"Transcaatinga", de Marcus Fabiano Gonçalves.

Poucos têm trabalhado com tanta felicidade o tema da relação entre o ser humano e seu meio quanto Marcus Fabiano Gonçalves. E aqui, claro, não me refiro só ao meio-ambiente, embora ele possa ser visto em textos como TranscaatingaOfícios da Carne ou A máquina do fundo; refiro-me também às conotações que o Milton Santos aplica, vale dizer, o homem num meio técnico-científico-informacional, o que poemas como A Fala e a Folha demonstram como poucos (não exagero se disser, por exemplo, que entre esses "poucos" eu posso colocar na jogada um texto como o Un Coup de Dés). E mesmo isso não seria o bastante para caracterizar sua poesia, pois esse meio que me referi pode também ser o meio de profundas disparidades, como no caso dos poemas Eppur si muove ou Jack e o FGTS... Daí você ponha reparo nas implicações de um trabalho tão amplo da relação homem-meio calcada numa escrita que remete à cabralina.

Se quisermos voltar para o caso de Transcaatinga, a forma do poema tem o que revelar. Dividido em duas colunas, a primeira lembra uma espécie de definição ou de descrição, enquanto a segunda, pelo menos, ganha no aspecto concisão. Claro que nem todo verso se definiria assim, pois, para sermos simplesmente mais genéricos, o que temos é um primeiro verso mais longo que permite captar um número maior de detalhes, uma pausa, e então outro verso, como disse, compacto.

Se aceitarmos essa espécie de dicotomia, é como se houvesse alguma espécie de operação ou mudança entre a primeira banda e a segunda banda. Quem sabe o que o próprio poeta parece ter aludido ao dizer, no título da postagem, Bioma : Paisagem. Haveria alguma diferença? Se entrarmos na correlação simples de que o que é conciso é seco, enquanto o que é muito bem descrito é vívido, teríamos uma espécie de desertificação da paisagem no processo da leitura. Claro que uma hipótese assim no máximo funcionaria aqui ou ali, pois existem outros fatores a se considerar.

Na verdade, não creio que no geral exista uma espécie de contraposição entre uma banda e outra. Com frequência o que vemos é uma continuidade, o que não impede que cada banda guarde sua particularidade. A ideia de Transcaatinga, como exposto no título, pode nos remeter não bem a um processo dicotômico entre algo aparentemente seco, direto, sem-vida, para algo que supostamente conteria vida ou, de maneira ainda mais detida para o âmbito do texto, algo que em tese possuiria mais vida, visto que possui os instrumentos para indicá-lo. (Mesmo porque a ideia de que a primeira banda os possuiria e a segunda não pode ser abalada se nos lembrarmos que está na segunda banda a rima.) Há ainda um pequeno detalhe que muda a dinâmica do poema.

Transcaatinga pois, se aceitarmos que existe uma continuidade entre os versos no geral, o espaço em branco é uma fenda imposta. E daqui podemos voltar ao sertão de Guimarães Rosa, que termina com a tal da palavra "Travessia". É como se Marcus Fabiano quisesse que andássemos pela fenda, meio que ligando os pontos entre um lado e outro e encontrando o nexo. O qual nem sempre existe, você pode perceber: veja-se o caso de "radiografia de ave         fóssil de braços". Um nexo lógico não existe. Mas, pondo a imaginação pra funcionar, e aguçando os sentidos, pois no geral os poemas do poeta servem pra isso mesmo, você vai saber muito bem do que se trata.

Transcaatinga, sendo assim, como desafio análogo ao de Rosa e, ao mesmo tempo, como espécie de teste de resistência, posto que a paisagem descrita é uma só e não destoa do que esperamos encontrar. E é justamente nessa dinâmica em que um simples espaço em branco pode conotar um convite ou um trampolim para a reiteração metafórica (o que pode, por sua vez, ser o bastante para que fecundemos o solo ou constatemos sua morte definitiva), que o poema de Marcus não apenas descreve um cenário tão terrível, como também nos convida a no mínimo reconsiderarmos aquele espaço.

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