Os cardumes de Marianne Moore.



Se Marianne Moore (1887-1972) no começo da vida era tida como poeta para poetas, no final da vida ela era uma celebridade: aparecia em público com um tricórnio e uma longa capa preta, em especial em zoológicos, e mostrava um pouco da sua rotina para as revistas (Life, New York Times, New Yorker, Atlantic); se professava, pra encurtar caminho, gente como a gente, sendo inclusive uma inveterada fã de beisebol: escreveu um poema para seu time preferido, afirmou que ligava três TVs ao mesmo tempo durante a temporada, mantinha uma bola assinada por Mickey Mantle na cabeceira da cama até o fim da vida, e, na abertura de temporada no Estádio Yankee, em 68, ela fez o arremesso inaugural. Uma popularidade mais ou menos como a do nosso Manuel Bandeira ― tanto que Bandeira chegou até a ter um filme seu, O Poeta do Castelo (1959), de Joaquim Pedro de Andrade.

Apesar de todo esse apelo popular, a poesia de Moore não é fácil. É extremamente peculiar ― num nível que poucos ao longo da história chegaram (gente como Emily Dickinson, Hopkins, Sousândrade, Augusto dos Anjos). O poema que vocês leem ao lado consegue demonstrar isso de maneira muito forte, embora seja importante notar que ele ainda assim não demonstra tudo: por exemplo, as famosas citações de Moore, que iam de obras literárias a trechos de jornal ou diários, não estão presentes.

Do que o poema trata?

É difícil dizer. A crítica já apontou muita coisa, embora, de maneira geral, ela trate a forma paradoxal com que Moore aborda seus assuntos, mostrando os dois lados de uma só moeda e mostrando como eles são irreconciliáveis: neste caso, vida e morte, manutenção e destruição, natural e artificial. Nessa sequência, mais ou menos. Que é um poema visual, isso desde Wallace Stevens e Hugh Kenner nós sabemos. Ou seja: olhe pro poema. A forma visual dele não parece o de uma onda que vai e vem? Pois então. O processo de composição de Moore consistia basicamente no que ela diz no final de O passado é o presente: "(...) O êxtase promove / a oportunidade e a conveniência define a forma." (na esplêndida tradução de José Antonio Arantes) Trocando em miúdos, como a própria autora diz, a primeira estrofe era um tipo de presente da inspiração; o que ela fazia era reduplicar a forma da primeira estrofe e, assim, sair do bem-bom e cair no trabalho pesado.

Existem duas citações que vão ajudar a aclarar algumas coisas em Moore. No poema A um caracol, ela diz: "(...) Contratilidade é uma virtude / como modéstia é uma virtude." E, no poema Quando compro quadros, explicando o que ela entende como uma boa pintura, diz que "deve ser 'iluminada por vislumbres penetrantes da vida das coisas'" (traduções também de Arantes). A primeira citação nos mostra que a tão afamada concisão de Moore, que João Cabral afirmou como sendo de um bisturi ou de um canivete, deve ser entendida não exatamente como ligada à frialdade, mas sim quanto, como ela mesma diz, à modéstia; e a segunda demonstra uma poesia preocupada em mostrar cenas que advêm de um olhar único e de uma forma de exposição também única. O cardume está numa água suja, escura, e nós vamos acompanhando o que é essa água suja e escura que é permeada de lampejos ― noutras palavras, vamos tateando às cegas sem perceber exatamente o que está acontecendo, sentindo o impacto e o mistério de uma conversão que numa hora parece imperceptível, noutra parece abrupta...

O poema foi escrito em 1918 e publicado pela primeira vez na coletânea Poems, em 1921, sem o conhecimento de Moore. Só depois ele foi ser publicado em Observations, 1924. A versão de 1921 possui métrica silábica (e não acentual-silábica, como é de praxe em inglês) 1-3-8-1-6-8 e rimas AABCCD. A versão de 1924 possui métrica também silábica 1-3-9-6-8 e rima AABBC. Existe um bom número de traduções do poema. Em ordem cronológica, temos uma de Domingos Carvalho da Silva no Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos (organização de Oswaldino Marques), uma de Augusto de Campos para o Correio Brasiliense em 05/06/60, depois inclusa no Teoria da Poesia Concreta, uma de Paulo Vizioli para a Folha de São Paulo em 16/10/87, uma de José Antonio Arantes inclusa na coletânea infelizmente esgotada Poemas (Cia das Letras, 1991), e uma de Adriano Scandolara para a revista Escamandro, em 05/10/12. Minha tradução seguiu o texto de 1921, assim como a de Augusto de Campos.

