A materialidade na obra de Eucanaã Ferraz.

Pelo menos parte consistente da obra de Eucanaã Ferraz pode ser lida à luz de Vilém Flusser. Se o poeta conhece ou não a obra do filósofo tcheco-brasileiro, eu realmente não sei: o máximo que posso apontar, de mãos dadas com o destino, é que o número 7 da Revista.doc coloca Eucanaã Ferraz lado a lado com Flusser, na sessão .doc recomenda!

Claro que isso não quer dizer droga nenhuma. Quando muito, alguma coisa. Que coisa?

O livro de Ferraz que, a meu ver, tem mais a ganhar com Flusser é justamente o Cinemateca (editora Cia das Letras, 2008). Pois se entendemos que Flusser foi um dos principais filósofos de mídias como o cinema, a TV e a fotografia, e muitas de suas reflexões tocam fundo em nossa sociedade inter-isso-inter-aquilo, não será preciso que se peça vênia ou coisa do tipo para colocar um ao lado do outro.

Veja-se, dentro das categorias pensadas por Flusser, pelo menos uma: a da imaterialidade. Imaterialidade, para Flusser, é um corolário de uma visão platônica do mundo. Na verdade, é um corolário errado; mas isso daqui a pouco eu deixo claro. Visão platônica do mundo: pode parecer antiquado, você pensa, mas tem sua contemporaneidade impressionante (o que não é de se espantar se considerarmos a famosa frase de Popper sobre Platão; aquela, dos rodapés...). Assim, se se pensar no que significa conteúdo e no que significa forma, não será muito difícil darmos um enfoque para a forma, pois, com efeito, o conteúdo é estofo. Pense numa mesa: dizer que ela é simplesmente madeira não é muito correto, pois, na prática, a forma da mesa se sobressai e permanece frente à transitoriedade do estofo físico. Se com dez quilos de madeira eu faço uma mesa, com dez quilos eu posso fazer muita coisa: sei lá, um busto. O que diferencia é a forma. A forma fica na cabeça, a forma fica na lembrança. Daí a concluir com Platão que ela é eterna são dois pulinhos.

Numa sociedade que se depara com o advento da informática, do eletrônico e trambolhos equivalentes, o desafio deixa de ser a descoberta das formas do conteúdo (isto é, as formas do estofo) para ser justamente o preenchimento, a longa viagem rumo à concretização das formas que nos são apresentadas. Como no caso da tela do seu computador, com o qual você lê meu ofício ou arte taciturna. Números, equações, cálculos matemáticos que se transformam nessa beleza de blog. O desafio é que, frente a uma cultura imaterializada, a materializemos ou simplesmente lidemos com esse novo passo em nossa sociedade. E é por isso que para Flusser caracterizar nossa sociedade como imaterializada não é correto, visto que, na verdade, é uma sociedade materializadora: não que ela não tenha matéria, mas sim que ela busque materializar tudo.

Se delimitarmos como espaço amostral os poemas selecionados por Antonio Miranda em sua essencial página (aqui), poderemos entender algumas das implicações das assertivas flusserianas. Logo no poema acorda, por exemplo, o poeta trata da materialização do grito, e tanto que ele passa a falar dele como matéria, como tendo cor, peso. E talvez seja possível que no belo poema El laberinto de la soledad também possamos vislumbrar tal perspectiva de análise, uma vez que o astronauta Yuri se limita a dizer as coisas como são. Ele simplesmente constata a materialidade direta delas. Ele depreende estofo+forma e diz: tal coisa é estofo+forma. Não elucubra a respeito. E isto, creio não ser necessário dizê-lo, é muito difícil numa sociedade de tendência materializadora, onde o desafio é que incutamos estofo no que se apresenta apenas como forma. Na verdade, se formos mais a fundo, vamos observar que também materializamos aquilo que já se encontra materializado, o que é uma consequência bem assente do fato de que não somos capazes de conhecer o mundo de forma plena ou totalmente imparcial (o que é tão antigo quanto Kant, pelo menos). Flusser dirá um pouco disto ao tratar da Não-Coisa e de como o ser humano contemporâneo tende a ser um Homo ludens, para quem a vida é um espetáculo, vale dizer, não estamos mais falando de um Homo faber para quem o desafio era fazer ou não fazer, mas sim como vivenciar, como sentir.

Unindo uma a outra perspectiva, podemos observar como o astronauta Yuri parece estar deslocado de nosso tempo, ou como ele está incluso de uma maneira como nós, pessoas comuns, não entendemos. Ao invés de interpretações sobre o que é posto à sua frente, como dissemos, o astronauta apenas constata que o que é, é. E assim, considerando que para Flusser a produção de cultura envolve um quociente natural e outro artificial, vale dizer, tentativa humana de impôr sentido ao mundo por meio de códigos, temos, também para Flusser, que nossa sociedade produz e produz e produz informação, o que leva, por conseguinte, à desagregação de sentido. Pois informar, para Flusser, é in+formar, é o mesmo que projetar, é dar forma à matéria seguindo determinada intenção. Portanto, se nossa sociedade informa cada vez mais, temos que conviver com nossa crescente tentativa natural de superar a natureza, o que implica dizer acúmulo de lixo (como muito bem sintetiza Marcos Beccari aqui).

