"Os Números", de Alfred de Vigny.


(Retrato de Henri Mondeux)


§

OS NÚMEROS.
A Henri Mondeux, matemático de quatorze anos.
     Surgem pra ti, criança, os números no espaço
     Como o coro celeste e harmônico se expande,
     Se mescla no ar e se assemelha no entrelaço
     De constelações para os teus olhinhos grandes.
     As cifras são para você degraus informes
     Que fazem tropeçar teus números enormes,
     Parar teu passo e ao gozo ordenar que se abrande.
     Quando você os põe no papel ou os desenha,
     É em usar nossa língua que você se empenha,
     Embora eu veja que você sofre em pintá-los,
     Espíritos de luz de aparência nefasta,
     E o veja organizá-los em cadeia vasta
     Sem bastar pouco mais que apenas contemplá-los.
     ― Vai, pois é poesia ainda o que em teu seio
     A álgebra transcreveu em fogo e bruxuleio:
     E do elemento etéreo ela te deixou cheio.

          Pois o poeta vê sem régua
          O segredo da esfinge; assim, se
          No céu ele tem olhos de águia,
          Na terra, tem olhos de lince.

§

A POESIA DOS NÚMEROS.
trad. André Vallias, aqui aqui.
     Os números, jovem, no céu te vão surgindo,
     Côro em movimento de seres graciosos;
     Juntos pelo ar, se misturam, se comprimem
     Em constelações para o gozo dos teus olhos.
     Nossos algarismos ― degraus descalonados,
     Pedras de tropeço no encalço dos comparsas
     Incomensuráveis que brincam nos teus jogos.
     Porém, se te forçam a deitá-los por escrito,
     Nas letras de fôrma de um homem esclarecido,
     Te vemos sofrer, desenhando relutante
     Os entes de luz nos sombrios simulacros,
     Fechando em cadeias de ferro tão pesado
     As cifras que vês no piscar de um só instante.
     ― Anda! É a poesia que risca no teu corpo
     A álgebra infalível dos símbolos de fogo,
     Enchendo o teu ser da divina substância:
     Poetas enxergam sem régua
     A senha secreta da esfinge,
     Têm olhos de águia no céu,
     Na terra, têm olhos de lince.

§

A POESIA DOS NÚMEROS.
trad. Paulo Leminski, aqui.
Agradeço a Ivan Justen Santana pela lembrança.
     Os números, criança, no céu te aparecem,
     Móvel coro de espíritos harmoniosos
     Que se unem no ar, se confundem, se parecem,
     Constelações perfeitas pra teus grandes olhos.
     Para ti, as cifras são lentos degraus informes,
     Embaraçam os pés de teus números enormes,
     Vão retardar teus passos, estragar seus gozos;
     Se tua mão os escreve ou desenha seus nomes,
     É pra te conformar à linguagem dos homens;
     Mas te vejo penar ao pintá-los bem lento,
     Espíritos de luz em imagens de sombra,
     E ao encadear estes números de arromba
     Que um só dos teus olhares vê num só momento.
     Vai, é poesia ainda que, em tua alma,
     Exata pinta a álgebra em frases de chama
     E a preenche toda com o divino elemento:
     Pois o poeta vê sem regra
     O verbo oculto das esfinges;
     Para o céu tem olho de águia
     E para a terra olho de linces.

§

LES NOMBRES.
A Henri Mondeux, mathématicien a quatorze ans.
     Les nombres, jeune enfant, dans le ciel t'apparaissent
     Comme un mobile choeur d'esprits harmonieux
     Qui s'unissent dans l'air, se confondent, se pressent
     En constellations faites pour tes grands yeux.
     Nos chiffres sont pour toi de lents degrés informes
     Qui génent les pieds forts de tes nombres énormes,
     Ralentissent leurs pas, embarrassent leurs jeux;
     Quand ta main les écrit, quand, pour nous, tu les nommes,
     C'est pour te conformer au langage des hommes,
     Mais on te voit souffrir de peindre lentement
     Ces esprits lumineux en simulacres sombres,
     Et, par de lourds anneaux, d'enchaîner ces beaux nombres
     Qu'un seul de tes regards contemple en ce moment.
     Vai, c'est la poésie encor qui, dans ton âme,
     Peint l'algèbre infaillible en paroles de flamme
     Et t'emplit tout entier du divin élement :

          Car le poète voit sans règle
          Le mot secret de tous les sphinx;
          Pour le ciel, il a l'oeil de l'aigle,
          Et, pour la terre, l'oeil du lynx.
1841

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Leia algo mais sobre o moleque no CDNCaqui, na biografia de Hyppolyte Barbier, aqui, e na de Emile Jacoby, aqui. (Quem sabe um dia eu não biografe o menino, como fiz com Rimbaud?) O original (daqui):

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