§

CHILDREN WITH LAMPS POURING OUT OF THEIR FOREHEADS.

Descend into the fact mine. We are here because
we failed fifth grade, we could not pass the bone unit,
we tried to pry up “greenstick fracture” and pried
“greenhouse fracture” up instead, it seemed logical
at the time, we saw panes of glass bursting out
of their frames because someone threw a stone,
               and after class we told the teacher, “Children
               were being children, and one of them threw
a stone,” and our arms hung strangely in our sleeves,
and she said, “Line up at the door, and lob yourselves
into the earth, and find what kind of stone it was,”
                              and now we are sentenced to mine-
not the stones themselves, but the color of their streaks,
what scratches them and what they scratch, industrial uses,
drillbit uses, music-extracting uses. We are mining where
      they are typically found.
      There is a gleam on each of them, like the small
      yellow bird on the clean of a hippo tooth. As for us
      we have no canaries, but a superscript hovers near
      each head, th or nd or nth or st, they make our mere
      numbers into Birthdates, our birthdates dart down
      ahead of us and test whether we can live there,
      and of course we can, and we make our way, bent
almost in half by huge ceiling crystals of what stunts human
growth. We practice room and pillar mining; we cut palaces
out exactly, each room we cut out is a study and the kinds
      of columns hold them up, and the kinds of marble
      make the columns, and the methods of polishing
make them shine. Then we move into the ore rooms,
one painted scratchoff silver with immutable numbers
underneath, one wavy with banded iron, like a spelling
workbook dropped in the bath; then into the rubify
room, where it means “make ruby red,” but a dash
      is missing somewhere; then into the brilliant
cut room, where Fancy Deep Grayish Blue Facts are held out,
                              surrounded by glinting quote marks,
      and the deeper we go the more we are the diamonds,
surrounded by sharp intakes of breath. Long years of breathing
the air down here have given us lung complaints: if sea stars are
all lung and tarantulas have four lungs, how can two be enough
for a Walking-Talking? Yet two is enough and two is a fact;
we cough and feel stabbing pains, we feel our own pickaxes
      strike down inside us and pry up our chunks of pink
      quartz, and we spit. We cannot be absent for the test-
the test is today, and the test is tomorrow. Flashcards
                              show all of their sides at once. Now when
a fracture jumps out of our frame, we know the right
word for it-a note is wrapped around the stone,
it says you belong to me now, it says stay where
      you are, stay deep in the possessive pronoun.
It says I watch through your window, morning to noon
to night. The fact of our eyes is surrounded with squint,
we read the note over and over. The bone that we break
is the Radius, and points. And around it, arrayed in shine lines,
                              all the minutes of the day.

§

GOVERNMENT SPENDING.

The government spent a Patricia on me,
“a huge waste,” it lamented, “when we could
have been spending it on another Nixon,”

the government spent all its beauty
on the great light leap on the deer-
crossing sign — there was hardly any
beauty left for anything else in America,
and looking around them the government
said,
           “Is there none left? Print more,”

you are born, you barely contain yourself,
you grow, inside you, someone spends
a billion to make prison more luxurious;
inside you, someone spends a billion
to keep libraries open one hour later;
then oh god, you feel wonderful,
                         you must be on welfare,

the government spent its whole education
on me, at least that is how it feels right now,
I am bursting with educational dollars,
I am bursting with other dollars as well,
I’m rounded up, I’m one long row of ohs,
I get so many commas
                     that the sentence doesn’t stop,

the dollars in me are a map of  Missouri
my mother can’t fold back up, oh no the map
is everywhere, but I know the way, I am hot
on a trail, I am bursting with the dollars
that put that knowing breath in drug dogs,

all the spending of  the space program is in me,
the stars seem especially close, this is because
they are a government handout, they are spending
millions on moonlight research, when I am President

I will cut the arts and let my right arm flow downhill,
I am ready, there is nothing trivial about me left,
I am eliminating the penny every second,

a dollar is peeled off a roll of  thousands,
it is the day, the mint of  it is in my mouth,
I open it, completely fresh.

§

THE RAPE JOKE.

The rape joke is that you were 19 years old.

