Mikhail Bakhtin (1894 - 1975).

Postei hoje, no Fórum Valinor (aqui), uma notinha sobre Bakhtin, dando um "enfoque" para o dialogismo e a carnavalização. É algo extremamente curto e inócuo. Havia intentado ler a obra toda do autor e reler o que já havia lido (cerca de 80%), mas não consegui. Então, o que saiu foi o texto que se lê abaixo, inegavelmente pobre.

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(Mikhail Bakhtin, 1895-1975. Créditos.)


1. VIDA.

Você não vai encontrar muita coisa detalhada sobre a vida do Bakhtin. Vou postar, como imagem, um trecho da revista Pensadores, onde, além de um quadro biográfico do autor, há uma exposição muito didática sobre sua obra (Créditos):




Há, contudo, toda uma discussão acerca da vida e obra de Bakhtin. Entenda-se: alguns dizem que os textos de Bakhtin não são só de Bakhtin, mas de outros autores do Círculo, por exemplo Valentin Volóshinov (1895-1936). Um livro recente a esse respeito é o Bakhtin Desmascarado, publicado pela Parábola Editorial, e de autoria do Jean-Paul Bronckart e Cristian Bota (aqui). Não encontrei muitas resenhas a respeito. Basicamente, só uma, do Celso Ferrarezi: De Monumento a Escombro, aqui. Alguns contra-argumentaram as afirmações dos autores, e eles, depois, escreveram um artigo de tréplica. É este aqui, traduzido por Marcos Bagno.

Como obras de Bakhtin publicadas no Brasil, cito, valendo-me da Wikipédia:

  • Freudismo. SP: Perspectiva, 2004.
  • Marxismo e Filosofia da Linguagem. SP: Hucitec, 2009.
  • Cultura Popular na Idade Média: o contexto de François Rabelais. SP: Hucitec, 2010.
  • Estética da Criação Verbal. SP: Martins Fontes, 2010.
  • Problemas da poética de Dostoiévski. SP: Forense, 2010.
  • Questões de Literatura e de Estética . SP: Hucitec, 2010.



2. O FORMALISMO RUSSO.

O início do século XX na Rússia foi uma das coisas mais esplendorosas que se pode pensar. Não só pela grande efervescência que culminou nos dias que abalaram o mundo, mas também pela alta qualidade da arte que foi produzida bem como nos debates ocasionados. No âmbito literário, pode-se citar os poetas simbolistas russos seguidos dos poetas de vanguarda, que, em nomes tais como Maiakóvski, Khlébnikov, Tzvietáieva, Akhmátova ou Iesiênin, foram responsáveis por colocar a poesia russa não só em sintonia com o que era feito na aurora modernista, mas, de maneira geral, muito à frente do que era feito no mundo.

É quando, por exemplo, se explora a palavra em todas as suas possibilidades graças ao trabalho formal de um Khlébnikov, que chegou a escrever poemas todos em palíndromos. É também a chance de que um poeta de matiz social e de pesquisa poética tão refinada como Maiakóvski se valha de sua alvenaria artística para trazer a realidade externa pra dentro do poema, e isso sem que o poema perca em qualidade estética. Por exemplo, Maiakóvski canta a amada ao mesmo tempo que discorre sobre as guerras e as revoluções ― algo que, como bem nota Haroldo de Campos, pode encontrar um correspondente funcional no caso do Oswald de Andrade de Cântico dos cânticos para flauta e violão, que pede Maria Antonieta Alkmin em casamento ao mesmo tempo que canta as vicissitudes da Segunda Guerra.

Contudo, não só de literatura se fez o começo do século XX na Rússia. A teoria e a crítica literária também foram de uma importância quase que incalculável. E daí você pode perceber o quão rico foi o período.

Estou falando do que se convencionou chamar de Formalismo Russo. Em linhas gerais, os formalistas russos abstraíam a obra de sua conexão externa e a investigavam apenas sob a ótica de seu funcionamento interno. Muitos enxergaram nisso um excesso no enfoque formal, e daí a alcunha do nome ao grupo. Você só tem que tomar cuidado e se lembrar que esse nome foi dado pelos opositores dos formalistas, e que, na verdade, isso não queria dizer que os formalistas se alienavam da realidade externa, mas, antes, que o que os preocupava ao abordar a crítica literária como ciência era enxergar o funcionamento interno. Afinal de contas, dizer que os formalistas se preocupavam apenas com a forma é um absurdo, visto que os formalistas foram os primeiros a romper com a dicotomia forma-conteúdo: para eles, era mais producente que se considerasse o binômio materiais-procedimento. E, dentro da categoria dos materiais, você poderia incluir praticamente qualquer coisa, desde o material gráfico até os sentimentos.