Daí a solidão implícita no título: tanto pelo fato do astronauta Yuri estar literalmente só, quanto pelo fato de suas concepções irem na contracorrente da super-produção de informação de nossa sociedade (ressaltando a objetividade), bem como no fato de que as concepções do astronauta não necessitam da contribuição do Outro, isto é, pelo fato delas se aterem à experiência objetiva, elas exageram na contra-resposta à artificialidade crescente de nosso mundo com uma dose cavalar de naturalidade. Vou colocar de maneira mais simples este terceiro sentido da solidão expressa no título do poema. Vejam bem: se o astronauta Yuri quer dizer que a leveza é leve, falta dizer o que se entende por leve, ou o quanto é leve. Ele dá uma explicação que não explica muito. Daí o fato de ser um labirinto, visto que a dinâmica do ato de explicar qualquer coisa é a de que tenhamos uma visão panorâmica e, por conseguinte, não necessitemos nos ater ao mundo dos fenômenos e dos sentidos, o que seria impraticável, uma vez que, seres mortais, nossa experiência de mundo é posta num horizonte limitado. Você pode vivenciar tudo de todas as formas? Não, né? Pois então: o caminho da existência, que Flusser identifica como tendendo à morte e encontrando obstáculos no caminho, é, justamente por tender à morte, finito.

É necessário que outra pessoa entre na jogada e, assim, nos ajude a sermos de fato Homo ludens, nos ajude a materializar o mundo. Pois se o astronauta Yuri diz que a leveza é leve, como vimos, isso não explica muita coisa: é preciso materializar o que se entende por leve. Caso contrário, vamos constatar o que todos podem constatar por si mesmos, o que implicará que a convivência, a troca de informações e experiências vazará pelo ralo.

Daí, creio, o enfoque no amor que Eucanaã Ferraz dá com frequência em sua obra. O amor é difícil, o amor é desafio. E se o amor nos ajuda a materializar o mundo, ele, numa cultura materializadora como a nossa, onde materializar é uma incógnita, é pedra preciosa. E se o amor nos ajuda a materializar o mundo, depois da perda é voltarmos à instabilidade, à estaca zero. Dois dos poemas apresentados do livro Rua do Mundo, no site do Antonio Miranda, abordam o assunto. O terceiro poema pode ou não tratar deste assunto; pode ser também o antes do encontro amoroso, o que me parece mais acertado. Pois, grosso modo, o que o poeta diz no livro, além de se referir ao Drummond de Mundo grande e Rua do olhar, é o que a poesia amorosa sempre nos contou e, no final das contas, sempre soubemos: precisamos de outra pessoa pra nos completar e blábláblá. Se o poeta se diz nu, e se compara, entre outros, a um anel sem dedo, é porque não encontrou sua cara metade e blábláblá de novo.

Enfim. Você pode ver muito bem a mecânica do depois da separação no poema desfotógrafo, novamente um dos melhores de Eucanaã Ferraz. O andar das imagens vai percorrendo o caminho daquela tomada cinematográfica já batida da foto que se apaga. Para retornarmos a Flusser, o autor nota que as imagens em nossa sociedade se tornam cada vez mais móveis, enquanto nós tendemos a nos tornar imóveis. Aquele famoso caso duma imagem que sai do controle. No âmbito do poema, onde o que temos é um material imaginário artisticamente trabalhado, podemos nos lembrar que, ainda em Flusser, a imaginação é o se afastar do mundo dos objetos e, por conseguinte, o recuar para a subjetividade própria. Uma espécie de voltar à toca, um toque de recolher que nos deixa mais próximos de nós mesmos e um pouco mais distantes do mundo. No poema de Eucanaã Ferraz, o desfotógrafo apaga a vida a dois até o ponto em que ela se torna uma folha em branco. É quando a ausência do amor interfere na imaginação, fazendo com que o relacionamento, antes descrito como mágico, se torne frio, objetificado, a imaginação se converta simplesmente em imagem. Veja: "Hoje, tudo dá-se a ver sem dor, / limpo, sem um traço de paixão." Dizendo com o Drummond de Os ombros suportam o mundo, "O amor resultou inútil." O que, trocando em miúdos, é o mesmo que dizer que voltamos às constatações do pobre astronauta, de que, depois do fim, as coisas são o que são e ponto.

Embora o poema não termine com um ponto.

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