CA Conrad (1966 - ).



Compartilho a opinião de Eileen Myles de que CA Conrad é um artista hipnótico. E que sua poesia talvez possa ser fruída se a localizarmos nos balaios da estética relacional de Bourriaud. Você pode ler isso num artigo para a Jacket Magazine nº 40, de 2010: aqui. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o poeta, é só acessar seu blog pessoal, aqui.

A escrita dos primeiros intitulados traduzidos não é nem um pouco simples, mais parecendo um amontoado de recortes ou de frases sem nexo, guiadas por um título que parece ser mais claro do que o próprio conteúdo em si, quando, no geral, costuma ser o contrário. A definição de Anne Waldman da poesia do autor como "voyeuresque surreal portrait" me parece correta. Mas certamente trata-se também de uma herança dos processos usados por poetas do movimento L=A=N=G=U=A=G=E (de que a subjetividade seja posta entre parêntesis contextuais, de modo que, caso nós, leitores, queiramos "habitar o coração" do poeta, será necessário entrar pela porta dos fundos, pela janela, pela chaminé, arrombar a porta etc); uma herança da L=A=N=G=U=A=G=E, quem sabe aquela Susan Howe de livros como Peirce-Arrow onde a investigação do prosaico não é feita simplesmente no sentido de que se inclua, à guisa de uma senha de acesso magicamente disponível, a realidade de todos os dias e o que por detrás dela se esconde, mas, antes, uma leitura histórica mais profunda de caminhos inexplorados. Daí, creio, a persistência de temas bélicos nessa poesia que Myles chamou de "an unfinished floating world". Um pouco mais pra frente, ela se refere à forma como Conrad aborda tais temas trazendo para dentro da esfera poemática "the mundanity of stuff", ou ainda, pra citar o final,

In Conrad’s world the parameters are deliberately unknowable because that is the nature of our time. In piecing together, configuring and releasing his extreme miniatures — agonized fables, poems about America. C.A. Conrad includes us all in the enormous outside of his heart. Which is the world in all its possibility.

Evidentemente, Myles está se referindo especialmente ao livro The Book of Frank, de 2009, que reúne onze anos de escrita do autor. O livro é o retrato da vida desse tal de Frank, aparentemente um hermafrodita à maneira do Orlando de Virginia Woolf, indo desde o relato de jantares familiares onde todos se masturbam, até o suicídio de Frank no final do livro. Do que pude ler do livro, me lembrei em muitas passagens do Crow: From the Life and Songs of the Crow de Ted Hughes (aqui), especialmente pelo tom apocalíptico, babélico, a confusão extrema de onde surgem os cacos de um mundo transtornado. Os poemas não-intitulados traduzidos advêm deste livro, onde, como nota Myles, a representatividade da personagem Frank graças ao fundo de opressão ou à "the visual sameness of the poems" beira o aniquilamento e beira a constatação. Não está nas mãos de Conrad decidir em qual setor o pêndulo vai parar. Repito o que disse: Myles está certa ao dizer que a arte de Conrad tem suas bases fincadas na estética relacional, pois é graças a nosso contato e, por conseguinte, à nossa contribuição e escrita, enquanto leitores, que o poema pode se validar não tanto por ser permeado de espaços em branco, mas por possuir implicitamente gritos de socorro.

As traduções dos poemas intitulados buscaram manter a forma das estrofes, cortadas, laceradas, dando a impressão de que, fossem dispostas à maneira de blocos de mármore, e então entenderíamos com clareza o que foi dito. Já as traduções dos poemas dO Livro de Frank tiveram em alguns casos procedimentos parecidos com minhas traduções dos corvo-poemas de Hughes.

Leiam mais sobre Conrad na Modo de Usaraqui.


