The pressure of reality.

Wallace Stevens abre o ensaio The noble rider and the sound of words (no livro The necessary angel: essays on reality and the imagination, editora Alfred A Knopf, 1951; sem tradução pro português, até onde eu saiba) com aquela passagem do Fedro, de Platão, em que Platão, para retratar a alma, traz a imagem de um cocheiro e dois cavalos alados. Stevens nota, em específico, a nobreza com que a cena é retratada, no que depois, pensando a relação entre imaginação e realidade, posto que a força da imagem platônica está diretamente ligada à sua ligação ao que é ou não real ("A imaginação perde vitalidade à medida que cessa de aderir ao que é real.", p. 6), ele chega à conclusão (p. 12-13):

O que disse até este ponto se resume a isto: que a ideia da nobreza existe na arte hoje apenas em formas degeneradas ou num estado muito diminuído, se, de fato, ela existir de todo ou de forma sofrida; e isto se dá graças a uma falha na relação entre a imaginação e a realidade. Gostaria agora de adicionar que esta falha se dá, por sua vez, graças à pressão da realidade.

O que Stevens entende por pressão da realidade é "a pressão de qualquer evento ou eventos exteriores na consciência até a exclusão de qualquer poder de contemplação" (p. 20). Dará como exemplo a percepção de guerra de alguns poetas do passado e do presente, dado que "por mais de dez anos, a consciência do mundo se concentrou nos eventos que fizeram o movimento ordinário da vida parecer o movimento de pessoas numa tormenta." (idem). Afinal de contas (p. 21):

O presente é uma oportunidade de arrependimento. Isto é familiar o bastante. A guerra é só uma parte de um todo-da-guerra. Não é possível olhar pra trás e ver que a mesma coisa era verdadeira no passado. É uma questão de pressão, e a pressão é incalculável e elide o historiador.

Concluindo que (p. 22):

Estas são as coisas que eu tinha em mente quando falei de pressão da realidade, uma pressão grande o bastante e prolongada o bastante para trazer o fim de uma era de imaginação histórica e, se assim for, então grande o bastante para trazer o início de outra. É uma das peculiaridades da imaginação que ela sempre é no fim de uma era.

O ensaio é mais extenso do que isso. Mas para meus propósitos, isso basta.

Se tomarmos a pressão da realidade como limitadora e enfraquecedora do que Stevens caracterizou como perda da nobreza da imaginação, podemos trilhar algumas sendas. Tomando-a como fim de uma era de imaginação histórica e início de outra, trilhamos outras. Mas se simplesmente tomarmos a pressão da realidade como fator de influência no conteúdo imaginário da obra artística, podemos caminhar em praticamente todas as sendas abertas pelo ensaio de Stevens.

É a senda que pretendo tomar. Logo, não me interessa saber se a factível pressão da realidade significa alguma mudança de paradigmas imaginários na arte contemporânea. É possível? Particularmente, creio que sim, dado o fluxo intempestivo de informações muitas vezes desencontradas que o ambiente virtual traz. Observando seu próprio tempo (p. 22), Stevens nota que a série de eventos que ele encarava naquele tempo, vale dizer, o contexto pós-Guerras Mundiais, atiçavam a violência e empurravam a pessoa à barbárie, sem senso histórico algum que os guiasse. Zanzar um pouco pelas redes sociais só poderá deixar um sabor parecido na boca.

O que me concerne mais de perto é o detectar a pressão da realidade atuando ao vivo e a cores ― não necessariamente tal e qual, é claro. Vejamos se consigo convencer alguém disso. Peguem aquele poema de Jussara Salazar, Bestiário. Confesso que não tenho nenhum livro da autora em mãos, embora, do que esteja disponível na internet, eu já tenha lido tudo. E, até onde pude constatar, Carpideiras (editora 7letras, 2012), é um dos livros mais coesos da poesia contemporânea.

Pois voltando ao Bestiário. O formato do poema lembra a terça rima dantesca. Só que em versos livres e brancos. Isso é digno de nota pois o poema de Jussara se liga a um autor que certamente para Stevens validaria a afirmação de que a imaginação já teve seus momentos de nobreza: e não será à toa que, na segunda parte do ensaio, Stevens dirá que a cultura italiana é a cultura da imaginação enquanto, por exemplo, a espanhola é a da realidade.

O conteúdo imaginário não é muito difícil de ser percebido em Bestiário. Com poesia não costuma ser. Quando Stevens diz, em Adagia, que poesia é metáfora (um corolário, entre outros, de afirmações como "Vivemos em nossa mente"), ele meio que está constatando o óbvio. Boa parte da poesia é metafórica. Se quisermos apontar um conteúdo violento ou de impacto, podemos citar os urubus diários do verso 8 ou "os monstros submersos que eunoé lembrará", verso 11. Mas aqui não basta simplesmente que citemos casos de impacto. A pressão da realidade, como Stevens a caracteriza, embaça nossa percepção histórica e nos impede de contemplar. Além, é claro, de possuir uma força esterilizante de anunciar a morte de um paradigma imaginário para que outro entre em seu lugar.

No poema de Jussara, o eu lírico chama outra pessoa pra que ambos compartilhem da guerra, para que ambos componham um bestiário. Em alguns momentos, podemos até antever uma tomada de cena erótica, especialmente no verso 9, "e a minha carne será a tua guerra", revalidando a máxima do amor e do sexo como batalha (a batalha na cama). A necessidade de se chamar outra pessoa para que se componha um algo, este algo podendo ser qualquer coisa, como se o eu lírico atestasse, ainda que de forma subentendida, sua falência para logo após pedir arrego, pedir ajuda; trata-se de algo muito comum na poesia contemporânea, embora, na poesia de Jussara, isso seja certo modo esporádico.

Assim, é como se Jussara fizesse o agradável convite de que a pressão da realidade atuasse sobre nós dois. Ou seria o contrário? Na verdade, o que está acontecendo no poema é que a autora convida alguém para que a guerra do eu lírico seja a mesma guerra dessa pessoa, o que por conseguinte trará consigo a criação de um bestiário em comum e de todas as outras atrocidades ou coisas incômodas mencionadas ao longo do poema. Seria, portanto, uma espécie de convite para que uma intersecção de zonas escuras fosse feita.

Muita coisa muda de figura quando passamos a enxergar o poema desse modo, pois, com efeito, bestiário é o tipo de obra que descreve animais e monstros fabulosos (o de Borges é quem sabe o mais famoso). Seria, sendo assim, um convite à imaginação? Julgo que sim. Só que isso não anularia a ideia de que o poema de Jussara está sob o efeito da pressão da realidade? Não necessariamente. Afinal de contas, a pressão da realidade não anula a imaginação; Stevens se refere, especificamente, ao fato de que a pressão da realidade afeta a imaginação, ainda mais especificamente naquilo que ele chama de nobreza. É um confronto com uma realidade impactante o suficiente para que sejamos, conforme dito, incapazes de contemplar. Daí se pode interpretar a frase de Stevens de que "É uma das peculiaridades da imaginação que ela sempre é no fim de uma era."

O bestiário inventado, assim sendo, não deve ser entendido nos sentidos que a palavra "bestiário" a priori parece dar, ou mesmo no que o rol de trevas ou de imagens incômodas que a enumeração dentro do poema parece incutir. Leia-se a esse respeito o verso 12 e leia-se a penúltima estrofe. Bestiário é também o nome dado ao gladiador que lutava contra animais ferozes. É um sentido perfeitamente plausível dentro da lógica do poema.

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