§

P.S. (03/09/16): Durante muito tempo, a solução inicial para minha tradução era:

        num
        pretume. Um
             dos mexilhões cor azul-corvo

Sempre achei horrorosa a maneira como eu solapava a referência à jade escura. wade é passar pela água de forma meio imersa, mas, também, passar por algo que oferece resistência ao movimento, ou, apenas, passar de forma laboriosa. Não sei se com "remar" eu consigo algo disso, mesmo porque a única razão de ter usado "remar" foi pra manter algum sentido aquático, rimar e remeter à ideia de alguma joia... Enfim.

P.S.(04/01/17): Adicionada a tradução de Judith Grossman, publicada no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil em 58. Adicionadas também as traduções de Leonardo Gandolfi e Yara Azevedo Cardoso, publicadas na Zúnai e referentes à edição de 21. A de Yara obedece a uma diagramação meio estranha, mas optei por manter do mesmo jeito que estava ali no site. Acho que foram publicadas em 2005. O site da Zúnai é meio ruim pra se achar a data... De todo modo, organizei a publicação em ordem cronológica, lembrando que a tradução de Domingos Carvalho da Silva é de 55, publicada no Suplemento do Correio Paulistano.


O PEIXE
trad. Domingos Carvalho da Silva. [1955]
em: Livro de Ouro (...), p. 158-161 e aqui.
Vaga
através de negro jade.
    Montes de cinza enegrecido
    caramujos conservam-se estendidos
        abrindo e fechando como

um
leque ferido.
    Mariscos que se incrustam
    no flanco das ondas, não se ocultam
        nelas, porque do sol as submersas

setas,
lascadas como fios
    de vidro, movem-se com a rapidez de um reflexo
    nas fendas,
        indo e vindo, iluminando

os
corpos na turquesa
    do mar. A água insere uma lança
    de ferro na orla de ferro
        do penhasco; após o que as estrelas

róseas,
grãos de arroz, medusas
    pintalgadas de tinta, caranguejos como verdes
    lírios, cogumelos
        submarinos, escorregam uns sobre os outros.

Todas
as externas
    marcas de violência estão presentes neste
    provocante edifício ―
        todos os sinais físicos

de a-
cidente ― falta
    de cornijas, fendas de dinamite, marcas de fogo,
    golpes de machado; estas coisas afloram
        nele; o flanco do abismo está

morto.
Repetida
    evidência demonstrou que ele pode viver
    do que não pode reviver
        sua juventude. Nele envelhece o mar.

§

trad. Judith Grossman. [1958]
em: aqui.


§

trad. Augusto de Campos. [1960]
em: aqui e aqui.

§

trad. Paulo Vizioli. [1987]
em: aqui;
boa discussão em seu ensaio sobre tradução de poesia, aqui.

§

OS PEIXES
trad. José Antonio Arantes. [1991]
em: aqui.
vade-
ando negro jade.
    Das conchas azul-corvo um marisco
    só ajeita os montes de cisco;
        no que vai se abrindo e fechando

é que
nem ferido leque.
    Os crustáceos que incrustam o flanco
    da onda ali não encontram canto,
        porque as setas submersas do

sol,
vidro em fibras sol-
    vidas, passam por dentro das gretas
    com farolete ligeireza —
        iluminando de vez em

vez
o oceano turquês
    de corpos. A correnteza crava
    na quina férrea da fraga
        uma cunha de ferro; e estrelas,

grãos
de arroz róseos, mães-
    d'água tintas, siris que nem lírios
    verdes e fungos submarinos
        vão deslizando uns sobre os outros.

