GEN, Letra Livre.

O Grupo de Escritores Novos, GEN, teve duração, enquanto grupo, de 1963 a meados de 1969. Tratava-se de um grupo de jovens escritores que discutiam o que de mais novo havia sobre literatura no país (por exemplo a Poesia Práxis). A reação da crítica ao grupo a princípio não foi das melhores, bastando citar que, naquele tempo tão decisivo para a consolidação da literatura goiana, Gilberto Mendonça Teles apregoava, em seu A poesia em Goiás (1964), que aquele grupo não iria muito longe. Não foi o que o tempo demonstrou ― nem o que a crítica de Mendonça Teles de maneira geral deixa a transparecer, verdade seja dita, posto que, ainda no mesmo ano, Mendonça Teles comentava Yêda Schmaltz pleno de entusiasmo.

O GEN foi o suficiente para revelar, pelo menos, quatro grandes nomes de nossas letras: além de Yêda, Miguel Jorge, Heleno Godoy e Maria Helena Chein. Todos, como disse, muito jovens: Miguel Jorge, o mais velho, tinha 30 anos e Heleno Godoy, o caçula, apenas 16. Em suma, dito por Moema de Castro, o GEN representou um sopro de renovação nas letras goianas. Tanto que, além da alta qualidade da literatura que o grupo produziu, e além do alto nível da discussão trazida, muito próxima do panorama brasileiro na época, isto é, a aurora da Poesia Práxis e o que Décio Pignatari chamou de "o pulo da onça" da Poesia Concreta (quando houve uma tomada de consciência social por parte dos concretistas, bastando que se cite poemas como o Beba Coca ou as traduções da vanguarda russa); além disso tudo, deve-se ressaltar o papel essencial que o GEN teve na revelação de autores como por exemplo Cora Coralina.

De lá pra cá, não houveram muitas iniciativas semelhantes. Antes disso podemos citar o caso da Revista Oeste, chefiada por Bernardo Élis em 1942. A literatura goiana sempre pareceu ter se contentado com um panorama à rédea curta. Por maior que seja a qualidade do que foi feito dentro do GEN, o que se fez aqui fica aqui: um mal quase que congênito dentro do nosso Estado.

A virada do milênio trouxe auspícios novos. 2014 comemora os 10 anos do Letra Livre, um projeto que possui pelo menos uma semelhança com o GEN: o ímpeto de mudança, o querer plantar algo num solo tão estéril.

Mas existem diferenças que devem ser apontadas. O Letra Livre se insere numa linhagem de grupos que se pautam na organização de saraus, no meter a mão na massa próprio de quem se preocupa mais com a formação externa (isto é, a cadeia autores-leitores) do que de fato com a qualidade estética do que é produzido dentro do grupo. O Letra Livre não se propõe a discutir literatura com a mesma profundidade como o GEN, e, se o aviso de Mendonça Teles tivesse de ser repetido para o grupo do Letra Livre, ele provavelmente se concretizaria (mas aqui, claro, cabe a contra-resposta: não vai muito longe... aonde?). Assim, dentro das propostas do Letra Livre deve-se destacar um projeto como o Literatura no Eixo, em que os participantes leem poesia para a pobre espécime (eu que o diga!) dos usuários de transporte público. Assim, dentro das propostas do Letra Livre deve-se destacar a guinada a céu aberto que recebeu este ano, com saraus feitos mensalmente nos parques goianienses (o que eles chamam de "Sábado no Parque").

Não acaba por aí. O Letra Livre já publicou duas coletâneas de poetas contemporâneos, todas com uma tiragem até boa: mil exemplares. Quem acessar o canal de YouTube da página pode conferir alguns dos poetas lendo seus textos. Pois, com efeito, até começo deste ano a página de Facebook do grupo também compartilhava textos dos internautas. E é bem por aí mesmo, visto que a base do Letra Livre é uma base performática, o que sua afinidade com a obra de um Pio Vargas ou o número de músicos ligados ao grupo sem dúvidas ajuda a explicar: e daqui, é claro, devemos nos lembrar que a música goianiense, fugindo do maremoto sertanejo, possui toda uma base alternativa, underground, de enorme valia, à maneira de seu cinema. Cite-se, a esse respeito e respectivamente, o Goiânia Noise Festival e o Goiânia Mostra Curtas.

Como se pode ver, se o GEN era um projeto que tendia à composição e aprimoramento interno, conectando-se com o que de mais avançado havia lá fora para que um estudo detido fosse feito e, por conseguinte, uma incorporação, o Letra Livre caminha num sentido contrário: prefere que o aprimoramento seja externo, espalhando poesia pela cidade e tentando criar um lastro de leitores antes que um lastro de autores.

Escolher entre um e outro não tem sentido algum. O ideal, claro, é que iniciativas que tendessem para um lado e para outro fossem feitas, à guisa do que acontece em Curitiba. Num projeto próximo do GEN teríamos um site como o Escamandro, postas as devidas ressalvas de que o Escamandro possui uma estrutura muito mais aberta que a do GEN e que o Escamandro possui um enfoque especial na tradução, e, num projeto mais próximo do Letra Livre, poderíamos citar o Vox Urbe.