SOLITÁRIO AFETO PROFUNDO.

anos de prática prum pouso
      macio na chacina
            estávamos longe
      bandeira cose a carne
caro inimigo vem pra cá pro
      morro peguei um título
de amor de você pular o eixo
      claro de seu olhar você
         não saberia o quanto eu
         pausei escrevendo isso a
            não ser o que disse no
            poema meia-hora atrás
            vendo o lápis tendo
      escrito sobre meu inimigo com
      amor e guerra pra manter
               a ascensão
               das vozes da
               sala sem saída
               buscamos genocídio
               fora dos museus
               mas queremos
               remover o museu
               do genocídio

§

QUEM NOS PUNE MAIS QUE OS OLHOS DE NOSSAS VÍTIMAS.

          invente uma dó
          sinta ela chegar
          como fazemos isso
          roseiras imaginaram
     nada de ketamina em meus sonhos
é um bom tempo pruns bastardos aí
este planeta é bem o que disseram ser
                    humanos são bons quando
                    semeando sabendo
                    deles ouvindo eles
                    tom de ervas
                    visões ordenhando eles
                    espadas mescladas aos
                              bons-comuns-costumes do vento
                              um par francês de ardor francês
                              cheirinho de sovacos franceses
                              Alice parando pra ver Gertrude
              você sabe como pegar me subjugar
              sua indelicada indisposição você como
              engolindo a agulha à caça do enredo
                     mas você não vai por isso no seu
                           livro do que você diz eu digo


§

ESQUECEU QUE UM MORTO NÃO PODE TE AJUDAR? MEU TÉDIO TÁ TIPO ASSIM

                  murmúrio em meio à teia
                  amigo como amigo no escuro
meu plano de cobrir o local com carinho
o planeta lida com sete bilhões de humanos
    respira um segundo sem rota de fuga
                                    não sei se o que
                                    fazemos pra viver
                                        nos leva
                                    à luxúria
        águia banhando em minhas veias
            amo o como sempre nos
                    drogamos tentando
                    pôr pra fora do mapa
                    é perigoso você disse
                    nunca podemos super-
                    -simplificar a forma como
                    a morte ocorre me fazendo
                    atingir a neve caída com
                    uma banana cantando e cantando
            ESTA FRUTA TROPICAL AGORA É GLACIAL
            ESTA FRUTA TROPICAL AGORA É GLACIAL
            ESTA FRUTA TROPICAL AGORA É GLACIAL
            ESTA FRUTA TROPICAL AGORA É GLACIAL



De O LIVRO DE FRANK.

quando Frank nasceu
Pai olhou aquele troço
que a enfermeira trouxe

"tem boceta não?
minha filha não tem boceta!"

Mãe se ergueu da cama
"Meu Bem, issaí, ó,
seu menino não tem boceta"

"meu filho não tem boceta?!
como assim?
que PORRA é essa!
DROGA!
e girando
de boa,
de boa!"

§

A irmã de Frank cresceu longas penas azuis

ela disse é pior que arrancar dente

ela passou um mês gritando na gruta
as arrancando

Frank podia se deitar na cama à noite
sentindo as contas

chorando

rezando não iriam
chegar até ele

mas quando sua irmã voou de casa
ele parou na janela com temor
azul imenso se estendeu sobre o lago

ele ouviu o tiro do caçador antes que ela

§

Frank se lembra
fardas de generais mortos
voando em formação
sobre pátios de escola

cuspindo vespas das mangas

§

Frank sabe duma
borboleta
que pensa nas
suas velhas
amigas
lagartas

§

ela era companhia exótica

sua piscina
cheia de ratos

Frank nunca ouviu palavra
seu olhar
fixo no rato
desaparecendo pra reaparecer
sílaba por sílaba

devoto
ele orou
a Deus ela
se casasse
com ele

mas tarde da noite
ela tomou as mãos dele

Frank acuou
e percebeu
que era mesmo
o rato
na boca dela
que ele amava

§

Fossem
flores

Frank fecha
as pernas

só que a

música

infesta

§

"onde estes tubarões
entubam seu
apetite" Frank
pergunta "a quem

afinal

eu recorro?"

§

"ninguém tá
CANSADO
desta paralisia
da gravidade?"
Frank pergunta

"quando era menino
andei no céu
e eu era menino
não surrealista!

parte do sonho
é que você aceita
sua vigília
como parte dele."

§

Frank pensa
se a boca do
relógio mais
e mais perto
se abre ao gole
ou ao golpe
que o
afugenta?

§

"ao morrer" Frank rezou
nunca mais vou voltar

e se voltar
será como
aborto
será como se eu não fosse

§

porco diz pra Frank
"esta cerca mantém você no seu mundo"
Frank diz pra porco
"esta cerca mantém você no seu mundo"
porco diz pra Frank
"esta cerca mantém você no seu mundo"
Frank diz pra porco
"esta cerca mantém você no seu mundo"
porco diz pra Frank
"esta cerca mantém você no seu mundo"

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