As
marcas externas
    de mau-trato estão todas presentes
    neste edifício resistente —
        todo resquício material

de a-
cidente — ausência
    de cornija, machadadas, queima e
    sulcos de dinamite — teima em
        ressaltar; já não é o que era

cova.
Repetida prova
    demonstrou que ele pode viver
    do que não pode reviver
        seu viço. O mar nele envelhece.

§

OS PEIXES
trad. Leonardo Gandolfi. [2005]
em: aqui.
quase
pelo escuro jade.
  Uma concha azul-corvo, entre tantas, fica
  arrumando os montes de cinza;
      abre e a si mesma fecha

como
um leque autônomo.
  Crustáceos que se incrustam atrás
  da onda não conseguem fugir mais
      dos submersos raios do

sol,
trincados como lençol
  de vidro, holofotes ágeis se movendo
  dentro das fendas
      num ir-e-vir que ilumina o mar

de
corpos turquesa.
  Enquanto a água calça com a cunha
  de ferro o ferro no cume
      do rochedo - estrelas,

águas-
-vivas, rosados
  grãos-de-arroz, caranguejos
  verdes-cinza e cogumelos-
      -do-mar escorrem uns nos outros.

As
marcas
  de todas as lesões se deixam ver
  neste edifício adverso -
      todos os traços físicos do a-

ci-
dente - a cornija
  que falta, queimaduras, cortes,
  rombos de dinamite, coisas
      que resistem; morto o a-

bismo.
Repetidas
  evidências mostraram que ele vive
  apenas do que nele não revive
      a juventude. Nele o mar é velhice.

§

O PEIXE
trad. Yara Azevedo Cardoso. [2005]
em: aqui.
Vade -
ar em vãos de jade negro
    Corvo do mar remexe em conchas
        - uma fica
        a pairar na pilha de pó;
abre e fecha co-
mo ventila-
dor, engasgado.
    Cracas incrustadas na anca
    da onda, não encobrem
        sinais
        submersos do
sol,
piões de espuma reluzem
luar - pisca -
        - pisca frestas de
        sim a iluminar corpos
            azuis
                do mar. A
    água deságua cunhas de aço,
        atravessa gumes tensos,
- o aço de penh-
            asco - era uma vez, estrelas
róseos
grãos de arroz, lama
sal pica medusa, caranguejo
quer ser lírio - verde
        cogumelo - veneno marinho
        permeia trocas
Todas
marcas externas
            de abuso apresentam esse
edifício - desafio:
        todas
        pistas físicas de
aci-
dente - teto cai
        estrias - dinamite
        golpes de machado
provas de resistência:
            a face do vácuo
está morta.
Insistente
            vidência verbal - ele vive
            sobre o que não lhe pode
            reviver sua juventude. O
            mar envelhece nele.

§

O CARDUME DE PEIXES
trad. Adriano Scandolara. [2012]
em: aqui.
passa o
jade baço.
    Dentre os mexilhões de um azul-gralha,
    um ajusta a borralha;
        se abre e cerra, um leque que houvesse
     
sido,
pois, ferido.
    A craca encrusta os lados da onda,
    embora não a esconda
        lá, que o feixe imerso de dardos do

sol,
como o rol
    de vidro em fibra, veloz fulgura
    por cada rachadura -
        entrando e saindo, iluminando

o
mar azul-
    -turquesa de corpos. A água crava
    férrea cunha na trava
        férrea do penhasco; onde os astros,

rosas
grãos de arroz, as
    tintas águas-vivas, o siri
    qual verde lírio e
        cogumelos marinhos deslizam.

As
máculas
    de abusos estão presentes nisso,
    esse audaz edifício-
        toda característica física

de a-
-cidente há-
    a ausente cornija, as queimaduras,
    machadadas, ranhuras
        de bombas se destacam; morreu a

fossa,
que reforça
    todas as provas de que ele vive
    do ser que não revive
        seu viço. Envelhece o mar nisso.