Naturalmente que, hoje, em Goiânia, especialmente 2014, temos observado um florescimento e consolidamento progressivo de iniciativas, de grupos, de projetos que querem mudar um estado de coisas. Portanto, bom momento como há décadas não temos gozado. É o caso do Selo Literário Zé Ninguém, que, próximo do Letra Livre em muitos sentidos (pautando-se mais nos SLAMs), abriu recentemente um edital para publicação em livro de poetas, ou o caso de um espaço como o Evoé Café e Livros, sempre aberto a palestras, saraus, intervenções, lançamentos (como o caso do Lambida Goiana). Para não citar a reabertura heroica do Grande Hotel, que sedia saraus também mensais e eventos interessantes como a Batalha de MC's, Música na Sacada ou exposições de artistas plásticos, ou projetos de estímulo à leitura como o "Achei um livro!" (e se o leitor enxergar convergência entre a programação do Grande Hotel e a do Lerra Livre, não se espante, visto que um dos fundadores do Letra Livre, Kaio Bruno Dias, está diretamente relacionado à reabertura do Grande Hotel), bem como o projeto da Galeria Nortuna (sic), encabeçado pela Secult do Município, e que tenta espalhar arte nas fachadas comerciais do centro dessa Goiânia de jardins invisíveis.

E também, claro, pondo as devidas ressalvas de que o Letra Livre não é alheio ao que é feito no restante do país, tendo e até mesmo no final das contas comunicando-se com outras iniciativas, bastando que se cite que, em agosto, o grupo chamou o escritor português experimental Luís Serguilha para que lançasse seu mais novo livro, Kalahari. O mesmo pode ser dito do fato de que é um projeto que se põe ao lado de outros ao longo do país, conforme mencionado.

Na verdade, o mesmo também poderia ser dito em relação ao GEN, que desenvolvia concursos literários e tinha uma preocupação com a divulgação externa, visto, por exemplo, na organização da Primeira Semana de Arte Moderna em Goiás (isto é: não quero dizer que o GEN era uma sociedade secreta ou que o valha; o GEN já chegou a ter cerca de 30 membros). Mas, mesmo considerando essa faceta do GEN, ainda assim creio ser possível argumentar que ele esteve mais voltado ao enriquecimento interno do que o Letra Livre hoje, postas, claro, as devidas ressalvas que acabei de fazer. A atitude do GEN de promover concursos literários é um exemplo: trata-se de algo que dificilmente ocorreria no ambiente do Letra Livre. Quando o Letra Livre convoca os poetas, não é para que se eleja o melhor ou que se estimule a partir de um prêmio, nem que se reúna afim de estudar o que está sendo feito de mais novo no país, posto que o GEN pode ser interpretado como resultado de Goiânia, a partir de então e pela primeira vez, estar a par do que acontecia ao longo do país "em tempo real"; o Letra Livre convoca para que todos tragam seus poemas, abram sua sensibilidade e participem do evento (daí, entre outros, o enfoque no palco aberto).

Desse modo, existindo uma diferença entre o GEN e o Letra Livre, não se deve simplesmente apontar uma suposta futilidade com a mesma facilidade com que se observaria o GEN e se lamentaria uma espécie de esplendor inexistente. Qualquer queixa que vá neste sentido, além de questionável por si só, ignora o fato de que não temos o direito de ignorar projetos que fazem tão bem para nossas letras. Além do próprio fato de que, se hoje alguns críticos têm insistido na nota de que a poesia contemporânea não possui nenhuma linha mestra, isto quem sabe só se dê graças à falta de atenção dos mesmos, quem sabe excessivamente presos ao que a publicação impressa de grandes editoras tem lançado. É muito comum que os melhores poetas ao longo do país estejam ao redor de grupos, sejam eles grupos de debate literário e pesquisa, digamos assim, à guisa do GEN, sejam eles grupos de intervenção como o próprio Letra Livre.

Pois se, como disse lá atrás, existe uma semelhança entre o GEN e o Letra Livre, esta é, sem dúvidas, de que estamos falando de pessoas que metem a mão na massa. Se se trata de uma característica pós-moderna ou essencialmente moderna, isso de que o escritor já não pode gozar do status de escritor e só, mas que seja algo além disso (hoje em dia muitos têm preferido, por exemplo, o título de tradutor); se se trata disso, deixo a discussão para outro dia. De lá pra cá as coisas não mudaram nesse sentido ― pelo menos nesse sentido. Pois, de fato, com uma ou outra movimentação, não é dever da crítica simplesmente rechaçar ou ridicularizar tendo em mente o que acabei de chamar de esplendor inexistente, fictícia Idade de Ouro que é muito bem antevista depois que a pátina do tempo (leia-se: o esbater-se de críticos pioneiros e corajosos) fez seu trabalho. A análise de um período literário, parafraseando T. S. Eliot, não deve ser feita simplesmente de olho nas pérolas expelidas, pois isto é claramente pouco: observemos a literatura mediana desse mesmo período e teremos um relatório muito mais fidedigno. Vale dizer: o que está sendo feito para que uma literatura, com toda a amplitude com que o termo merece ser tratado, mais acolha e debata do que aguarde o incalculável nascimento do próximo gênio, é uma incógnita que deve ser acompanhada de perto pelo crítico.

Afinal, se hoje se olha para a produção própria e puramente artística de um grupo como o Letra Livre e se torce o nariz, o exemplo inicial de Mendonça Teles está aí pra que nos lembremos que uma análise do fenômeno demanda uma análise também de seu próprio tempo, especialmente de potencialidades, vale dizer, linhas de força. Aí sim, caso o crítico advogue para si a tarefa da cartomante, estarão as bases para um prognóstico menos afeito ao erro, e aí sim, caso o crítico pretenda a si aquilo de manter viva a chama que Benjamin falava, também estarão os instrumentos para que se cale o alto clamor da quimera inconsolável.

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