Se eu citar pra vocês uma obra como a Morfologia do Conto Maravilhoso do Propp vai dar pra perceber bem como era o modus operandi dos formalistas. A análise de uma vasta gama de contos populares fez com que Propp chegasse a algumas funções basilares do mesmo, como que desvendando o esqueleto subjacente ao gênero e, por conseguinte, lançando as bases para os posteriores estudos narratológicos (que seriam melhor desenvolvidos com os estruturalistas ― mas não se pode, todavia, igualar estruturalismo e formalismo).

Outro exemplo estaria na pesquisa da chamada literariedade, ou seja, o que faz com que um texto literário seja literário. Aí existem muitas perspectivas, como a de Viktor Shkóvski que tratava a linguagem literária como violência para com a linguagem cotidiana: ou seja, texto literário é aquele que não cumpre meramente uma função comunicativa, instrumental, mas que retira o material verbal de sua esfera prosaica e lhe insufla uma exuberância capaz de torná-lo literário. Daí, entre outros, o que Shklóvski chama de economia de meios, pois a concentração significativa da linguagem literária, apartada da linguagem comum, permite com que o texto literário se comunique com mais força(s) e a mais pessoas e por maior tempo.

Outro exemplo dentro da linha da literariedade são as investigações de Jakobson dentro da área da poética. Na verdade, Jakobson foi um linguista de extrema importância, tendo sido também um dos pais da fonética. No terreno da poética, Jakobson formulou a teoria da função poética da linguagem. É simples de se entender. Quando falo com você, existe um emissor, um receptor, um canal, uma mensagem, um código e um contexto. Se imaginarmos como seria uma comunicação com enfoque em apenas uma dessas partes, teremos uma função linguística em específico. Claro que na prática isso não existe, de modo que uma função linguística pura feriria a própria estrutura comunicativa, de modo que falamos em termos de predominância ou ênfase. Assim, pra encurtar o argumento e chegar logo no X da questão, se imaginarmos um texto em que a mensagem se volta para a própria mensagem, temos a tal da função poética da linguagem. Isso parece ser um pouco abstrato, mas, para encurtar de novo o argumento de Jakobson, a função poética da linguagem quer dizer que os aspectos sonoros de um texto, os aspectos materiais, são elevados a princípio constitutivo do texto. É só pegar um poema e ver aquela sonoridade, aquela forma de trabalhar as palavras onde existe como que uma materialidade ― você quase que apalpa as palavras, tão forte é a forma como o poeta as trabalha.



(O Círculo. Bakhtin é o barbudão. Créditos.)


3. DIALOGISMO.

Bakhtin problematiza. Não tudo, pois, a esse respeito, como nos lembra Tzvetan Todorov na introdução ao livro Estética da Criação Verbal, ele também aceitava a diferença entre o poético e o não-poético, censurando, contudo, o fato de que os formalistas reduziam as questões poéticas apenas a questões de linguagem. A esse respeito, em Estética da criação verbal (trad. Paulo Bezerra, editora Martins Fontes, 2003, p. 178):

O procedimento artístico não pode ser apenas um procedimento de elaboração do material verbal (o dado linguístico da palavra), deve ser antes de tudo um procedimento de elaboração de um determinado conteúdo, mas neste caso com o auxílio de um material determinado. 

E (idem, p. 178-179):

No entanto, a superação da língua enquanto superação do material físico é de natureza de todo imanente, não se supera através da negação mas do aperfeiçoamento imanente em um sentido determinado e necessário. (A língua em si mesma é indiferente em termos axiológicos, é sempre escrava e nunca um objetivo, serve ao conhecimento, à arte, à comunicação prática, etc.) 

É dentro dessa crítica que Bakhtin desenvolve o conceito de DIALOGISMO, um dos principais em sua obra. Ele quer dizer, basicamente, que todo ato de conversa, de expressão, é um ato dialógico, é um diálogo, ou seja, pressupõe e necessita de outra pessoa para que se efetive. Assim, Bakhtin dá total atenção ao fenômeno prático da linguagem, e não simplesmente a um estudo que tendesse só ao esqueleto dessa mesma linguagem, à guisa da virada saussuriana. Se pensarmos nos seis componentes da comunicação humana (emissor, receptor, mensagem, código, contexto e canal), é como se Bakhtin tivesse suprimido o receptor, entendendo que, no âmbito da linguagem, nós sempre somos emissores.

