O velho Wallace Stevens.


(Stevens com sua filha Holly. 1925. Créditos.)


O que havia pra ser dito de introdutório sobre Wallace Stevens, eu já disse. A relação entre imaginação e realidade é crucial para o autor, o que não implica dizer que temos um em detrimento do outro. Pelo contrário, pra citarmos mais alguns trechinhos, dessa vez do Materia Poetica (1940), XXI: "Em poesia, pelo menos, a imaginação não deve se afastar da realidade.", XXX: "Considere: a) Que o mundo inteiro é matéria de poesia; / b) Que não há nenhum material poético específico.", XXXVII: "Poesia é realidade e pensamento ou sentimento."

Observemos, de relance, o poema Like decorations in a nigger cemetery.

É um título polêmico. Sabemos que Stevens era um profissional de sucesso, a verdadeira antítese da imagem romântica do poeta. Claro que não é bem assim ― um poeta imaginativo e um ser humano frígido. Ao traduzir o famoso poema The man with the blue guitar para a Folha de São Paulo em 24 de junho de 84, Paulo Henriques Britto comenta com mais tardar essa disparidade: aqui.

Devo ressaltar, contudo, que os relatos que temos de Stevens demonstram um camarada racista e conservador. Citando John Richardson, Major Jackson (aqui; recomendo ler os comentários, por incrível que pareça) se lembra da história de quando Stevens, compondo a banca de julgamento do National Book Award que premiaria Marianne Moore, viu uma foto de Gwendolyn Brooks (aqui) e perguntou: "Quem é a negona?" ("Who's the coon?") Isso não chega a denegrir a poesia de Stevens; cito o caso pois ele será importante para que consigamos observar sobre o quê o poema que traduzo abaixo tem a nos dizer ― e para que não percamos de vista a realidade dos fatos. Afinal de contas, se Drummond era homofóbico, isso não o impediu de escrever um dos mais belos poemas de cunho homoerótico da língua. É perfeitamente possível que um poeta homofóbico ou racista escreva um bom poema ― o mesmo eu já não sei quanto a um poema homofóbico ou racista ou machista ser um bom poema.

Um excelente texto sobre é a tese de John R. Millett, "Like decorations in a nigger cemetery": the poetic and poetical adjustements of Wallace Stevens, de maio de 2004: aqui. O poema foi escrito em 1934, e, quando Stevens o enviou para a revista Poetry em dezembro daquele ano, fez acompanhar uma nota que dizia: "o título se refere ao que qualquer um usualmente encontra num cemitério de pretos e é uma frase usada pelo juiz Powell no inverno passado em Key West." (p. 1 da tese) O poema representa tanto uma guinada poética na obra de Stevens após o que a crítica chamou de "Second Silence", e portanto uma aproximação diferente para com técnicas das artes plásticas incorporadas no plano do poema e quem sabe até mesmo técnicas dadaístas (visto que Stevens se encontrara com Duchamp), quanto representa, de acordo com este curto guia encontrado na internet (infelizmente não sei de que livro), Stevens em seu clássico embate entre realidade e imaginação mediado, dessa vez, pelas decorações no cemitério, algo visto como irrisório. Na tese de Millett, o embate entre a realidade e a imaginação ganha algumas chispas a mais depois que observamos o poema dentro dos efeitos da Grande Depressão ― o que levou Stevens, para voltarmos a uma análise interna, a reconfigurar esse embate em termos distintos do que havia traçado em seu primeiro livro (Harmonium, 1923). Basta, a esse respeito, lembrar que é mais ou menos da mesma época a escrita de The man with blue guitar (1937), onde, segundo Millett, "'Like Decorations' é um esforço combinado da parte de Stevens em re-afinar sua poética, deixá-la de acordo com as exigências políticas, sociais e econômicas dos anos 30." (p. 40) Daí dizer que (p. 42):

O discurso racista estabelece uma correspondência assustadoramente concreta e direta entre imaginação e realidade. A raça é um assunto especialmente espinhoso em Stevens pois, com sua ambiguidade poética altamente cultuada, o grau e a profundidade de seu racismo é difícil de ser identificado em qualquer grau. Podem os estereótipos raciais que vemos na poesia e cartas de Stevens se embasar num ódio bem assentado, num hábito irreflexivo, numa insegurança, num primitivismo moderno, num perverso senso de humor? Qualquer uma dessas explicações é plausível.