The rape joke is that he was your boyfriend.

The rape joke it wore a goatee. A goatee.

Imagine the rape joke looking in the mirror, perfectly reflecting back itself, and grooming itself to look more like a rape joke. “Ahhhh,” it thinks. “Yes. A goatee.”

No offense.

The rape joke is that he was seven years older. The rape joke is that you had known him for years, since you were too young to be interesting to him. You liked that use of the word interesting, as if you were a piece of knowledge that someone could be desperate to acquire, to assimilate, and to spit back out in different form through his goateed mouth.

Then suddenly you were older, but not very old at all.

The rape joke is that you had been drinking wine coolers. Wine coolers! Who drinks wine coolers? People who get raped, according to the rape joke.

The rape joke is he was a bouncer, and kept people out for a living.

Not you!

The rape joke is that he carried a knife, and would show it to you, and would turn it over and over in his hands as if it were a book.

He wasn’t threatening you, you understood. He just really liked his knife.

The rape joke is he once almost murdered a dude by throwing him through a plate-glass window. The next day he told you and he was trembling, which you took as evidence of his sensitivity.

How can a piece of knowledge be stupid? But of course you were so stupid.

The rape joke is that sometimes he would tell you you were going on a date and then take you over to his best friend Peewee’s house and make you watch wrestling while they all got high.

The rape joke is that his best friend was named Peewee.

OK, the rape joke is that he worshiped The Rock.

Like the dude was completely in love with The Rock. He thought it was so great what he could do with his eyebrow.

The rape joke is he called wrestling “a soap opera for men.” Men love drama too, he assured you.

The rape joke is that his bookshelf was just a row of paperbacks about serial killers. You mistook this for an interest in history, and laboring under this misapprehension you once gave him a copy of Günter Grass’s My Century, which he never even tried to read.

It gets funnier.

The rape joke is that he kept a diary. I wonder if he wrote about the rape in it.

The rape joke is that you read it once, and he talked about another girl. He called her Miss Geography, and said “he didn’t have those urges when he looked at her anymore,” not since he met you. Close call, Miss Geography!

The rape joke is that he was your father’s high-school student—your father taught World Religion. You helped him clean out his classroom at the end of the year, and he let you take home the most beat-up textbooks.

The rape joke is that he knew you when you were 12 years old. He once helped your family move two states over, and you drove from Cincinnati to St. Louis with him, all by yourselves, and he was kind to you, and you talked the whole way. He had chaw in his mouth the entire time, and you told him he was disgusting and he laughed, and spat the juice through his goatee into a Mountain Dew bottle.

The rape joke is that come on, you should have seen it coming. This rape joke is practically writing itself.

The rape joke is that you were facedown. The rape joke is you were wearing a pretty green necklace that your sister had made for you. Later you cut that necklace up. The mattress felt a specific way, and your mouth felt a specific way open against it, as if you were speaking, but you know you were not. As if your mouth were open ten years into the future, reciting a poem called Rape Joke.

The rape joke is that time is different, becomes more horrible and more habitable, and accommodates your need to go deeper into it.

Just like the body, which more than a concrete form is a capacity.

You know the body of time is elastic, can take almost anything you give it, and heals quickly.

The rape joke is that of course there was blood, which in human beings is so close to the surface.

The rape joke is you went home like nothing happened, and laughed about it the next day and the day after that, and when you told people you laughed, and that was the rape joke.

It was a year before you told your parents, because he was like a son to them. The rape joke is that when you told your father, he made the sign of the cross over you and said, “I absolve you of your sins, in the name of the Father, and of the Son, and of the Holy Spirit,” which even in its total wrongheadedness, was so completely sweet.

The rape joke is that you were crazy for the next five years, and had to move cities, and had to move states, and whole days went down into the sinkhole of thinking about why it happened. Like you went to look at your backyard and suddenly it wasn’t there, and you were looking down into the center of the earth, which played the same red event perpetually.

The rape joke is that after a while you weren’t crazy anymore, but close call, Miss Geography.

The rape joke is that for the next five years all you did was write, and never about yourself, about anything else, about apples on the tree, about islands, dead poets and the worms that aerated them, and there was no warm body in what you wrote, it was elsewhere.

