"Uma Arte", de Elizabeth Bishop.




Não há muito o que ser dito sobre a famosíssima vilanela de Bishop. Faço apenas um comentário relativo a minha tradução, que buscou manter um verso de doze sílabas (embora eu tenha sido mais formalmente rígido que o próprio original em relação à métrica) e, é claro, a forma da fôrma. Destaco, por exemplo, as variações rímicas existentes dentro do texto, vale dizer, fugindo do padrão [—ɑːstə], como no caso de [—ʌstə], o que o leitor pode ver observando palavras como master rimando com fluster. Em minha tradução não pude colocar no exato lugar estas variações, de modo que usei a carta mágica do desvio rímico (o meu "—inda" num padrão geral "—enda") nas duas últimas estrofes. Outros exemplos de detalhes que busquei contemplar são o cavalgamento na quinta estrofe ou o jogo interno num verso como "Then practice losing farther, losing faster", que tentei transformar numa aliteração misturada entre P, D e R (formando, num plano aliterativo geral, a sugestão PeRDeR). Por fim, um dos motes do poema foi primeiramente traduzido: "Perder é uma arte pra que qualquer um aprenda". Mudei pois a solução atual, além de manter as cesuras no lugar, é ritmicamente mais interessante, algo meio jâmbico com aliteração em P.

Pus, logo abaixo, algumas traduções que me lembrei de cabeça. Pois um dos maiores desafios de todo tradutor é o de traduzir um poema que ele já conhece praticamente de cabeça na tradução de outro. Afinal de contas, se o tradutor é (deve ser) um entusiasta de tradução, é normal que ele se encante com aqueles casos de textos traduzidos que já o foram muitíssimo bem por outros companheiros antes dele. Foi meu caso com esse poema da Bishop. Não cabendo a mim julgar a qualidade de minha empreitada, falo pra vocês duma perspectiva pessoal: traduzir esse poema não foi só uma delícia, um prazer e uma honra; foi e é acima de tudo uma prova de amor.

Enfim. Pondo de lado o frêmito, se o leitor conhece outras traduções, agradecerei a contribuição. O texto utilizado foi o disponível no poets.orgaqui.

§

P.S. (01/02/17): Adicionada a divertida paráfrase (denominada "transcrição cancerígena") de Adelaide Ivánova. Faço notar que traduzir pondo um recibo aí no meio é algo que a poeta já fez ao traduzir um belo poema de Ana Martins Marques para o alemão: "tradução-recibo", ela classificou, pois, tal como o recibo, o texto traduzido foi enviado "sem pensar e sem revisar". Organizada também a postagem em ordem cronológica. Não estou certo quanto a data da versão de Jorge Pontual; basicamente me baseei no link mais antigo que pude encontrar.


UMA ARTE.
trad. Horácio Costa [1995]
in: Folha de São Paulo, 15/01/95, aqui.
A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

 Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda  escreva tudo!  lembre desastre.

§

UMA CERTA ARTE.
trad. Nelson Ascher [1998]
inaqui.
A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.

Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.

§

UMA ARTE.
trad. Paulo Henriques Britto [2001]
inaqui.
A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

§

ARTIMANHAS DE ISABEL BISPO.
I. UMA ARTE TODA SUA (EM PARÁFRASE ALHEIA)
paráfrase de Bruno Tolentino [2001]
inO mundo como ideia, editora Globo, p. 263-264. aqui.
 "The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster..."

 A arte de perder vem com facilidade:
em tantas coisas há uma tal propensidade,
um tal amor à perda, que dá mesmo vontade

de perdê-las. De início, perde um item por dia:
molho de chaves, papelada, a hora vadia
esperdiçada — perde e aprende a mais-valia

da arte desastrada de perder... Mais à frente
perde com mais audácia, sê bem mais diligente:
perde nomes, lugares, a viagem iminente

que ficou por fazer, entre um talvez e um quando.
Perdi o relógio de mamãe e um dia, olhando
minha última casa ir se juntar ao bando

das que haviam ido, fiquei bem deprimida,
sofri, mas não morri. Afinal, é a vida.
A arte de perder, desastrosa e fingida,

despede-se mas volta: perdi duas cidades
(belíssimas), um rio e, trêmula de saudades,
perdi um continente inteiro! Mas quem há de

esquivar-se a um mistério, se a arte de perder,
desastre ou não desastre, é inerente ao ser?
Perder-te, por exemplo, pouco a pouco esquecer,

ou já nem ver direito um gesto teu, um modo
 todo teu de dizer... Aceito-o; não de todo,
é claro, algo se insurge, escapa, cai no lodo

de enxurrada da vida, mas que se há de fazer?
Eu recomendo dar de ombros, pois perder
dói sim, mas (toma nota!) ensina-te a escrever..."

§

 UMA ARTE.
trad. Jorge Pontual [2005]
inaqui.
A arte da perda é fácil ter;
por tanta coisa cheia de intenção
de ser perdida não dá pra sofrer.