A figura do Negro serve também como representante de um binarismo entre o estético e o sensual na poesia do autor. Basicamente isso quer dizer que, ao longo da obra de Stevens, as figuras de Negros assumirão uma gama maior de significados (p. 54). A figura do Negro, no primeiro livro de Stevens, é uma figura que tende para o lado sensual, mas, como nota Millett, é só no primeiro livro, pois, com efeito, nos próximos essa ligação não se sustentará (p. 50).

Creio que estas informações permitem ao leitor acompanhar o poema. As cinquenta estrofes podem ser lidas como sendo, cada qual, uma forma de interpretar aquelas decorações num cemitério humilde ― são uma forma de demonstrar como que a queda de nobreza da imaginação que Stevens abordará em ensaios de The Necessary Angel, e de como o ser humano encara esta queda.

Acerca das traduções, o de antes: manter as formalidade de Stevens, sempre se lembrando que, apesar da base de sua poesia após o primeiro livro ser o pentâmetro jâmbico, ele empregou variações de forma muito hábil. Tentei fazer o mesmo, com decassílabos, dodecassílabos e toda a plêiade de versos e tipos que Stevens venha a usar ao longo dos textos. Isso acabou me levando a cortar alguns trechos do poema, algo que não deve causar espanto quando falamos de tradução, em especial no caso do Like decorations on a nigger cemetery, ou, pra citarmos um exemplo mais concreto, o final da segunda estrofe da quarta parte de Peter Quincey at Clavier"So maidens die, to the auroral / Celebration of a maiden's choral." Noutros, confesso que não sei dizer se entendi o que Stevens quis dizer, como no caso do começo da terceira parte de Farewell to Florida"I hated the weathery yawl from which the pools / Disclosed the sea floor and the wilderness  / Of waving weeds. (...)" Todas incompetência minha, claro.

O clima de decadência e de virada, onde Stevens contempla uma realidade que de certo modo não parece mais ser capaz de suprir o hedonismo de sua visão de mundo, representado no poema Like decorations on a nigger cemetery (por exemplo estrofes como a X, IX ou a simples imagem outonal que percorre as estrofes), foi em minha seleção contraposto em especial ao poema Peter Quincey at the Clavier. Trata-se, provavelmente, do poema mais sensual de Stevens. Reconta a história bíblica e traz em cena a figura de um dos rudes artistas teatrais de Shakespeare em Sonho de uma noite de verão. Se usei a expressão "hedonismo", emprestada de Paulo Henriques Britto, ao caracterizar o que falta em Like decorations on a nigger cemetery, é porque esse hedonismo abunda no poema, seja pelo ritmo cuidado (com 3/4 das passagens rimadas), seja pela profusão de imagens e, certo modo, pela ausência das elucubrações que Stevens desenvolveria em poemas posteriores. O poema é acompanhado de Farewell to Florida, um dos meus preferidos e que pode funcionar como representativo do distanciamento para com o hedonismo do livro anterior (visto que Farewell to Florida abre a segunda coletânea de Stevens, Ideas of Order, 1935), e Mozart, 1935, aqui servindo também a título de contraste e de ilustração de como Stevens enxergava o poeta numa sociedade em crise.

O texto utilizado foi o Complete Poetry and Prose, Library of America, 1997.


PETER QUINCEY NO TECLADO.

I

Logo meus dedos façam música
Nestas teclas, o mesmo som
Em minh'alma também se faz.

Música é sentir, não ouvir,
Então; logo, ela é o que sinto
Neste quarto, te desejando,

Pensando a seda de teu vulto,
Música. Ela é como o acorde
De Susanna, que acorda os velhos;

O das manhãs verdes, pacatas,
Em que ela banhou no jardim,
Enquanto os velhos, vendo, tinham

As bases de seu ser pulsando
Acordes mágicos, seu sangue
Batendo pizzicati de Hosanna.