§

OS PEIXES
trad. Maria Lourdes Guimarães. [1999]
em: aqui.
Avançam penosamente
através do negro jade.
    Das conchas de mexilhão, azul-corvo, uma contínua
    a ajustar os montes de cinza;
        abrindo-se e fechando-se como
 
um
leque danificado.
    As lapas, que se incrustam do lado
    da ondulação, não se podem ali
        esconder pois os raios de luz submersos do

sol,
divididos como fios
    de vidro, movem-se com a rapidez de projectores
    penetrando nas fendas –
        fora e dentro iluminando

o
mar turquesa
    desses corpos. A água impele um pedaço
    de ferro por entre a férrea aresta
        da falésia onde as estrelas,

grãos
de arroz rosados, a alforreca
    salpicada de tinta, caranguejos como lírios
    verdes, e cogumelos
        venosos submarinos, deslizam uns sobre os outros.

Todas
as marcas
    externas de violação estão patentes neste
    edifício desafiador –
        todos as características físicas do

de-
sastre –, ausência
    de cornija, rastos de dinamite, queimaduras e
    golpes de machado, eis o que sobressai
        nele; a vertente do abismo está

morta.
Repetida
    evidência que provou como consegue viver
    onde não pode a sua juventude
        renascer. Aí, o mar envelhece.

§

O CARDUME
trad. eu. [2014]
rema
em negra gema.
     Um mexilhão cor azul-corvo
        põe
    as cinzas em montões;
    ele abre e fecha, leque que-

-brado.
Incrustado
    nele, um grupo de cracas junto à
        onda
    não pode ser que esconda-
    -se ali; pois os raios solares

imersos,
cacos dispersos,
    correm como farol lançado
        na
    fenda ― que zona a zona
    ilumina o mar azul turquesa in-

-festo
de restos
    mortais. A água joga pe-
        -daços
    de aço sobre os espaços
    do monte, onde as estrelas róseas,

grãos
de arroz, são s-
    -emelhantes às águas-vivas,
        siris
    tais como verdes lírios
    e fungos do fundo do mar.

Cada
marca é dada
    como um abuso do presente
        sobre
    este edifício nobre ―
    cada marca física é um

in-
-cidente ― in-
    -suficiência de cornijas,
        bomba
    e machadada; tomba
    morto o lado do precipício.

Provas
de novo as-
    -sentiram que ele só vive
        do que
    não lhe revive a moci-
    -dade. O mar envelhece nisso.

§

THE FISH
versão de 1921. inaqui.
wade
through black jade.
    Of the crow-blue mussel-shells, one keeps
    adjusting the ash-heaps;
        opening and shutting itself like


an
injured fan.
    The barnacles which encrust the side
    of the wave, cannot hide
        there for the submerged shafts of the


sun,
split like spun
    glass, move themselves with spotlight swiftness
    into the crevices —
        in and out, illuminating


the
turquoise sea
    of bodies. The water drives a wedge
    of iron through the iron edge
        of the cliff; whereupon the stars,

pink
rice-grains, ink-
    bespattered jelly fish, crabs like green
    lilies, and submarine

        toadstools, slide each on the other.

All
external
    marks of abuse are present on this
    defiant edifice —
        all the physical features of


ac-
cident — lack
    of cornice, dynamite grooves, burns, and
    hatchet strokes, these things stand
        out on it; the chasm-side is


dead.
Repeated
    evidence has proved that it can live
    on what can not revive
        its youth. The sea grows old in it.


§

THE FISH
versão de 1918. inaqui.
WADE
through black jade.
    Of the crow blue mussel shells, one
        keeps
    the ash heaps;
    opening and shutting itself like

an
injured fan.
    The barnacles which encrust the
        side

    of the wave, cannot hide
    there; for the submerged shafts of the

sun,
split like spun
    glass, move themselves with spotlight swift-
        ness 

    into the crevices—
    in and out, illuminating

the
turquoise sea
    of bodies. The water drives a
        wedge 

    of iron into the edge
    of the cliff, whereupon the stars

pink
rice grains, ink
    bespattered jelly-fish, crabs like
        green 

    lilies and submarine
    toadstools, slide each on the other.

All
external
    marks of abuse are present on
        this 

    defiant edifice—
    all the physical features of

ac-
cident—lack
    of cornice, dynamite grooves, burns
        and

    hatchet strokes, these things stand
    out on it; the chasm side is

dead.
Repeated
    evidence has proved that it can
        live 

    on what can not revive
    its youth. The sea grows old in it.

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