As poéticas aquáticas.

O que Bauman no final das contas quer nos dizer é que a boiada estourou. Logo, estamos livres. Como jamais estivemos. O problema é que estamos à deriva: e daí a metáfora aquática na obra do autor, onde, substituindo a da modernidade sólida (grifado pois ainda não substituímos de todo), plena de estruturas de controle rígidas à maneira de um panóptico, por exemplo (panóptico = uma torre de controle que Foucault trouxe como modelo do sistema carcerário), temos um ambiente onde reina a busca de afirmação, o individualismo, a competição predatória, o curto prazo etc. Agora, na modernidade líquida, as partículas estão dispersas, afastadas, maleáveis, de modo que, persistindo um liame que as una, ele é mínimo, é fraco. O panóptico central de Foucault, ficando no mesmo exemplo, é substituído por milhares de panópticos espalhados pelo mundo e que podem representar praticamente qualquer pessoa: algo como um vigiando o outro.

Na poesia de Alice Sant'Anna, pelo menos num de seus mais famosos poemas, podemos muito bem enxergar Bauman. Daqui a pouco eu mencionarei a razão da aproximação; podemos ficar, por hora, com a razão de ser maior: Alice Sant'Anna é nossa contemporânea e Bauman filosofa a contemporaneidade. Afinal de contas, como diz a autora na coluna Poesia do cotidiano (aqui), "A birra com essa categoria do “cotidiano” é porque não consigo ver a distinção, de que modo os conjuntos se separam." Um pouco antes:

“Poesia do cotidiano”: taí um guarda-chuva que abriga praticamente qualquer coisa. Fico pensando o que seria um poema que não usa, minimamente, os recursos do dia a dia. Um poema que não pega ônibus, que não entra em fila, que não acorda com remela. Só a bailarina que não tem. Um poema que fala de amor ou de perda sem ter nenhum pé no mundo material, corriqueiro.

E não é de se estranhar que, numa das melhores mesas já montadas pela FLIP, Alice tenha discutido o tema ao lado de Bruna Beber e Ana Martins Marques (aquiaqui também), duas outras poetas que também trabalham o cotidiano com grande eficiência.

Disse "afinal de contas" lá atrás pois a modernidade líquida de Bauman opera ao nível do cotidiano. Não quer dizer que não pense outras instâncias, como por exemplo as excelentes observações do autor sobre a questão da segurança pública. É só que a base de seu pensamento se encontra ao rés do chão, nas relações entre pessoas, estranhos, os amores líquidos e patatati patatá. Mesmo quando ele fala da segurança pública, por exemplo, ele se preocupa com a espetaculização que cria um verdadeiro arsenal de guerra capaz de gerar, a um só tempo, segurança e medo, eficiência e promessa de descontrole etc e tal.

Deixemos isso de lado. Você não vai encontrar muitas inferências disso na poesia de Alice. Pelo menos não de maneira direta. Quando Alice Sant'Anna fala do rabo de baleia, para encurtarmos o caminho e chegarmos direto onde quero, ela está falando de um longo rabo de baleia que surge num ambiente de maneira geral aquático: veja-se a água parada no verso 10, o copo d'água no 15, a quarta[-feira] boiando no 17. Embora estejamos num ambiente aparentemente vívido ("sinto um tédio pavoroso desses dias / de água parada acumulando mosquito / apesar da agitação dos dias / da exaustão dos dias"), o clima geral é o de abatimento, é o de sufoco.

E é nesse detalhe que podemos enxergar Bauman. Não se trata, evidentemente, de falarmos de um poema aquático e por conseguinte irmos de encontro ao filósofo. Trata-se de fazer a acoplagem à luz da disparidade do estarmos livres, estarmos atribulados e ainda assim estarmos entediados, sufocados, sem norte, esperando o milagre de um rabo de baleia nos tirar do marasmo. Pois é nesse meio tempo que o rabo de baleia pode surgir, entendido não simplesmente como uma forma de nos alienarmos ou coisa do gênero, mas, seguindo precisamente o fato de que ele surge do cotidiano, como maneira de imergimos com vigor nesse mesmo cotidiano. Não digo, é claro, que o sentido de viagem ou de uma espécie de suspension of disbelief possa ser descartado, bastando que se cite: 1) o título original do livro era "Longe é uma palavra muito longa"; 2) era, portanto, primordialmente um livro de viagens, e a crítica tem apontado que um dos temas principais dele é o estranhamento de estar fora de casa; e 3) Alice diz que o livro serve como convite a uma viagem imaginária, mas possível.

Enfim. Considerando tudo isso, digo que, além dessa dimensão, digamos, "escapista", há a dimensão de imersão no cotidiano, visto que, mesmo considerando que de fato o livro só fale de coisas imaginárias, fictícias, ele fala também de possibilidades e, de resto, como citamos, a própria autora disse que não consegue pensar no que não é cotidiano, afinal de contas. Assim, no poema sobre "a sandália nova branca com dedos", a poeta fecha dizendo: "que gritam novas rugas onde nada havia" E não são poucos os poemas em que ela se refere a uma nova forma de ver o que está vendo neste exato instante, na sombra do avião (pra me valer de um poema onde a autora esmiúça o "tédio pavoroso desses dias").

O rabo de baleia entendido como um convite para a consistência e para os laços humanos sólidos em vez de líquidos. Em tempos onde a todo instante nos convocam para que nos emocionemos com vídeos e com exemplos de superação ou de estranheza, à guisa da mulher mal-vestida que se demonstra dona de uma voz esplêndida, o convite que perdura é algo além de que simplesmente enxerguemos o rabo dessa baleia que pode muito bem estar encalhado. É algo além da empatia efêmera e fácil que nos é proposta. É que viajemos com ele e possamos (o mais que se possa) deixar de ser caçadores para sermos simplesmente contempladores, partícipes, jardineiros. Pois o caçador, como nota Bauman em entrevista à Cult 138, é aquele que na verdade caça outros caçadores, entrando numa competição que só vai acabar quando nem ele nem ninguém tiverem mais o que caçar. Quando se deparararem com o branco total de um cenário devastado. A imagem do rabo de baleia é icônica pois ela é suntuosa, ou seja, ela não é aquela coisa discreta que, portanto, é normal não percebamos: ela é um enorme elefante branco que, ainda assim, não nos surpreende. Como se nada, por extensão, nos surpreendesse.

Se nossa sociedade demanda de nós sermos caçadores para que não venhamos a ser a caça, o rabo de baleia nos permite vislumbrar a possibilidade de sairmos dessa dicotomia imposta e nos tornarmos jardineiros, preocupados nem com a captura nem com o ser capturado, mas, antes, com a criação e instituição de laços. Pois esses laços estão ao alcance da mão: e não me refiro simplesmente porque muita coisa, quem sabe o mundo, literalmente esteja ao alcance da mão. Ao alcance da mão pois, como mostra Alice, está o copo d'água que tentamos alcançar e não alcançamos ― e sim, até aqui está correto, embora ― embora ao alcance da mão, e é isso o que a autora nos diz, por mais que o poema feche em aberto (pois não sabemos se o eu lírico ficou só no desejo ou se foi lá e se agarrou à baleia), está o rabo de baleia. O espetáculo aquático daqueles mamíferos imensos que talvez só queiram brincar, quem sabe, ou que, seja lá porque raios eles levantem a cauda e deem um imenso tapa na superfície da água, nós sejamos capazes ao menos de ver no que é tão espalhafatoso, uma oportunidade.

Comentários