II

Na água quente, pacata,
Susanna se deitou.
Buscou
O toque das primaveras;
Achou
Fantasias secretas.
Suspirou
Por tal melodia.

No riacho, ela ficou
No álgido
Desgaste das emoções.
Ela sentiu, entre as folhas,
O orvalho
De velhas devoções.

Ela acordou sobre a grama,
Balbuciante.
O vento era como sua ama,
Hesitante,
Trazendo entrelaçados véus
Vacilantes.

Um suspiro em sua mão
Cala o luar.
Ao se virar ―
Trompas e címbalos
A reboar.

III

Num som tal como o dos pandeiros,
Os seus servos virão ligeiros.

Pensam, Mas por que ela chorou
Quando junto aos velhos ficou?;

E, eles cochichando, o refrão
Era a chuva sobre um chorão.

E então, assim que a chama exponha
A Susanna e a sua vergonha,

Os servos sairão, zombeteiros,
Num som tal como o dos pandeiros.

IV

A Beleza é momentânea na mente ―
É o intermitente traço num portal;
Mas na carne, porém, ela é imortal.

O corpo morre e a beleza fica.
Assim as manhãs morrem, verdejantes,
Ondas fluindo agora como antes.
Assim os jardins morrem; sua essência
Chega ao capuz do inverno em penitência.
Assim as amas morrem, rumo à aurora
De um coral que se alegra e comemora.

A música de Susanna nas notas obscenas
Destes velhos; fugindo, deixa apenas
Os rangidos irônicos da Morte.
Agora, em sua imortalidade, o acorde
É o do violoncelo de sua lembrança,
Cujo louvor sacro até hoje nos alcança.


ADEUS PARA FLÓRIDA.

I

Desde já navegai, navio, até a praia,
A cobra abandonou a pele sobre o solo.
Key West naufraga, abaixo das nuvens massivas
E pratas, verdes sobre o mar. A lua está
No topo do mastro e o passado já morreu.
A mente dela não conversará comigo
De novo. Estou livre. Acima do mastro a lua
Segue livre de sua mente e as ondas cantam
Isto: que a cobra abandonou a pele sobre
O solo. Navegai no escuro. As ondas voltam.

II

A mente dela me atou. Quentes as palmeiras
Como se o chão da vida fossem cinzas, como
Se as folhas com que o vento assegurou seu som
De meu Norte assoviasse um Sul sepulcral,
O Sul dela, com seus pinhos, corais e mares,
A casa dela, não a minha, em Keys pacata,
Os dias dela, as suas noites oceânicas
Que chamam a música e os sussurros dos recifes.
Quão contente serei no Norte aonde navego,
Pra me sentir seguro e esquecer a areia branca...

III

Odiei o iole cujos reservatórios
Guardam águas do fundo do mar e selvagens
Ondas instáveis. Odiei a floração
Ao redor da cabana nua, o osso e o óxido,
Árvores como ossos e folhas areia e sol.
Ficar aqui no deck, dizer adeus no escuro
E saber que essa terra se foi para sempre
E que ela não irá nos seguir nos olhares
Ou frases, nunca mais em pensamento, exceto
Que eu a amei um dia... Adeus. Navegai, navio.

IV

Meu Norte não tem folhas; é lodo hibernal
De homens e de nuvens e de multidões.
Os homens movem-se tal qual a água move-se,
Esta água enegrecida de pênseis saliências
Contra seus lados, empurrando e escorregando,
A escuridão exausta, em espuma inquieta.
Ser livre novamente, voltar à mente atroz
Que é a deles, estes homens, que irão me atar,
Me carregar, deck nevoento, para o frio,
Navio, navegai, navio, mergulhai.


MOZART, 1935.

Poeta, sente-se no piano.
Toque o presente, seu ei-ei-ei,
Seu xá-xá-xá, seu uh-uh-ah,
Seu chacoteamento.

Se jogarem do alto pedras em você
Quando você pratica arpeggios,
É porque carregam escada abaixo
Um corpo aos trapos.
Fique sentado no piano.

Este lúcido souvenir do passado,
Este divertimento;
Este aéreo sonho do futuro,
Este concerto a céu limpo...
A neve cai.
Toque o acorde lancinante.

