Dois descontentamentos goianos.

Quem visita a página de facebook Rabiscos e Escarros (aqui), com obras de Heitor Vilela, entra num mundo de psicodelia e transgressão. Um mundo que pode ser posto ao lado do mundo do poeta jataiense José Godoy Garcia. Senão vejamos:

Nem tudo que Heitor tem produzido pode ser considerado a rigor poesia. Em alguns casos, temos frases ilustradas: e muitas páginas de poesia no facebook também entram na mesma condição, de bailarem em torno do aforismo, da frase de efeito e do enunciado propriamente poético. Isso tem e não tem muita relevância. Pode não ter pois ser ou não poesia não muda muito a ordem dos fatores, mesmo considerando que o artista tenha querido fazer poesia e no final das contas não tenha feito: isso por si só não é sinônimo de incompetência, se o resultado geral for bem realizado. E pode ter pois precisamos entender a poesia de Heitor como panfletária. Só que não uso o termo "panfletário" com um juízo de valor incutido. Digo que é panfletária pois é isso o que ela é: tanto no sentido literal, de poesia que se pretende nas mãos do povo por meios artesanais, e panfletário no sentido de tender a expressar-se politicamente de forma explícita. E de fato. Quem prestou atenção na aurora goiana das jornadas de junho pôde perceber cartazes feitos pelo artista espalhados principalmente em pontos de ônibus da cidade. Para além do fato de que os livros publicados pelo artista, chamados "zines", são manuais, caseiros, se aproximam da manufatura da geração mimeógrafo.

Não nego que o termo panfletário possa vir com uma espécie de juízo de valor. Pelo menos é assim que ele tem sido tratado ao longo dos anos. O que é um enorme equívoco, pois existem e existiram poetas panfletários que merecem atenção, pra não dizer no fato de que o panfletarismo não é sinônimo de baixa qualidade estética. Cite-se o caso de um Maiakóvski e, creio, teremos um bom exemplo. Afinal de contas, no que residiria a baixa qualidade da obra panfletária? Numa espécie de estatística geral? Ou no fato de se aferrar a problemas que não são considerados universais? No fato de diluírem a realização estética em prol de uma mensagem politicamente guiada?

Das três perguntas, é provável que só a terceira tenha cabimento. Afinal de contas, a maior parte da poesia é ruim. E isso pra poesia panfletária ou pra poesia amorosa ou metafísica. A questão dos problemas universais é ainda mais questionável, pois parece fugir do assunto. Não só muitos problemas denunciados pela poesia panfletária não são resolvidos por um passe de mágica, como nem sempre a poesia panfletária se aferra a simplesmente um só problema. Querer dizer, por exemplo, que o factível panfletarismo de um poema como O Navio Negreiro envelheceu pois o problema foi resolvido é de uma simplicidade histórica gritante. Envelheceu mesmo ou persiste no cano da pistola e no pontapé da piada? Um problema como o racismo ou a discriminação infelizmente é mais universal do que podemos pensar. Quem sabe mais universal ainda do que um tema como o amor, a alma, o mundo ou outro fantasminha camarada, se observarmos que padrões de opressão não costumam mudar tanto. Por quê partir do princípio que as ditas passagens panfletária dO Navio Negreiro denunciavam só e somente a questão escravocrata? A universalidade do tema costuma ser muito mais uma espécie de boa-vontade seletiva do leitor, de aceitar uma correlação mais ampla e historicamente posta com alguns temas (melhor dizendo: alguns modos de execução) e não com outros.

A terceira questão, sendo assim, da diluição estética em prol de uma mensagem politicamente guiada, deve ser traduzida no sentido de que uma mensagem, por revolucionária que seja, pode muito bem se valer de instrumentos artísticos ou expressivos conservadores, ignorando a máxima maiakovskiana de que não existe arte revolucionária sem forma revolucionária. Uma leitura à priori da obra de Heitor poderia nos revelar que o artista cai em tais armadilhas, posto que não são poucos os exemplos de poemas ou textos que parecem cair no óbvio, no esperado. Citarei dois exemplos:


A única coisa que há para ser notada tanto numa imagem quanto noutra é que uma análise puramente literária está descartando boa parte do que a obra tem a oferecer. Embora o texto que acompanhe a imagem reafirme o senso comum de maneira poeticamente comum, é de se notar o estilo de composição do artista, vale dizer, o tom psicodélico com que a obra é feita, com cores no geral muito fortes no fundo e letras tortuosas, cheias de dobras e invaginações e próximas de contornos elípticos. No primeiro caso, temos simplesmente uma imagem que diz tal e qual o que foi dito pelo texto: logo, redundância do que já é por si mesmo redundante. No segundo temos, contudo, um exemplo de como a consideração da imagem dá uma dimensão qualitativa superior ao conjunto, pois que temos um fundo, como disse, psicodélico, e uma personagem desenhada em preto e branco, como se o que Heitor quisesse nos dizer fosse que a personagem está vazia num mundo abarrotado, ou que ela efetivamente conseguiu se alhear da realidade, conforme o texto nos diz.

