Amnésia ou anestesia?

Quem lê o livro Gravando (editora Patuá, 2013), da paulista Aline Rocha, sente uma pontada de futilidade em quase todos os versos.

É provável que as raízes dessa tal futilidade estejam ligadas ao tom artificial que percorre o livro, o que a construção gráfica quem sabe ajude, com páginas todas em branco alternadas com páginas todas em preto, rolos de filme em miniatura indicando as páginas, um "The End" com Nosferatus no fundo fechando o livro etc etc. É possível. A máquina poética da autora não se movimenta no sentido de produzir grandes impactos no leitor, preferindo, antes, a notação pessoal com tendência à brevidade ou à incapacidade de percepção: é o que se pode ver num poema como Córdoba. Isso também ajuda.

Se o resultado geral disso tudo é ruim, não estou muito preocupado em respondê-lo. Enquanto livro de estreia, tendo em vista a estrutura do livro, bem cuidada, e tendo em vista os questionamentos gerais que a obra traz, é certo que se trata de uma autora que merece ser acompanhada de perto. Tentarei ser mais claro.

Digo que não estou muito preocupado em respondê-lo pois me interessa mais a posição do livro da autora numa das linhas de força que julgo existirem na poesia contemporânea ou, no mínimo, na condição contemporânea. Paulo Leminski dizia que já não sabia distinguir o que era sua própria vida e o que era cinema americano. E pressuponho que todos devem conhecer o show de Truman. Cito estes exemplos pois a forte influência do cinema no livro de Aline não se dá exatamente no âmbito das citações. Ouso dizer que nem mesmo numa perspectiva estrutural, pois nesse caso seria melhor nos lembrarmos de princípios como o eisenteniano, aproveitado com grande valia pela vanguarda concreta.

No geral o que se vê no livro da autora são situações bem demarcadas, sem grandes saltos externos e mesmo sem justaposições mirabolantes. Tudo muito sutil. Sutil até demais. Tão sutil que o leitor, acostumado com o que se entende no geral por poesia, isto é, algo que nos tira do chão ou que nos violenta, fica meio que sem entender onde está a poesia em textos tão ao rés do chão. E não se trata simplesmente de refutar tal desentendimento dizendo que do século XIX pra cá, ou talvez desde-sempre, a poesia operou ao lado do prosaico, visto que a questão em jogo é menos a respeito de materiais que de posturas adotadas.

O eu lírico de Aline Rocha, como disse, é fraco, não parece ter forças suficientes para que consiga validar o que é dito em entre tempos: "o presente é eterno / o poema petrifica". Se consegue, é só dentro de seu próprio quadrado, de modo que, se o leitor quiser crer que seu poema petrificou aquele presente eterno, ele terá que entrar na intimidade do que é sugerido no texto. Pois de fato: lendo a obra, estamos diante de uma voz lírica artificial, fútil, à maneira das personagens chapadas do cinema. Só que não se trata de uma espécie de monólogo de uma personagem imbecil, mas, antes, de uma pessoa comum que associa sua vida ao cinema e passa a viver como que num filme, o que a epígrafe com as últimas palavras de Goethe ("Luz, mais luz.") vem bem a calhar.

Daí também a lógica construtiva de entre tempos, pois, no cinema, aquele presente retratado vira eterno graças ao fato de que a arte cinematográfica o petrifica. O mesmo também acontece com o poema, podemos ver, embora o poema não possua a plêiade de recursos de reprodução que o cinema possua: ou seja, o cinema parece petrificar mais pois o cinema, afinal, tem recursos pra isso. E é nesse clima inventado por si própria que a poeta chega a textos como Sangue, certamente um dos melhores da coletânea, onde a ideia que temos é a de que ela se esqueceu de coisas básicas, de que ela, imersa nessa espécie de faz-de-conta, se esqueceu como faz pra viver. É, pelo menos a meu ver, a linha mestra que percorre o livro, o que pode ser visto também num texto como Todos os signos são hostis ou Este poema foi escrito na cidade de São Paulo, dois também dos melhores do livro.

Aqui o clima suspenso ou o convite dirigido ao outro, respectivamente, contribuem para esse distanciamento com algo que em tese deveria ser bem conhecido. E é nesse redescobrimento que a autora desvela o que existe por trás d"O sistema opaco do real" (Ninguém me segura na mobilete), até o ponto em que, na Carta para Alcides, ela se abre, estranha suas entranhas e se estranha com nós, leitores, por estarmos meio que bisbilhotando seu momento mais íntimo (e também mais belo).

Quem olhar pra trás ou para o lado poderá enxergar com segurança a voz de Ana Cristina César, e a relação tão dúbia e fascinante que adotamos frente àqueles textos intimistas e com tendência epistolar, e poderá enxergar também a última Marília Garcia, de Um teste de resistores (editora 7letras, 2014), que, já no primeiro poema do novo livro, se lembra do meta-cinema, onde as personagens olham pra câmera e quebram a magia da ficção contada. O caso de Marília é mais profundo, em grande parte pois ela se lança sobre sua própria obra e gera uma carga semântica mais rica que a de Aline Rocha. Assim, atos como o do desconhecimento de si mesma ou a fábrica da distância (isso do muito perto e do muito longe se inverterem) são análogos, com a diferença de que em Marília existe um espectro maior de alcance fundamentado, como disse, nos resultados a que ela chegou nos dois livros anteriores: assim, o périplo interior é enriquecido ao quadrado ao se revisitar sua primeira obra, bem como o périplo exterior ao se revisitar a segunda.

Não creio que Aline Rocha venha a se enveredar por tais meandros insuspeitos da metalinguagem, como o caso de Marília. Pois em Marília, por exemplo, a metáfora do meta-cinema conduz à reflexão, enquanto, em Aline Rocha, é a condição em que a autora se encontra. A que muitos de nós nos encontramos, creio que se pode pensar. Pois, embora o que se depreenda disso seja, a princípio, a amnésia de viver, é de se suspeitar que haja um efeito anestésico também, como se um pequeno salto fosse o suficiente para que suspendêssemos nossa experiência imediata (que nunca é imediata, isto é, sempre é mediada por aspectos externos muitas vezes opressores) afim de que, com isto, estejamos mais aptos a mergulhar com mais intensidade em tudo.

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