Seja você a voz,
Não você. Seja você, você
A voz do medo agressivo,
A voz da dor sitiada.
Seja você o som glacial
Como o do vendo uivando,
De onde a tristeza é solta,
Despedida, absolvida
Num estrelado aplacar.

Devemos retornar a Mozart.
Ele era jovem, e nós, nós somos velhos.
A neve cai
E as ruas estão cheias de gritos.
Fique sentado, você.


COMO DECORAÇÕES NUM CEMITÉRIO DE PRETOS.
Para Arthur Powell.
I

No sol longínquo do Sul um outono passa
Como Walt Whitman anda na areia corada.
Entoa e canta as coisas que são parte dele,
Mundos que são, mundos que foram, morte e dia.
Nada é final, canta. Ninguém verá o fim.
Sua barba é de fogo e seu cajado, em chamas.

II

Suspire por mim, vento noturno, nas folhas do carvalho.
Estou cansado. Durma por mim, céu em cima da colina.
Grite por mim mais e mais alto, sol alegre, ao raiar.

III

Foi quando as plantas 'stavam nuas em Novembro
E sua escuridão apareceu, que alguém
Primeiro viu que a base do design é o excêntrico.

IV

Sob a camada de gelo e sobre a de nuvens.
Entre ambas jaz a esfera de minha ventura
E a ventura do gelo e a ventura das nuvens,
Todas iguais, exceto pelas leis rabínicas,
Alegres, que distinguem o gelo das nuvens.

V

Se a busca de uma fé tranquila acabará,
Que o futuro não mais emerja do passado,
Fora do que nós somos por inteiro. A busca
E o futuro, inda assim, parecerão um só.

VI

Morrer senão pela Morte
Com seu giz e vestes púrpuras.
E não morte paroquial.

VII

Fluem fáceis à tarde os sentimentos
Sobre as palavras mais simples:
Faz frio para ir trabalhar no campo.

VIII

Além do espírito dos templos sagrados,
Vazios, grandiosos, façamos hinos
E, como amantes, cantemos em segredo.

IX

Num mundo de pobreza universal
Os filósofos, só, serão obesos
Contra o vento de outono
Num outono que há de ser perpétuo.

X

Entre o adeus e a ausência do adeus,
O último obrigado e a perda última,
O vento e a queda brusca do vento.

XI

A nuvem floresceu como um rochedo
Que pelo mesmo anseio agora é leve,
Mudando verde-claro pra oliva e então azul.

XII

Em você o sentido da serpente,
Ananke, e seu passo alerta,
Nada adiciona ao horror do frio
Que cintila em teu rosto e em teu cabelo.

XIII

Aves cantam em pátios amarelos,
Bicam peles mais lúbricas que as nossas,
Do puro Germütlichkeit.

XIV

Pombo plúmbeo no portão
Deve errar a simetria
De seu companheiro plúmbeo,
Deve ver os leques dela
De ondulações de prata.

XV

Sirva as frutas rubras no inverno.
Lembram páginas de Toulet
Lidas no escombro de nações futuras,
À luz de velas, sem necessidade.

XVI

Se o pensar fosse assoprado
Este ainda seria um lar
A quem gosta do rudimentar.

XVII

O sol da Ásia flui sobre o horizonte
Neste ar abatido e tênue,
Tigre aleijado por um nada e um frio.

XVIII

Devo lutar com quem me mata,
Em poses dignas de um museu?
Quem me mata foge dos museus.

XIX

Um abrir de portais ao fim da noite,
Braços abertos qual se perfurando.
Ato I, Cena I, no German Staats-Oper.

XX

Ah, mas a efígie sem sentido e natural!
A aberração reveladora surgirá,
A ágata no olho, o ouvido com tufos,
O rápido coelho, alfim, na relva vítrea.

XXI

Ela era sombra tênue assim como a lembrança
É um outono provecto debaixo da neve
Que alguém recorda num concerto ou num café.

XXII

A comédia dos sons ocos deriva
Do riso e não da sátira em nós viva.
Entupa, então, Jack roxo e Jill purpúrea.