Essa forte dimensão psicodélica nas obras do artista decorrem de uma visão sensual de tudo. Isso o faz como que viver com os nervos à flor da pele, pronto pra sentir tudo de todas as maneiras, como dizia Álvaro de Campos. Exemplos:


O primeiro se refere ao tema da morte cotidiana, aquilo que o romancista goianiense contemporâneo Wesley Peres chamou de as pequenas mortes. Não só Wesley, é claro. Vários outros também usaram a expressão, seja se referindo ao desgaste cotidiano, seja, à guisa da expressão francesa petit mort, falando do orgasmo. É um detalhe digno de nota. Pois se na terceira obra temos o caso da morte aos poucos, inclusive próxima do bolor, da putrefação, no quarto teríamos a pequena morte do orgasmo numa imagem impactante para nossa moral e bons costumes. Para alguém com uma subjetividade tão à flor da pele, a pequena morte do orgasmo não pode se comparar ao desgaste cotidiano de uma vidinha entediante e qualquer. É preciso uma intensidade muito maior que isso. Se for pra morrer, então que essa morte até seja pequena, mas pequena e intensa o bastante pra anular todas as outras e nos levar juntos. Morrer nos braços do outro etc.

Vejamos dois exemplos de obras bem realizadas do autor:


Agora não só o texto possui interesse por si só, como a imagem, já dissemos, se torna uma fonte semântica importante. E não me parece ser à toa o fato de que uma é mais ou menos continuação da outra, o que pode ser visto especificamente pelo fato do tom esfumaçado do fundo compôr-se das cores azul e cinza. No primeiro caso, temos meio a meio, simulando exatamente o que o texto diz, embora seja digno de nota o fato de que a parte cinza rodeia o rosto desenhado: uma consequência do jogo de palavras que o artista fez em torno de "respiro", substantivo ou primeira pessoa do verbo. Já no segundo caso, as pequenas zonas azuladas retratam "A nostalgia de um dia / nublado com vento no ar". O que essa relação entre as duas imagens girando em torno do cigarro tem a nos dizer é que o cigarro está ligado tanto ao prazer quanto à poluição. Citando o soneto de Laforgue, na tradução de Augusto de Campos:

      Sim, este mundo é chato, e o outro, uma graça.
      Eu vou resignado, sem me fiar na sorte,
      E pra matar o tempo, enquanto espero a morte,
      Lanço ao nariz dos deuses fitas de fumaça.

Logo mais o poeta trata da verdadeira viagem que aquela traga lhe proporciona: "Mergulho em êxtase sem fim, cabeça cheia / De ópios febris de alguma estranha taça." Versos que, provavelmente, resumem muita coisa na obra de Heitor.

Essa relação sensual com a vida, não sei se disse, está diretamente ligada à participação política que se emplastra nos textos do artista. Sensualidade e resistência. Sensualidade e desobediência. Essa fórmula não é nova. Ela possui pelo menos raiz nerudiana, ou, no caso do nosso Estado, ela está intimamente ligada à obra de José Godoy Garcia (1918-2001).

Em Godoy Garcia, enxergamos um ideal humanista que serve de estrela guia; um ideal aliado à luta contra o imperialismo, a opressão ou, em suma, as mazelas ao redor. Em sua primeira obra, Rio do Sono (1948), o poeta faz uma dedicatória a todos os homens, exceto Hitler e Mussolini. Com muitos poemas ligados à terra e às tradições do que entra em contato, o poeta diz, em Medo,

      A terra tem cor de sangue.
      A terra não é feliz.
      A terra tem cheiro de pântano.
      A terra não é feliz.

Vários outros poemas do livro possuem uma conotação noturna. Por exemplo A noite passa como um animal selvagem, que fecha com: "Sem nenhum ranco / diremos: a noite é triste." Ou Noturno desesperado, aqui citado na íntegra:

      Estranha boca
      dentro da noite pedindo cigarro.
      Humildes pés medindo o espaço
      frio e profundo da noite.
      Estranhos olhos mortos,
      de corpo que passou fomo
      dentro da noite.
      Dentro da noite, o silêncio.

Versos assim pode dar uma noção puramente crepuscular da obra de Godoy Garcia. Num poema como Elegia do nascimento da manhã, o poeta começa dizendo que o dia "nasceu e cresceu como flor" para, no final, dizer que "Nas ruas, nas ruas se maltrataram / foi tiro, foi coice, / nas ruas se engalinharam." Só que isto é uma meia verdade. Pois basta lembrar que Sérgio Buarque de Hollanda se referia à ausência de notas lúgubres no livro de estreia do poeta jataiense para observarmos que sim, de fato existem versos em que notas coloridas surgem. Notas sensuais, para retomarmos a expressão antes usada. Poderemos ver isso melhor em livros posteriores, pois o efeito geral do primeiro livro parece ser o de letargia, o de sono. Veja-se o caso de Araguaia mansidão (1972), onde, no poema Minha saga no rio Araguaia, primeira parte, o poeta diz:

      Debruço-me sobre o barco
      e carrego a vida
      que rola pela face da terra.