Perca algo todo dia. Perder
chaves aceite, junto com a aflição.
A arte da perda é fácil ter.

Treine perder muito sem se deter:
lugares, e nomes, a comichão
de viajar. Nada fará sofrer.

Perdi jóias da mamãe. E dizer
que perdi casas que amei de paixão.
A arte da perda é fácil ter.

Perdi duas cidades. E o prazer
de um continente na palma da mão.
Sinto falta mas não dá pra sofrer.

- Até perder você (a voz, o ser
que eu amo) não devia mentir. Não,
a arte da perda se pode ter
embora pareça (diga!) sofrer.

§

UMA ARTE.
trad. Maria de Lourdes Guimarães [2006]
inGeografia III, Relógio D'Água, 2006, aqui.
A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias de intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras. E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

 – Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (Toma nota!) uma calamidade.

§

UMA ARTE.
trad. André Vallias [2013]
inaqui.


§

UMA ARTE.
trad. Leandro Durazzo [2013]
in: blog pessoal do tradutor, aqui.
A arte da perda é fácil estudo;
tanta coisa é perdida e se basta
que nada nunca é o fim do mundo.

Perca um tanto, todo dia. Aceite o luto
pelas chaves de casa, a hora mal gasta.
A arte da perda é fácil estudo.

Então perca mais, e mais rápido:
lugares, nomes, o voo e a escala
pra onde, mesmo? Nada é o fim do mundo.

Perdi o relógio da mãe. E tudo
das últimas três casas que gostava.
A arte da perda é fácil estudo.

Perdi belas cidades, rios graúdos,
uns reinos, continente, terra vasta.
Perdi, mas não foi nada o fim do mundo.

- Mesmo te perder (a voz, o riso surdo
que eu amo) seria nada. Vai, anota:
a arte de perder é fácil estudo
mesmo que pareça o fim do mundo.

§

trad. parcial de Levi Freitas [2014]
in: "Archibald McLeish por Levi Freitas", escamandro, 08/09/14, aqui.
(...)

Perdi duas cidades, adoráveis. E, pior,
uns reinos que tive, dois rios, um continente
Saudades, mas não fora um dissabor.

(...)

§

UMA ARTE.
trad. eu [2014]
Perder é uma arte simples para que se aprenda;
tantas coisas parecem ter dentro de si
a perda, que perdê-las não é coisa horrenda.

Perca algo a cada dia. Rompa com a agenda
e aceite as coisas que vierem a sumir.
Perder é uma arte simples para que se aprenda.

Então perca sem pressa, e, perdendo, se renda:
lugares, nomes, o onde você pensou ir
viajar. Nada disso dará em coisa horrenda.

Perdi o relógio de mamãe. E observe: além da
primeira, outras duas casas eu perdi.
Perder é uma arte simples para que se aprenda.

Perdi duas cidades, queridas. E, ainda,
dois rios, reinos, países que possuí.
Sinto falta, porém não é uma coisa horrenda.

— Mesmo perder você (o sorriso, a voz linda
que eu adoro) é normal. Isso eu já percebi:
perder é uma arte simples para que se aprenda,
por mais que ela pareça (Escreve!) coisa horrenda.

§

UMA ARTE.
trad. Alípio Correia Neto [2015]
in: blog pessoal do tradutor, aqui.
A arte de perder não é difícil;
Tanto parece ter em si o projeto
da perda, que ela não é um suplício.

Perca dia a dia. Aceite desperdício
de tempo, perder chave, em desconcerto.
A arte de perder não é difícil.

Perca mais, mais veloz, como exercício;
Locais, nomes, o ponto aonde direto
viajaria. Nada disso é um suplício.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! Esvaiu-se,
O último, ou não, dos três que amei, meu teto.
A arte de perder não é difícil.

Perdi duas cidades, lindas. Mais que isso,
Continente, dois rios, reino dileto.
Fazem falta, mas não foi um suplício.

Mesmo com a sua perda (o humor, o riso
que eu amo) não terei mentido. É certo
que a arte de perder não é muito difícil,
mesmo com ar (escreva!) de um suplício.

§

A ARTE DO RECIBO
transcrição cancerígena de Adelaide Ivánova [2017]
in: Bolhas, champanhe, cowboy, 01/02/17, aqui.
The art of recibo isn’t hard to master;
so many recibos are sent to the wrong
referente that the indiferença is no disaster.

Passe one recibo every day. Accept a mensagem
visualizada e não respondida, the recibo badly spent.
The art of recibo isn’t hard to master.

Then practice passar recibo farther, faster:
cite motéis, o nome da outra, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s vergonha na cara. And look! my last, or
next-to-last, of three loved maridos went.
The art of recibo isn’t hard to master.

Perdi duas cidades que amava. And, pior,
some paisagens tão minhas, dois rios, um continente.
I miss them, mas não é nenhuma tragédia.

—Even losing you (taurino e novinho as
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of recibo is not too hard to master
ainda que pareça (PASSE O RECIBO!) uma tragédia.
§

ONE ART.

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

— Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

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