The rape joke is that this is finally artless. The rape joke is that you do not write artlessly.

The rape joke is if you write a poem called Rape Joke, you’re asking for it to become the only thing people remember about you.

The rape joke is that you asked why he did it. The rape joke is he said he didn’t know, like what else would a rape joke say? The rape joke said YOU were the one who was drunk, and the rape joke said you remembered it wrong, which made you laugh out loud for one long split-open second. The wine coolers weren’t Bartles & Jaymes, but it would be funnier for the rape joke if they were. It was some pussy flavor, like Passionate Mango or Destroyed Strawberry, which you drank down without question and trustingly in the heart of Cincinnati Ohio.

Can rape jokes be funny at all, is the question.

Can any part of the rape joke be funny. The part where it ends—haha, just kidding! Though you did dream of killing the rape joke for years, spilling all of its blood out, and telling it that way.

The rape joke cries out for the right to be told.

The rape joke is that this is just how it happened.

The rape joke is that the next day he gave you Pet Sounds. No really. Pet Sounds. He said he was sorry and then he gave you Pet Sounds. Come on, that’s a little bit funny.

Admit it.

§

LIST O CROSS-DRESSING SOLDIERS.

First there was Helen of Sparta, who did it only 
with oil, no one knows how; then there was 
Maggie of England, who even on the battlefield 
put men back together; and then there was Rose 
of the deepest South, who stood up in her father's 
clothes and walked out of the house and herself.

Disguised women were always among them. 
They badly wanted to wear blue, they badly 
wanted to wear red, they wanted to blend 
     with the woods or ground. Together 
with men they were blown from their pronouns. 
Their faces too were shot off which were then 
free of their bodies. "I never had any dolls I only 
had soldiers. I played soldier from the minute 
I was born. Dropped my voice down almost 
into the earth, wore bandages where I didn't 
need them, was finally discovered by the doctor, 
           was finally discovered at the end."

Someone thought long and hard how to best 
make my brother blend into the sand. He came 
back and he was heaped up himself like a dune, 
he was twice the size of me, his sight glittered 
deeper in the family head, he hid among himself, 
and slid, and stormed, and looked the same 
as the next one, and was hot and gold and some-
                                       where else.

My brother reached out his hand to me and said, 
"They should not be over there. Women should not 
be over there." He said, "I watched people burn 
to death. They burned to death in front of me." 
A week later his red-haired friend killed himself. 
And even his name was a boy's name: Andrew.

A friend writes to him, "My dress blues are being 
altered for a bloodstripe." That's a beautiful line, 
I can't help hearing. "Kisses," he writes to a friend. 
His friend he writes back, "Cuddles." Bunch of girls, 
bunch of girls. They write each other, "Miss you, 
brother." Bunch of girls, bunch of girls. They passed 
the hours with ticklefights. They grew their mustaches 
together. They lost their hearts to local dogs, 
                         what a bunch of girls.

I sent my brother nothing in the desert because 
I was busy writing poems. Deciding one by one 
where the breath commas went, or else it would 
not stand and walk. This was going to be a poem 
about release from the body. This was going 
to be a poem about someone else, maybe even me.

My brother is alive because of a family capacity 
for little hairs rising on the back of the neck. 
The night the roadside bomb blew up, all three 
sisters dreamed of him. There, I just felt it, 
the family capacity. My brother is alive because 
the family head sometimes hears a little voice.

I had been writing the poem before the boy died. 
It then did not seem right to mention that burn means 
different things in different bodies. I was going 
to end the poem with a line about the grass. But 
they were in the desert, and I was in the desert when 
I thought about them, and no new ending appeared 
to me. I was going to write, "The hill that they died on 
was often a woman, wearing the greatest uniform of war, 
which is grass." I know my little brother's head. The scalp 
is almost green, where the hair is shortest. I know 
my little brother's head, and that is where the ending 
lives, the one that sends the poem home, and makes grass 
stand up on the back of the neck, and fits so beautiful 
            no one can breathe—the last words live 
in the family head, and let them live in there a while.

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