No livro A casa do Viramundo (1980), no poema homônimo, ele fechará proclamando a construção de uma casa à maneira daquela de Vinicius de Moraes, com a diferença de guardar uma mensagem muito mais positiva: uma mensagem de totalidade, de que a casa que o leitor vê é uma casa que se confunde com o mundo: "uma casa de chão e céu!"

As notas de desencanto voltarão aqui e ali em seus textos, aliadas a críticas mais diretas como as presentes em passagens de O Flaustista e o Mundo Sol Verde e Vermelho (1994), de um título que demonstra um cromatismo evidente, o que, conforme disse, isto é, de que a poesia de Godoy Garcia se inscreve numa matriz nerudiana, implica por conseguinte um veio surrealista perpassando os versos de polo a polo aqui e acolá. Veja-se, da primeira parte do livro,

      Um caminho é sempre
      um caminho é sempre um rato e um pássaro
      um caminho é sempre um sonho
      um caminho é sempre um sonho que abre o mundo

Da segunda parte, sub-intitulada (Agora que Acabou a Guerra-Fria), teremos a tecnologia Epson, Action Laser 1000 ao lado de Zé do Caixão e Elke Maravilha. Para além de versos que continuarão a temática do sonho (por exemplo "O sonho pode me fazer um simples horizonte. / Mas não me conformarei.") e trarão a sensualidade que notamos na obra do poeta (como em "Dê uma camisinha para o seu namorado. / Não, irmã, não dê mais nada ao seu namorado. / Senão a camisinha que Deus lhe deu. / A deusa mais íntima, a estrela vespertina, abelha."). Na terceira parte, o poeta falará que "As ruas e os automóveis engrossaram / com o homem (...)", citará Mandela, as árvores do cerrado, dirá que "A poesia está solta no mundo, sim" e chegará ao epigrama:

      Quando o homem nasce
      o mundo nasce com ele.
      Quando o homem morre
      o mundo morre com ele.

Em O dinossauro dos sete mares (1998) leremos que "A poesia está no mundo. O mundo quer o ar / pra respirar. Quer também a poesia." (Poetas) Terá seus momentos de ataque direto (por exemplo em Dinossauros dos sete mares, que abre com a palavra "Canalhas"), seus momentos de sensualidade (o primeiro verso de Tocantínia, "Tocantínia, romã, mulher."), sua firme convicção em um mundo melhor (basta o título: Eu posso transformar o mundo).

Estas as notas mestras na poesia do autor. De maneira geral repetitivas, como repetitiva é a matriz nerudiana. Naturalmente que se isso demonstra que o pior inimigo do poeta é o próprio poeta, ao mesmo tempo não quer dizer que por si só baste para descartarmos a poesia do autor. Julgar um poeta por seus piores momentos, ou pelos momentos em que nem ele mesmo conseguiu reproduzir o brilho de outrora, é um pressuposto crítico espúrio.

Pois bem. Se o que pude expôr de José Godoy Garcia foi bem exposto, creio que o leitor poderá observar a convergência entre sua poesia e a obra de Heitor. Eclodirem uma obra e outra no solo goiano não é digno de espanto, bastando que se observe que, por exemplo, Goiás abraçou, entre outros, a Poesia Práxis e nem tanto a Poesia Concreta. A busca por uma vida em que a liberdade traga consigo uma relação com o mundo mais vívida e menos padronizada, a batalha em prol da emancipação humana pode parecer traçar longas linhas de panfletarismo ralo. Enquanto leitor de poesia contemporânea, afirmo a você que essa impressão não é totalmente falsa, embora, uma vez exagerada, torne-se. Todavia, também como leitor, não posso me limitar a enxergar somente tal dimensão estética, principalmente quando considero essencial para entender, da maneira mais ampla possível, o fenômeno da poesia contemporânea, que uma gama maior de fatores seja posta em análise. Godoy Garcia viveu as Grandes Guerras, Godoy Garcia abraçou o comunismo às portas do Regime Militar e se manteve coeso até o fim da vida. O passado de Godoy Garcia não é um passado alienígena. Ainda este ano, a infame operação R$ 2,80 da Polícia Civil, sempre tão reles na escolha de títulos de efeito, prendeu, em 23 de maio, quatro estudantes da UFG, entre eles Heitor Vilela. Os estudantes foram liberados em 29 de maio, e você pode conferir uma entrevista com Heitor, pela UEE, aqui.

Quem poderá dizer, diante dos fatos, que a obra de Heitor, como antes a obra de Godoy Garcia, é obra de subversores, de "baderneiros de rua"? Como crítico, como leitor, como contemporâneo, não ignoro as longas linhas de panfletarismo ralo antes afirmadas. Mas isso não exclui o fato de que tais linhas são, por isso mesmo, consistentes e ligam um presente massacrante e um passado vexatório a um futuro melhor. É o bastante para que tenham de mim o mais genuíno entusiasmo.

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