XXIII

Os peixes: a janela do pescador;
O grão agora está na padaria;
O caçador urra ao matar faisões.
Pense na estranha morfologia da pena.

XXIV

A ponte sobre o brilho e azul das águas
E a mesma ponte quando o rio congela.
Rico Tom-tom-dum, pobre Tom-tom-dee.

XXV

Do ongolo ao corvo, note a crise
Musical. Corvo é realista.
Mas Ongolo também será.

XXVI

O pastiche das uvas belgas vence
Toda a gala de auréolas marrom-rubras.
Cochon! Mestre, eis as uvas aqui, já.

XXVII

Mal podiam transpôr John Constable
E nossas ondas negam a Academia.
Os Picts impressionaram-nos, porém,
Com o sabor de cães e cervos de aço.

XXVIII

Não pode a pera vir à mesa junto ao suco,
Madura no calor e servida. Se é assim,
Então o outono vai cativar fatalistas.

XXIX

Esgane espectros em atos violentos,
Marque os dedões fosforescentes, livre-se
Dos lenços de assoar perto dos ossos.
Os sinos tangem desconcertos.

XXX

O frango canta à meia noite e não põe ovos,
O galo canta o dia todo. Galos gritam,
Frangos tremem: os ovos são feitos e postos.

XXXI

Moinho pululante ou mente em fúria.
Gramas cinzas no vento vão embora
E espinhos ouriçados giram nos barrancos.
O atual é uma hábil beneficência.

XXXII

Poesia é pássaro aéreo
Que vive incertamente e pouco
E brilha mais que manchas vívidas.

XXXIII

Por todo seu roxo, deve a ave roxa
Ter notas para seu conforto: redirá,
Assim, o bruto tédio de ser raro.

XXXIV

Calmo Novembro. Domingo nos campos.
Reflexo inerte sobre ondas inertes.
É nítido: a corrente invisa flui.

XXXV

O homem e seus assuntos pouco dizem
Deste clima erudito que não cessa
De pensar o homem como abstração, cômica.

XXXVI

As crianças irão chorar na escada,
Pouco antes de dormir, quando disserem
Que a luxúria estrelada nascerá.

XXXVII

Ontem rosas nasciam para cima,
Erguendo seus brotos em folhas negras,
Nobres no outono, mais nobres que outono.

XXXVIII

O álbum de Corot: prematuro.
Pouco depois do céu ser negro.
Névoa de ouro, quase não-névoa.

XXXIX

Não o oceano do virtuose
Mas o alienígena, a carranca que diz
O ininteligível, compreendido.

XL

Sempre esse repertório igual
Que só será perfeito se
Começar do fim do último homem.

XLI

O perfume adstringente do crisântemo
Ano a ano disfarça o mecanismo
Da máquina na máquina na máquina.

XLII

Ó Deus do clã dos salsicheiros,
Ou, talvez, só um padroeiro
Mais nobre e santo num espelho.

XLIII

Curioso que a vida seja densa
Num dado plano: isto é averiguado
Ao se dividir todas as pernas por dois.
Assim ao menos as pessoas são contadas.

XLIV

Frescor é mais que o vento oriental soprando.
Não existe algo como inocência no outono,
Mas, é certo, a inocência não se perderá.

XLV

Encore un instant de bonheur. Palavras
Das palavras de uma mulher, pouco
Prováveis de agradar mesmo um nativo.

XLVI

Tudo faz tique-taque. O gabinete
De um homem que ficou doido, apesar
Dos cucos, é mania por relógios.

XLVII

O sol procura brilhar sobre algo brilhante.
Os troncos são madeira, a grama é amarela.
Poças não são o que ele busca.
Ele mesmo criará as cores.

XLVIII

Não se escreve música, mas se deve.
A preparação é longa e é longo o intento
De que o som seja mais sutil do que nós mesmos.

XLIX

Quis noites densas de encharcado clima
Pra que ele retornasse ao povo e achasse
Seja o que for quando estivera ausente,
Um prazer, indulgência, obsessão.

L

A união dos mais fracos deixa-os fortes,
Não sábios. Podem vingar, todos eles,
Uma só folha que caiu no outono?
O sábio vinga ao erigir suas cidades na neve.

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