A exposição filosófica que Bakhtin faz do dialogismo está inclusa, com maior força, no livro Estética da Criação Verbal. Pois é diante da impossibilidade de que eu me veja externamente e, por conseguinte, me situe ética e cognitivamente no mundo de maneira completa, que eu preciso do Outro, pois o Outro me vê por fora e, portanto, pode me ajudar a me situar no mundo. Há uma passagem muito bonita do livro em que Bakhtin diz (idem, p. 38-39):

(...) Porque só o outro podemos abraçar, envolver de todos os lados, apalpar todos os seus limites: a frágil finitude, o acabamento do outro, sua existência-aqui-e-agora são apreendidos por mim e parecem enformar-se com um abraço; nesse ato o ser exterior do outro começa uma vida nova, adquire algum sentido novo, nasce em um novo plano da existência. Só os lábios do outro posso tocar com meus lábios, só no outro eu posso pousar as mãos, erguer-me ativamente sobre ele, afagando-o todo por completo, o corpo e a alma que há nele, em todos os momentos da sua existência. Nada disso me é dado vivenciar comigo, e aqui a questão não está apenas na impossibilidade física mas na falsidade volitivo-emocional de direcionar esses atos para si mesmo. Como objeto do abraço, do beijo, do afago, a existência exterior limitada do outro se torna axiologicamente rija e pesada, um material interiormente ponderável [il.] para se enformar plasticamente esculpir um dado homem não como espaço fisicamente acabado e fisicamente limitado, mas como espaço vivo esteticamente acabado e limitado, como espaço esteticamente acabado do acontecimento. (...) 

Daí a importância que Bakhtin dá ao romanesco, pois é ele que permite essa consideração do Outro e, portanto, do diálogo, com maior força. E será com base nesse enfoque, precisamente quando o Autor deixa que a Personagem fale e portanto dá maior vazão ao Diálogo, especialmente quando o Autor se vale de um discurso parodístico que está sempre se comunicando com um discurso matriz; é com base nesse enfoque que depois a semióloga Julia Kristeva criará o conceito de intertextualidade, tomando como base a máxima de que todo texto é um mosaico de textos, isto é, de que todo texto está sempre se comunicando com outros. Trata-se de uma ideia calcada em cima da ideia bakhtiana de POLIFONIA, vale dizer, a presença de vários textos dentro de um texto graças ao fato de que o autor está situado em determinado contexto. Pense-se, por exemplo, a respeito da utilização ou simplesmente dos influxos diretos dos textos jornalísticos dentro de um romance ou do arcabouço dos textos populares dentro do texto poético. A polifonia está diretamente ligada ao conceito de HETEROGLOSSIA, também de Bakhtin, que quer simplesmente dizer que existem variedades linguísticas graças ao fato de que a realidade é socialmente ampla, e a inserção, por exemplo, numa profissão ou noutra é o suficiente para que uma variedade linguística se valide. Noutras palavras, a ideia de jargão: por exemplo o juridiquês.



4. CARNAVALIZAÇÃO.

Dentro do enfoque dialógico, Bakhtin desenvolve a leitura do CARNAVAL. Está na obra A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. Carnaval se refere a festividades que ocorriam paralelas às festividades sacras durante o medievo e a renascença. Existem muitos exemplos, dentre os quais se pode o Unguentarius do tcheco arcaico, estudado por Jakobson, as fratrasies do século XIII, ou, alguns anos depois e no plano poético, a obra dos goliardos. Você pensa que era tudo muito sério, posto que medieval, católico, cavaleiresco, sei lá; mas, quando entra em contato com esses textos, vê uma avacalhação que se brincar nem hoje em dia nós chegamos.

Assim, esse Carnaval, baseado no riso, na paródia e, portanto, no dialogismo, ganha todo um enfoque por Bakhtin ao pegar a obra de Rabelais e observar a apropriação dos materiais conseguidos pelo Carnaval. Outros exemplos citados por Bakhtin são Shakespeare e Cervantes, mas também podemos nos lembrar de nomes lusófonos como Gil Vicente ou Mário de Andrade (Macunaíma), este último muito bem estudado por Gilda de Mello e Sousa sob perspectiva bakhtniana.

Naturalmente que isso não quer dizer que Bakhtin considerasse como válida apenas a obra sarcástica, cômica. Bakhtin também possui grandes estudos em torno de Dostoiévski, em que ele destaca a construção dialógica do autor russo, vale dizer, a forma como Dostoiévski imerge na personagem e dá voz a ela, deixa que ela trave um diálogo sobretudo com a voz do Autor. Assim, de forma mais ampla, Bakhtin rechaça o unívoco, o padrão, o monológico, e prefere o ambivalente, o ambíguo, o amplo, reivindicando, como vimos, e tendo como base especialmente o marxismo, uma interpretação participativa, socialmente voltada uma vez que, segundo o autor, não se pode pensar questões linguísticas ou literárias sem considerar esta realidade prática.



5. SUGESTÃO DE OBRAS SOBRE BAKHTIN.

Bakhtin se encontra muito bem traduzido no Brasil. Muitas traduções direto do russo, como, por exemplo, a do livro Estética da Criação Verbal. Caso o leitor não esteja com muita coragem de enfrentar a obra de Bakhtin direto na fonte, ou caso não tenha tempo, dou a sugestão de dois livros, ambos organizados por Beth Brait, uma das maiores especialistas em Bakhtin no Brasil:

  • BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. SP: Contexto, 2005.
  • BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. SP: Contexto, 2006.

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